O MONSTRO HUMANO

Por E.R.Corrêa

Bela Lugosi (1882-1956) foi um dos astros do cinema de horror que mais esteve envolvido em produções baratas, e por ironia maior, o responsável por este envolvimento foi justamente seu filme de maior sucesso, Drácula (1931). Isto por causa de sua brilhante atuação, fazendo com que sua imagem ficasse diretamente ligada ao típico vilão do horror, causando posteriormente, uma rejeição do público quando sua atuação não estava de acordo com sua natural e típica caracterização do mal.
O caso é que nem todos os filmes de horror eram tão bons quanto o Drácula, o que obrigava Lugosi a aceitar papéis em filmes medíocres, mas que eventualmente eram salvos pela sua excelente atuação. Por estas e outras razões, a maioria dos filmes em que Lugosi atuou, são vistos, hoje em dia, como verdadeiros cults, e referência direta ao horror cinematográfico moderno.
O Monstro Humano (The Human Monster, 1940) se tornou um desses cults, sendo assumidamente um filme B e feito com o objetivo de anteceder a atração principal, o que era comum no cinema americano nas décadas de 30 e 40. Nesta época, o costume dos grandes estúdios era contratar os pequenos produtores, que trabalhavam rápido e barato, para criarem filmes de média metragem, que antecediam o “prato principal” - e O Monstro Humano é um exemplo definitivo deste tipo de cinema.
E nesta produção barata, Lugosi está perfeito, mais satânico do que nunca, usando e abusando de seu sorriso irônico e malígno, que se tornou uma espécie de marca registrada do ator, além de sua aparência sinistra e olhar penetrante, sombrancelhas arqueadas e cabelo ëngomado” à moda dos grandes vilões. Fatores que determinaram o verdadeiro arquétipo do vilão galante e bem aparentado, que seria posteriormente muitas vezes copiado por outros atores que seguiram a mesma trilha deixada por Lugosi. No entanto, nenhum deles conseguiu superá-lo em originalidade e terror.
Neste filme, ele interpreta dois papéis, o dono de uma corretora de seguros (Dr. Orloff), que expede apólices para os ricões de Londres e depois os mata, não deixando nenhuma pista, para ficar com o dinheiro, uma vez que os beneficiários nem sequer suspeitam de toda a trama. E usando um disfarce extremamente adequado, é também o bondoso e benevolente chefe de um asilo para cegos (Dr. Dearborn), onde Lugosi consegue despistar a inteligente Scotland Yard, que apenas acha os corpos misteriosamente boiando no Rio Tâmisa.
Mas a eficiente polícia inglesa, com suas brilhantes investigações, vai juntando pista por pista até o cerco ir se fechando a Lugosi, que no final é morto ao ser jogado no lamacento Tâmisa por um dos seus cegos protegidos (o deformado Jake, interpretado por Wilfred Walter).
Baseado em uma história de Edgar Wallace (um dos maiores mestres do suspense moderno), O Monstro Humano se tornou, à partir da década de 70, um pequeno clássico da produção B, e hoje cresce ao seu redor uma admiração cult, pelo menos para os admiradores do cinema nostalgia da década de 40, e Bela Lugosi se situa como o ator preferido desta época nostálgica.
Mas nem tudo são flores e, infelizmente, apesar de sua brilhante carreira e de todo o seu talento, Lugosi teve uma vida difícil, associada principalmente ao sofrimento físico (o ator refugiava-se constantemente na morfina para fugir de suas dores reumáticas). Muitas vezes teve que obrigar-se a trabalhar em filmes extremamente medíocres, pois o fazia por necessidade, mesmo que sua paixão pelo cinema fosse muito grande.
A partir da década de 50, Bela Lugosi começou a trabalhar para um extravagante diretor trash, Ed Wood, que era seu fã, mas presenteou seu ídolo com papéis inferiores, como o Drácula que ele interpreta no filme Plan Nine From Outer Space (considerado o pior filme de todos os tempos), feito entre 56 e 59, mas lançado definitivamente em 1959.
Stephen King, em seu excelente livro de ensaios Dança Macabra, comenta a respeito do filme de Wood:

“Lugosi veio a falecer pouco tempo depois desse exemplo inescrutável, explorador e ilegítimo de porcaria ser apresentado, e eu sempre fico imaginando aqui com meus botões se o pobre coitado do Bela não morreu também de vergonha, além das muitas doenças que o acometiam. Foi um desfecho triste e esquálido para uma grande carreira. Lugosi foi cremado (por seu próprio desejo) trajando sua capa de Drácula, e prefiro pensar - e esperar - que ela lhe tenha sido mais útil na morte do que naquela miserável perda de celulóide que marcou sua última aparição nas telas.”

Eu posso não concordar plenamente com King, mas que a este este seu ponto de vista é motivo para muita meditação... Ah, isto é!... Pois, pelo menos, em O Monstro Humano, mesmo não interpretando Drácula, Lugosi teve um papel mais dígno e original, reforçando ainda mais sua imortal carreira de vilão do horror.

E.R.Corrêa


O MONSTRO HUMANO (The Human Monster, EUA, 1940, Monogram / Dark Eyes of London, ING, 1939, Pathé Films Ltd.)
Direção: Walter Summers
Roteiro: Patrick Kirwin, Walter Summers e John Argyle, baseado na obra de Edgar Wallace
Produção: John Argyle
Música: Guy Jones e C. King Palmer
Fotografia: Bryan Langley
Edição: E.G. Richards
Direção de Arte: Duncan Sutherland
Elenco: Bela Lugosi (Dr. Feodor Orloff/Prof. John Dearborn), Hugh Williams (Det. Insp. Larry Holt), Greta Gynt (Diana Stuart), Edmond Ryan (Lieutenant O'Reilly), Wilfred Walter (Jake), Alexander Field (Fred Grogan), Arthur E. Owen, Julie Suedo, Gerald Pring, Bryan Herbert, May Haliatt e Charles Penrose. Preto e Branco, 76 minutos. Em vídeo no Brasil pela Hollywood Classics.



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