O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA - O INÍCIO

por Marcelo Milici

Dentre os principais clássicos do gênero - aquelas produções que figuram entre as primeiras de qualquer lista das dez mais apavorantes da história do cinema - nunca entendi a contemplação em torno do filme “O Massacre da Serra Elétrica” (1974). Vi o longa quando tinha nove anos de idade, numa época em que eu já conhecia bem os filmes de terror, pois constantemente esvaziava a prateleira das locadoras em busca de obras verdadeiramente assustadoras.

Nesse período, o que mais me apavorava eram os fantasmas. Eu ria dos “Sexta-Feiras 13” e “Halloweens”, mas ficava mudo com as vozes demoníacas de “Amityville”, ou com o palhaço de “Poltergeist”. Até mesmo o fantasma da biblioteca em “Caça-Fantasmas” já foi capaz de me tirar da sala.
O Massacre da Serra Elétrica” não me assustava porque eu não tinha o medo da violência como tenho hoje. Para mim, a possibilidade de encontrar uma família de canibais liderada por um homem que veste pele humana era praticamente impossível. Um fantasma poderia matar, um homem, não. Incrível! Até mesmo quando fui atrás de meu pai num supermercado e vi um homem apontando uma arma para a cabeça dele, não tive tanto medo como tinha quando sentávamos frente a um copo para evocar um espírito.



Após anos de ignorância, passei a respeitar o clássico de 1974 quando o vi novamente há alguns anos. O Boca do Inferno já estava no ar, todos falavam bem do filme, menos eu. Quase fui mutilado por uma motoserra pelo amigo Felipe M. Guerra, quando declarei numa lista de discussão minha discórdia. Hoje, época em que o gênero busca corpos mutilados, percebo o quanto fui ignorante.

Em 2003, lançaram uma refilmagem excelente do filme original. Conseguiram recontar o filme de 74, acrescentando uma enxurrada de sangue e pedaços humanos. Não havia mais o terror puramente psicológico, a graça era ver vísceras, uma perna decepada, um homem preso a um gancho como se estivesse numa cruz, além do rosto deformado do novo ícone do terror atual, interpretado pelo grandalhão Andrew Bryniarski. Apesar dos exageros, o filme foi aclamado pelos fãs do gênero e fez um tremendo sucesso nos cinemas pelo mundo, o que tornou inevitável uma seqüência. Mas, como continuar uma história praticamente encerrada pelo filme de 2003, que narrou um documentário policial sobre as 33 vítimas da família de canibais?



Se uma continuação não seria possível, o ideal seria contar uma pré-seqüência, apresentando os primeiros ataques da família Hewitt e até mesmo o nascimento do monstro apelidado de Leatherface. E isso foi exatamente o que fizeram! E fizeram muito bem! A nova versão, chamada “O Massacre da Serra Elétrica: O Início”, é tão boa quanto o filme de 2003, com muito mais violência e mortes, e ainda com espaço para uma grande homenagem ao clássico de 74, num dos momentos mais doentes da história do cinema.

O novo massacre tem início num matadouro, em 1939, onde uma senhora sofre com a pressão do chefe, enquanto agoniza devido a fortes dores na barriga. Depois de uma chamada do patrão, ela cai dura no chão, praticamente morta. Seu corpo varre juntamente com a placenta um bebê com uma deformação no rosto. Bem-vindo ao mundo, Tommy Hewitt, vulgo Leatherface. Atirado ao lixo, o bebê é resgatado e criado por uma velha, mesmo com seu rosto macabro e seu retardo mental.



Durante os créditos, o filme apresenta rapidamente (o que é uma pena) várias idades da vida do rapaz, suas tendências de alto-mutilação e o preconceito que sofreu durante toda a infância e início da fase adulta. Aqui fica claro que Tommy sempre foi uma vítima do sistema, alguém que não conseguira ter as mesmas oportunidades que as outras pessoas, sofrendo humilhações e todas as formas de menosprezo. Alguém que talvez precisasse de ajuda médica e não o trabalho numa Casa de Carnes chamada Lee. De seu sofrimento pessoal até as marretadas violentas contra seu chefe era apenas questão de dias. O primeiro encontro com a motossera é um toque mágico do roteiro.

Acompanhamos então, em 1969, quatro anos antes dos acontecimentos do filme de 2003, os momentos que antecedem a viagem de quatro amigos pelo Texas rumo ao Vietnã, onde os irmãos, Dean (Taylor Handley) e Eric (Matthew Borner) pretendem se alistar – mesmo contra a vontade do mais novo. Com eles, as belas namoradas, Chrissie (Jordana Brewster) e Diora Baird (Baley), curtem o passeio pelo deserto em busca de momentos californianos.



Assim como no primeiro filme, eles param no Açougue da família esquisita para conversar sobre o futuro, abastecer, comprar algumas coisinhas, arrumar alguma encrenca no local, enfim. Nesse ínterim, o espectador é apresentado ao nascimento de mais um personagem clássico da nova franquia, o psicótico Xerife Hoyt (interpretado pelo talentosíssimo R.Lee Ermey). Quando o verdadeiro Xerife aparece na casa dos horrores em busca do assassino Tommy e ainda diz que é a única lei da região, seu destino já está praticamente definido. É só questão de tempo.

Na estrada, os jovens enfrentam a fúria de uma motoqueira ladra, mas esquecem de olhar a estrada, onde uma gigantesca vaca está prestes a explodir com o impacto do veículo. (Nota-se aqui a ironia do roteiro ao mostrar sempre a carne como principal motivo de todas as dores que os jovens terão pelo caminho rumo ao inferno. No filme de 2003, a ironia foi trabalhada quando a personagem de Jessica Biel se esconde num frigorífico, entre nacos) A batida é tão violenta que o carro capota na estrada por um lado e arremessa Chrissie para o outro, sem que ela quebre um osso sequer. Sortuda a garota, não?



Surge então o novo Xerife da região, pronto para carregar os jovens para o matadouro caseiro, local onde terão que aprender a resistir à dor e à tortura psicológica para tentar sobreviver antes que Tommy os leve para o porão.

Assim como no filme de 2003, as mortes demoram a acontecer. È impossível não torcer por um fim rápido para as vítimas, depois de presenciar tanta dor. Dois dos jovens chegam a clamar pela morte rápida, inclusive colocando uma espingarda apontada para a testa. “Tenho outros planos para você!”, diz o Xerife contrariando o pedido. Essa boa idéia do roteiro já havia sido trabalhada no primeiro filme, quando a caronista estoura os miolos quando descobre que está sendo levada para o lado errado e também quando o rapaz pede que a namorada finalize seu sofrimento com uma faca.



Mas a dor física não chega a incomodar tanto quanto a psicológica. Ficar amarrada ao pé da mesa, enquanto duas senhoras conversam durante o café da tarde, é um bom exemplo disso. Outro seria o momento em que dois jovens são lavados como porcos para serem preparados para o abate; ou quando alguns dedos são derrubados no chão durante a refeição...

Com todos esses momentos inspirados, “O Massacre da Serra Elétrica: O Início” peca novamente pelas inverdades apresentadas. È difícil imaginar que alguém que esteja do lado de fora da casa, próximo da estrada, sabendo o que acontece por lá, queira retornar para salvar os amigos ao invés de aproveitar a oportunidade para escapar. È bonito, mas improvável. A possibilidade da lâmina quente da motossera destroçar seu corpo é motivo mais do que suficiente para uma fuga estratégica.



Além do mais, o uso de jovens bonitas entra em contraste direto com a família canibal, dando a sensação clara de maniqueísmo. Tal estratégia de aproximação do público teen acaba perdendo um pouco do impacto e da veracidade. É mais fácil se importar com pessoas comuns, como acontece no clássico, que continha inclusive um paralítico entre as vítimas, do que jovens modelos oriundos de revistas como a “Capricho”.

Outro ponto negativo é a ausência da fotografia documental de Daniel Pearl, cujos trabalhos nas versões de 1974 e 2003 foram perfeitos. Desta vez, a função ficou a cargo do desconhecido Lukas Ettlin, o que resultou num excesso de cenas escuras e sombrias, contrastando com o vermelho-sangue dos momentos violentos.

Apesar de não contar com a participação da texana Heather Kafka, que no filme de 2003 fez a esquisita ladra de bebês Henrietta, o elenco, de um modo geral, foi bem escolhido. O destaque maior entre as vítimas fica por conta da brasileira Jordana Brewster (A Prova Final). Apresentando momentos de raiva e desespero, a atriz não é tão atlética quanto a Jessica Biel e nem expressiva quanto a Marilyn Burns, mas ainda assim é suficientemente capaz de esboçar ingenuidade e fraqueza. Já entre os Hewitts, quem chama a atenção é mais uma vez R.Lee Ermey. Ele já havia mostrado talento no longa “Nascido para Matar” e aqui está mais uma vez psicologicamente perturbado. Suas cenas são sempre capazes de arrepiar a espinha até dos mais fortes.



Afinal, qual é melhor? O filme de 2003 ou sua seqüência? Na internet, as opiniões são divididas. Há os que dizem que “O Massacre da Serra Elétrica: O Início” deveria ser o remake oficial, enquanto há os que consideram a continuação boa, mas não superior ao primeiro filme. Para mim, os dois filmes são excelentes dentro de suas propostas, um complementando o outro, com seu banho de sangue e violência, fazendo jus ao estilo atual do cinema de horror. Para ambos, eu daria nota 9, pela ousadia e pelas homenagens ao clássico.

Para concluir, eu não poderia deixar de citar a tradicional cena do jantar. Com direito a oração e cabeça abaixada antes da refeição, a cena é bastante angustiante. Não tem tanto impacto como a de 1974, quando a vítima está sozinha diante dos monstros, mas é tão silenciosa e nojenta quanto. É sempre bom ver a família quase toda reunida mais uma vez.

E, no final, a imagem que fica é a do soberano assassino da motosserra. Envolto em neblina, enquanto caminha lentamente pela estrada de terra, é impossível não pensar na solidão e na crueldade da figura mascarada. Ele está vivo! Leatherface está apenas começando sua carreira...



Marcelo Milici

O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA: O INÍCIO (The Texas Chainsaw Massacre: The Beginning, EUA, 2006)
Direção: Sheldon Turner
Roteiro: Sheldon Turner e David J. Schow
Produção: Michael Bay; Mike Fleiss; Andrew Form; Bradley Fuller; Kim Henkel; Tobe Hooper
Produção Executiva: Jeffrey Allard; Toby Emmerich; Mark Ordesky; Guy Stodel; Robert Kuhn
Fotografia: Lukas Ettlin
Desenho de Produção: Marco Rubeo
Direção de Arte: John Frick
Edição: Jonathan Chibnall; Jim May; Joel Negron
Música: Steve Jablonsky
Figurino: Marian Ceo
Elenco: Jordana Brewster (Chrissie); Taylor Handley (Dean); Diora Baird (Bailey); Matthew Bomer (Eric); Lee Tergesen (Holden); R. Lee Ermey (Charlie Hewitt, Jr./Xerife Hoyt); Andrew Bryniarski (Thomas Hewitt/Leatherface); Terrence Evans (Monty); Kathy Lamkin; Marietta Marich (Luda Mae Hewitt); Cyia Batten (Alex); Lew Temple (Xerife Winston Hoyt); L.A. Calkins (Sloane); Tim De Zarn (Ed); Emily Kaye (ladra da moto); John Larroquette (narrador); Marcus H. Nelson (Lackey)


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