OS MONSTROS DA NOITE
Texto escrito por Renato Rosatti
 | “Antártica, o continente gelado na extremidade do mundo. Um continente tão
misterioso e desconhecido como os outros planetas do nosso Sistema Solar, ou
um mundo no espaço imenso há milhões de anos-luz. Durante incontáveis
milênios, os segredos deste deserto glacial permaneceram ocultos do resto do
mundo, cobertos por uma traiçoeira camada de gelo. Surgiram então os
primeiros exploradores antárticos; Wilkes, Scott, Shackelton, Amundsen,
Bird. Homens intrépidos, de coragem e tenacidade em busca dos segredos desse
continente hostil e gelado. |
Logo após vieram os exploradores modernos,
forças tarefa mecanizadas de cientistas e técnicos de muitas nações,
trabalhando juntos na descoberta dos segredos da Antártica. Operações
iniciais: O Ano Geofísico Internacional, as pesquisas científicas. E agora,
após mais de um ano de explorações e estudos, um grupo desses cientistas
está deixando seus acampamentos. Seu destino: os Estados Unidos da América.
Sua carga: espécimes de vida animal e vegetal dos confins do mundo.”
Essa é a introdução narrada de mais um filme de ficção científica com
elementos de horror da produtiva e nostálgica década de 1960. Trata-se da
produção americana “Os Monstros da Noite” (The Navy Vs. The Night Monsters,
1966, que numa tradução literal seria “A Marinha Contra os Monstros da
Noite”), e que na Inglaterra recebeu o título de “Monsters of the Night”.
Foi escrito e dirigido por Michael A. Hoey, um desconhecido cineasta que se
inspirou no livro “Monster From Earth´s End”, de Murray Leinster, para
escrever e filmar sua história sobre monstros vegetais assassinos oriundos
dos segredos do imenso e gelado continente Antártico.
O filme é mais uma produção paupérrima, desconhecida e completamente rara
do fascinante gênero fantástico. A cópia que tenho em VHS foi gravada de uma
exibição na televisão por volta de 1990 pelo SBT, numa madrugada perdida no
meio da semana onde eram exibidos alguns filmes dublados e também com
legendas em português, justamente para serem voltados a um público com
deficiência auditiva.  | |
Obviamente que as legendas atrapalharam a exibição, já
que elas somente tem valor quando o filme está em sua versão original em
inglês ou outro idioma, o que torna essa versão brasileira de “Os Monstros
da Noite” ainda mais exótica.
 | A narração do prólogo tem o objetivo de evidenciar o enorme fascínio que a
Antártica exerce sobre a humanidade, com seu imenso continente gelado e seus
segredos desconhecidos para a nossa Ciência. A história do filme começa
quando um grupo de cientistas está retornando da Antártica de avião para os
Estados Unidos trazendo na bagagem animais e plantas para estudos. Uma vez
sendo necessário reabastecer com combustível, os pilotos se comunicam com
uma base naval americana na Ilha de Gow, no Pacífico Sul, para a realização
de um pouso de escala. |
Porém, momentos antes do avião chegar ao aeroporto da
ilha, ocorre um incidente interno e todos os cientistas da expedição e o
co-piloto misteriosamente se desesperam com algo que viram e se jogam do
avião preferindo cair para a morte ao invés de enfrentar um perigo
desconhecido vindo do compartimento de cargas da nave. O piloto sobrevivente
consegue ainda aterrissar o avião em segurança, mas ele fica em estado de
choque e é internado no hospital da ilha.
 | Os militares em terra, sob o comando do tenente Charles Brown (Anthony
Eisley), passam a investigar o misterioso sumiço dos cientistas do avião e
retiram as cargas, basicamente composta por pinguins e amostras de árvores,
colocando-as num armazém. (Aqui percebe-se uma falha clara, pois os pinguins
são animais oriundos de regiões de baixa temperatura, e no avião eles eram
transportados em engradados comuns de madeira |
sem nenhum controle de
temperatura, e certamente morreriam no clima quente da ilha). Quanto às
arvores, eram estranhas amostras de vegetais colhidas para posteriores
pesquisas na América. Segundo os biólogos exploradores da Antártica, elas
foram descobertas numa região de 300 milhas quadradas de terra no meio do
continente gelado, onde havia um único tipo de vegetação que estava
protegido por lagos aquecidos subterrâneos, e que provavelmente eram tão
antigos que precediam a própria Idade do Gelo. Daí vem o fascínio da
humanidade pela Antártica, povoando o imaginário com seus segredos
desconhecidos.
A situação passou a se complicar na base naval da Ilha de Gow quando
começam a surgir os primeiros desaparecimentos de oficiais, supostamente
assassinados por um “monstro” desconhecido que atacava nas proximidades das
instalações. Mais tarde descobriu-se tratar das árvores vindas da Antártica,
que adquiriram o poder de se movimentarem sozinhas e matar tudo a sua volta,
desde homens, animais e até outras plantas. Elas possuem um líquido ácido
que causa queimaduras corroendo a carne humana e como na Antártica a noite
dura seis meses, elas desenvolveram um meio de se locomover atrás de
alimento, pois somente no verão essas árvores agiam como as normais
conhecidas pelo Homem, com suas raízes superficiais retirando o alimento do
solo.  | |
Com a capacidade de se multiplicarem rapidamente, os “monstros da noite”
estavam tomando conta da ilha e logo iam se apoderar da base naval, porém
aviões da Força Aérea Americana ancorados num navio próximo chegam no
momento certo para atacar os vegetais assassinos com bombas incendiárias de
napalm, e triunfar mais uma vitória do Homem sobre as forças maléficas do
desconhecido.
Um destaque é a cena onde um marujo andando inadvertidamente pela floresta,
é atacado por uma das árvores carnívoras e tem seu braço esquerdo arrancado
pelo vegetal mutante, vindo depois a sofrer uma morte agonizante envolto em
ácido corrosivo.
Os atores são medianos e alguns já foram vistos em participações em séries
de televisão e o interesse mesmo fica para a beleza da jovem loira Mamie Van
Doren, no papel da enfermeira Nora, que está apaixonada pelo tenente Brown,
o comandante da base naval da ilha.
 | “Os Monstros da Noite” é uma produção extremamente barata, com situações que
chegam a ser hilariantes, como o relacionamento militar entre os oficiais de
patente, com diálogos recheados de gírias (eles eram amigos entre si, mas a
arrogante disciplina militar está acima disso, principalmente quando em
serviço). Os efeitos, ou melhor, os defeitos especiais são até engraçados na
figura das árvores assassinas. |
Num momento rápido em que um grupo de
vegetais ambulantes está caminhando em direção à base naval, podemos notar
nitidamente que os “monstros” nada mais são do que estruturas simulando
árvores caminhando sobre pequenas rodas, num efeito bem precário. Na cena
final com os aviões despejando bombas sobre as plantas mutantes, percebe-se
claramente que são imagens aproveitadas de um exercício militar real numa
floresta.
“Ilha de Gow. No passado, virtualmente desconhecida do mundo. Hoje, um
ponto de referência na luta do Homem contra o desconhecido. Mais um passo à
frente na marcha da Ciência.”
Com esse desfecho narrado, após o desfile vitorioso dos aviões que
despejaram suas bombas sobre as plantas mortais, uma cena digna do mais puro
e convencional clichê, se encerra mais uma produção de baixo orçamento do
cinema fantástico, representante de um amadorismo tão ingênuo que se
transforma numa grande diversão para os fãs de filmes “bagaceiros”, ou seja,
repletos de situações comuns, interpretações medíocres, história óbvia e
cheia de “furos”, efeitos “toscos” e todo tipo de falhas não propositais que
tornam a produção um verdadeiro exemplo do cinema “trash”. Apesar da
precariedade do filme, vale a pena conhecer “Os Monstros da Noite”, seja
pela curiosidade dos fãs do autor de ficção científica Murray Leinster, de
cuja obra se baseou o roteiro, ou principalmente pelo entretenimento
garantido de um filme completamente raro, incomum e desconhecido da
filmografia de ficção científica e horror dos anos 60 do século passado.
OS MONSTROS DA NOITE (The Navy Vs. The Night Monsters / Monsters of the
Night, EUA, 1966) – cores, 84 minutos
Direção e roteiro: Michael A. Hoey. Produção: George Edwards.
Fotografia: Stanley Cortez. Direção de Arte:Paul Sylos. Música: Gordon Zahler. Maquiagem: Harry Thomas. Baseado no livro “Monster from Earth´s End, de Murray Leinster Elenco: Mamie Van Doren, Anthony Eisley, Bobby Van, Walter Sande, Phillip
Terry, Pamela Mason, Billy Gray, Edward Faulkner, David Brandon, Del West,
Kaye Elhardt, Biff Elliot, Taggart Casey, William Meigs, Russ Bender,
Garrett Myles, Mike Sargent, Paul Rhone.
Texto: Renato Rosatti
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