ASSASSINO A PREÇO FIXO
por Felipe M.Guerra
Algum gênio das distribuidoras nacionais deve ter imaginado que se traduzissem o título do filme THE MECHANIC na íntegra, o público não teria interesse por pensar que seria a história de um borracheiro... Assim, criaram este título medíocre, ASSASSINO A PREÇO FIXO, talvez sem perceber que jamais é citado o valor que o personagem recebe por assassinato (então como é que ele pode ter um “preço fixo”?). De qualquer forma, tirando essa imbecilidade típica das distribuidoras brasileiras, THE MECHANIC, ou O MECÂNICO, é mais um dos bons filmes de Charles Bronson feitos nos anos 70, talvez um dos últimos da boa safra. Como o próprio personagem principal explica em determinado momento do filme, “mecânico” não significa apenas o cara que conserta carros e motores, mas também é uma gíria para designar o trabalho de quem mata por dinheiro.
Com direção de Michael Winner, veterano que depois dirigiria Bronson nos três primeiros filmes da série DESEJO DE MATAR, THE MECHANIC foi feito em 1972 (dois anos antes do primeiro DESEJO DE MATAR) e mostra o veterano astro como um personagem “do outro lado da lei”, um assassino profissional daqueles que fazem da morte não só um negócio, mas uma arte. Já na seqüência inicial - uma brilhante manipulação do suspense, com 16 minutos filmados sem qualquer diálogo!!!! -, Bronson, ou melhor, Arthur Bishop (o nome de seu personagem), executa um assassinato de maneira brilhante. Seria muito fácil simplesmente chegar e dar um tiro na cabeça da vítima, mas Bishop é um mestre no que faz: ele segue pacientemente seu alvo durante dias, decora toda a sua rotina e não se importa em desmontar o fogão a gás da vítima para poder provocar o incêndio que a matará, fazendo tudo parecer um acidente.
Bishop trabalha para uma poderosa organização criminosa, da qual seu pai foi conselheiro - por isso, goza de muito respeito junto aos seus contratantes. As “encomendas” de mortes são feitas pelo correio: o matador recebe uma pacote com as fotos e todos os dados mais importantes do alvo (histórico médico, rotina diária, etc etc.). Certo dia, um velho amigo, Harry McKenna (Keenan Wynn, morto em 1986, que atuou em mais de 150 filmes!!!), pede para que Bishop converse com os chefes da organização tentando limpar seu nome, já que ele anda sendo ameaçado pelos criminosos. No mesmo dia, o assassino recebe um pacote com as fotos de sua nova vítima: o próprio Harry!!!
Como profissional que é, o matador não deixa as relações de amizade atrapalharem o serviço e despacha o pobre Harry, que nem desconfia que seu velho amigo será seu algoz - a cilada armada por Bishop é bem criativa. No funeral da vítima, porém, Bishop conhece Steve McKenna (o canastrão Jan-Michael Vincent), filho adolescente do morto, que parece estar contente com o destino do pai, já que herdou a mansão e a fortuna do velho. Aos poucos, um vai se aproximando do outro: Steve parece ver em Bishop a figura paterna que nunca teve, enquanto o matador enxerga em Steve a sua própria juventude.
Acontece que o rapaz é frio e calculista, não tem medo da morte e parece inclinado a envolver-se com o submundo. Bishop tem a certeza disso quando uma ex-namorada de Steve ameaça se matar e o rapaz nem ao menos tenta impedi-la; pior, incentiva o crime e ainda ri enquanto a mocinha corta os pulsos com uma afiada gilete!!! Bishop então revela ao jovem que é um “mecânico” e pede se ele quer ser seu sócio no negócio da morte. Steve, claro, aceita, e passa por um rápido treinamento antes de executar sua primeira missão. Esta, porém, não sai como planejado, devido à inexperiência do rapaz, que deixa o alvo principal escapar - e Bishop precisa persegui-lo numa rápida seqüência envolvendo velozes motocicletas. Devido ao pequeno problema, a organização que comanda Bishop fica enfurecida, pois o matador sempre agiu profissionalmente e sem deixar rastros.
Ao mesmo tempo em que o veterano e seu pupilo são mandados para uma missão de emergência na Itália, onde terão que agir como “cowboys” (matar o alvo da forma mais rápida possível, sem muito planejamento ou frescura), Bishop começa a desconfiar de que seu jovem ajudante está trabalhando por fora, e que a parceria de ambos pode estar ameaçada com o fato de o próprio Bishop ser o novo alvo do rapaz!!!
Embora seja bastante lento e dialogado, ainda mais para os padrões atuais, THE MECHANIC inclui algumas boas cenas de ação, principalmente no movimentado final, quando a dupla de assassinos se vê obrigada a enfrentar um exército de bandidos pelas estradas italianas, numa cena que depois seria triplicada em emoção e violência por John Woo em seu clássico contemporâneo THE KILLER - O MATADOR. Mas acima da ação, o mais interessante do filme é a trama centrada na desconfiança da dupla de matadores - embora trabalhem juntos, um não pode confiar 100% no outro. Esta relação ambígua entre os dois matadores leva à conclusão trágica, onde percebemos o desprezo do roteirista Lewis John Carlino pelos seus personagens e a coragem ao conceber o destino de ambos. A cena final, principalmente, é inesperada e deixa o espectador com um sorriso no rosto.
O maior problema de THE MECHANIC, que lhe tira o mérito das cinco estrelas, é o personagem chatíssimo de Steve. Além de Jan-Michael Vincent ser um péssimo ator (que nos anos 80 e 90 seria relegado a papéis menores em filmes classe Z, como DEMONSTONE e ALIENATOR), Steve é irritante, pedante, um completo imbecil, chorão e amador, por isso nunca se justifica a adoração que Bishop tem pelo jovem nem o porquê de ficar obcecado em treiná-lo como seu parceiro. Mas se Steve é um chato de galocha, Bishop é um personagem riquíssimo, interessantíssimo, um dos melhores de Bronson.
O roteiro inclui até um momento bastante inspirado onde o matador tem um encontro com uma desesperada garota, que parece lhe amar perdidamente, inclusive escrevendo apaixonadas cartas de amor. No final da noite de prazer, Bishop simplesmente levanta da cama e diz: “Quanto lhe devo dessa vez?”, e a garota dá seu preço justificando: “É mais caro porque deu um trabalhão escrever aquela carta”. Vivendo uma vida reclusa e solitária, Bishop precisa pagar para uma prostituta parecer que está apaixonada por ele e lhe escrever cartas de amor! Ironicamente, a prostituta é interpretada por Jill Ireland, que foi esposa de Bronson.
Além disso, ao contrário de Steve, Bishop vive num mundo guiado por um rígido código de honra, que não permite traições ou falhas. É o estereótipo do “bandido honrado”, tradicional nos filmes de ação orientais, quase um samurai urbano, e que hoje em dia não se vê mais - nem no cinema, nem na vida real. " Assassinato é apenas matar sem licença. Policiais matam, soldados matam...", justifica o profissional. Some-se a todos estes detalhes o fato de Bishop conseguir ler os lábios das pessoas. Coincidentemente, Bronson interpretou, mais de 10 anos depois, outro envelhecido assassino profissional chamado Holland, que também lê lábios e também é um matador experiente, e bem podia ser uma versão “terceira idade” de Bishop.
Descontando a chatice do parceiro de Bronson (que, infelizmente, aparece na maior parte do filme), THE MECHANIC é um filme recomendadíssimo, que vale como história policial e como trama de suspense. E prepare-se para o inevitável sorriso na conclusão, que só nos faz ficar ainda mais fascinados pela perspicácia e inteligência de Arthur Bishop - um dos melhores personagens da carreira de Charles Bronson, e, infelizmente, um dos menos comentados.
Publicado originalmente no endereço martindolman.multiply.com
Felipe M.Guerra
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ASSASSINO A PREÇO FIXO (, Estados Unidos, 1972). Duração: 100 minutos.
Direção: Michael Winner
Roteiro:
Lewis John Carlino
Produção: Robert Chartoff e Irwin Winkler
Fotografia: Richard H. Kline e Robert Paynter
Música: Jerry Fielding
Edição: Frederick Wilson e Michael Winner
Direção de Arte: Rodger Maus e Herbert Westbrook
Elenco: Charles Bronson (Arthur Bishop); Jan-Michael Vincent (Steve McKenna); Keenan Wynn (Harry McKenna); Jill Ireland (a garota); Linda Ridgeway (Louise); Frank DeKova (o homem); James Davidson; Lindsay Crosby; Steve Cory; Takayuki Kubota; Patrick O'Moore; Martin Gordon
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