A MOSCA 2

por André Bozzetto Junior

Uma tendência que tem sido bastante comum deste os tempos mais primordiais do cinema, e que se acentuou enormemente a partir do final da década de 1970, é o fato de que, sempre que um filme obtém um sucesso inesperado, os executivos da produtora responsável pela obra rapidamente elaboram uma seqüência para a mesma, com o intuito de lucrar o máximo possível à custa da popularidade e da receptividade da obra original. Dentro do gênero horror, isso tem acontecido com ainda mais freqüência, dando origem muitas vezes a longas franquias cuja qualidade se torna cada vez mais questionável ao decorrer do tempo. Como exemplos, podemos citar "Sexta-feira 13", "Halloween", "A Hora do Pesadelo" e "Colheita Maldita", apenas mencionando algumas das séries mais longas e/ou mais populares.
Com o redundante sucesso do filme "A Mosca", dirigido por David Cronenberg em 1986, e que chegou até a ganhar Oscar, a idéia de se produzir uma seqüência passa a ser algo até natural, diria quase inevitável, o que de fato acontece em 1989. Felizmente, temos aqui um raro caso em que a dita seqüência respeita fielmente o universo ficcional e a mitologia criada no filme original, seguindo a história anterior de forma coerente, e o que é melhor, sem se limitar a ficar simplesmente repetindo (ou auto-plagiando) todos os clichês que funcionaram na primeira obra.

Desta vez, Cronenberg não se envolveu mais no projeto, ficando a direção a cargo do técnico em efeitos especiais Chris Walas, que trabalhou nos efeitos do filme anterior, e portanto, estava bastante a par da situação. O interessante é que, além desse filme, Walas dirigiu apenas um episódio da divertida série "Contos da Cripta", também em 1989, e depois em 1992 o longa "Psicose Mortal", com Bill Paxton, e nada mais. Voltou a trabalhar apenas como técnico em efeitos especiais.



Mas de uma maneira geral, Walas realizou um bom trabalho, mantendo a dramaticidade do trabalho original e intercalando-a com momentos gore bastante interessantes, que se por um lado não superam aqueles vistos no filme de Cronenberg, por outro não decepcionam quem gostou da primeira produção.

O filme começa mostrando Verônica Quaife (Saffron Henderson, que no filme original foi interpretada por Geena Davis) na mesa de parto, prestes a parir o filho que estava esperando do cientista Seth Brundle (Jeff Goldblum), morto no final do filme anterior. O parto parece estar sendo muito difícil, e quando os médicos conseguem finalmente retirar o bebê, verificam que ele na verdade está dentro de uma espécie de casulo gosmento, que precisa ser aberto cirurgicamente para que a criança possa sair. Essa cena, além de já ser visualmente repulsiva, confirma as piores suspeitas que os personagens alimentavam no filme original, provando que, de fato, o filho de Seth Brundle herdara os genes mutantes do pai. Em virtude das complicações no parto, e talvez até pelo pavor de ver ao que havia dado a luz, Verônica acaba morrendo no bloco cirúrgico. Do lado de fora da sala, através de uma janela de vidro, Mr. Bartok (interpretado por Lee Richardson, que também atuou no fiasco "O Exorcista III"), dono da empresa para qual Brundle trabalhava, assiste a tudo atentamente.

A trama dá um salto no tempo, e mostra o garoto, que ficamos sabendo se chamar Martin, vivendo nos laboratórios da Empresa Bartok, sob permanente monitoramento de cientistas, e absolutamente alheio a realidade que se passa no mundo exterior. O menino é na verdade um grande prodígio, com um crescimento metabólico dezenas de vezes mais acelerado do que o de uma pessoa normal, e ao mesmo tempo dotado de uma incrível capacidade intelectual, algo similar a um verdadeiro gênio mirim. Vemos também que Mr. Bartok mantém uma aparente relação paternalista com o menino, tratando-o de forma gentil a atenciosa. Na verdade, Martin nem desconfia que desde o momento de seu nascimento tem sido mantido como uma espécie de prisioneiro, apenas para servir aos vis interesses da Empresa.



Como convive apenas com adultos, Martin sente falta de amigos mais apropriados, e na ausência destes, se habitua a ir até o canil da Empresa, onde brinca com os cães que servem como cobaias para experimentos científicos. Uma noite, Martin se esgueira até uma ampla sala, onde está prestes a acontecer um experimento com as máquinas de teletransporte inventadas pelo seu pai no primeiro filme. O garoto se espanta ao ver que a cobaia da experiência será justamente um dos cães dos quais ele mais gosta, e literalmente entra em pânico ao ver o resultado catastrófico do teste. O que acontece é que os cientistas da Empresa Bartok não sabem como fazer as máquinas de teletransporte funcionar, pois o único que sabia era o falecido Brundle. Então, em virtude da incompetência dos cientistas, o pobre cão sai da máquina transformado em um verdadeiro monstro rastejante, terrivelmente deformado após o insucesso do teste.

Temos nova passagem de tempo, e agora Martin está completando cinco anos de idade, embora já esteja com o corpo de um adulto (interpretado por Eric Stoltz, de "Anjos Rebeldes", "Anaconda" e "Pulp Fiction - Tempo de violência"). Após a festinha de aniversário, Mr. Bartok diz a Martin que ele "já está se tornando um homem", e que por isso passará a ter um pouco mais de autonomia, ao mesmo tempo em que poderá usar as suas brilhantes capacidades intelectuais para trabalhar na Empresa. Bartok leva Martin até as máquinas de teletransporte, e lhe explica que ninguém além de seu pai conseguiu fazê-las funcionar. Como ele era um verdadeiro gênio, talvez conseguisse descobrir afinal que intrincados recursos eram necessários para dar continuidade a brilhante invenção do pai. Com sua ingenuidade, Martin aceita de bom grado a tarefa, e até fica feliz em poder trabalhar para Bartok, por quem ele nutre grande afeição.

Aqui cabe uma explicação: Martin nunca esteve realmente a par de sua real situação. Disseram a ele que o pai havia morrido em decorrência de uma doença rara que causava envelhecimento precoce. O próprio Martin sofreria dessa doença, que os cientistas chamavam de "Síndrome do Crescimento Acelerado de Brundle", mas o garoto acreditava estar tudo sobre controle, pois ingeria diariamente uma série de medicamentos que acreditava terem a função de retardar os efeitos degenerativos da moléstia. Ledo engano.

Satisfeito com a sua nova função, Martin trabalha com afinco, e logo começa a ter alguns resultados positivos com as máquinas de teletransporte. Certa noite, enquanto perambulava pelos corredores do gigantesco complexo de laboratórios, Martin encontra uma funcionária chamada Beth Logan (Daphne Zuniga, que se tornou conhecida com o seriado "Melrose"), e logicamente, os dois rapidamente se tornam amigos, e em seguida namorados (ou amantes, ou algo do gênero, enfim). E é a partir daqui que o mundo de Martin começa a desmoronar, com o desencadear de uma série de problemas ao mesmo tempo. Primeiro, ele descobre que algo não está bem em seu organismo, ficando sabendo mais tarde se tratar dos sintomas iniciais da metamorfose que irá lhe transformar em monstro-mosca. Depois, Beth começa a ser perseguida e ameaçada pela Empresa, que não quer seu envolvimento com Martin. Para piorar, o jovem descobre que aquele cachorro do qual ele gostava e que se transformou em um monstro na experiência falhada de teletransporte, vem sendo mantido vivo em condições deploráveis, numa espécie de jaula subterrânea. Essa cena realmente é de dar um nó no estômago do expectador.



Por fim, Martin encontra uma fita VHS onde o seu pai, já em adiantado estado de metamorfose, aparece falando sobre o acidente no teletransporte que o transformou em uma criatura mutante. A par da verdade, o jovem se revolta e foge juntamente com Beth.

Sem saber o que fazer, e com o processo de metamorfose se desenvolvendo de forma cada vez mais rápida, Martin decide visitar Stathits Borans (novamente interpretado por John Getz), que era ex-namorado e chefe da sua mãe, Verônica, e que conhecia a história de seu pai, e portanto, talvez pudesse lhe dar alguma informação útil. Em virtude do confronto que teve com o Brundle-mosca no filme anterior, Stathis está bastante deformado, e totalmente entregue ao alcoolismo. Ele conta para Martin e Beth o que aconteceu naquela trágica noite, e que aparentemente, não há nada que possa ser feito para reverter o processo de metamorfose. Desanimados, Martin e Beth vão embora e se hospedam em um motel de beira de estrada.

Um dos pontos legais do filme, e que fica evidente neste momento, é o ótimo entrosamento entre Eric Stoltz e Daphne Zuninga, que realmente convencem como um jovem casal amedrontado e desorientado, sem saber como lidar com uma situação dramática e assustadora. O diretor Walas também consegue imprimir um bom ritmo nessa primeira parte do filme, que se concentra mais em explicar a situação dos personagens, introduzindo informações e fazendo ganchos que retomam pontos em aberto do filme anterior.

No motel, a metamorfose de Martin entra em um processo de aceleração, deformando o rapaz, ao mesmo tempo em que começa a se desprender de sua pele uma série de resíduos que começam a formar uma crosta muito grotesca, que de certa forma lembra um casulo. Beth insiste que ambos devem voltar aos laboratórios da Empresa Bartok e que lá pelo menos Martin poderá receber assistência, mas ele se recusa, dizendo que já sabe o que deve ser feito, e que na verdade ele não está ficando debilitado, mas sim ganhando força. Mais tarde, Martin acaba perdendo a consciência, e Beth, pensando em ajudá-lo, chama o pessoal da Empresa Bartok, que os leva de volta aos laboratórios.



Nesse último ato, o filme deixa de ser um drama com elementos de ficção cientifica e finalmente descamba para o horror, com ótimas cenas gore e um ritmo que se mantém frenético e empolgante até o final.

Beth passa por uma bateria de testes imposta pelos cientistas da Empresa, onde se constata que ela não foi "infectada" (entenda-se "engravidada") pelos genes mutantes do namorado. Paralelamente, Martin, que estava em outra sala, completa a sua metamorfose, se transformando numa horrenda criatura, parte homem, parte mosca. Em seguida, ele mata uma cientista que veio para analisá-lo, e foge espalhando uma trilha de cadáveres e destruição pelos corredores dos laboratórios. Aqui se concentram alguns dos melhores momentos do filme, onde entendemos porque Martin disse que estava "ficando mais forte" com a transformação. O estrago que ele faz é realmente memorável, com direito a ótimas cenas gore, como no momento em que ele vomita no rosto de um guarda, fazendo-o derreter lenta e dolorosamente, ou ainda quando outro guarda é arremessado no poço do elevador, tendo sua cabeça esmagada de forma muito violenta.

O visual da criatura também ficou muito bom, de certa forma até mais convincente do que a forma final da mosca-brundle, que vemos nos últimos instantes do filme anterior. O legal dos filmes dessa época é que os monstros eram concebidos com efeitos de maquiagem e animatrônica, que, na minha opinião, geravam resultados bem melhores do que a grande maioria dos trabalhos em computação gráfica atuais.

No final, descobrimos que Martin não está matando pessoas e destruindo tudo a esmo. Ele tem um claro objetivo.

Não vou revelar o desfecho do filme, mas posso dizer que ele tem uma conclusão até satisfatória, embora entre em contradição com o final do filme anterior, no que se refere ao uso das máquinas de teletransporte. Já conversei com vários fãs que não gostaram do desfecho dessa obra, alegando que o aparente "final feliz" não combina com o restante da trágica saga dos Brundle. Não quero parecer moralista, mas diferente de Seth Brundle, que no primeiro filme foi desgraçado por um mal que ele próprio criou, Martin sempre foi, desde o seu nascimento, uma vítima dos interesses da Empresa Bartok, e de uma maneira geral, da sua própria condição de existência. Assim, me aparece bastante aceitável que no final das contas ele possa ter uma vingança em grande estilo contra tudo aquilo que lhe fez sofre.



Em síntese, "A Mosca II" não é um filme grandioso como o seu antecessor, mas merece ser conferido pela coerência mostrada ao dar continuidade de forma decente a história iniciada na obra original, e principalmente pelo fato de que, mesmo tendo seus percalços, se constitui em uma obra envolvente e cativante, do tipo difícil de se encontrar atualmente.

André Bozzetto Junior


A MOSCA 2(The Fly 2, EUA, 1986). 95 minutos
Direção: Chris Walas
Roteiro: Frank Darabont; Ken Wheat; Jim Wheat; Mick Garris
Produção: Steven-Charles Jaffe
Produção Executiva: Stuart Cornfeld
Fotografia: Mark Irwin
Música: Christopher Young
Edição: Sean Barton
Desenho de Produção: Michael S. Bolton
Figurino: Christopher Ryan
Direção de Arte: Sandy Cochrane
Efeitos Especiais: Jon Berg; Don Bies; Rory Cutler; Stephan Dupuis; Corbin Fox
Maquiagem: Jayne Dancose; Sydney Silvertr
Elenco: Eric Stoltz (Martin Brundle); Daphne Zuniga (Beth Logan); Lee Richardson (Bartok); John Getz (Stathis Borans); Frank C. Turner (Shepard); Ann Marie Lee (Dr. Jainway); Gary Chalk (Scorby); Saffron Henderson (Veronica 'Ronnie' Quaife); Harley Cross; Matthew Moore; Rob Roy (Wiley); Andrew Rhodes (Hargis)



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