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“Parece incongruente que a tecnologia necessária para fazer um filme decente vem se tornando mais barata e acessível, enquanto o custo de fazer um filme através de um estúdio subiu lá em cima.” Essas são as sábias palavras de Mike Davis, dono da produtora Stag Films, e o cara por trás do roteiro de Pevert!, a obra prima do sexploitation que vem com a força de um meteoro e que, num mundo justo, teria sido saudado como um novo clássico do cinema logo em seu lançamento, em 2005.
Eu fui entrar em contato com o Mike por acaso. Estava caçando uns trailers no Youtube, quando me deparei com “The Corpse Corps”, aparentemente o preview de um tributo aos filmes de gangue de motoqueiros dos anos 60 (para quem não conhece, ou nunca se importou, este foi um gênero bastante comum nos cinemas grindhouse da época, por exemplo as obras "Hell Angels” e “The Pink Angels”). Animado, resolvi mandar um e-mail para a produtora, procurando saber mais sobre o filme. Para minha surpresa, não só ganhei uma resposta, como fiquei sabendo que o filme estava parado por falta de grana. E ainda recebi um recado bem humorado: “se você conhece alguém com $$$ e que queira investir num filme de gangue de motoqueiro muito bacana, nos avise!” |
Bem, não conheço ninguém assim (pelo menos não ainda!) mas achei que podia dar uma ajuda, porque esse é um daqueles filmes que precisa ser produzido, nem que seja por causa da tagline (“They want your liquor! They want your women! But most of all, they want everything!”). Então, papo vai, papo vem, surgiu a idéia de fazer uma entrevista com ele para ver se eu chamava atenção de alguém. Para isso, porém, eu precisava assistir “Pervert!”


A essas horas vocês devem estar querendo saber que diabos é esse tal de
“Pervert!”. É, como seus realizadores gostam de defini-lo,
“o filme mais ultrajante da história”. Papo furado para vender ingresso, você pensa. Nada disso. Trata-se de um filme simplesmente indefinível, sem precedentes. Não há o menor vestígio de clichê, comercialismo ou bom-mocismo. É uma obra cáustica, feita para homens e mulheres com culhões (e isso não é uma piada gratuita). E, mais do que tudo, é um filme que precisa ser descoberto neste lado do Equador.
“Pervert!” já se tornou cult na terra do Tio Sam, e põe no chinelo todas as tentativas patéticas de Hollywood de tentar ser politicamente incorreta. Homenageando o ciclo sexploitation, principalmente as obras de Russ Meyer, o diretor Jonathan Yudis e o roteirista Mike Davis fazem o que alguém devia ter feito há muito tempo nos EUA: um longa profissional corajoso, escrachado, engraçado e, mais que tudo, ORIGINAL, uma palavra que ninguém deve ter ouvido nos escritórios dos grandes estúdios nos últimos anos.


Não é segredo pra ninguém que a salvação do cinema está no cinema independente e/ou amador. São filmes feitos por caras que amam mais o cinema do que o dinheiro, diretores e roteiristas que fazem o que gostam de assistir e que não tem medo de expor o que o mainstream não toca nem de longe. E, assim, temos
“Pervert!”, um filmaço feito com um orçamento que não paga nem o lanche da equipe de
“Transformers”.
A história do filme parece bem simples a princípio. James (o excelente Sean Andrews) é um nerd panaca que volta da faculdade para visitar o rancho do pai, Hezekiah, no meio do deserto. No caminho, pega uma caroneira gostosa (Tula) que literalmente salta do carro quando encontra toneladas de pornografia no porta luvas. Enfim, no rancho, James não só encontra o velho (interpretado pelo também ótimo Darrell Sandeen) como também a loira peituda e exibida Cheryl (a estrela pornô Mary Carey), que, segundo Hezekiah
“Não é uma substituta para sua mãe, mas me satisfaz de maneiras que ela nunca pôde”. Cheryl, por algum motivo, não para de se insinuar pra James (a cena da espiga de milho e de mijar de rir, assim como a da colméia de abelhas), o que culmina com você sabe o quê. Mas, quando a loira desaparece, James começa a desconfiar que seu pai seja um assassino. Mas o buraco é muito, muito mais embaixo.


Não vou contar mais sobre a trama, porque o grande barato de
Pevert! é a quantidade de surpresas (realmente inesperadas) do seu roteiro. A trama ainda inclui sacadas geniais, como o mecânico esquisitão, interpretado pelo próprio diretor Yudis, que tem uma tatuagem de suástica (ao contrário) e chuta seu filho como uma bola de futebol; ou o hobby de Hezekiah de fazer esculturas de carne! Mas é a partir do momento em que se descobre a verdade por trás do desaparecimento de várias garotas que a coisa se mostra realmente genial e original. O filme ainda é pontuado por diversas montagens eróticas, e o elenco (composto basicamente de quatro homens e um monte de mulheres peitudas) é realmente afinado, sem aquele clima de
“quanto pior melhor”. Aliás, este é outro dos grandes méritos do filme: ele é realmente bem acabado, e, mesmo com o orçamento minúsculo, é feito com profissionalismo.
Acompanhe a entrevista feita por mim com o Mike, onde ele, entre outras coisas, conta sobre seu novo projeto
Sex Galaxy,
“o primeiro filme verde da história” (você vai entender); fala sobre sua produtora e se revela fã de Zé do Caixão. E prepare-se para conhecer a mente do maluco que promete dar uma sacudida no tedioso cinema americano atual. E vamos torcer para que alguma distribuidora brasileira resolva lançar este
Pervert! em terras tupiniquins.

Boca do Inferno: Fale um pouco da
Stag Films, como surgiu e quais os seus ideais.
Mike Davis: A Stag surgiu de uma frustração geral que eu e os meus parceiros sentimos depois que viemos a Hollywood para fazer filmes e descobrimos que você precisa da PERMISSÃO de muitas pessoas para criar qualquer coisa. Muito disso vem do fato que você precisa de um monte de grana para fazer um filme, mas existe uma longa história de pessoas da indústria fazendo filmes com muito pouco, você só precisa descobrir como fazer isso. Ninguém precisa de permissão para ser criativo, mesmo que algumas pessoas queiram que você pense isso.
Boca do Inferno: O que é um
"filme verde"? Como é feito? Quando você escreve o roteiro já tem em mente as cenas que vai usar?
Mike Davis: Um “filme verde" é um filme feito da reciclagem de filmagens pré-existentes. No filme “Ed Wood”, nosso herói olha para uma filmagem de arquivo de um polvo e pensa "Dava para fazer um filme inteiro com este material?" Bem, a resposta é “sim!” Existe todo o tipo de fantásticos estoques de filme em domínio público por aí para cineastas usarem como fonte de material. Isso pode envolver diversos cortes, edição criativa e dublagem, mas se você agüentar isso, pode ter um filme divertido de assistir e bom para o ambiente!


O processo é bem ao contrário, em que você começa na
“pós-produção” com suas imagens cruas. Aí você cria uma história e um roteiro usando apenas os personagens, tomadas e cenas que você tem. É meio difícil, mas é divertido.

Boca do Inferno: Por que a decisão de fazer
"Sex Galaxy" como um filme verde?
Mike Davis: Eu vinha escrevendo roteiros que eu sabia que não teria dinheiro para produzir eu mesmo. Eu comecei a usar “material reciclado” principalmente em curtas e vídeos musicais e, como experimento, eu decidi ver se dava para fazer um longa completo. Eu descobri que dava para fazer um filme filmado em película que tivesse naves espaciais, monstros, robôs, explosões e belas mulheres sem que eu mesmo precisasse filmar um fotograma sequer.

Boca do Inferno: O que podemos esperar de
"Sex Galaxy"?
Mike Davis: "Sex Galaxy" se passa 100 anos no futuro, quando, graças à superpopulação e ao aquecimento global na Terra, o sexo foi declarado ilegal. Numa missão de rotina, uma equipe de astronautas solitários ouve falar num planeta mítico habitado por insaciáveis criaturas femininas que existem apenas para satisfazer o desejo sexual dos homens. A equipe resolve fazer um desvio para a "Galáxia do Sexo", mas logo descobrirão que a luxúria pode rapidamente guiá-los em direção ao perigo.


Risada é a reação mais forte que eu espero ter da platéia. Tem muito humor no filme, mas aquela filmagem antiga esquisita indo junto com o diálogo ultrajante é muito divertido de assistir. Se eu fizer um filme que entretenha mais do que o filme original de onde eu tirei as cenas, então eu sinto que meu trabalho como
“cineasta verde” está feito. E se você assistiu aos filmes originais de onde eu tirei as imagens, como
“Viagem ao Planeta das Mulheres Pré-Históricas" então você sabe que precisa ser melhor que isso!

Boca do Inferno: Em
Pervert! você tem atores com diferentes backgrounds, como Mary Carey, Sean Andrews e Darrel Sandeen. Como foi o casting do filme?
Mike Davis: Mary foi a única atriz com a qual entramos em contato diretamente. Ela tinha se candidatado a Governadora a Califórnia contra Arnold Schwarzenegger (não venceu, mas ganhou um monte de votos!) e fez um bastante barulho durante sua campanha. Nós estávamos a caça de “mulheres estilo Russ Meyer” e ela veio imediatamente à nossa mente. Para aqueles não familiarizados com os filmes de Russ Meyer, isso é uma referência a mulheres bem avantajadas na área abaixo dos ombros e acima do umbigo. Todos os outros atores fizeram audições para o filme através do processo usual, atendendo ao nosso chamado de elenco. Nós tivemos muita sorte que pessoas como Darrel e Sean apareceram quando estes papéis se provaram mais desafiadores do que nós imaginamos. O filme não teria sido tão bem sucedido sem eles. 
Boca do Inferno: Quando o roteiro de
Pervert! estava sendo escrito, você já tinha em mente Jonathan Yudis para dirigir?
Mike Davis: Sim. Jonathan e eu estivemos trabalhando juntos em vários projetos por um bom tempo, tentando ir pela rota tradicional de Hollywood e vender um roteiro ou iniciar uma produção. Tivemos algumas respostas encorajadoras, mas não conseguimos tirar nada do chão. Finalmente, decidimos fazê-lo nós mesmos do nosso próprio jeito. Jonathan me pediu para escrever um roteiro de baixo orçamento, e eu peguei daí. Como tínhamos muito pouco dinheiro, a história só poderia ter um cenário e uns poucos personagens. Eu pensei em uma família, um rancho no deserto... e minha mente distorcida criou Pervert!
Boca do Inferno: Qual foi a reação do público a
Pervert! ?
Mike Davis: Pervert! foi feito para uma audiência específica: pervertidos. E eles adoraram. Nós tivemos um grande sucesso com as platéias 'cult' e 'grindhouse'. Agora que está lentamente se infiltrando no mainstream, eu não sei como irão reagir as pessoas que pensam que estão indo assistir um filme comum. De várias formas, Pervert! foi feito para ser horrível, e isso é o que muitas pessoas que não gostaram do filme dizem que ele é. Eu posso dizer que o filme nunca se leva a sério, e quem captou a piada pareceu apreciar isto. 
Boca do Inferno: Como foi a filmagem no meio do deserto?
Mike Davis: QUENTE. Nós filmamos o filme no calor do verão, e a temperatura chegou a 50º. C. A equipe sofreu. Pessoas desmaiaram. Esculturas de carne apodreceram. Escorpiões e cobras atacaram. Parece legal no filme, mas com certeza não foi tão legal estar lá. A propósito, o rancho que filmamos foi o mesmo que Russ Meyer usou em "Faster Pussycat, Kill Kill!"
Boca do Inferno: No seu site, você mencionou influências como
Herschell Gordon Lewis e Russ Meyer. Quais outros cineastas você aprecia? Existe algum da nova direção que você admira?
Mike Davis: Eu admiro qualquer diretor que tenha um estilo distinto, quando você sabe quem dirigiu só de ver o filme. Russ Meyer pra mim é o Fellini americano. Aprecio também John Waters. Edgar Wright e James Gunn são os mais recentes que eu gosto. Em termos da Stag Films, eu preciso mencionar Roger Corman. Taí um cara que sabe como fazer filmes com uma mixaria!
Boca do Inferno: Você conhece o cinema brasileiro? Conhece
Zé do Caixão?
Mike Davis: Eu adoro Zé do Caixão. Seus filmes são realmente estranhos, assustadores e surreais. Meu favorito é O Ritual dos Sádicos. Eu sinto que o Zé deve ter assistido uns filmes do Russ Meyer enquanto fazia este. Eu também gosto de Cidade de Deus, mas apesar disso eu preciso conhecer mais sobre o cinema brasileiro atual.
Boca do Inferno: Você tem algo mais a dizer?
Mike Davis: Eu aprecio seu interesse em Sex Galaxy, Pervert! e Stag Films e espero que nosso trabalho inspire seus leitores que querem fazer um filme louco e ultrajante, mas que têm pouco dinheiro ou dinheiro nenhum, para seguir em frente e fazê-los de qualquer jeito! Também, nós esperamos que nossos filmes sejam lançados no Brasil, então contate suas distribuidoras locais e deixem-nas saber EU QUERO STAG FILMS!

Para adquirir seu DVD de
Pevert! , entre no site
www.pervertthemovie.com
Mais informações sobre a
Stag Films no site
www.stag-films.com
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