NOITE DOS MORTOS-VIVOS, A

por Gabriel Paixão

"Um pesadelo granulado em preto e branco que mudaria o curso dos filmes de terror para sempre..." - Stephen King.

Milhares de filmes são feitos todos os anos, mas apenas algumas centenas recebem um certo destaque. Destes, poucas dezenas são sucessos de bilheteria e crítica, contudo são raras as produções que passam a servir de referência e influenciam toda uma geração.

Cada um com a sua proporção e épocas distintas, podemos citar MATRIX, O SENHOR DOS ANÉIS, CASABLANCA, O PODEROSO CHEFÃO, CIDADÃO KANE e por aí vai. No gênero do terror, no entanto, estes filmes são ainda menos freqüentes: TUBARÃO, HALLOWEEN, PSICOSE, O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA... Só que desses, nenhum teve tanta importância histórica, cultural e estética e ao mesmo tempo foi tão problemático para seus realizadores quanto A NOITE DOS MORTOS VIVOS, do então estreante em longas George A. Romero.
Se você não conhece a obra-prima desse mestre, está na hora de conhecer e se deleitar com este maxi-artigo sobre o clássico; se já assistiu e quer saber quase tudo sobre ela, veio ao lugar certo. Relaxe na poltrona e boa leitura, pois os mortos se levantaram de forma definitiva nesta surpreendente produção de 1968, que há quase 40 anos aterroriza fãs do verdadeiro cinema de terror no mundo inteiro.



"We may not enjoy living together, but dying together isn't going to solve anything" - Helen Cooper

Capítulo 0 - The Latent Image - Tudo Começa Aqui

Para começar a falar sobre A NOITE DOS MORTOS VIVOS de maneira mais completa, primeiramente vamos olhar um pouco para o passado e falar sobre a The Latent Image, produtora que foi a pedra fundamental e o marco zero de toda a mitologia que envolve o filme.

Tudo começa com George Romero, que sempre teve o "bichinho" do cinema e, após sair do Instituto de Tecnologia de Carnegie-Pittsburg antes da graduação, recrutou seus colegas de colégio Richard Ricci e Russ Streiner para ajudar a criar uma produtora. Seu amigo de longa data John Russo também queria entrar no negócio, mas ele havia se alistado nas forças armadas por dois anos: "George e Russ me disseram que estavam começando uma companhia de filmes comerciais e quando eu saísse e estivesse com mais tempo poderia me juntar a eles", disse Russo em entrevista.



Então foi com uma câmera de 16mm, algum equipamento barato de iluminação e cinco mil dólares emprestados pelo tio de Romero, que estes três jovens ambiciosos começaram a procurar trabalho em pequenos filmes para TV e comerciais.

Ricci encontrou um pequeno lugar que seria seu "escritório", todavia pouco depois saiu da empresa. Como forma de agradecimento ajudou os membros remanescentes - Romero e Streiner – deixando pago seis meses de aluguel adiantado. "Vocês tem este lugar por seis meses", disse Ricci, "vejam se conseguem transformar isso em alguma coisa". E assim os dois se mudaram.

O escritório original da Latent Image era um cubículo localizado ao sul de Pittsburg. Russo se recorda do difícil início da caminhada: "Não havia equipamento de aquecimento ou, se havia, não funcionava... Em algumas manhãs de inverno George e Russ tinham que cortar gelo da privada antes que pudessem dar descarga".



Alguns trabalhos apareceram - a grande maioria se tratava de casamentos e chás de bebê – contudo isso não rendia muito dinheiro. Às vezes Romero vendia uma pintura a óleo por 50 dólares para faturar algum, entretanto eles não desistiram, mesmo que isso significasse trabalhar sem almoço por vários dias consecutivos.

As vacas continuaram magras até que, em 1963, uma oportunidade de investimento bate a porta: depois que eles colocaram um anúncio procurando investidores para um possível projeto de cinema, Vince Survinski chega a Latent Image com 10 mil dólares.

A produção seria uma história escrita por Rudy Ricci (prima de Richard Ricci) sobre um homem da Alemanha Ocidental que fugiu da prisão. Problemas ocorreram no decorrer e o projeto naufragou durante o desenvolvimento com todo o dinheiro sendo gasto.



Mesmo com o dinheiro desperdiçado, Survinski demonstrou ser um homem de visão ao oferecer mais 10 mil para a empresa, desde que eles concordassem em torná-lo um parceiro na companhia. Eles aceitaram e a parceria Romero-Survinski rendeu muito de seus futuros projetos de cinema.

Em seguida acontece o primeiro sucesso da Latent Image: um comercial rápido e eficiente para o "Buhl Planetary Sky Show". Larry Anderson - o cliente em questão - queria que neste comercial aparecesse um foguete pousando na Lua, se fossem bem sucedidos levariam 1600 dólares, mais do que qualquer trabalho já feito antes.

Obcecados pelo trabalho, Romero pintou os planos de fundo, Steiner ajudou com moldes de barro para simular a superfície lunar e outro primo de Ricci cedeu o foguete. Triunfaram, o comercial apareceu na TV e nos drive-ins da área com enorme sucesso e encontraram mais clientes. Em 1965 conseguem mudar de escritório no centro da cidade, com a chegada de John Russo, retornando do serviço militar.

Os clientes entravam gradualmente. Em 1967 tiveram progresso o suficiente para se tornar uma produtora totalmente equipada, com o trio trabalhando incessantemente: Romero, Steiner e Russo passavam muitas noites sem dormir viajando, editando e/ou filmando: "Criamos uma reputação em alguns círculos de sermos um núcleo de maníacos criativos que podiam fazem bons filmes com pouco dinheiro. No entanto passávamos quase a maior parte do tempo quebrados, frustrados e exaustos", desabafou Russo. Eles estavam entediados de fazerem apenas comerciais e queriam um filme de horror...mal sabiam o passo gigante que estariam dando...



"They're coming to get you, Barbara" - Johnny

Capítulo I - Da Idéia ao Roteiro - Do Cemitério Nasce o Mito

Na época, capitalizar sobre os filmes de terror era lucro certo, pois a indústria de filmes "tinha sede pelo bizarro", disse Romero, mas só as intenções não bastavam. A Latent Image não possuía capital suficiente para começar um projeto desta magnitude e precisariam captar investimentos externos. Desta forma, Romero e Streiner contataram Karl Hardman e Marilyn Eastman, presidente e vice-presidente respectivamente de uma firma de filmes industriais de Pittsburg chamada Hardman Associates Inc. e lançaram a idéia da película de horror ainda sem título ou história definidas. Então desta parceria uma nova empresa foi fundada, a Imagen Ten - composta por Romero, Russo, Streiner, Hardman e Eastman - e levantaram aproximadamente 114 mil dólares para orçamento do filme.

A partir daí, nasceu e se desenvolveu sobre o que seria a película propriamente dita. De acordo com o livro de John Russo - intitulado "The Complete Night of the Living Dead Filmbook" - assim que a Image Ten se solidificou eles queriam iniciar logo para que a chama que fez com que a empresa se iniciasse não apagasse. Era difícil, pois os envolvidos continuavam trabalhando nos filmes industriais e comerciais, havendo pouco tempo para se escrever um roteiro.



Para que o filme não morresse de inércia, Romero e Russo passavam algumas horas livres durante a noite debatendo e eventualmente escrevendo idéias para o que seria uma bagaceira sobre monstros (ou um "monster flick", título provisório nas palavras de Russo). Destas sessões noturnas dois conceitos descartados continham elementos que, subconscientemente ou de propósito, levariam as formas do que chegaria em A NOITE DOS MORTOS VIVOS.

O primeiro - e o principal candidato a ser filmada - seria um terror com tons de comédia sobre monstros do espaço: alguns adolescentes alienígenas se envolveriam com adolescentes da Terra, tornando-se amigos, enquanto figuras de autoridade bem caricatas tentariam, em vão, captar evidências de tudo o que está acontecendo. Os alienígenas teriam um animalzinho comilão chamado "The Mess", que parece um monte de spaghetti; e haveria um xerife devidamente chamado de "Xerife Suck", que é totalmente inábil, servindo de alvo de brincadeiras dos adolescentes.

O segundo era um mero filme de zumbis... Hehehe, brincadeira... De fato o tratamento original para A NOITE..., escrito por George Romero, não era nem um pouco inspirador: duas figuras sinistras caminham a noite em um cemitério carregando um caixão.
Sob a luz da lua, vemos que uma das figuras é um monstro com dentes longos e afiados e veias saltantes na testa e pescoço. Um misterioso meteoro cai na distância. Ambos são monstros, mas usam máscaras de borracha para se disfarçar de humanos normais. Eles reclamam do cansaço de carregar aquela caixa pesada, a caixa é aberta e dentro 24 garrafas de cerveja (!). A cerveja foi roubada do Xerife Suck e os jovens monstros acreditam que até amanhã estará gelada para ser apreciada no cemitério.



A partir daí apareceria um OVNI (o tal meteoro), onde sairiam os adolescentes alienígenas com o bichinho "The Mess".

A razão pela qual o projeto foi abandonado é que o orçamento não permitiria realizar aquele tipo de efeitos especiais, então foram forçados a pensar um pouco menos em termos de logística.
O próximo tratamento, escrito por Russo, sugeria o seguinte (resumidamente): "Uma criança corre após uma briga com seu irmão mais novo. Ele corre para a floresta e logo se encontra só em meio a uma neblina espessa. O garoto ouve estranhos sons e percebe que está sendo perseguido, ele volta a correr e pisa numa grande chapa de vidro. Ele corta o tornozelo e vê horrorizado que um corpo em decomposição está na terra debaixo da chapa de vidro. Ele perde a consciência e cai". A idéia é que estes corpos estariam sendo cultivados para alimentar os alienígenas ou algum outro tipo de monstro.

No primeiro mês da Image Ten nada de consistente e definitivo havia sido escrito, até que após um fim de semana Romero, inspirado no livro I Am Legend, de Richard Matheson, surpreende Russo com 14 páginas de uma história excelente, que se tornaria praticamente a primeira metade de A NOITE DOS MORTOS VIVOS. Finalmente tinham algo para trabalhar em cima.



Ao contrário dos tratamentos escritos anteriormente, este era um filme para assustar as pessoas. Ao invés de pessoas vivas comendo os mortos, eram os cadáveres reanimados que canibalizavam os vivos, tinha tensão, horror e podia ser feito com orçamento modesto sem soar ridículo. Segundo o próprio Romero, este tratamento se dividia em três histórias curtas, a primeira sendo utilizada em A NOITE... e as outras duas nas seqüências DESPERTAR DOS MORTOS e DIA DOS MORTOS.

Com a primeira metade pronta, o restante da Image Ten reunia-se freqüentemente para discutir a segunda metade e John Russo fez toda a roteirização, pois o tratamento de Romero estava em forma de conto. No rascunho, o personagem Ben era um chucro e mal-educado motorista de caminhão - isso foi mudado durante as audições quando Duane Jones entrou no elenco e se recusou a interpretar um personagem assim.



Outras modificações foram que Tom seria um homem de meia idade, coveiro do cemitério e não tinha uma namorada. Todas as cenas com os generais e repórteres também não eram previstas inicialmente e foram enxertadas com o tempo, dando proporções drasticamente maiores ao que deveria ser uma crise local.

Entre os produtores muito se discutiu se aquele fenômeno precisava de uma explicação. Russo queria que durante o filme, os cientistas e militares apenas ficassem especulando sobre os motivos que levavam os mortos a se levantar, mas por pressão do restante do grupo, ficou a idéia de que teria sido uma sonda de Vênus foi aprovada (apenas a hipótese, nunca a confirmação), isso aconteceu porque até o momento a grande maioria dos filmes de ficção científica careciam de uma explicação. Outra mudança importante aconteceu - e esta foi a de maior impacto que fez toda a diferença - porém como se trata de um gigantesco Spoiler, ele será tratado mais a frente.

John Russo fechou o script ainda sem nome, (só que mesmo assim alguns diálogos foram improvisados como disse a atriz Judith O'Dea em entrevista) e os envolvidos estavam empolgados, porque era um roteiro "acreditável", em que as pessoas poderiam seenvolver com ele e era distante de tudo que havia sido feito antes - estavam absolutamente certos.



"Don't you know what's goin' on out there? This is no Sunday School picnic!" - Ben

Capítulo II - O Filme - Os Mortos Finalmente se Levantam

"Night of Anubis" e "Night of the Flesh Eaters" foram títulos cotados para o roteiro, ficando este último como definitivo até a distribuição e as filmagens ocorrerem entre Junho e Dezembro de 1967 - alternando com os compromissos em filmes industriais e comerciais dos envolvidos - nas proximidades da cidade de Evans City, Pennsylvania ao norte de Pittsburgh.

O filme abre com Johnny (Russell Streiner) e Barbra (Judith O'Dea) indo de carro para um cemitério numa localidade rural na Pennsylvania a fim de visitar o túmulo do pai. Johny tenta sua irmã que tem medo de cemitérios, entretanto mal sabia ele que um verdadeiro terror estava por vir.

Um homem pálido e de andar lento (William Hinzman) se aproxima e com ferocidade agarra Barbra. Johnny consegue salvá-a, mas enquanto luta com o estranho cai com a cabeça em uma lápide. Barbra tenta fugir com o carro enquanto o homem a persegue. O carro bate em uma árvore e ela corre a pé para uma casa nas proximidades, ao explorar a casa vazia, ela descobre um corpo mutilado no topo das escadas.

Em pânico e tentando fugir da casa, Barbra é interceptada por Ben (Duane Jones), que chega em uma caminhonete e ataca as figuras misteriosas com uma chave de roda. Ben entra na casa e demonstra racionalidade ao se certificar de pregar todas as portas e janelas do térreo, enquanto a garota está catatônica e incapaz de proferir uma palavra.



Ben encontra uma arma e liga o rádio, que informa que se trata de uma crise nacional. Em toda a parte uma onda de assassinatos sem motivo aparente desafia a ação das autoridades. Nesse meio caótico a porta do porão se abre e lá se encontram a família Cooper, composta por Harry, a esposa Helen e a filha doente Karen (de fato uma família real composta por Karl Hardman, Marilyn Eastman e Kyra Schon respectivamente) e um casal de jovens, Tom (Keith Wayne) e Judy (Judith Ridley). Eles se escondiam no porão, embora ouvissem os ruídos emitidos por Ben e Barbra, mas acreditavam se tratar de outros mortos vivos.

Então durante uma boa parte do filme vemos uma "queda de braço" entre o desesperado Harry - que quer que o grupo se tranque no porão - e o racional Ben, e sua opinião completamente oposta, pois acredita que estariam numa armadilha sem saída. Harry não aceita a supremacia de Ben sobre elementos vitais para sobreviver a crise - como o rádio, suprimentos e o rifle - e tentará artimanhas egoístas que colocarão a vida de todos em risco.

Neste meio tempo, uma televisão é encontrada, um noticiário de emergência é exibido incessantemente e explicações são dadas a conta-gotas para esta situação - provavelmente a radiação emanada de uma sonda vinda de Vênus estaria causando os recém-mortos voltarem a vida - além da proliferação do caos e da paranóia espalhado pelo país.

Será que no clima claustrofóbico da casa seus eventuais habitantes conseguirão cooperar para sobreviver a esta noite e fugir? Haveria uma solução que evite a iminente invasão dos zumbis sedentos por carne humana que se amontoam do lado de fora da frágil casa de madeira?



ATENÇÃO - Spoiler violento no próximo parágrafo. Ler sem assistir ao filme fará um zumbi puxar seu pé a noite...

No capítulo anterior eu mencionei uma última modificação que foi fundamental em comparação com o roteiro original. Pois bem, ao final na primeira versão de John Russo, Barbra sobreviveria ao ataque daquela fatídica noite, ficando com Ben no porão (a idéia foi aproveitada no remake de 1990). Matar todo o elenco principal naquele tempo poderia significar suicídio comercial e a equipe preferiu arriscar. Em suas mentes, mesmo que as pessoas odiassem, isso seria chocante o suficiente para que elas ficassem marcadas e saíssem do cinema tagarelando para os amigos e parentes - o tiro foi tão certeiro quanto o que Ben leva no meio da testa. O sucesso agora era questão de tempo.

Não há muito que se falar do roteiro, ele é simples, direto e delicado como uma marreta. O que mais impressiona é o clima opressor, toda a sorte de infortúnios e atitudes dos "cativos", que são tão violentas e cruéis quanto o canibalismo do lado de fora. Romero nos entregou de bandeja um filme único, com uma assinatura muito copiada e pouco igualada. A fotografia é desoladora e esplendorosa, a técnica é requintada e muito pouco se perde por se tratar de um filme de baixo orçamento.

Mesmo que o passar do tempo tenha corroído um pouco do impacto de A NOITE DOS MORTOS VIVOS, que hoje a primeira vista as imagens pareçam toscas, a violência contida, o sangue espirrando aos poucos, a péssima atuação de George Kosana (diretor de produção da Image Ten) como o Xerife McClelland... Estes "defeitos" não passam de detalhes, pois visto como um todo a produção é irretocável. Certos elementos se "modernizados" ou "melhorados" não surtiriam o mesmo efeito no público. Poucos filmes têm a capacidade de transpor o elemento de fantasia e incorporar o medo verdadeiro - totalmente justificável ao espectador.



Não existem saídas mirabolantes, nem capacidade para entender e tampouco há tempo para fugir. É a autêntica história de uma situação que começa ruim e aos poucos se torna insustentável.

"I ought to drag you out there and FEED you to those things!" - Ben

Capítulo III - Produção e Distribuição - Simplicidade Que Revolucionaria o Cinema

Pouco dinheiro. Tudo o que foi feito em A NOITE DOS MORTOS VIVOS foi pensando no minúsculo orçamento. Para driblar este tipo de problema e ainda assim fazer um filme sério, muitas concessões precisaram ser feitas, a começar pelo elenco: a Image Ten precisava contratar atores desconhecidos, então a produtora foi buscar nos teatros de Pittsburgh (como Duane Jones, Judith O'Dea...), nos membros da própria Image Ten (como Karl Hardman, Marilyn Eastman, Russell Streiner...) e indicações de Romero (como Judith Ridley e a maioria dos zumbis figurantes). Ironicamente, este tipo de atitude econômica acabou ajudando a dar mais credibilidade ao filme, como se fossem realmente pessoas comuns enfrentando toda aquela horda de mortos vivos.

Outra modificação para contenção de gastos que funcionou muito foram as filmagens em preto e branco com uma câmera 35mm - dando um ar mais documental e um sentimento maior de urgência - para não dizer que com isso era possível ocultar certas imperfeições nos efeitos especiais que poderiam ser comprometidos de outra forma.

Os efeitos precisavam ser simples e ainda sim eficientes. O sangue, por exemplo, era calda de chocolate que melecava os corpos dos atores. O figurino consistia de roupas de segunda mão, enquanto cera servia como maquiagem de zumbi. Marilyn Eastman trabalhava como supervisora dos efeitos, roupas e maquiagem.



Para conter custos os efeitos sonoros também foram feitos pela Image Ten e a trilha sonora foi pega de vários outros filmes e programas para a TV. Estas músicas pertenciam a Hardman Associates e foram compradas anteriormente (por 1500 dóleres) da biblioteca de sons da EMI/Capitol Records.

Enfim, com a produção concluída, ainda havia outro obstáculo a ser superado: encontrar uma distribuidora que aceitasse o projeto mantendo as cenas violentas intactas. Entre as empresas que recusaram o filme estão a American International Pictures e a Columbia, que exigiram cortes e que o final fosse refeito. A proposta foi totalmente ignorada pelos produtores: "Nenhum de nós queria fazer aquilo. Não poderíamos imaginar um final feliz", admitiu Romero (curioso que a Columbia futuramente seria a distribuidora do remake de 1990).

A busca terminou na Walter Reade Organization - com sede em Manhattan -, que aceitou exibir o filme sem censura, porém pediu aos produtores que trocassem o título do filme de "Night of the Flesh Eaters" para o final NIGHT OF THE LIVING DEAD, porque outro filme com título similar já havia sido lançado (o filme em questão é The Flesh Eaters de 1964).

"There is an epidemic of mass murder being committed by a virtual army of unidentified assassins" - Locutor do rádio


Capítulo IV - Estréia e Problemas - As Críticas e o Filme se Torna do Povo

Primeiro de Outubro de 1968 - uma data histórica para o gênero - a premiere de A NOITE DOS MORTOS VIVOS ocorre em Pittsburg no Fulton Theate e, no restante dos Estados Unidos, a película era exibida na forma de matine aos sábados a tarde - como era típico nas décadas de 50 e 60 - atraindo uma audiência constituída basicamente de pré-adolescentes e jovens adultos.

Curioso é que não havia classificação indicativa - o sistema em vigor atualmente nos Estados Unidos seria aplicado apenas no mês seguinte - assim os donos dos cinemas e os pais em geral não poderiam proibir que crianças entrassem para assistir ao filme: "As crianças na audiência estavam atordoadas. Era quase um completo silêncio. O filme passou de ser deliciosamente assustador até a metade quando se tornou terrivelmente amedrontador. Havia uma menina, devia ter uns nove anos, que estava sentada rígida no banco e chorava...", apontou um crítico na época do lançamento.

Os críticos em geral detestavam os efeitos muito violentos para a época. A conceituada revista Variety chamou a produção de uma "orgia de sadismo" e questionou a "integridade e responsabilidade social de seus realizadores"; o jornal The New York Times usou o termo "lixo" para descrever o filme; grupos cristãos fundamentalistas acusaram os cineastas como satanistas e o tratamento das personagens femininas atraiu a fúria de uma pequena - mas
significante - turba de feministas.

Claro que houve quem visse que uma revolução se avizinhava no filme de Romero - e não eram poucos - assim como havia as pessoas que encontraram nas personagens e situações mostradas uma importância ainda maior em sua crítica social, que ia desde o conflito no Vietnã até a figura do líder do grupo Duane Jones, um negro. O filme, de maneira geral, refletia a época tensa, nas palavras de Romero: "Era 1968. Todos tinham uma mensagem para passar. A ira e a atitude estão lá porque eram os anos 60”.

Coincidências ou não, muito se falou e muito se polemizou. Isso fez um bem tremendo para o filme que derrubou qualquer barreira que limitasse o seu sucesso. Apesar de não muito bem no início, com o boca a boca o filme se popularizou e rendeu algo entre 12 e 15 milhões apenas nos Estados Unidos, foi traduzido em mais de 25 línguas e lançado na Europa, Canadá e Austrália, rendendo mais de 30 milhões no mundo inteiro.

Tudo andava muito bem, porém eles nem imaginavam que ao mesmo tempo algo péssimo acontecia: nos Estados Unidos, a lei de direitos autorais do ano de 1968 (que durou até 1989) dizia que o título da produção deveria conter uma informação de copyright (confiram esta informação no rodapé dos títulos nos filmes desta época ou nos créditos iniciais), a Image Ten tinha esta informação enquanto o título era Night of the Flesh Eaters, entretanto quando a Walter Reade Organization solicitou a troca do nome para Night of the Living Dead, a informação foi retirada (ou esquecida). Esta simples atitude tornou o filme de domínio público impediu toda e qualquer angariação financeira por conta de futuros relançamentos, distribuição doméstica e refilmagens. Segundo George Romero, a Walter Reade "nos cortou fora". Mais informações sobre isso no capítulo extra ao final deste artigo.



"All right, Vince, hit him in the head, right between the eyes" - Xerife McClelland

Capítulo V - O Futuro Após a Noite - Como Elenco, Produção e o Terror Mudaram

Apesar dos pesares, todos os envolvidos ganharam notoriedade na época. No entato, é de se lamentar que somente alguns poucos tenham conseguido projeção maior e reconhecimento. Abaixo você confere os integrantes principais do elenco e produção e o que aconteceu com eles após o grande estouro do filme:

Duane Jones (Ben) - Comentou-se bastante a ousadia de George Romero em escalar um ator negro para o papel principal de um filme (não apenas de terror) e ele ser o mais ponderado de um grupo de brancos. O diretor afirmou apenas que Duane foi escolhido por ter sido o melhor nas audições e ponto. Ex-professor de inglês, depois do sucesso Duane participou de outras poucas produções como Vampires (1986), Negatives (1988), DRACULA - PACTO DE SANGUE (1989) e voltou a lecionar. Faleceu devido a um enfarte em 22 de julho de 1988 com apenas 52 anos preocupado em ser lembrado apenas como Ben;

Judith O'Dea (Barbra) - Com 23 anos durante as filmagens, Judith nunca se livrou do estigma de ter interpretado Barbra: "[para as pessoas] Eu era Judith até que percebiam que eu era a Barbra-da-Noite-dos-mortos-vivos". Apesar disso Judith sempre achou positiva a experiência principalmente por ser uma pessoa que gosta de terror em geral. O'Dea passou a participar em muitas produções para a TV e continua na ativa em alguns filmes como Claustrophobia (2003), October Moon (2005) e The Ocean (2006), sempre em papéis menores. Judith também é dona da O'Dea Communications, empresa especializada em treinamentos de comunicação oral;

Russell Streiner (Johnny, produtor) - Russ resolveu manter sua vida pacata e permaneceu em Pittsburg. Especializou-se em medicina quiroprática, participa de eventuais convenções de terror e hoje integra o quadro de diretores do Pittsburgh Film Office. Streiner possui um filho, duas filhas e um neto.

Karl Hardman (Harry Cooper, produtor, maquiador), Marilyn Eastman (Helen Cooper, produtora, supervisora) e Kyra Schon (Karen Cooper) - O casal de produtores e a pequena atriz continuam morando em Pittsburgh. Karl e Marilyn, após a dissolução da Image Ten, continuaram fazendo filmes industriais. Kyra - que é filha apenas de Hardman - cresceu (dã!) e se interessou pela fabricação de jóias e artefatos de cerâmica. Todavia ainda manteve uma relação com o gênero, escrevendo uma coluna semanal para o canal por assinatura "The Horror Channel", em 2006, e mantém o site The Ghoul Next Door, que vale uma visitinha para os apreciadores do filme.

Keith Wayne (Tom) - A maior parte do elenco não tinha experiência na indústria do cinema antes de entrar para o filme. Keith Wayne era um deles. O ator que interpretou Tom foi seu único papel no cinema e passou a trabalhar por vários anos no Departamento de Estado dos Estados Unidos. Keith cometeu suicídio em 9 de Setembro de 1995 aos 53 anos;

Judith Ridley (Judy) - O papel de Judy não estava previsto inicialmente e foi escrito exclusivamente para Judith, após os produtores ficarem encantados com a beleza da atriz, que foi recepcionista da Hardman Associates. Judith não possui nenhum trabalho creditado após A NOITE... e após a produção foi casada com Russell Streiner, mas se separaram.

William Hinzman (Zumbi do Cemitério e auxiliar de câmera) - Hinzman ficou estigmatizado como o primeiro zumbi do filme, mas ao contrário da maioria de seus colegas ele adorava o reconhecimento. William trabalhou com Romero novamente em EXÉRCITO DO EXTERMÍNO, na fotografia e fazendo uma ponta. Hinzman também se aventurou na cadeira de diretor e "reprizaria" seu papel no filme FlashEater, de 1988, que por sinal é um tanto fraco, porém uma interessante homenagem à obra de Romero (curiosamente apesar de FlashEater ter sido feito 20 anos após A NOITE... foi feito com quase metade do orçamento, cerca de 60 mil dólares).

Vincent D. Survinski (Vince) - Ele pode ter perdido 10 mil dólares no princípio de sua associação com Romero, contudo participou desta revolução no cinema. Survinski fez pontas em EXÉRCITO DO EXTERMÍNIO, MARTIN, de Romero, e atuou em Flasheater, de William Hinzman. Survinski faleceu em Pittsburgh no dia 7 de maio de 2001 com 89 anos.

John Russo (Produtor e Roteirista) - Russo permaneceu no ramo como roteirista e diretor (Midnight, de 1982, The Majorettes, de 1986, e Heartstopper, de 1993, são os exemplos mais conhecidos). Foi produtor executivo do remake de 1990 e freqüentemente aparece em documentários sobre terror e em pequenas pontas em outros filmes do gênero.


George Romero, John Russo e Russ Streiner
criadores do clássico "A Noite dos Mortos-Vivos"


No gênero, só para simplificar as coisas, o filme representou um novo horizonte para o terror. Já haviam sido feitos filmes sobre zumbis anteriormente - como White Zombie, de 1932 (embora em A NOITE... eles nunca se referem aos monstros com o termo zumbis) - contudo eram mais referenciados junto com um cientista maluco ou um ritual vodu, ou seja, até então sem as características populares que vemos nas produções até hoje: mortos, caminhar lento, levantando dos túmulos, andando em grupo e canibalizando pessoas vivas. Desnecessário dizer, portanto, que porrilhões de filmes de mortos vivos foram influenciados por ele.

No entanto não se limitam a esta categoria: olhando de uma forma mais abrangente os slashers e splatters em geral se tomaram forma a partir dele. Figuras misteriosas nas sombras, máscaras de borracha ou fantasias, localização rural ou suburbana... Romero deu nova forma aos filmes B ao aliar os termos "lucrativo" e "orçamento minúsculo"; certamente filmes como HALLOWEEN (1978), SEXTA FEIRA 13 (1980) e A HORA DO PESADELO (1984) não seriam os mesmos sem A NOITE DOS MORTOS VIVOS.

Dos méritos alcançados por A NOITE..., existem ao menos três que merecem destaque: em 1999, a Livraria do Congresso dos Estados Unidos adicionou a película ao Registro Nacional de Filmes por sua importância histórica; em 2001, o American Film Institute o inseriu na lista dos 100 mais importantes filmes de terror e suspense; e o canal Bravo o classificou na nona posição entre os momentos mais aterrorizantes do cinema.

O diretor George A. Romero rompeu com a Image Ten após o incidente com os direitos autorais, ganhou notoriedade no circuito e carta branca para novos projetos maiores e de grande magnitude. A franquia cresceu e se tornou uma tetralogia até o momento com DESPERTAR DOS MORTOS (1978) - talvez o único a superar os feitos de A NOITE... - DIA DOS MORTOS (1985) e TERRA DOS MORTOS (2005). A produção original também ganhou dois remakes, uma em 1990 nas mãos de Tom Savini com participação de Romero, e outra em uma versão 3-D feita 2006 por Jeff Broadstreet, aproveitando-se do status público do filme e sem o envolvimento de Romero.

O filme original também ganhou uma “atualização”: em 1999 o co-roteirista John Russo rodou cenas adicionais e revisou a trilha sonora para o lançamento de uma edição de "30º aniversário" com intenção de "modernizar" o clássico. Romero declarou simplesmente que "não queria mexer mais no filme" e a edição foi sumariamente detonada pela crítica: "oportunista" e "ridícula" são as opiniões mais gentis com a versão.

"I hurt" - Karen Cooper

Capítulo VI - Curiosidades

- O que os zumbis estão comendo e parece pedaços dos corpos queimados na caminhonete é presunto coberto com calda de chocolate. Os cineastas brincam que isso causaria tantas náuseas nos atores que eles não perderiam tempo fazendo a maquiagem, eles pareceriam pálidos e doentes de todo o jeito;

- A bomba de gasolina não estava bem fixa no chão quando Judith O'Dea corre sobre ela no começo do filme. Ela fez com tanta força que quase a derrubou no cameraman;

- Durante as filmagens no cemitério, em dois dias diferentes, um acidente propiciou uma rápida mudança no roteiro. O carro dirigido por Barbra e Johnny no cemitério era da mãe de Russell Streiner. Aconteceu que entre os dois dias de filmagens alguém bateu na lateral do carro e fez uma marca bastante visível para a câmera. Romero reescreveu a cena para que o carro parasse ao bater em uma árvore;

- As tábuas que Ben pregava na casa eram numeradas ou marcadas para preservar a continuidade, assim poderiam recolocá-las sem problemas. Nas cenas em que Ben remove as madeiras na porta é possível ver alguns destes números;

- Tom Savini chegou a ser contatado por George Romero para fazer a maquiagem do filme. Savini não pode fazer porque foi chamado pelo exército para servir em combate como fotógrafo no Vietnã. Savini, entretanto trabalharia com Romero em DESPERTAR DOS MORTOS;

- A casa onde a ação ocorre não tinha um porão real, mas um armazém empoeirado com uma escada para ele. Por causa disso o porão usado no filme foi filmado no porão do estúdio de edição;

- Uma das táticas de publicidade da Walter Reade Organization foi fornecer uma apólice de seguro no valor de 50 mil dólares para qualquer um que morresse de um ataque do coração enquanto assistisse ao filme;

- Na cena em que o personagem Ben ateia fogo a uma poltrona, era responsabilidade do irmão de Russell Streiner, Gary, apagar o fogo, acendendo novamente na filmagem da próxima cena para preservar a continuidade. Todavia a manga da camisa de Gary pegou fogo e enquanto corria em pânico, William Hinzman (ainda caracterizado como zumbi) derrubou-o no chão e apagou o fogo evitando um desastre;

- George A. Romero era o único operando a câmera na cena em que William Hinzman ataca Barbra com uma pedra que quebra o vidro do carro. A pedra por muito pouco não pega Romero em cheio;

- Algumas das caretas feitas por William Hinzman enquanto luta com Russell Streiner no cemitério são autênticas. Durante a luta Streiner acidentalmente chutou Hinzman nas bolas (Ugh...);

- O corpo na parte de cima da casa foi feito por George Romero, que usou bolinhas de ping-pong para os olhos.

"Everything is being done that can be done" – Cientista

Capítulo Extra - As Inúmeras Edições do Filme

Diz o ditado que a tristeza de uns é a alegria de outros. Pois então, como já disse, quando o filme se tornou de domínio público significou que Romero e os produtores não levariam um centavo de direitos autorais no lançamento em VHS (e futuramente em DVD), relançamentos no cinema, aparições em televisão, refilmagens, etc.

Na prática significa que você aí na sua casa - isso mesmo, você - pode fazer um remake da produção original e distribuir para os cinemas, levando um cascalho e sem precisar pagar nada para Romero e confederados ou até fazer download pela Internet sem se preocupar com o FBI, hehehe...



Isso também acontece no DVD: edições de todos os tipos pipocam no exterior: edições colorizadas, versões 3-D, edições editadas, versões de aniversário, com sourround, sem sorround, em lançamento conjunto com outros clássicos... Enfim, uma infinidade de tipos para qualquer espectador, já que estas distribuidoras de fundo de quintal não precisam gastar com direitos.

Segundo o todo-poderoso IMDB, existem pelo menos 23 cópias diferentes em DVD e 19 em VHS, embora pareçam existir bem mais. Por isso é de se admirar que no Brasil existam somente três versões no disquinho (Continental, Van Blad e Cinemagia) - algumas com um preço abusivo para um filme de domínio público sem extras - e uma em fita (VTI Home).

Caso o amigo infernauta possa gastar um pouco mais e busca uma versão definitiva para sua coleção sem procurar demais, a dica é a seguinte: a distribuidora Elite Entertainament lançou em 1994 a única versão restaurada, revisada, cheia de extras e aprovada pelo diretor, - no entanto foi lançado apenas no finado formato Laserdisc. Com o advento do DVD a Elite mandou em 2002 uma versão chamada "Millennium Edition" com o recheio completo do LD - transferência excelente, som 5.1, comentários, entrevistas, featuretes - que fazem a aquisição valer a pena. Contudo não importa a versão que você escolher, só não deixe de conferir este clássico que passados quase 40 anos mantém uma força que desafia o tempo.

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por Renato Rosatti

“Um grupo de sete pessoas se refugia numa casa de campo isolada, cercados por uma legião de mortos-vivos que querem devorá-los”.

Essa é a idéia básica do roteiro do clássico em preto e branco de George A. RomeroA Noite dos Mortos-Vivos” (Night of the Living Dead, 1968). Idéia essa aproveitada em excesso por toda uma safra de filmes posteriores. O grupo é formado por Ben (Duane Jones), um vendedor que estava em serviço dirigindo uma camionete, Barbara (Judith O´Dea), que visitava o túmulo do pai num cemitério na pequena cidade de Willard, juntamente com o irmão Johnny (Russell W. Streiner, que foi um dos produtores do filme), além de um covarde pai de família, Harry Cooper (Karl Hardman, também produtor), sua esposa Helen (Marilyn Eastman) e a filha pequena Karen (Kyra Schon), que tiveram um acidente de carro e a menina foi mordida no braço. Completando ainda o grupo, temos o casal de namorados adolescentes Tom (Keith Wayne) e Judy (Judith Ridley), que passeavam planejando nadar num lago. Todos foram surpreendidos repentinamente por uma avalanche de crimes em massa, com os mortos não sepultados se reanimando nos hospitais, necrotérios e velórios, atacando os vivos e devorando suas
vítimas, espalhando uma contaminação em escala crescente.
Um satélite explodido pela NASA na órbita da Terra, e que retornava de uma missão espacial ao planeta Vênus, carregava uma elevada quantidade de radiação, que misteriosamente serviu de componente ativador no cérebro das pessoas mortas, criando mutações e fazendo-as novamente caminhar entre os vivos à procura de carne, espalhando uma contaminação e instaurando o caos na civilização. A única forma de detê-los é com ferimentos na cabeça, destruindo as funções cerebrais, ou através da cremação.



O grupo de refugiados precisa superar primeiramente os conflitos internos, numa reação típica da raça humana quando as pessoas são acuadas e submetidas a uma forte pressão psicológica. Não faltam as inevitáveis brigas pela liderança das ações, com as diferenças de opiniões, transformando eles próprios em inimigos, para depois tentarem juntos combater a invasão dos mortos-vivos e lutarem pela vida, procurando chegar até alguma das estações de resgate montadas pelas autoridades para receber os sobreviventes.

“Aí vêm eles, erguendo-se do fundo dos túmulos, enchendo a noite de gritos, manchando a terra de sangue... Aí estão eles, caminhando ao ritmo da morte, limpando o sangue dos lábios...”




Podemos considerar que “A Noite dos Mortos-Vivos”, uma produção de baixo orçamento escrita por John Russo e George Romero, é o filme definitivo que inaugurou o tema sobre zumbis comedores de carne humana (curiosamente o termo “zumbi” nunca é citado ao longo do filme). Antes tivemos outros filmes que exploraram a idéia de mortos-vivos, principalmente o clássico “Zumbi Branco” (White Zombie, 1932), de Victor Halperin e com Bela Lugosi, lançado em VHS no Brasil, e uma espécie de refilmagem dessa mesma história, produzida pelo estúdio inglês “Hammer” em 1966, “Epidemia de Zumbis” (The Plague of the Zombies), de John Gilling e com Andre Morell, lançado em DVD por aqui pelo selo “Dark Side” da “Works Editora”. Porém, esses filmes apresentaram um roteiro onde os mortos-vivos seriam trabalhadores reanimados por magia negra para servirem de escravos, algo mais distante das criaturas concebidas por George Romero, as quais atacavam os vivos para devorar suas carnes. Depois de “A Noite dos Mortos-Vivos”, vieram uma infinidade de filmes com zumbis canibais espalhando sangue para todos os lados, destacando uma série de películas italianas sobre o tema, e especialmente do diretor Lucio Fulci.

O clássico de Romero recebeu também uma versão colorizada por computador (desnecessária e artificial, numa atitude tipicamente comercial), e teve uma ótima refilmagem em 1990 dirigida por Tom Savini, que é mais conhecido como uma talentoso técnico em maquiagem (longe da modernidade do CGI). O filme de 1968 deu também início para uma cultuada franquia com mais três filmes, “Despertar dos Mortos” (Dawn of the Dead, 1978), “O Dia dos Mortos” (Day of the Dead, 1985) e “Terra dos Mortos” (Land of the Dead, 2005), todos dirigidos pelo mestre Romero, que sempre aproveitou os roteiros para inserir inteligentes e pertinentes críticas sociais e elementos políticos como a influência do consumismo desenfreado na sociedade, a intransigência e arrogância militar trazendo conseqüências catastróficas, e a injustiça e diferenças de classes sociais, mais evidenciadas ainda nos momentos de crise e caos.



Os destaques são muitos, mas um dos principais é a ousadia dos realizadores em filmar um desfecho trágico completamente fora do trivial e que deve ser enaltecido, surpreendendo o espectador. São poucos os filmes, principalmente os produzidos há quase quatro décadas atrás, que apresentam finais perturbadores e inesperados. Outro exemplo que merece ser lembrado é “O Massacre da Serra Elétrica” (The Texas Chainsaw Massacre, 1974), de Tobe Hooper, na seqüência final entre Leatherface e a “scream queen” Sally Hardesty (Marilyn Burns). Os finais de quase todos os filmes com mortos-vivos são sempre os mesmos (e essa revelação nem pode mais ser considerada “spoiler”), com a civilização humana sendo aniquilada inevitavelmente pela invasão dos zumbis, e no caso de “A Noite dos Mortos-Vivos”, o desfecho trágico é ainda outro, e nem por isso menos intenso e pessimista.

Entre a imensa quantidade de curiosidades, vale ressaltar algumas delas:

* Em 1985 foi lançado pela editora americana “Harmony Books”, um livro de referências escrito por John Russo, co-roteirista do filme, chamado “The Complete Night of the Living Dead Filmbook”. O livro é um verdadeiro compêndio com dezenas fotos e cartazes do clássico, além de preciosos depoimentos e entrevistas com os principais profissionais envolvidos no projeto, desde os próprios Romero e Russo, passando pelos produtores Karl Hardman e Russel Streiner, além do elenco. Um trabalho literário indispensável para os colecionadores. John Russo também lançou um livro com o roteiro do filme, lançado em Portugal pela coleção de horror “Pendulo”, número 27, da Editora “Europa-América”.



* O filme foi lançado em VHS no Brasil nos anos 90 pela “VTI”, com uma capa colorida ridícula e mal feita. Depois ele foi lançado em DVD por aqui em três oportunidades: primeiramente pela “Continental” e depois em 2007 por uma editora que distribuiu o filme nas bancas pela coleção “Clássicos do Horror” número 3, e pela “Cinemagia”, numa edição especial comemorativa dos 40 anos (mas com poucos extras não justificando o marketing feito pela distribuidora).

* A família Cooper, que se refugiou no porão da casa de campo, fugindo dos zumbis, é formada por uma família verdadeira na vida real, pois Karl Hardman (que fez o patriarca Harry), é casado com Marilyn Eastman (interpretando a esposa Helen), e Kyra Schon é sua filha (fazendo o papel de adolescente Karen), deixando evidentes as condições limitadas de orçamento da produção, com o recrutamento de familiares para formar o elenco. Outro exemplo dessa dificuldade está no fato de que Judith Ridley, que interpretou a jovem Judy, também foi recrutada para o elenco por já ter trabalhado para Hardman como recepcionista.



* O escritor John Russo teve uma participação rápida no filme, fazendo o papel de um zumbi que é alvejado por Ben com uma barra de ferro esmagando sua cabeça.

* Entre os vários títulos alternativos que os realizadores pensaram para o filme, destacam-se “Monster Flick”, “Night of Anubis” e “Night of the Flesh Eaters”.



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A NOITE DOS MORTOS-VIVOS (Night of the Living Dead , Estados Unidos, 1968).
Direção: George A. Romero
Roteiro: John A. Russo e George A. Romero
Produção: Russell W. Streiner e Karl Hardman
Fotografia: George A. Romero
Música: Scott Vladimir Licina
Efeitos Especiais: Tony Pantanello; Regis Survinski
Maquiagem: Bruce Capristo; Vincent J. Guastini; Karl Hardman
Edição: George A. Romero; John A. Russo
Elenco: Duane Jones (Ben); Judith O'Dea (Barbra); Karl Hardman (Harry Cooper); Marilyn Eastman (Helen Cooper); Keith Wayne (Tom); Judith Ridley (Judy); Kyra Schon (Karen Cooper); Charles Craig (Apresentador do Jornal); S. William Hinzman (Zumbi do Cemitério); George Kosana (Xerife McClelland); Frank Doak (Cientista); Russell Streiner (Johnny); Vincent D. Survinski (Vince)




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