A MOSCA

por André Bozzetto Junior

Em 2002, quando foi lançado o filme "Spider - Desafie sua Mente", lembro de estar lendo uma resenha sobre a obra, quando me chamou a atenção o fato do crítico ter se referido ao diretor David Cronenberg como sendo "O Mestre Melancólico do Horror". Achei tão curiosa essa alcunha destinada ao canadense, que parei para refletir sobre os filmes que eu já havia assistido desse cultuado diretor. E fazendo uma análise mais específica, cheguei a conclusão de que, realmente, a grande maioria dos filmes de Croneberg podem muito bem ser referenciados não somente pela escatologia e pelo flerte com a ficção cientifica que o ajudaram a obter notoriedade, mas também pela realidade depressiva, desesperançada e inevitavelmente trágica em que vivem seus personagens. Salvo pouquíssimas exceções, os protagonistas de suas obras são indivíduos atormentados, por vezes doentios, e que evidenciam ao longo de suas trajetórias verdadeiros embates contra inimigos que, na maioria das vezes, não estão no obscuro e degradado mundo exterior, mas dentro deles próprios.
Como exemplos dessa perspectiva, podemos mencionar "A Hora da Zona Morta" (uma das únicas adaptações decentes de uma obra de Stephen King para as telas), o polêmico "Crash - Estranhos Prazeres", "Mistérios e Paixões" (um filme de teor experimental, bizarro e surreal), o já mencionado "Spider" (com uma brilhante atuação de Ralph Phinnes no papel de um esquizofrênico) e "A Mosca".Este último notadamente é o verdadeiro foco desse artigo, por ser, na minha opinião, a obra-prima definitiva do diretor, mesclando em um mesmo trabalho os elementos gore e escatológicos que marcaram os filmes do seu início de carreira, com uma perspectiva mais intimista e existencial, que tem delimitado os seus trabalhos mais recentes.

Essa obra, concebida em 1986, constituiu-se em um enorme sucesso, tendo alavancado a carreira da maioria dos envolvidos, de atores a membros da equipe de produção, e culminou por se tornar um dos maiores clássicos daquela década dentro do gênero, e segue sendo um filme referencial e cultuado até nos dias atuais.

Na verdade, esse filme é uma refilmagem de "A Mosca da Cabeça Branca", filme realizado no longínquo ano de 1958, dirigido por Kurt Neumann e tendo no elenco nomes como David Hedison, Patricia Owens e o lendário Vincent Price. Logicamente, eu nunca encontrei esse filme em lugar nenhum, portanto não o assisti, e sinceramente, nem acredito que conseguirei assistir algum dia. Portanto, o pouco que sei sobre ele deriva de textos que li na internet. Mas voltaremos a comentar sobre ele mais tarde.



Partindo mais especificamente para o filme de Cronenberg, ele mostra a trajetória do cientista Seth Brundle (Jeff Goldblum) que está trabalhando para a Empresa Bartok, em um experimento secreto de teletransporte. Para garantir o sigilo da pesquisa, e mesmo para poder trabalhar com mais tranqüilidade, Brundle montou seu laboratório em um prédio semi-abandonado, na periferia da cidade. Aparentemente, o cientista leva uma vida voltada quase que exclusivamente para o trabalho, saindo muito pouco de seu apartamento/laboratório e mantendo-se praticamente alheio ao convívio social com outras pessoas. Talvez por isso o recluso Brundle tenha ficado tão deslumbrado quando conhece a bela jornalista Verônica Quaife (Geena Davis), em uma festa organizada pela empresa para qual trabalha.

Entre um drinque e outro, o cientista acaba convidando a moça para conhecer o seu laboratório, e ver com os seus próprios olhos a invenção que segundo ele "iria mudar a história da humanidade". Logicamente, a jornalista aceita, já pensando em que matéria sensacional ela poderia elaborar para a revista para qual trabalha.

Chegando ao local, o cientista mostra para Verônica a sua invenção: terminais, que segundo a jornalista mais parecem "cabines telefônicas esquisitas" capazes de teletransportar objetos à distância. Brundle explica que o processo funciona fazendo que o objeto utilizado seja praticamente decomposto instantaneamente em um terminal, para depois se reconstituir em uma fração de segundos no outro. O teletransporte vinha funcionando muito bem com objetos inorgânicos, mas ainda não havia dado certo com seres vivos, precisando ser aperfeiçoado. A jornalista fica abismada com o que vê, e passa a elaborar a "fantástica matéria" para a sua revista, para desespero do cientista.



Para a sorte de Brundle, o editor da revista e ex-namorado de Verônica, Stathis Borans (interpretado pelo canastrão John Getz), não acredita em uma linha do que a jornalista escreveu, achando tudo uma palhaçada, e diz que não vai publicar nada. A moça fica furiosa e diz que vai provar que as máquinas de teletransporte são reais. Nesse meio tempo, Brundle consegue convencer a jornalista a não publicar a matéria, mas sim acompanhá-lo permanentemente ao longo de suas pesquisas, para que, quando tudo estivesse concluído, ela pudesse então publicar um livro a respeito. Logicamente, o cientista queria ganhar tempo com essa atitude, assegurando, pelo menos momentaneamente, o sigilo do seu trabalho, mas ao mesmo tempo se mostrava satisfeito com a presença da moça.

Logo, o inevitável acontece: em meio ao trabalho, surge uma aproximação natural entre os dois, que rapidamente se transforma em romance. Com o passar do tempo, tudo parece transcorrer as mil maravilhas, Brundle consegue aperfeiçoar as máquinas, e depois de uma tentativa frustrada, o teletransporte de um babuíno é bem-sucedido. Mas quem conhece a carreira do diretor Cronenberg sabe que a felicidade em seus filmes é algo apenas ilusório e momentâneo. Neste filme em especial, parece proposital a atitude do diretor em fazer com que o expectador crie uma espécie de empatia com os seus personagens, como se com o intuito de nos comover ainda mais a partir do momento em que passamos a presenciar a tragédia que se abate sobre as suas vidas. E com Cronenberg isso sempre funciona.

Mas voltando ao filme, tudo parece correr bem, até uma noite onde Brundle é acometido por uma crise de ciúme, ao saber que Verônica anda sendo assediada pelo ex-namorado, e decide afogar as mágoas enchendo a cara. Depois de bêbado, decidiu relegar os cuidados habituais com a sua invenção, e cismou que iria testar o teletransporte em seres humanos, usando a si próprio como cobaia. Ao realizar o procedimento, tudo parece ter dado certo, com o teletransporte sendo realizado com sucesso. Porém, o cientista não percebeu que, ao entrar na máquina, uma mosca o seguiu. Conforme eu mencionei anteriormente, o processo de teletransporte se dava através da decomposição molecular do individuo em uma cabine, seguido da sua reconstituição em outra. Então, no momento em que o procedimento foi ativado pelo cientista, o seu corpo, e também o corpo da mosca, foram desintegrados em um terminal, e reconstituídos no outro. Acontece que a máquina não havia sido projetada para teletransportar dois corpos distintos de uma única vez, de forma que, no momento da reconstituição, o processo fundiu em nível molecular o corpo de Brundle com o corpo da mosca.



Em um primeiro momento, o cientista não percebeu nada de errado. Pelo contrário, passou a ser possuído por uma incrível sensação de bem-estar e euforia. Aqui está uma grande diferença entre esse remake e o original: pelo que eu li, no filme de 1958 a transformação do cientista foi imediatamente após o teletransporte mal-sucedido. Aliás, não foi exatamente uma transformação, mas na verdade duas, já que o cientista se transformou em uma criatura majoritariamente humana, mas com cabeça e um braço de mosca, enquanto a mosca se tornou um inseto com cabeça e uma das patas na forma de mão humana (!).

Voltando a versão de Cronenberg, o cientista saiu aparentemente intacto da máquina, mas em pouco tempo uma série de transformações graduais foram acontecendo. Inicialmente, Brundle descobre que possuiu força e agilidade sobre-humanas, o que rende uma ótima cena onde ele literalmente arrebenta o pulso de um cara durante uma disputa de "queda-de-braço". Paralelamente, o personagem dá sinais de que começa a perder a razão, insistindo em idéias desconexas, como por exemplo, na cena em que ele tenta obrigar Verônica a se teletransportar, para que ela também se torne uma "pessoa especial". Essas atitudes insensatas do cientista acabam por comprometer seu relacionamento com a jornalista, principalmente quando ela argumenta que ele parece ter ficado "muito doente" depois do teletransporte. Brundle acaba expulsando Verônica do seu apartamento, dizendo para que ela nunca mais apareça ali.



A partir desse momento, o filme acaba tomando o rumo que o consagrou em termos de gore e nojeiras em geral. O cientista finalmente se dá conta da lenta metamorfose que passa a se processar em seu corpo. Primeiro surgem manchas escuras na pele, seguidas de pêlos grotescos. Depois suas unhas e orelhas começam a cair, em meio a secreções gosmentas que passam a verter permanentemente de seu corpo. Não tarda para que Brundle descubra o tamanho da tragédia que se abateu sobre ele: em virtude do acidente no teletransporte, suas moléculas se fundiram com as da mosca, criando uma alteração na estrutura de seu DNA, o que irremediavelmente fará com ele se transforme em uma criatura híbrida de homem e mosca.

A história dá um salto no tempo, e mostra quando, vários dias depois, Verônica recebe uma ligação de Brundle pedindo para que ela vá até seu apartamento. Quando a moça chega ao local, surpreende-se com o estado deplorável em que se encontra o cientista. Essa cena em especial é um dos pontos fortes do filme, onde temos uma seqüência de nojeiras e bizarrices poucas vezes vistas até então em uma produção "hollywoodiana", onde Brundle literalmente vomita sobre um biscoito, com o intuito de depois ingeri-lo, junto com o próprio vômito. Em seguida a orelha do cientista cai em suas mãos, realçando ainda mais o clima grotesco da cena. Mais tarde o próprio Brundle iria explicar que o vômito na verdade é uma solução repleta de enzimas, que tem a função de decompor os alimentos para que depois sejam ingeridos, em um processo alimentar similar ao das moscas. É interessante perceber como hoje em dia pouquíssimos filmes tem ousadia para criar cenas tão repulsivas (principalmente os americanos) preferindo investir em "sustinhos" e até cenas de mortes off-screan para não "chocar" o público (ou seria os responsáveis pela censura?) e com isso tornar as produções mais acessíveis, e principalmente mais rentáveis.

Desse momento em diante, a trama se concentra em mostrar o drama do cientista e sua namorada tentando em vão encontrar uma forma de reverter o processo de metamorfose. Drama esse que se acentua à medida que o corpo de Brandle se distancia cada vez mais da forma humana, e chega a seu ápice com a descoberta de que Verônica está grávida, e talvez esperando um filho tão monstruoso como o pai. Não pretendo mencionar a sucessão de acontecimentos que culmina com o final do filme, mas posso assegurar que ele é concebido bem ao estilo de David Cronenberg, amargo e pessimista.



Ainda existem ao longo do filme pelo menos uma meia dúzia de cenas memoráveis, daquelas que você fica vários dias se lembrando depois de ter assistido, como a primeira vez em que vemos Brundle andando pelas paredes como uma verdadeira mosca-humana, a repulsiva coleção que o cientista mantém no espelheiro do banheiro, composta de partes de seu corpo que apodreceram e caíram, a parte do sonho com o bebê-larva, a luta do Brundle-mosca contra Stathis, e a última etapa da metamorfose, no final, onde temos o auge da nojeira.
Parece-me interessante mencionar também o fato de que esse filme ganhou o Oscar de melhor maquiagem em 1986, desenvolvida por Chris Walas, que também cuidou de todos os outros efeitos especiais da produção. Walas já havia trabalhado em outros filmes do gênero, fazendo os efeitos em "Gremlins" "Scanners" e "A Casa do Espanto 2", apenas para citar alguns. Na equipe de Walas também havia um técnico chamado James Isaac, que trabalhou nos efeitos de outros filmes de Cronenberg, como "eXistenZ" e "Mistérios e Paixões", e mais recentemente se tornou conhecido ao dirigir a bomba "Jason X" (onde Cronenberg participa como ator!).
Em 1989, o próprio Chris Walas dirigiu "A Mosca II", seqüência do sucesso de Cronenberg, que apesar de não possuir o brilhantismo de seu antecessor, ainda assim consegue obter um resultado bastante satisfatório.
Falando um pouco sobre os atores, é interessante notar que Jeff Goldblum viria a ficar estigmatizado como o eterno cientista depois desse filme, vindo a repetir o papel de homem da ciência em produções como "Jurassic Park - Parque dos Dinossauros", "Jurassic Park II - O Mundo Perdido" e "Independence Day". Geena Davis também viu sua carreira engrenar depois desse sucesso, vindo a participar de produções mais voltadas para a comédia, como "Os Fantasmas se Divertem", "O Turista Acidental", "Thelma e Louise" e mais recentemente "O Pequeno Stuart Litlle" e "Stuart Litlle 2". Ainda como curiosidade, Jeff Goldblum e Geena Davis passaram a desenvolver um romance real nos bastidores das filmagens, tanto que se casaram em 1987, e permaneceram juntos por três anos.

Por fim, me parece que assistir a esse filme é algo obrigatório para qualquer fã de horror e ficção científica que se preze, pois ele representa não só um exemplar de destaque entre os filmes ousados e perturbadores, daqueles que quase não se vê mais atualmente, mas também a obra máxima de um dos diretores mais brilhantes e merecidamente cultuados do nosso tempo.

André Bozzetto Junior


A MOSCA(The Fly, EUA, 1986). 95 minutos
Direção: David Cronenberg
Roteiro: David Cronenberg; George Langelaan; Charles Edward Pogue
Produção: Stuart Cornfeld
Fotografia: Mark Irwin
Música: Howard Shore
Edição: Ronald Sanders
Desenho de Produção: Ronald Sanders
Figurino: Denise Cronenberg
Direção de Arte: Rolf Harvey
Efeitos Especiais: Louis Craig; Ted Ross; Clark Johnson; Chris Walas
Maquiagem: Shonagh Jabour
Elenco: Jeff Goldblum (Seth Brundle); Geena Davis (Veronica Quaife); John Getz (Stathis Borans); Joy Boushel (Tawny); Leslie Carlson (Dr. Cheevers); George Chuvalo (Marky); Michael Copeman; David Cronenberg; Carol Lazare; Shawn Hewitt



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