 |
Ele é anterior a Deus e anterior à civilização; na verdade, foi Ele quem provavelmente iniciou todos os boatos sobre a existência do demônio. Ele foi e é a criatura mais depravada e cruel que um dia habitou a face do planeta, um hediondo monstro devorador de bebês, cuja cabeça se assemelha a carne crua, motivo pelo qual ganhou a alcunha de Rawhead (literalmente, “Cabeça Crua”), seguida por um Rex (nada a ver com cachorros; é apenas “rei”, em latim). Rawhead Rex é um gigante inteligente, com três metros de altura, que vive e respira violência; seus braços são três vezes maiores que os de uma pessoa normal, sua cabeça lembraria a Lua, se não fossem os dois enormes e brilhantes olhos vermelhos em brasa; e sua boca... Ah, sua boca - tão grande que, quando Ele escancara as fileiras duplas de mandíbulas com dentes afiadíssimos, é como se a própria cabeça estivesse se abrindo ao meio. Assustador, não? |
Ou pelo menos devia ser, e era, no conto "Rawhead Rex”, do celebrado escritor inglês Clive Barker, e no roteiro de MONSTER - A RESSURREIÇÃO DO MAL (no original, o nome do conto: apenas “Rawhead Rex”), roteiro este assinado pelo próprio Barker para uma produção barata filmada por George Pavlou em 1986.
Infelizmente, a criatura hedionda criada por Barker no seu conto de 1984 (publicado na coletânea “Livros de Sangue - Volume 3”), e depois transposta para um roteiro cinematográfico pelo punho do próprio autor, transformou-se numa piada quando saiu do mundo das palavras para o mundo do cinema. Pois aquele monstro apavorante descrito no primeiro parágrafo deste artigo se transformou num instrutor de esqui alemão de mais de dois metros de altura (Heinrich von Schellendorf), vestindo uma roupa de couro negra cheia de correntes (pré-HELLRAISER, dirigido pelo próprio Clive Barker em 1987), e com uma face monstruosa, mas totalmente imóvel - na verdade, uma máscara de látex inexpressiva -, fazendo com que o “rei Rawhead” passe o filme inteiro com a bocarra e os olhos abertos!!!


A triste concepção da criatura é mais culpa do orçamento irrisório do que do trabalho dos técnicos em efeitos especiais. Mas o maior culpado pelo desastre ainda é o diretor Pavlou, que, tendo um monstro ridículo nas mãos, insiste em mostrá-lo o tempo todo, inclusive em closes, ao invés de escondê-lo nas trevas e nas sombras para que o espectador só pudesse vê-lo de relance. Enfim, bem diferente da aterrorizante descrição da introdução deste artigo (tirada do próprio conto de Barker), o
Rawhead Rex visto no filme é ridículo e só provoca gargalhadas. Por isso mesmo, é a principal atração desta produção B e trash não-intencional, uma verdadeira comédia de horror, embora humor não fosse exatamente o objetivo dos realizadores...
Para começo de conversa,
"Rawhead Rex", tanto filme quanto conto, não tiveram sorte em relação à tradução para o português. O conto, acredite ou não, teve seu título traduzido para
"A Cabeça Descarnada" no Brasil!!! E olha que podia ser pior, considerando que, na versão em espanhol, chama-se
"Rex, El Hombre-Lobo", dando a falsa impressão de que
Rawhead Rex é um simples lobisomem. Já quando o filme foi lançado em VHS, pela extinta
VTI, algum jumento
"traduziu" o título usando uma palavra em inglês, sabe-se lá por que motivo, e assim
"Rawhead Rex" virou
MONSTER - A RESSURREIÇÃO DO MAL. Se fosse
"Monstro - A Ressurreição do Mal" ou
"Rawhead Rex - A Ressurreição do Mal", até vai... Mas
MONSTER???? Por quê??? Justamente para não compactuar com a ideia de jerico, a partir de agora passarei a chamar o filme pelo título original,
RAWHEAD REX.


A obra acabou tornando-se cult por diversos motivos. O primeiro é a ruindade geral da produção (no
YouTube tem até uns vídeos amadores onde alguns malucos recriam cenas do filme só de gozação!!!). O segundo é que, em meio à ruindade dominante, há algumas boas ideias de Barker, que argumenta que seu roteiro original foi totalmente distorcido pelo diretor e pelos produtores. Finalmente, quando
RAWHEAD REX passou no extinto
Cine Trash, da Bandeirantes (ainda com o medonho título
MONSTER...), acabou virando febre no Brasil também. Tanto que é muito comum encontrar, nos fóruns internet afora, pessoas desesperadas por saber o nome
"daquele filme onde o monstro batiza o padre com mijo" - sim, existe tal cena em
RAWHEAD REX, e ela é realmente o ponto alto e mais memorável da película! Agora imagine o ponto baixo e menos memorável...
Produzido por duas empresas desconhecidas e parcialmente bancado pela
Empire Pictures (misteriosamente, o nome do produtor-executivo
Charles Band foi retirado dos créditos!),
RAWHEAD REX aparenta ter custado menos que um salário mínimo, e o resultado pode ser visto na tela - e não apenas nos efeitos bagaceiros da criatura. Para você ter uma idéia, os caras usaram até efeitos especiais pré-históricos de
rotoscopia (não vou ficar explicando o que é isso, mas saiba que é MUITO antigo; procure no Google para saber mais).


O filme começa no vilarejo de Rathmore, no interior da Irlanda, onde um casal de norte-americanos (claro!) está zanzando há um mês e meio em busca das raízes de sua família, e também de material para um livro sobre antigas igrejas e locais de cerimônias pagãs. O escritor de primeira-viagem é
Howard Hallenbeck (
David Dukes, que morreu logo após gravar suas cenas na minissérie
ROSE RED, de 2002, escrita por
Stephen King). Ele está acompanhado pela esposa
Elaine (
Kelly Piper) e pelos filhos pequenos
Minty (
Cora Lunny) e
Robbie (
Hugh O'Connor, recentemente visto, já crescido, em
GUERREIROS DO INFERNO, de
Michael J. Bassett).
Howard fica particularmente curioso por uma estranha igrejinha com um colorido vitral representando o que parece ser um demônio muito antigo - e a luz do sol, refletida pelo vidro vermelho nos olhos da bizarra figura, gera dois raios avermelhados no interior do santuário. Abaixo da figura, lê-se a mensagem:
"A Morte teme aquilo que ela não pode ser".


Paralelamente, o fazendeiro
Thomas Garron (
Donal McCann) tenta arrancar um enorme obelisco de pedra encravado no meio de suas terras, e que aparentemente está atrapalhando o cultivo de batatas - vá você entender porque o sujeito nunca tentou fazer isso antes, coisa que o conto explica, mas o filme não. Mesmo com o auxílio de uma alavanca e do trator conduzido por um vizinho, o monumento não mexe do lugar. Garron resolve desistir, manda os amigos embora e, quando tenta arrancar sozinho a alavanca enterrada no solo próximo ao obelisco, percebe que algo está se mexendo POR BAIXO dele. Dito-e-feito: uma tempestade surge no horizonte, o obelisco desmorona e, das profundezas da terra, surge o espectro abominável (neste caso,
"abominável" por causa da podreira dos efeitos especiais) de
Rawhead Rex, que faz do pobre Garron sua primeira vítima.
Ao mesmo tempo em que a criatura se liberta, uma estranha energia parece ser liberada no interior daquela igreja que tanto interessou ao escritor norte-americano. O sacristão
Declan O'Brien (
Ronan Wilmot) é atraído para o altar, e, ao tocá-lo com uma das mãos, recebe uma descarga de energia que o faz
"enxergar" o mundo de
Rawhead Rex (ou pelo menos era assim no conto; no filme, vemos apenas o sacristão se contorcendo enquanto é bombardeado por feias imagens sem nenhuma lógica). Quando finalmente consegue tirar a mão do altar, Declan fica transformado pela experiência: torna-se o primeiro devoto da ressuscitada e maligna criatura.


Ansioso por morte e destruição após tanto tempo enterrado vivo, o monstruoso
Rawhead Rex inicia uma série de assassinatos, inicialmente na zona rural, nas fazendas próximas ao local de onde foi despertado, como a casa dos Nicholson. Embora o marido,
Dennis (
John Olohan), seja morto sem piedade no celeiro, a esposa,
Jenny (
Eleanor Feely), é perseguida pelo interior da casa e, na hora H, poupada pela criatura por estar grávida - o motivo nunca fica explicado no filme, mas no conto sim. Arrastando o cadáver de Dennis para um futuro lanchinho, Rawhead retorna para a segurança do interior da floresta.
Depois de um novo ataque no acampamento de trailers próximo à floresta, a polícia é acionada para investigar. E Howard resolve recolher a família e voltar a Dublin. Mas, no caminho, a pequena Minty pede para fazer xixi. O casal desce do carro com a menina, deixando Robbie no banco de trás, e o garoto se transforma na nova vítima do faminto monstro. De longe, o escritor vê aquele vulto abominável aproximando-se do veículo, mas nada pode fazer para impedir que seu filho seja morto e arrastado para dentro da floresta por Rawhead. Agora, porém, a coisa fica pessoal. E o pai vingativo resolve dar um fim na criatura ele mesmo.

RAWHEAD REX é a típica história de monstro à solta numa cidadezinha, sem tirar nem pôr. Basicamente, algum idiota liberta a criatura de seu sepulcro e ela passa o filme todo matando vítimas que estão sozinhas ou fazendo bobagens (do tipo namorar à noite no meio da floresta). Até chegar o momento em que o herói, após sofrer uma grande perda para o monstro, resolve combatê-lo por conta própria. E assim acontece, até a conclusão bastante fraca e previsível - especialmente a última imagem.
O problema é que o roteiro e o conto original de
Clive Barker não eram apenas uma história de monstro à solta: eram muito mais ricos e interessantes do que isso, mas o diretor e os produtores preferiram se ater aos toques
"exploitation" - sangue e violência.
A violência, claro, foi quintuplicada em relação ao conto de quarenta e poucas páginas. Entre as cenas que não existiam no texto, está um segundo ataque de
Rawhead Rex ao camping, desta vez virando trailers com as próprias mãos, provocando explosões e decepando mais algumas cabeças. É neste momento que acontece uma das cenas de nudez gratuita mais absurdas da história do cinema: o marido de uma mulher agarrada pelo monstro tenta salvá-la das garras da criatura segurando-a pelo seu vestido, que obviamente rasga, exibindo os belos peitos da moça. Provavelmente um dos produtores disse:
"Está faltando uma cena com mulher pelada nesse filme", e o diretor Pavlou filmou tal aberração apenas para fechar a conta. Outra aberração é a cena em que um casal foge de mãos dadas pela floresta, até que a moça pára e percebe que está segurando apenas a mão decepada do namorado!!!


Vale a pena contar um pouco da história dos bastidores para que o leitor saiba como
Clive Barker foi parar no meio dessa verdadeira furada. Em 1985, quando era apenas um escritor inglês de contos de horror pouco conhecido fora da Inglaterra, ele foi contatado por alguns produtores de cinema interessados em fazer filmes de terror de baixo orçamento. Como sempre se interessou pela Sétima Arte, e queria muito entrar nesse mundo de alguma forma, Barker aceitou o convite para escrever o roteiro de uma produção barata chamada
UNDERWORLD, que no Brasil virou
SUBTERRÂNEOS - A REVOLTA DOS MUTANTES, dirigida pelo mesmo
George Pavlou um ano antes, em 1985. Foi um trabalho original, sem inspiração em nenhum de seus contos, e o elenco contava com gente boa como o falecido
Denholm Eliott e a atriz
Miranda Richardson.
Entretanto, já na sua estreia no show-business, o autor percebeu que as coisas não seriam fáceis: o roteiro foi totalmente mudado, alega Barker.
"Conheci George Pavlou num jantar e conversamos sobre filmes. Ele queria dirigi-los e eu queria escrevê-los. Parecia um time perfeito, a base do que poderia ser uma bela união, então aceitei a proposta. Mas, no fim, houve uma clara confusão em relação ao que o filme [SUBTERRÂNEOS] realmente era. Eles me disseram que queriam um filme de horror, mas depois tiraram todo o horror! Foi um grande choque quando escrevi meu primeiro roteiro e percebi que até o gato do estúdio era mais importante que eu", relatou o escritor, numa entrevista à revista
Fangoria em junho de 1986. Quando Barker viu o filme pronto e foi reclamar com os produtores, eles responderam:
"Nós não entendemos direito e não ficou um bom filme, mas vai ser melhor da próxima vez. Transforme 'Rawhead Rex' num roteiro para nós!".


Na sua ingenuidade - e porque precisava MUITO de dinheiro naquela época, argumenta -, Barker havia vendido os direitos de cinco dos seus contos para os mesmos produtores, entre eles
"Rawhead Rex". E, segundo narrou no documentário
THE ART OF HORROR, de
Christopher Holland:
"Eu esperava que as coisas fossem melhores, pois iria escrever para eles o roteiro de um dos meus contos preferidos. Francamente, eu precisava de dinheiro naquele tempo, então escrevi um tratamento para o roteiro e foi a última vez que ouvi falar nisso. Nunca fui convidado para visitar o set, nunca vi a passagem para Dublin que eles me prometeram, e ainda escutava notícias pouco animadoras sobre a forma como o projeto estava sendo desenvolvido. E o filme, mais uma vez, ficou horrível", lamentou.
Aliás, o autor quase teve um treco quando soube que o local da trama havia sido mudado, já que o roteiro, como o conto, se passava na Inglaterra, em Kent, uma pequena cidade a alguns quilômetros de Londres, para fazer o contraste de uma criatura antiqüíssima à solta num mundo moderno, e bem perto da maior cidade inglesa!


De certa forma, o péssimo resultado da
"colaboração" entre o mentecapto Pavlou (que nunca mais dirigiu outro filme, além de uma comédia obscura de 1991) e Barker foi ótimo para os fãs de horror. Pois além de esta colaboração gerar dois engraçados trash movies involuntários, deixou o escritor tão furioso com estúdios e cineastas que não conseguiam adaptar seus textos que ele mesmo resolveu dirigir seu próximo projeto, já no ano seguinte - 1987. E o resultado todo mundo conhece: o clássico
HELLRAISER, um dos filmes mais importantes e marcantes da década, baseado na história
"The Hellbound Heart", que ele havia publicado em 1986. Neste, Barker fez tudo sozinho, inclusive criou e supervisionou a maquiagem dos
cenobitas, já que não pôde salvar a versão cinematográfica de seu
Rawhead Rex do mico. Agora, imagine o que sairia de
HELLRAISER se fosse novamente
George Pavlou adaptando o roteiro de Barker... Cruz credo!!!
E do
"Rawhead Rex" de Barker sobrou apenas aquele monstrão ridículo, que Pavlou fez questão de filmar em detalhes, sem se dar conta da pobreza da maquiagem da criatura. Um dos grandes momentos é justamente um close na napa do monstro, que revela detalhadamente (e acidentalmente) a verdadeira boca do ator por baixo da bocarra de látex!!!


Infelizmente, o conto do autor era infilmável da maneira como foi concebido. Claro que um diretor imbecil, como Pavlou, só enxergou a parte do monstro estripando pessoas, mas o texto vai além disso. Na verdade, a forma como a história se desenvolve jamais poderia ser adaptada para o cinema, a não ser que houvesse um narrador ou - e isso seria muito ridículo - o monstro falasse. Por exemplo: no conto, descobrimos que
Rawhead Rex é um monstro mais antigo do que Deus e do que a civilização, e o choque cultural do despertar da criatura em um mundo contemporâneo, que não lhe pertence, fica claro na narrativa. Ao ver um automóvel pela primeira vez, por exemplo, o Rawhead do conto ficava deslumbrado com a maneira como os frágeis seres humanos conseguiam dominar uma criatura tão grande e esquisita (acreditando que o carro era um animal selvagem). No filme, quando vemos o monstro fazendo um carro de polícia capotar, não há um mínimo dessa riqueza narrativa.
Mas o pouco que ficou dos
"toques Barkerianos" no filme já fazem de
RAWHEAD REX uma produção B minimamente acima da média. A relação entre o monstro pagão e a igreja, por exemplo, é bastante interessante, principalmente quando o sacristão Declan enlouquece e passa a adorar Rawhead como se fosse seu verdadeiro Deus. Inclusive a cena mais marcante é aquela em que o monstro
"batiza" Declan de maneira nada higiênica, com um jato de sua própria urina - um momento nojento e inesperado, que o próprio Barker achou que iam cortar do filme, embora no conto a situação seja ainda mais bizarra, pois o sacristão também bebe o mijo da criatura!


Um detalhe que não havia no conto, e que pessoalmente achei legal no filme, é a charada envolvendo os vitrais da igreja, que o escritor Howard precisa decifrar para descobrir como Rawhead foi vencido e aprisionado séculos antes.
Já outros detalhes autorais de Barker ficam apenas sugeridos, e só serão compreendidos após a leitura do conto. Por exemplo: por que o monstro não matou a gestante Jenny? No conto, a moça se chama Gwen. Quando Rawhead vai atacá-la, ele percebe que ela tem o
"ciclo de sangue", e não pode matá-la porque em breve dará vida a uma futura vítima (no texto fica bem claro que o monstro prefere se alimentar de bebês recém-nascidos e crianças, e não necessariamente de adultos, mas no filme não há essa distinção da idade das vítimas). Outra coisa que o filme não explica é o sentido do símbolo de pedra capaz de destruir o indestrutível Rawhead, e porque ele deve ser usado apenas por uma mulher. Para saber, leiam o conto!
Infelizmente, o filme não é tão gore quanto deveria ser, já que todos os ataques de Rawhead são
"off-screen", com exceção de um deles, já no final, quando o monstro rasga a jugular de um infeliz com sua bocarra e jatos de sangue jorram generosamente. De resto, apesar de alguns corpos esquartejados e cabeças decepadas aparecerem com regularidade, não há nada muito diferente do que outros filmes da época mostravam mais e melhor - lembre-se que
RAWHEAD REX é da mesma época de
REANIMATOR e
A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS, ambos muito mais sangrentos e exagerados.


Infelizmente, também, não há como saber quanto do filme é
"culpa" de Barker sem conhecer as modificações que foram feitas no roteiro. O escritor alega que o diretor e os produtores mudaram tudo ao seu bel-prazer, inclusive o final. E eu realmente duvido que ele tenha escrito diálogos como aquele em que um jornalista pergunta ao inspetor Gissing se há alguma relação entre as vítimas, e o policial responde:
"Sim, estão todos mortos".
Com tantos defeitos, como recomendar esta produção paupérrima a alguém? Ora, primeiro porque são 89 minutos de diversão garantida, por mais que o filme tivesse potencial para ser algo muito maior e melhor. O monstro provoca gargalhadas toda vez que aparece em cena, e nunca convence ou assusta: é exatamente o que parece, um grandalhão com uma máscara de látex grunhindo e
"atacando" pessoas. Também tem uma das piores cenas de acidente automobilístico já filmadas: o carro capota de lado, em baixíssima velocidade, e ouvimos um som, tipo
"Arghhh!", para atestar que o motorista morreu, embora ninguém pudesse morrer com o carro simplesmente tombando àquela velocidade!!!
Por outro lado, as paisagens irlandesas são muito bonitas e dão um toque diferente à produção, além do que sempre é um alívio ver histórias de horror com personagens adultos, sem adolescentes bobalhões. Embora o ritmo caia aqui e acolá, o filme não me deixou chateado como algumas bobagens recentes, que só consegui assistir acionando a tecla fast foward. Logo, esquecendo os (muitos e inúmeros) defeitos, é até possível se divertir com este autêntico
Cine Trash. Quem diria que
RAWHEAD REX foi indicado a
"Melhor Filme" no
Fantasporto, renomado festival português de cinema fantástico, em 1987 - imagina o naipe dos outros concorrentes!!!


E, como eu escrevi no começo,
RAWHEAD REX ganhou certo status cult com o tempo, o que impressionou o próprio
Clive Barker:
"Os admiradores do filme, e na verdade existem vários, gostam dessa aura de 'filme dos anos 60' feito nos anos 80. Não acho que o filme é ruim, é melhor que SUBTERRÂNEOS, mas tinha muito mais potencial. Simplesmente não gosto dele. O filme não é muito ousado, e a ideia era - até se matasse criancinhas. Era para ser muito mais visceral, e por isso, quando resolvi dirigir HELLRAISER, fui determinado a compensar tudo isso, e talvez as qualidades viscerais de HELLRAISER tenham sido exacerbadas!", disse, numa memorável entrevista à
Fangoria em 1988. Ainda nesta entrevista, o autor explicou porque resolveu assumir ele mesmo a cadeira de diretor a partir de então:
"Só havia dois caminhos para seguir: ou eu pegava o dinheiro e seguia em frente, como muitos fazem, ou fazia eu mesmo, com minhas próprias mãos. E estes dois filmes me incentivaram a dirigir. Claro, eu seria muito feliz se continuasse escrevendo roteiros pelo resto da vida, caso estes dois [SUBTERRÂNEOS e RAWHEAD REX] dessem certo".
O resto é história: o sucesso de
HELLRAISER catapultou a carreira cinematográfica de Barker, que, em 1987, já era considerado também um famoso autor de horror, uma espécie de
"Stephen King inglês". E embora o pobre coitado não tenha tido muito mais sorte no mundo do cinema como diretor - devido aos inúmeros problemas durante a produção de
NIGHTBREED - RAÇA DAS TREVAS (1990) e à fria recepção por parte do público ao excelente
O MESTRE DAS ILUSÕES (1995) -, pelo menos seus textos começaram a receber o devido respeito. Caso, por exemplo, de
O MISTÉRIO DE CANDYMAN (1992), um dos melhores filmes do gênero dos anos 90, e adaptação primorosa de um conto de Barker. Recentemente, em 2008, o escritor voltou a ficar em evidência graças ao sangrento
THE MIDNIGHT MEAT TRAIN (no Brasil,
O ÚLTIMO TREM), e seu
"Books of Blood" também ganhou adaptação cinematográfica, chamada
LIVROS DE SANGUE.


Entre os fãs de
RAWHEAD REX está, obviamente, seu diretor,
George Pavlou, que numa entrevista à revista
Cinefantastique, em 1987, comparou estupidamente sua obra a clássicos do gênero:
"É um pequeno e honesto filme de horror. Descontando TUBARÃO e ALIEN, o último grande filme de monstros foi KING KONG". Modesto ele, hein? O produtor
Kevin Attew (que também bancou
SUBTERRÂNEOS) foi outro que defendeu a obra, na mesma entrevista:
"Não há nada de novo no conceito da história, é puro cinema classe B dos anos 50". Ou seja: nenhum dos dois cabeças-de-bagre entendeu bulhufas do conceito do conto e do roteiro original, ficando apenas no feijão-com-arroz do
"típico filme de monstro".
Olhando por este lado, e esquecendo o nome
Clive Barker nos créditos,
RAWHEAD REX até diverte. Mas aí está um filme que REALMENTE merecia um remake melhorado. Até porque, nos anos 90, foi publicada uma
graphic novel muito mais fiel ao espírito do texto original do que o filme. Agora é só pegar os quadrinhos e filmar novamente. Alguém se habilita?

Felipe M.Guerra
O escritor inglês Clive Barker é hoje um dos mais cultuados autores,
juntamente com Stephen King, da literatura de horror moderna. Seus textos
são extremamente sangrentos e recheados de violência e sexo, e boa parte de
sua obra foi publicada no Brasil, como a famosa série Livros de Sangue
(Books of Blood), divididos em seis coletâneas de contos, e os romances O
Jogo da Perdição e Raça da Noite (Cabal: the Nightbreed), todos pela Editora
Civilização Brasileira.


Barker tem também uma marcante presença no cinema fantástico, dirigindo suas
histórias como em
Hellraiser (Hellraiser, 1987), sobre os
escatalógicos seres
cenobitas, liderados por
Pinhead, que
habitam ocultas dimensões que celebram a dor e o sofrimento eternos em seu
estado absoluto;
Raça da Noite (Nightbreed, 1989), sobre criaturas das
trevas; e
Mestre das Ilusões (Lord of Illusions, 1995), sobre o envolvimento
de magia e forças do além. Suas obras estão cada vez mais aparecendo nas
telas, a exemplo do campeão disparado de adaptações
Stephen King, e dos
falecidos e imortais mestres do horror
Edgar Allan Poe e
Howard Phillips
Lovecraft.




Clive Barker é o roteirista de
Rawhead Rex (1987), filme dirigido por
George
Pavlou, que já havia adaptado antes outro conto do mestre,
Underworld, e
cuja história é baseada em seu texto homônimo publicado no terceiro volume
da coletânea dos
Livros de Sangue, intituladado no Brasil como
A Cabeça
Descarnada.
Rawhead Rex é uma criatura ancestral, um guerreiro monarca pré-cristão, que
está enterrado em animação suspensa nas terras sagradas de uma velha igreja.
Um historiador americano,
Howard Hallenbeck, interpretado por
David Dukes,
está em viagem com sua família formada pela esposa
Elaine (
Kelly Piper),
filha
Minty (
Cora Lunny) e filho
Robbie (
Hugh O’Connor), percorrendo o
interior da Irlanda pesquisando e estudando igrejas antigas e coletando
material para a produção se um livro. Ao chegar na cidadezinha de Rathmore,
ele entra em contato com o
Reverendo Coot (
Niall Toibin) que lhe apresenta
uma igreja muito velha e que tem um passado misterioso e oculto envolvendo
um monstro demoníaco, um rei pagão canibal e assassino chamado
Rawhead Rex,
interpretado pelo ator alemão
Heinrich Von Schellendorf. O enorme monstro
não humano, de aproximadamente 2,5 metros de altura, longos cabelos e dentes
afiadíssimos, é acidentalmente despertado e liberta-se de sua tumba onde
havia sido encarcerado vivo num confronto com forças sobrenaturais em tempos
imemoriais. Ele passa então a aterrorizar e massacrar brutalmente os
habitantes locais, dilacerando, decepando e desmembrando suas vítimas e
provando-lhes a carne e o sangue.




Após a morte de seu jovem filho pela criatura do além, o historiador parte
para a vingança e com o auxílio de sua esposa e uma pedra mágica envolta em
lendas antigas pagãs, ele consegue derrotar o monstro em solo sagrado de um
cemitério, enterrando-o novamente sob uma pesada tumba de concreto.
Rawhead Rex é a grande atração do filme, o personagem principal, que já é
apresentado logo no início de forma explícita e que passaria o tempo todo
estripando suas vítimas. Ele é uma criatura pré-cristã e anterior mesmo à
civilização, mas não ficam claros sua real origem e objetivos. O monstro
abusa de violência em suas chacinas, apesar de atuar como um ser pensante e
inteligente, ao contrário de outros famosos monstros do cinema.
Os efeitos especiais da criatura são incrivelmente fracos, com os olhos vermelhos e
ardentes praticamente fixos e sem vida, imóveis e com a boca enorme sempre
aberta sem gesticulações, com os dentes pingando sangue e babas. Com os
modernos recursos tecnológicos disponíveis na época da produção, a criatura
parece meio ridícula em comparação com outras similares de outros filmes,
assemelhando-se quase àqueles velhos monstros de borracha dos filmes e
séries de TV japoneses das décadas de 1960 e 70. Mas como a produção é de
baixo orçamento, a criatura acaba tornando-se uma grande diversão em sua
pobreza de efeitos.




Um destaque é a cena em que
Rawhead Rex urina um enorme jato de mijo no
peito do sacristão
Declan O’Brien (
Ronan Wilmot), que dessa forma é então
“batizado” como um de seus fiéis seguidores, assim como também o Inspetor de
polícia
Isaac Gissing (
Niall O’Brien), que, em sinal de devoção ao seu mestre
demoníaco, incendeia vários carros da polícia, queimando vivos seus
companheiros num dos confrontos com a criatura. Mas, como bons e estúpidos
adeptos, são no final mortos de forma bem dolorosa...




Um detalhe curioso é a colocação de um título nacional para o filme
utilizando de forma inadequada uma palavra em inglês,
Monster (Monstro),
seguida de um título em português,
A Ressurreição do Mal. O melhor e mais
apropriado seria manter o título original que tem difícil e desnecessária
tradução:
Rawhead Rex, que é o nome da criatura infernal e principal atração
da fita. Esses equívocos são comuns nos lançamentos dos filmes no Brasil.
Filmado na Irlanda, nos arredores de Dublin, em
County Wicklow, o filme
utilizou uma área próxima às locações de
Excalibur (1981), de
John Boorman.
E a fotografia é também um dos grandes interesses no filme, com belas
tomadas das paisagens e igrejas irlandesas.




Monster: A Ressurreição do Mal foi lançado no mercado de vídeo VHS
brasileiro pela
VTI, sendo rara a sua disponibilidade nas locadoras, pois é
um filme obscuro e pouco conhecido, apesar da presença de
Clive Barker e
mais uma materialização maléfica de seus contos insanos e de puro horror,
que garantem a sua importância e mais outro grande entretenimento para os
fãs do cinema fantástico.
Renato Rosatti