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Logo após uma terrível tempestade, um nevoeiro encobre uma pequena cidade do Maine. David Drayton, seu filho Billy e mais uma dezena de pessoas acabam confinados num supermercado, quando descobrem que, do lado de fora, a espessa neblina esconde criaturas grotescas e sedentas de sangue.
No entanto, o perigo não está apenas no nevoeiro. No interior do supermercado, escolhas ideológicas e religiosas colocarão todos em conflito. Manter a sanidade será essencial na batalha sangrenta que está por vir.
Alerta ao desavisados: não confundam “O Nevoeiro” com o recente e fraquíssimo suspense “A Névoa” (protagonizado por Tom Weelling, o Superboy da série “Smallville”). |
“A Névoa” é uma refilmagem do clássico “Bruma Assassina”, dirigido por John Carpenter em 1980, que por sua vez dizem ser levemente inspirado no conto “The Mist”, de Stephen King. “O Nevoeiro” é a adaptação oficial deste mesmo conto (publicado no livro “Tripulação de Esqueletos”) dirigida pelo especialista em King, Frank Darabont.


Fã confesso do trabalho de
Stephen King, o cineasta francês Frank Darabont estreou na direção com o curta-metragem
“A Mulher do Quarto”, inspirado num conto publicado por King na antologia
“Sombras da Noite”, em 1983. Com aproximadamente 30 minutos, o filme narra a dolorosa decisão de um filho em acabar com o sofrimento da mãe, portadora de uma doença incurável. Onze anos depois, Darabont se consagraria com
“Um Sonho de Liberdade”, transposição para o cinema de outro texto de King, parte da coletânea
“As Quatro Estações”. Neste drama estrelado por Tim Robbins e Morgan Freeman, um homem é condenado injustamente por duplo homicídio. Na prisão conhece um mundo de dor, violência e injustiça. Mas junto com uma grande amizade vem a inabalável esperança de estar livre novamente. Sucesso de público e crítica,
“Um Sonho de Liberdade” foi indicado a quatro prêmios da Academia, incluindo o de melhor roteiro adaptado (escrito por Darabont). Em 1999, foi a vez do drama estrelado por Tom Hanks, “
À Espera de Um Milagre”. Outra trama ambientada num presídio escrita por
Stephen King, novas indicações ao Oscar (entre elas melhor filme e melhor roteiro), mais aplausos do público e da crítica.
No entanto, pairava entre os fãs certo receio: qual seria o desempenho de Darabont quando assumisse um verdadeiro filme de horror? Ele havia dirigido nos anos 80 o suspense
“Sepultado Vivo” (também conhecido por
“Morto, Mas nem Tanto”), mas seus sucessos recentes eram todos dramas.


“
O Nevoeiro” passou quase despercebido pelos cinemas americanos. Rendeu aproximadamente U$ 25 milhões após um mês de exibição no final de 2007 (um valor até razoável para um orçamento estimado de U$ 18 milhões). Entretanto, ao mesmo tempo em que a recepção do público em geral era um tanto fria, os fãs do cinema de horror e os sites especializados teciam elogios eufóricos ao filme. Já em terras tupiniquins, seu lançamento foi adiado por diversas vezes seguidas. A última data de estréia divulgada pela distribuidora
Paris Filmes é a de 29 de Agosto (vale lembrar que lá fora “
O Nevoeiro” já está disponível em DVD).
A princípio, toda expectativa dos cinéfilos brasileiros fãs de King deve ser recompensada. Darabont mantém-se fiel ao conto, criando cenários, personagens e diálogos dignos do universo concebido pelo autor. O diretor (e também roteirista) ousa ainda acrescentar na sua adaptação um final diferente ao do conto. E o que pode parecer um grande equívoco para os fãs mais ortodoxos, torna-se o grande trunfo de “
O Nevoeiro”. A avassaladora seqüência final é de um pessimismo incômodo, capaz de deixar até mesmo o espectador mais calejado de boca aberta.


Mas infelizmente “
O Nevoeiro” apresenta alguns equívocos. Pequenos, mas quase amadores. O primeiro e mais gritante é a fotografia. Ao invés de criar um clima sufocante e claustrofóbico, já que todos os personagens estão impedidos de sair do supermercado, a fotografia em cores brilhantes proposta por Ronn Schmidt e as tomadas em profundidade transmitem uma impressão de espaço amplo e não condizem com o estado psicológico dos personagens, diminuindo assim a tensão passada para os espectadores. Darabont ignora também uma das principais regras de construção do gênero suspense: mostrar o mínimo possível e assim instigar a imaginação de quem assiste. O detalhamento das imagens onde aparecem as criaturas impede que se leve o filme mais a sério, já que os efeitos especiais em CGI são um tanto deficientes e dão pouca credibilidade ao visual das criaturas. Visual que foi desenvolvido pelo ilustrador Berniee Wrightson (co-criador do personagem
Monstro do Pântano e desenhista da
Grafic Novell que deu origem a "
Jenifer", de
Dario Argento) e pelo especialista italiano Gregory Nicotero, que já trabalhou com
George Romero (em “
O Dia dos Mortos”),
Sam Raimi (em “
Uma Noite Alucinante”),
Wes Craven, Robert Rodriguez e
John Carpenter, entre outros. São monstros que vão desde enormes moscas, pássaros pré-históricos, aranhas com teias ácidas e moluscos gigantes com tentáculos afiados que lembram em muito os seres indizíveis da literatura de
H. P. Lovecraft.
Outra deficiência visível (ou melhor,
“ouvível”) é a edição sonora. Ao contrário da maioria das produções atuais, que exageram na trilha musical e nos efeitos sonoros em busca do susto fácil, em “
O Nevoeiro” o uso destes recursos é mínimo. Entretanto, o que poderia ser um artifício para deixar a produção menos comercial acaba tornando algumas seqüências um tanto monótonas.


Já o elenco não compromete. Mesmo não esbanjando talento, Tomas Jane (de “
O Apanhador de Sonhos” e
“O Justiceiro”) interpreta convincentemente David Drayton, um pai que tenta a todo custo proteger o filho. Destaque ainda para a veterana Marcia Gay Harden (de
“Sobre Meninos e Lobos”), como a fanática religiosa mais perigosa que todas as criaturas trazidas pelo nevoeiro. Juntam-se a eles também Laurie Holden (“
Terror em Silent Hill”), Andre Braugher (
“Poseidon”) e Toby Jones (
“Em Busca da Terra do Nunca”).


Como curiosidade, existe em “
O Nevoeiro” algumas referências curiosas a outros filmes do gênero. Já na primeira cena, vemos David Drayton, um artista que cria pôsteres para o cinema, trabalhando em seu estúdio. Uma das telas é o pôster do clássico “
Enigma de Outro Mundo”, dirigido por
John Carpenter. Mas a tela que Drayton está finalizando é ainda mais interessante: um pistoleiro e uma torre ao fundo. Os fãs de King podem ver neste detalhe uma pista de que Darabont possa ser o responsável pela adaptação da cultuada saga literária
“A Torre Negra” (cujo personagem central é um pistoleiro). Outra possível homenagem é feita ao mestre do suspense
Alfred Hitchcock, na seqüência em que os
“insetos” começam a se chocar nas grandes janelas de vidro do supermercado, acontecimento muito semelhante ao que ocorre em “
Os Pássaros”.

Entre mortos e feridos, destacam-se principalmente o final demolidor e o confronto ideológico/religioso dentro do supermercado, que fazem dos monstros mero pano de fundo. Darabont, embora não consiga repetir o sucesso de seus filmes anteriores, consegue equilibrar alguns equívocos com vários acertos. Mesmo não sendo a obra-prima do diretor, nem muito menos o
melhor baseado-numa-história-de-Stephen-King, “
O Nevoeiro” sagra-se como um grande filme. Principalmente considerando que Hollywood passa por uma profunda
“crise criativa” e que os grandes estúdios investem quase todas as suas fichas nos infindáveis (e insuportáveis) remakes.
Melhores Momentos
(contém VÁRIOS SPOILERS, inclusive com a descrição da chocante cena final)
Mas afinal, o que seria esse nevoeiro? Enquanto no livro,
Stephen King não explica a origem do fenômeno, no filme fica claro de onde vêm as criaturas e a estranha névoa. A causa seria um incidente numa base militar próxima onde cientistas realizavam experiências com um portal interdimensional (num projeto chamado
“Ponta de Flecha”). Entretanto, nem todos aceitam esta hipótese.
Dentro do supermercado, a beata interpretada por Marcia Gay Harden começa a pregar e rapidamente forma seu rebanho. Na visão da fanática religiosa o Juízo Final chegou e as criaturas são pragas de Deus que vão punir os pecadores. Entre as pessoas confinadas no local estão alguns soldados da base militar. Não demora muito para que a beata julgue um destes militares culpado por despertar a ira de Deus. Mesmo alegando inocência, o soldado acaba assassinado a facadas por seus seguidores.

“Judas! Nós estamos sendo punidos. Por irmos contra a vontade de Deus! Por irmos contra seus antigos ditados. Andar na lua! Ou dividir os átomos! Células-tronco... e abortos! E destruir os segredos da Vida... que só Deus tem o direito de saber! E agora estamos sendo punidos. Os demônios do inferno, vocês viram, estão soltos, e o fogo do inferno! Deixem as abominações cheirarem o seu sangue!”
Já o desfecho, além de cruel como citado anteriormente, é um tanto polêmico e pode não agradar a todos. David, o personagem central, seu filho e mais dois sobreviventes conseguem sair do supermercado. Com um carro eles tentam fugir do nevoeiro. No entanto eles viajam até acabar o combustível e continuam encobertos pela névoa e cercado pelas criaturas. Sem trocar uma palavra eles chegam a melhor solução possível: o suicídio coletivo. Mas como se a situação não fosse ruim o suficiente, eles encontram outro dilema: possuem um revólver com apenas quatro balas. E estão em cinco pessoas. Alguém vai sobreviver e ficar a mercê dos predadores infernais que supostamente dominaram o mundo. E para David a situação é mais dramática ainda, pois não basta se matar, ele tem que assassinar o próprio filho. No entanto, não há outra saída. Seus amigos se suicidam e David atira no filho. Sem munição para se suicidar, ele sai do carro, esperando que alguma criatura o ataque. Se você acha que esta situação insana não é crueldade o suficiente, prepare-se para mais. David chora de desespero por ter ceifado a vida de seu filho quando escuta alguns gritos e eis que... quem aparece? O exército. São tanques e soldados que estão exterminando os monstros e escoltando sobreviventes. Um final que já nasce antológico pela audácia.


O desfecho só não é perfeito por um pequeno detalhe: a solução suicida acontece muito rápido. A gasolina acaba, passam alguns minutos e eles decidem se matar. Se permanecessem dentro do carro até que o cansaço os levasse a esta decisão capital, o final soaria um pouco mais verossímil e menos forçado.
Para comentar o artigo e entrar em contato com João Pires Neto:
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O NEVOEIRO (The Mist, EUA, 2008).
Direção: Frank Darabont
Roteiro: Frank Darabont, baseado em conto de Stephen King.
Produção: Frank Darabont.
Edição: Hunter M. Via.
Fotografia: Ronn Schmidt.
Música: Mark Isham.
Desenho de Produção: Gregory Melton.
Direção de Arte: Alex Hajdu.
Elenco: Thomas Jane (David Drayton), Marcia Gay Harden (Sra Carmody), Laurie Holden (Amanda Dunfrey), Andre Braugher (Brent Norton), Toby Jones (Ollie Weeks), William Sadler (Jim Grondin), Jeffrey DeMunn (Dan Miller), Frances Sternhagen (Irene), Alexa Davalos (Sally), Nathan Gamble (Billy Drayton), Chris Owen (Norm), Sam Witwer (Wayne Jessup), Robert C. Treveiler (Bud Brown), David Jensen (Myron) e Jack Hurst (Joe Eagleton).
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