O SEGREDO DA MÚMIA

Por Felipe M.Guerra

Uma múmia, um cientista louco e seu ajudante Igor... todos no Brasil!

"O quê? Uma múmia no Brasil?". Sim, esta é a primeira pergunta que vai fazer qualquer pessoa normal que olhar o título e o cartaz de O SEGREDO DA MÚMIA, um filmaço orgulhosamente brasileiro dirigido em 1982 por Ivan Cardoso - então um reconhecido diretor de curta-metragens, em sua estréia cinematográfica. Injustamente esquecida no país, peça-rara nas locadoras e inédito em DVD (vez por outra passa na TV aberta ou por assinatura, sem grande alarde), O SEGREDO DA MÚMIA é uma daquelas obras-primas do cinema nacional que não podem permanecer na obscuridade.



Para começo de conversa, quem além de um verdadeiro gênio (ou louco) iria pensar no fato de uma múmia atacar no Brasil??? Aquele mesmo Brasil de cenários tropicais e ensolarados, mulheres de pouca roupa e etc.? Convenhamos: múmias combinam mais com os ingleses e suas mansões góticas, seu nevoeiro, ou então com aquelas produções americanas classe B rodadas no Egito.

Entretanto, a visão de uma múmia decrépita caminhando pelas ruas brasileiras em plena luz do dia é um daqueles momentos realmente mágicos, que só mesmo o cinema proporciona. E só isso, esta curiosidade de ver a tal múmia brasileira, já valeria uma olhada em O SEGREDO DA MÚMIA. Mas Ivan Cardoso vai mais além: ele coloca seus personagens principais em uma expedição ao Egito (sendo que o "Egito" é filmado em algum lugar do Brasil), inclui flashbacks mostrando o Egito Antigo de milhares de anos antes de Cristo (que só foram filmados no Brasil, como ainda mostram faraós falando português!!!), entre outras divertidíssimas loucuras. Emprestando o slogan do canal de TV por assinatura Telecine, "isso é cinema!".

E foi justamente esta a frase usada pelo cineasta Samuel Füller (um dos preferidos de Quentin Tarantino, diretor de filmes clássicos como AGONIA E GLÓRIA). Ao ouvir falar sobre um filme brasileiro chamado O SEGREDO DA MÚMIA, Füller espantou-se e declarou, emocionado: "Uma múmia no Brasil? Ah, isso sim é cinema!", pontuando aquilo que eu falei no início do texto.



Para o diretor Ivan Cardoso, isso nem é novidade. Afinal, um de seus primeiros trabalhos em curta-metragem chamava-se justamente NOSFERATO NO BRASIL. Feito nos anos 70, mostrava o poeta Torquato Neto interpretando um vampiro que ia à praia sem camisa, mas usando sua enorme capa vampiresca. O filme se passava todo de dia, pois Cardoso não tinha condições de filmar à noite. Mas o cartaz da produção vinha com a recomendação: "Onde se vê dia, veja-se noite". Genial!

Por isso, a presença da tal múmia no Brasil em O SEGREDO DA MÚMIA espanta, sim, no começo. Mas logo, à medida que o filme vai rolando, ficamos tão acostumados com a brincadeira que é como se tudo fizesse sentido, como se um faraó mumificado de tantos mil anos pudesse mesmo estar não só no país, como andando livremente pelas ruas e assassinando pessoas!

Com um ponto de partida tão absurdo, não espanta o fato de Cardoso ter demorado muito tempo para conseguir tirar seu projeto do papel. É só lembrar que personagens de terror nunca tiveram muito espaço no cinema brasileiro, com exceção do Zé do Caixão, um "monstro" nacional criado por um brasileiro, José Mojica Marins. Mas pense fazer um Drácula ou um Frankenstein em terras tupiniquins... Daria certo? A idéia de O SEGREDO DA MÚMIA surgiu em 1977. Ivan e alguns amigos (especialmente Eduardo Viveiros) bolaram um pré-roteiro chamado A MÚMIA VOLTA A ATACAR, e chegaram a filmar algumas cenas, mas o projeto foi abandonado devido ao alto custo... das bandagens que vestiam a múmia!!! Terceiro Mundo é isso...



Em 1978, Cardoso ainda não tinha o roteiro de um longa-metragem, mas não desistiu: tentou fazer algumas filmagens tendo como cenário o Instituto Oswaldo Cruz, em Manguinhos, convidando atores como Wilson Grey, Felipe Falcão e o compositor Julio Medaglia (que nunca tinha interpretado antes). Naquela época, o nome oficial do projeto era O LAGO MALDITO. Sem história definida, o filme foi abandonado e Ivan dedicou-se a dois documentários (DR. DYONÉLIO, filmado em Porto Alegre, e CINE-TEATRO NÔ, sobre Hélio Oititica). Depois, ainda sem desistir da múmia, pensou em transformar sua história em um seriado. Até bolou os três primeiros capítulos. Acontece que, naquela época, existia uma famigerada lei que obrigava as salas de cinema brasileiras a exibirem curta-metragens brasileiros. Amparado nesta lei, Ivan poderia dividir a saga da múmia em fragmentos e colocar estes capítulos em cinemas diferentes, como os americanos faziam nos anos 50 e 60, com os antigos seriados em preto-e-branco - que até inspiraram Steven Spielberg a fazer OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA.

Para melhor dividir e estruturar os capítulos, o diretor decidiu procurar a ajuda de um profissional. Lembrou que quando fazia o documentário O UNIVERSO DE MOJICA MARINS, sobre o célebre intérprete do Zé do Caixão, Mojica havia falado maravilhas de um autor chamado Rubens Francisco Lucchetti, que era uma verdadeira oficina de roteiros, capaz de escrever bons textos rapidamente. O próprio Lucchetti era um apaixonado por cinema, como Cardoso, e os interesses fecharam na hora - inclusive o autor havia escrito os roteiros de várias histórias de quadrinhos de horror com múmias, publicadas nos anos 60, com desenhos do mestre Júlio Shimamoto.

Ivan explicou a Lucchetti sua idéia sobre o seriado O LAGO MALDITO, a princípio uma sátira das produções americanas. Foi Lucchetti que sugeriu não só fazer uma homenagem ao invés de uma sátira, mas também transformar o roteiro em filme, não em seriado. E assim nasceu O SEGREDO DA MÚMIA. O trio principal de atores (Wilson Grey, Felipe Falcão e Julio Medaglia, que também ficou responsável pela excelente trilha sonora) foi contratado, assim como muitos outros atores para preencher os arquétipos de filmes do gênero: uma loira sensual tipo Marilyn Monroe, uma heroína boazinha, o herói jornalista, etc.

Fã das velhas chanchadas brasileiras feitas nos anos 60, Cardoso conseguiu um verdadeiro elenco dos sonhos para fazer pequenas participações no filme. Famosos como Joel Barcellos, Paulo César Pereio, Jardel Filho e Cláudio Marzo aparecem em cena por meros segundos. Barcellos, que gozava de certo prestígio na época, tem tão pouco tempo em cena que quase nem aparece, sendo morto a tiros logo no começo. Também há participações-relâmpago de José Mojica Marins, Patricia Travassos, Maria Zilda, Nina de Pádua e muitos outros.



E assim, cinco anos depois que começou a ser concebido, o famoso filme de múmia de Ivan Cardoso estava pronto. O lançamento foi em 1982, levando mais de um milhão de brasileiros ao cinema. A múmia interpretada por Anselmo Vasconcellos (é o próprio ator, e não um dublê, por debaixo das bandagens) virou coqueluche nacional, ganhando capas de jornais e revistas e aparecendo até no programa do Flávio Cavalcanti - o auge do sucesso na época!

O SEGREDO DA MÚMIA começa com takes em preto-e-branco da morte de um importante arqueólogo (uma participação especial de José Mojica Marins, o Zé do Caixão). Com a voz embargada, deitado na cama, ele conta à sua família ter um mapa que aponta a localização exata do sarcófago do faraó egípcio Runamb, e que gostaria que seus herdeiros empreendessem uma expedição para desenterrar a múmia. Só que um personagem misterioso, de quem só vemos os olhos e os sapatos, observa tudo, nas sombras.



O arqueólogo moribundo rasga o mapa para a tumba de Runamb em partes, que divide entre seus herdeiros. O que se sucede é uma sucessão de crimes "classe B" retirados dos velhos filmes policiais americanos dos anos 40, como pessoas levando navalhadas enquanto estão no salão de barbeiro, punhaladas nas costas, envenenamento, tiros, entre outras formas de assassinato. Cada morte envolve o personagem misterioso do início, onde novamente só são mostrados os seus sapatos, e após cada assassinato é mostrada uma cena do carrasco montando o mapa com os pedaços que rouba das vítimas. Enquanto isso, o célebre programa de rádio "Repórter Esso" informa que há um psicopata à solta, matando professores e pesquisadores. O próprio detalhe dos "pedaços do mapa do tesouro" é um clichê tão antigo quanto o cinema!

Descobrimos que o assassino é o professor Expedito Vitus (Wilson Grey), um cientista louco que foi ridicularizado quando anunciou ao mundo ter inventado um "Elixir da Vida", que poderia não só ressuscitar os mortos, como também dar-lhes vida eterna. Foi acusado de charlatão, embora tenha testado a fórmula, com sucesso - mas secretamente -, no seu criado Igor (Felipe Falcão), que voltou da morte completamente lelé da cuca e disposto a fazer TUDO pelo professor - e ele friza o "tudo" falando diretamente para a câmera, com os olhos arregalados.

A legenda mostra "Cairo, 1954", e somos brindados com uma edição incrível da expedição do professor Vitus ao Egito. Claro que ninguém saiu do Brasil: os atores estão simplesmente caminhando por dunas de alguma praia qualquer enquanto entram, na montagem, cenas de pirâmides e esfinges tiradas diretamente de um documentário sobre o Egito. Mas a colagem é tão bem feita que o espectador mais desavisado é capaz de acreditar que Ivan Cardoso e sua turma realmente estiveram à sombra das pirâmides.



Entra então um daqueles velhos programas de notícias que eram exibidos no cinema, antes da popularização da TV no Brasil. O noticiário "Atlântida Cinematográfica" mostra primeiro cenas reais da Miss Brasil de 1957, Marta Rocha, recebendo a faixa de vencedora do poeta Manuel Bandeira. Em seguida, entra a notícia sobre "a maior descoberta arqueológica do século", feita pelo cientista brasileiro Expedito Vitus. Pois é, ele encontrou mesmo a múmia de Runamb e a trouxe ao Brasil.

Somos então apresentados aos outros personagens centrais da trama. Na reservada mansão do professor Vitus, que fica em meio ao bosque, moram, além do próprio Vitus e de Igor, o assistente do cientista, dr. Rodolfo (o maestro Julio Medagalia), a bela esposa de Vitus, uma loira fogosa estilo Marilyn Monroe chamada Gilda (Clarice Piovesan), e a empregada doméstica Regina (Regina Casé), que tem um caso amoroso com Igor - na seqüência de sexo mais gratuita e estapafúrdia de todos os tempos, onde a esquisita Regina ganha até um sexo oral explícito do asqueroso Igor!

O professor Vitus confessa a Gilda que quer usar seu Elixir da Vida para trazer o faraó Runamb de volta à vida, e então vingar-se de todas as pessoas que riram de suas teorias. Naquela noite, ao decifrar os hieróglifos encontrados junto ao sarcófago da múmia, Vitus descobre que Runamb (interpretado por Anselmo Vasconcellos) era apaixonado por uma bela escrava chamada Nadja (Tânia Boscolli), que, entretanto, não dava a mínima para ele. Em cenas de flashback que recriam de forma barata, mas eficiente, o Egito Antigo, vemos Runamb comprando belas escravas para possuir; mas em todas elas o faraó enxerga o rosto de Nadja, fazendo com que, em sua raiva, Runamb as assassine das formas mais variadas. Quando seus crimes são descobertos, ele é aprisionado e condenado à morte. Sua sentença: "Terás seu corpo mumificado para que nem a morte o redima de teus pecados!" - dita por um egípcio falando português perfeito!



À noite, Vitus e Rodolfo ressuscitam a múmia. Sem contar nada para Rodolfo, o cientista resolve usar Runamb para uma nova experiência: provar que o instinto pode superar a razão (como o dr. Oxiac Odez, interpretado por José Mojica Marins, provou em uma das histórias do filme O ESTRANHO MUNDO DE ZÉ DO CAIXÃO; a referência não é gratuita, e no roteiro original o professor Vitus até citava o nome de Oxiac Odez). Para isso, a múmia rapta mulheres indefesas nas redondezas da mansão do cientista, sempre matando seus companheiros, e as leva para o calabouço nos subterrâneos da mansão, onde as moças são deixadas sem comida ou água para virarem, lentamente, feras dotadas apenas de instinto e selvageria.

Paralelamente, entra na trama um casal de repórteres, Cláudio Vilasboas (interpretado por Evandro Mesquita, que naquela época começava a fazer sucesso com a banda de rock Blitz) e Miriam (Tânia Boscolli, novamente). Ambos trabalham na Rádio Mundo. Movido pelo seu instinto de jornalista, Cláudio acredita que algo de estranho está acontecendo na mansão do professor Vitus. Sabendo que o seu mestre odeia repórteres, Igor promete matar qualquer um que se aproximar. E Miriam é a reencarnação do grande amor de Runamb, Nadja, o que será fundamental para a conclusão da trama.



Uma outra subtrama envolve a traição de Gilda, que se relaciona secretamente com o assistente de seu marido, o dr. Rodolfo. Mas o caso extraconjugal não passa desapercebido: Igor percebe o que está acontecendo nas costas do seu mestre e resolve se vingar.

Com tantas idas e vindas, voltas e reviravoltas, a múmia acaba se transformando em personagem secundário da trama, mas rouba o filme sempre que aparece. Como todo bom besteirol, é impossível não morrer de rir com a reação das vítimas ao encararem a múmia frente a frente. Os próprios personagens parecem não acreditar ser possível que uma múmia ataque no Brasil, e ainda encaram aquilo como se fosse a coisa mais normal do mundo.

O momento mais impagável é o primeiro ataque do monstro, quando um jogador de pôquer (interpretado pelo comediante Colé Santana, morto em 2000) está num motel transando com uma vagabunda (interpretada por Maria Zilda, então no auge da gostosura), quando Runamb surge de repente, arrebentando a porta de isopor (como ele passou pela portaria e pelas ruas movimentadas, não me pergunte!). Ao ver aquele cadáver mumificado com milhares de anos, envolto em ataduras apodrecidas, caminhando lentamente em sua direção, Colé primeiro fica tranqüilo, pois achava que era o marido de Maria Zilda. Depois, solta a pérola: "O quê? Uma múmia? Mas que porra de motel é esse?". Quando Runamb se aproxima lentamente, ele diz: "Mas eu sou macho! E se tu é homem, vem pra briga, vem!", tentando sair no braço com a múmia!!!



Outro ataque memorável envolve Patricia Travassos (naquela época também uma gostosona) e Cláudio Marzo (em participação especial), que estão namorando no banco de trás de um carro conversível. Quando Runamb se aproxima, Marzo grita "Uma múmia!", e tenta dar a partida no carro, mas o faraó levanta a traseira do veículo, fazendo as rodas girarem no ar. Então, quando a múmia coloca o carro no chão novamente, era só acelerar e fugir... Mas Marzo diz "Ah não, não vou fugir, eu vou enfrentar!", e sai tentando bater na múmia, obviamente recebendo o castigo merecido!

No fim, muito além de uma comédia ou de um filme de terror, O SEGREDO DA MÚMIA é uma das mais apaixonadas homenagens ao cinema já produzidas - e, orgulhosamente, é feita por brasileiros! Cada clichê, personagem, diálogo e situação dos velhos filmes policiais e de horror dos anos 50, feitos principalmente nos Estados Unidos, está neste filme brasileiro. Não como paródia, mas mais como uma homenagem. Até o amor da múmia pela repórter Miriam, a reencarnação da sua paixão impossível, lembra o clássico A MÚMIA, de 1933, onde o faraó mumificado foi interpretado por Boris Karloff. Já os discursos do professor Vitus remetem diretamente à figura dos cientistas loucos dos anos 50, com suas mirabolantes teorias e promessas de vingança, do tipo "Eles riram de mim, mas eu vou rir por último". E o que dizer de Igor, o desajustado criado do professor, um clichê tão grande do cinema de horror (tanto no nome quanto no fato de ser um criado problemático) que não tem como levar o personagem a sério nem um minuto!



A verdade é que os personagens do filme não existem para parecerem pessoas normais, mas sim arquétipos representando os clichês do cinema universal feito até então - o mesmo que Quentin Tarantino fez 21 anos depois em KILL BILL. Há o cientista louco igual a centenas de outros, há o ajudante do cientista, há a loira fatal dos filmes policiais, há a heroína boazinha e indefesa, há o jornalista de óculos heróico e cheio de boas intenções, há o monstro, enfim, tudo está ali, no seu lugar.

O segredo (do filme, não da múmia) é a feliz reunião entre dois apaixonados por filmes e livros de horror, o diretor Cardoso e o roteirista Lucchetti. Este último escreveu um roteiro sério para o filme, que foi transformado em comédia por Cardoso - e nem podia ser diferente -, com atuações exageradas de todo o elenco. A representação exagerada, neste caso, cai bem no filme. É só olhar o caso de Clarice Piovesan, que interpreta a mulher do professor, quando ela descobre o plano do marido. "Vo-vo-você pretende restituir vida à múmia?", diz ela, com a mão na boca, como se estivesse assustada, mas a interpretação (e a dublagem) é tão forçada que o espectador é levado à risada. O exagero também está nos figurinos, especialmente na faxineira interpretada por Regina Casé, com seu uniforme padrão de empregada doméstica (sem faltar o avental e chapeuzinho brancos e um espanador na mão), que usa durante todo o filme. O detalhe é que, zelosa na limpeza, a empregada acaba tirando o pó até da múmia em determinada cena! Tem como levar a sério?



Assim, misturando horror, sátira, homenagem e chanchada, assustando e fazendo rir ao mesmo tempo, Cardoso, um diretor brasileiro, praticamente inventou o "terrir", ou seja, a mistura saudável de terror e humor, que a partir da metade dos anos 80 viraria uma regra nos filmes americanos - é só lembrar que filmes aliando horror e piadas, tipo REANIMATOR, A HORA DO ESPANTO, FOME ANIMAL e A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS, são todos POSTERIORES ao "nosso" O SEGREDO DA MÚMIA. Então, podemos dizer que Cardoso foi um dos pioneiros deste subgênero, que exploraria nos seus outros dois filmes feitos depois - os geniais AS SETE VAMPIRAS e O ESCORPIÃO ESCARLATE.

O SEGREDO DA MÚMIA alterna cenas em preto-e-branco com outras coloridas e diversas idas e vindas no tempo, mostrando flashbacks da vida de Runamb no Egito, a ressurreição de Igor e outros detalhes importantes para a compreensão da trama, que vão sendo desvendados aos poucos. A reconstituição de época também é primorosa, e nem parece tratar-se de uma produção barata. Além dos documentários dos anos 50, mostrando a descoberta da múmia e outros importantes fatos da década, Ivan usa cenas de arquivo, como de um avião antigo pousando, para representar a volta do professor Vitus do Egito. Roupas, rádios e veículos antigos também estão em cena, assim como a trilha sonora - tem até um ataque da múmia ao som de uma música da Jovem Guarda, momento impagável!



E, como todo bom filme brasileiro, O SEGREDO DA MÚMIA também tem toneladas de nudez gratuita - o que é bem-vindo, dentro da proposta bagaceira do filme. A quantidade de seios é tão grande que bate qualquer uma daquelas baboseiras chamadas de "erotic thrillers" pelos gringos. Todas as escravas egípcias possuídas por Runamb e sua amada Nadja aparecem sempre peladas, Regina Casé aparece completamente pelada numa cena de sexo, Tânia Boscolli tem uma cena de banho de chuveiro (frente e verso) gratuitíssima e que não acrescenta nada à trama, e, claro, todas as garotas seqüestradas pela múmia e aprisionadas pelo professor Vitus estão com os peitos de fora. Por que não fazem mais filmes assim?

Infelizmente, o diretor não aproveitou todos os detalhes do roteiro de Lucchetti no filme. Muita coisa ficou de fora, inclusive a cena em que Vitus explicava a Rodolfo o porquê de estar aprisionando as garotas com a ajuda de Runamb (o que no filme fica apenas sugerido). No roteiro, Vitus projetava slides mostrando as experiências do professor Oxiac Odez (quando apareceriam cenas de O ESTRANHO MUNDO DE ZÉ DO CAIXÃO), dizendo: "O instinto? A razão? O que são, na verdade? Onde um termina e o outro principia? Eu pretendo dar seguimento aos estudos do professor Oxiac Odez. Tudo em nome da ciência, meu bom Rodolfo!". O roteiro de O ESTRANHO MUNDO DE ZÉ DO CAIXÃO também é de Lucchetti...

Outro detalhe deixado de fora por Cardoso é um texto que apareceria no final do filme, depois de a múmia de Runamb desaparecer nas águas escuras de um lago: "E até hoje, dizem que em noites de luar a múmia aparece e perambula pelas margens do lado, na esperança de encontrar a sua amada. Mas a superstição do povo apelidou-o de O Lago Maldito, não compreendendo a BELEZA e a FORÇA que só o AMOR contém". A princípio, o nome do filme seria, justamente, O LAGO MALDITO.

Dentro de tantas boas sacadas, a alma de O SEGREDO DA MÚMIA é o ator Wilson Grey. Com uma carreira de mais de 50 anos no cinema nacional, Grey - que faleceu com 69 anos, em 1993 - fez participações pequenas em mais de 180 filmes. É impossível ver um filme brasileiro daquela época sem reconhecer o ator aparecendo rapidamente como capanga de bandido, bicheiro, gari, jornalista e outros papéis semelhantes.



Wilson Grey era tipo um Dick Miller do cinema brasileiro - para quem não sabe, Miller é um ator que também faz pequenas participações em filmes americanos desde os anos 50, tendo aparecido em mais de 120 deles. Ironicamente, O SEGREDO DA MÚMIA é seu único papel principal, numa verdadeira homenagem de Ivan Cardoso àquele "monumento" do cinema nacional que ele havia visto e revisto tantas vezes nas telas. No filme de Cardoso, Grey interpreta um cientista louco, sim, mas de bom coração, uma interpretação sensível, que fisicamente lembra Boris Karloff em alguns momentos - ainda mais com as exageradas sobrancelhas grossas do ator. Não tem como não ficar sensibilizado com o destino final do professor Vitus, que, no fundo, só queria provar que estava certo e acaba perdendo tudo o que mais amava... A cena em que ele abraça "o que restou" do seu criado Igor é dramática sem ser apelativa.

Ivan Cardoso reuniu a mesma trupe quatro anos depois, em 1986, quando fez outra bem humorada mistura de horror, humor, chanchada e homenagem ao cinema em AS SETE VAMPIRAS, mais uma vez com roteiro de Rubens Lucchetti. Desta vez, o roteiro mistura vampiros, um fantasma da ópera que ataca numa boate de strip-tease, um número musical onde sete vampiras dançam peladas, uma planta carnívora e um detetive chamado Raimundo Marlou! Novamente, Cardoso trabalha com um elenco brilhante, onde figuram nomes como Nuno Leal Maia, Andréa Beltrão, Nicole Puzzi, Simone Carvalho, Léo Jaime, Lucélia Santos, John Herbert, Ivon Curi, Zezé Macedo, Felipe Falcão, Tânia Boscolli, Pedro Cardoso, Dedé Santana e, claro, Wilson Grey (interpretando um velho oriental!!!!). Outro filmaço imperdível, e que imperdoavelmente hoje em dia não recebe o merecido crédito.

O SEGREDO DA MÚMIA é um filme obrigatório, capaz de despertar as emoções mais antagônicas: riso, horror, paixão, ódio... Mas uma coisa é certa: depois de ver este filme, e de ver uma múmia andando no Brasil em plena luz do dia, você nunca mais vai ser o mesmo. E, principalmente, vai começar a entender o que é aquela tal "magia" que dizem que existe no cinema. Que O CANGACEIRO! Que DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL!!! Verdadeiro clássico do cinema nacional é O SEGREDO DA MÚMIA! Fazer filme sobre o Nordeste e sobre as favelas brasileiras é fácil. Mas desde 1982, ninguém mais foi macho como Ivan Cardoso de fazer um filme de múmia no país. E aí? Vai encarar???




Felipe M.Guerra


O SEGREDO DA MÚMIA (O Segredo da Múmia, Brasil, 1982)
Direção: Ivan Cardoso
Roteiro: Ivan Cardoso e Rubens Francisco Luchetti
Produção: Ivan Cardoso; Fernando Carvalho; Rubens Francisco Luchetti; Zeca Parente; Anselmo Vasconcelos; Zelito Viana
Fotografia:Cezar Elias; João Carlos Horta e Renato Laclete
Edição:Ricardo Miranda; Gilberto Santeiro; Cristiana Tullio-Altan
Música:Júlio Medaglia e Gilberto Santeiro
Direção de Arte:Oscar Ramos
Elenco: Joel Barcellos; Rubem Barra; Maria Zilda Bethlem; Tania Boscoli; Regina Casé (Regina); Carina Cooper; Leovegildo Cordeiro (Radar); Felipe Falcao (Igor); Jardel Filho (Almir Gomes); Wilson Grey (Expedito Vitus); José Mojica Marins; Cláudio Marzo; Júlio Medaglia (Rodolfo); Evandro Mesquita (Everton Soares); Nelson Motta; Nina de Pádua; Dora Pellegrino; Paulo César Peréio; Clarice Piovesan (Gilda); Colé Santana; Sérgio Santeiro; Jane Silk; Sandro Solviatti; Patrícia Travassos; Anselmo Vasconcelos (Runamb); Carlos Wilson




Artigos