O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA (2003)
Texto escrito por André ZP
Remake com sabor de filme novo
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Quando surgiu a notícia de que iriam refilmar um dos maiores clássicos do horror moderno, O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre, 1974), foi motivo suficiente pra deixar todo fã de terror soltando cobras e lagartos. O que dizer então se o filme seria uma produção de Michael Bay, especialista em filmes de muita testosterona e pouco cérebro como Bad Boys, e teria como diretor um tal de Marcus Nispel, que não havia feito nada além de videoclipes?
Começou então a gritaria em fóruns e listas de discussões do gênero. A pergunta era a mesma de sempre: para que refazer uma obra absoluta, que fala por si só e dispensa novas visões? | Claro que às vezes a coisa dá certo, como o rearranjo que Scorsese fez de Cabo do Medo. Só que aqui as possibilidades estavam mais pra Gus Van Sant e seu "novo" Psicose.
Bem, o remake da obra de Tobe Hooper começou a ser feito, e as primeiras fotos de divulgação iam invadindo revistas e a internet. E não era nada animador: o elenco era bem no estilo "terror teen" anos 90 (não que o original também não tivesse atrizes bonitas e rapazes "descolados" (considerando a época, é claro), mas é que nessas novas imagens o elenco estava muito, digamos, "certinho"). Além disso, as fotografias de Leatherface mostravam um vilão bem mais forte e mais "clean" que o original. O único fio de esperança nos fãs era o fato de que Daniel Pearl, o fotógrafo do filme original, trabalharia novamente nesse aqui.
 
Porém, às vezes o cinema nos reserva surpresas: a grande maioria dos fãs do primeiro filme, quando assistiram (a contra-gosto, provavelmente) as primeiras sessões do remake nos EUA, quebraram a cara. Cópias em DivX começaram a invadir a net, e o mundo então cantou em uníssono: a nova versão é muito, mas muito boa!
O fato é: ninguém esperava um filme tão sádico, cruel e demente, considerando que trata-se de uma produção de um grande estúdio (New Line Cinema). Ainda mais se tratando de um filme vindo de Michael Bay (que controla com mão de ferro todo filme que produz). Mas acontece que Bay, o diretor Nispel e o roteirista Scott Kosar (que não havia feito nada antes) trataram a obra de Hooper com um profundo respeito, e preferiram recontar a história do original, ao invés de apenas refilmá-la. E assim, o que se segue é a história de um grupo de amigos que estão indo de van para um show do Lynyrd Skynrd (sim, continuamos nos anos 70!), e no meio do caminho dão carona a uma mulher extremamente perturbada, que quando percebe que a van está indo para uma determinada direção, tem um colapso nervoso e acaba se matando com um tiro na boca. Acontece que o caminho que a moça temia era aquele que ia pra uma região habitada por uma família de sádicos canibais. Daí pra frente, todo mundo já sabe o que irá acontecer.
 
O filme recria, com maestria, as cenas de tensão e histeria do original, e como ele, não precisa fazer uso constante de violência gráfica para chocar o espectador - a direção e o elenco dão conta disso. E isso ocorre principalmente quando surge em cena um xerife local (R. Lee Ermey, em sua maior interpretação desde que fez o Sargento Hartman em Nascido para Matar). As cenas de tortura psicológica entre ele e o grupo de amigos estão entre as melhores dos últimos tempos, e vale também lembrar que o elenco principal, apesar de todo o "pique Malhação", dão tudo de si em seus papéis: sofrem, apanham e se humilham com convicção e dramaticidade necessários à tensão que o filme exige. E há, é claro, nosso velho conhecido Leatherface (encarnado competentemente por Andrew Bryniarski, o filho do personagem de Christopher Walken em Batman - o Retorno). Ao contrário do que todos esperavam (por causa das fotos de divulgação já comentadas acima), Leatherface passa o filme todo envolto numa penumbra que esconde sua horrenda máscara de pele, e é quase tão demente quanto o original, imortalizado pelo ator Gunnar Hansen. Aliás, uma grande sacada do filme é que a única cena que podemos realmente considerar uma refilmagem do original é quando Leatherface agarra sua primeira vítima, leva-a pra dentro da "sala de abate" e tranca a porta de metal com um estrondo na cara do espectador. Quem viu o original, provavelmente lembra do impacto que essa cena causou. E mesmo não abusando de cenas gore, o responsável pela maquiagem de efeitos é o competentíssimo Greg Nicotero, de Um Drink no Inferno e Evil Dead II e III. Por fim, completando a equipe com chave de ouro, o já citado cinematografista Daniel Pearl, que mesmo com muito mais recursos técnicos que os 16mm e a pouca iluminação usados no filme original, aqui faz um excelente uso de grãos na imagem, dando o tom "sujo" necessário ao clima. O filme só não é perfeito por ter uma desnecessária cena onde Leatherface tira sua máscara, e também pela solução meio Bruxa de Blair no final.
 
É curioso percebermos o fato de três dos melhores filmes de horror lançados em 2003 terem grande influência do horror norte-americano anos 70: Extermínio, de Danny Boyle, bebeu assumidamente na fonte dos zumbis de Romero. E esse novo Massacre da Serra-Elétrica, assim como House of 1.000 Corpses (vergonhosamente ainda não lançado por aqui), de Rob Zombie, terem forte ligação com aqueles filmes de trinta anos atrás, que tinham orçamento de menos e imaginação e ousadia de mais: obras seminais como o filme de Hooper e Quadrilha de Sádicos, de Wes Craven. E o grande público está mostrando gostar desses filmes, a prova disso é que o remake de Texas Chainsaw Massacre custou menos de 10 milhões de dólares e faturou quase dez vezes mais, até agora. Definitivamente, um bom sinal para o horror mundial. Tomara que os próximos filmes norte-americanos e ingleses sigam essa linha e, assim como as recentes fitas de horror asiático, apresente novidades, surpresas, diversão e ousadia aos fãs do gênero.
 
O Massacre da Serra Elétrica (2003) (The Texas Chainsaw Massacre, EUA, 2003). New Line Cinema, 98 minutos.
Direção: Marcus Nispel Roteiro: Scott Kosar Produção: Michael Bay, Mike Fleiss e Andrew Form ; Produção Executiva: Brad Fuller.Fotografia: Daniel Pearl Música: Steve Jablonsky. Site oficial: www.texaschainsawmovie.com
Elenco: :Jessica Biel (Erin); Jonathan Tucker (Morgan); Erica Leerhsen (Pepper); Mike Vogel (Andy); Eric Balfour (Kemper); Andrew Bryniarski (Leatherface); R. Lee Ermey (Xerife Hoyt); David Dorfman (Jedidiah)
Texto: André ZP
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