Jacob amargura o peso da culpa por não ter impedido a tentativa de suicídio de sua irmã mais jovem, Hanne. Lamenta não estar ao seu lado neste momento de descontrole. As conseqüências do incidente foram graves, apesar de sobreviver, sequelas a deixaram numa cadeira de rodas, totalmente dependente de outras pessoas. Algum tempo depois, Jacob estranha quando Hanne anuncia um noivado precoce com um rapaz que conheceu pela internet. Mesmo visivelmente contrariado, ele resolve não intervir, pois o simpático Anker pode ser a última chance de felicidade da irmã. Mas na noite em deveria comemorar o seu casamento, Hanne corta os pulsos e sangra até a morte.
Após a morte da irmã, Jacob torna-se ainda mais perturbado, abandona o emprego e a esposa. Certo dia, remexendo nas coisas que pertenceram à Hanne, encontra um livro de Anker com um pequeno recorte do jornal no interior. O recorte é uma nota de falecimento com a frase “Obrigado por tudo”. A mesma publicada no obituário de sua irmã. Curioso, Jacob tenta encontrar seu ex-cunhado, mas não consegue. O número do celular que Anker lhe forneceu não existe. Desconfiado, ele consegue com um amigo jornalista o paradeiro de Anker. E para seu espanto, ele está noivo, apesar do pouco tempo passado desde o suicídio de Hanne. Sua noiva, assim como Hanne, é deficiente. Jacob estranha a situação e começa então a desconfiar dos acontecimentos que levaram sua irmã a morte. Teria Anker facilitado seu suicídio? Ou seria Anker um assassino em série? Seria tudo apenas uma paranóia? A obsessão de Jacob o leva até Mørke, um pequeno vilarejo no interior da Dinamarca, onde Anker está realizando os preparativos para uma nova cerimônia de casamento, e de morte, talvez.



O pouco conhecido cinema dinamarquês
teve seu momento de destaque em 1995 quando os cineastas,
hoje famosos, Lars von Trier e Thomas Vinterberg
elaboraram o manifesto experimental Dogma
95. Na contramão do mercado cinematográfico,
o manifesto era uma tentativa de resgate do cinema
realizado antes da exploração industrial e comercial
Hollywoodiana. As restrições quanto ao uso de técnicas
e tecnologias, quanto ao conteúdo e a suposta ética
dos diretores resultaram em filmes tão controversos
(“Festa de Família”
e “Os Idiotas”,
por exemplo) que projetaram internacionalmente os
nomes de seus idealizadores. Hoje em dia o nome
mais conhecido é o de Lars von Trier, diretor dos
ótimos dramas “Ondas
do Destino” e “Dançando
no Escuro” e criador da mini-série
“Kingdon Hospital”
(para a televisão dinamarquesa), posteriormente
adaptada para o público americano mestre do horror
Stephen
King.
Outro nome promissor no
cinema dinamarquês é o de Jannik Johansen, diretor
da comédia “E Agora?
Roubei um Rembrandt”, lançado no
Brasil em 2006 pela Vídeo Filmes. E é de Johansen
a direção do belíssimo e surpreendente suspense
“Mistério
na Vila” (Mørke, 2005). Uma trama forte e bem
construída, escrita pelo próprio Johansen em parceria
com o compatriota Anders Thomas Jensen.
Ao contrário do movimento
Dogma, “Mistério
na Vila” se destaca pela excelência técnica,
principalmente pela maravilhosa fotografia. O cenário
insípido do interior da Dinamarca causa ao mesmo
tempo estranheza e admiração ao espectador, de modo
semelhante o ritmo cadenciado, os personagens realistas
distantes dos arquétipos construídos pelo cinema
americano.
O memorável vilão, cuja
aparência ingênua e patética se revela maquiavélico,
doente e impiedoso no desfecho da trama, é verossímil
não somente a realidade do enredo, mas também a
vivenciada pelo espectador. Grande parte desta credibilidade
é mérito do ótimo ator Nicolas Bro (que interpreta
brilhantemente Anker); aliás, o elenco é outro ponto
forte em “Mistério
na Vila”, com destaque ainda pra Nikolaj
Lie Kaas na pele do inconformado e indeciso Jacob.



“Mistério
na Vila” foi vencedor em 2005 dos prêmios de
melhor filme (ao lado de “Manderlay”
de Lars von Trier) e melhor atriz coadjuvante (para
Anne Sophie Byder) no Bodil Awards (festival de
cinema de Copenhagen). Ganhou ainda as premiações
de melhor ator (para Nikolaj Lie Kaas), melhor trilha
sonora, melhor fotografia e melhor som no Robert
Awards (considerado o mais importante festival de
cinema dinamarquês).


Infelizmente, o pouco caso
da distribuidora (Vídeo Filmes) acaba com qualquer
chance de sucesso comercial do DVD no mercado brasileiro.
A originalidade do título escolhido (apenas “Mørke”,
certamente seria uma escolha mais acertada), a capa
pouco atrativa e publicidade praticamente nula condenaram
“Mistério na Vila” ao esquecimento. Embora não seja
violento nem siga o padrão americano a que a maioria
está acostumada, “Mistério
na Vila” é uma daquelas boas e gratificantes
surpresas, que merece ser visto e recomendado. Ainda
mais diante de um mercado saturado de produções
que nunca deveriam nem ter saído do papel.
João Pires Neto