MENSAGEIROS, OS

por Marcelo Carrard

"Há evidências que sugerem que as crianças são altamente sensíveis a fenômenos paranormais. Elas podem ver o que os adultos não podem. Elas acreditam em que os adultos negam. E estão tentando nos avisar..."

Os Irmão Pang são os mais populares representantes do Cinema Fantástico de Hong Kong desde o impacto de seu filme The Eye, que deve ser refilmado nos EUA pelos mesmos diretores do recente Eles. A criação de atmosferas de intenso suspense, onde se destacam as manifestações sobrenaturais de espíritos vingativos, virou uma marca desses dois irmãos diretores que conseguem superar algumas vezes as tramas similares feitas no Japão e na Coréia do Sul, graças a liberdade e a criatividade de seus filmes mais pessoais como Visões 2 e Re-Cycle aka Assombração. Infelizmente eles tiveram o azar de aceitar o convite do agora ambicioso e medíocre produtor e diretor Sam Raimi, para realizar sua primeira produção norte-americana: Os Mensageiros.

Ao contrário de O Grito aka The Grudge 1 e 2, onde o diretor japonês teve uma maior liberdade de criação, em Os Mensageiros isso não aconteceu.
O roteiro tem elementos muito interessantes que poderiam ter sido melhor trabalhados. Vemos a história de uma família da “cidade grande” que se muda para uma fazenda em busca de uma nova vida. O casal com uma filha adolescente e um filho pequeno, não sabem, claro, que a tal fazenda é assombrada. O menininho é o primeiro a ver os espíritos em momentos de efeitos até bem realizados. O grande problema é a edição muito rápida que impede justamente a criação de atmosferas de suspense mais ao estilo asiático. Em poucos momentos isso acontece, mas na maioria do filme tudo é muito rápido, óbvio e pouco assustador, defeitos graves para um filme de horror.



Os efeitos-especiais são de primeira, obviamente, mas fica claro que os Irmãos Pang não tiveram liberdade de criação. A figura dos corvos é um dos poucos elementos realmente interessantes de todo o filme. Citações explícitas de Os Pássaros, de Hitchcock, acontecem várias vezes. A solução dos mistérios da fazenda é muito ingênua e mal construída. Os atores não estão bem em cena, menos o menininho que parece estar se divertindo com os fantasmas da casa que surgem das paredes e de outros locais inusitados. Para não dizer que o filme é uma total desgraça, sua seqüência de abertura é muito boa, mas tem o problema grave da montagem rápida. A fotografia do filme é excelente, mas a trilha-sonora é equivocada e nada tem a ver com um filme de horror. É deprimente saber que um filme desses está sendo lançado no Brasil só por causa de seu produtor: Sam Raimi, com direito a propaganda no cartaz dizendo: “Do mesmo produtor de Homem-Aranha”, enquanto filmes excelentes como O Albergue 2 ficam fora do nosso circuito comercial...



Marcelo Carrard

A “Ghost House Pictures” é uma produtora que tem entre seus proprietários o cineasta Sam Raimi, mais conhecido pelas novas gerações por causa da série de filmes do “Homem-Aranha”, e pelos apreciadores do cinema de horror, graças ao sangrento e indispensável “The Evil Dead” (1982). Porém, sua empresa tem sido responsável por alguns trabalhos muito fracos como “O Pesadelo” (Boogeyman, 2005), que incrivelmente tem até uma sequência anunciada, e “Os Mensageiros” (The Messengers), que estreou nos cinemas brasileiros em 14/09/07, e que se tratam de filmes muito distantes em termos de violência e ousadia quando lembramos do cultuado filme que deu início à carreira de Sam Raimi e que eternizou o carismático ator Bruce Campbell na memória dos fãs.



Uma família de Chicago formada pelo pai Roy Solomon (Dylan McDermott), a esposa Denise (Penelope Ann Miller), a filha adolescente Jessica (Kristen Stewart) e o pequeno Ben (interpretado pelos irmãos gêmeos Evan e Theodore Turner), se muda para uma casa de campo em Dakota do Norte para recomeçar a vida após a perda do emprego do pai e do acidente de carro que fez com que o caçula perdesse a capacidade de falar (Jessica estava dirigindo alcoolizada). Lá chegando, o endividado Roy recebe a incômoda visita de Colby Price (William B. Davies, o eterno “canceroso” da série de TV “Arquivo X”), que representa uma empresa imobiliária, e também conhece o misterioso John Burwell (John Corbett), que surge do nada e passa a ajudar o novo fazendeiro na plantação e colheita de girassol.



Porém, o foco principal é direcionado para Jessica, que enfrenta problemas de adaptação ao novo lar, no meio do mato, além de ter visões e experiências desagradáveis com fantasmas atormentados que habitam o local e que escondem um segredo terrível do passado da casa, com uma tragédia envolvendo os moradores anteriores.



Uma definição rápida e objetiva que vem à mente logo depois de assistir “Os Mensageiros” é que se trata de apenas mais um filme “convencional”, igual a tantos outros produzidos a todo momento. Lembra muito o enredo de “Garganta do Diabo” (Cold Creek Manor, 2003), e talvez o único pequeno diferencial (mais pelo lado da curiosidade) esteja na presença dos irmãos Oxide Pang Chun e Danny Pang na direção. Eles, que nasceram em Hong Kong e são os mesmos criadores da franquia “The Eye” (Gin Gwai), além do interessante “Assombração” (Re-Cycle / Gwai Wik). Ou seja, temos novamente a incursão de cineastas orientais (especializados em histórias de espíritos revoltados), em filmes americanos, algo que também está se tornando comum (veja como exemplo a franquia “O Grito” ou “The Grudge”, da próprio estúdio “Ghost House”, que escalou o japonês Takashi Shimizu para a direção).

Em “Os Mensageiros” temos a mesma e cansativa história de fantasmas perturbados em busca de vingança, o vilão punido por seus crimes, e um desfecho insuportável de tão conveniente, com tudo se encaixando perfeitamente, numa idéia que nos remete àqueles filmes com finais do tipo “... e todos viveram felizes para sempre...”. Não há sangue nem violência, apenas uma história trivial com cenas discretas de suspense envolvendo aparições sinistras de fantasmas (que não surtem mais efeito).
O filme não tem potencial para exibição nos cinemas, e poderia apenas ser distribuído no mercado de vídeo, mas ao contrário, os executivos que definem o tratamento que o Horror deve ter no Brasil, preferem boicotar “O Retorno dos Malditos” (The Hills Have Eyes 2), que apesar da história banal, tem mortes violentas para todos os lados, e “O Albergue 2” (The Hostel 2), cancelando sumariamente suas exibições nas telas grandes, optando apenas pelo lançamento diretamente em DVD.

CURIOSIDADES

- É o 1º filme em língua inglesa dirigido pelos irmãos Pang.

- Scout Taylor-Compton fez testes para a personagem Jess Solomon.

- O orçamento de Os Mensageiros foi de US$ 16 milhões.

- As filmagens aconteceram em Saskatchewan, no Canadá.

- Baseado no texto Scarecrow, de Todd Farmer. O roteiro ficou a cargo de Stuart Beattie (Colateral).

- O garoto Michael Rollins, que participa do passado da casa, na verdade, é interpretado por uma atriz, Jodelle Ferland.

Renato Rosatti

OS MENSAGEIROS (The Messengers, EUA, 2007).
Direção: Oxide Pang Chun, Danny Pang
Roteiro: Mark Wheaton; Todd Farmer
Produção: Sam Raimi; William Sherak; Jason Shuman; Robert G. Tapert
Edição: John Axelrad; Armen Minasian; Tim Mirkovich
Desenho de Produção: Alicia Keywan
Direção de Arte: Ken Watkins
Maquiagem: Lisa Love; Julian Ledger; Tracy George; David Scott; Patrick Tatopoulos
Produção Executiva: Joseph Drake; Nathan Kahane
Fotografia: David Geddes
Música: Joseph LoDuca
Elenco: Kristen Stewart (Jess), Dylan McDermott (Roy), Penelope Ann Miller (Denise), John Corbett (Burwel), Evan Turner/Theodore Turner (Ben Solomon), William B. Davis (Colby Price); Brent Briscoe (Plume); Dustin Milligan (Bobby); Jodelle Ferland (Michael Rollins); Michael Daingerfield (Oficial de Polícia)



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