STALLONE COBRA

por Felipe M.Guerra

"Eu não negocio com louco. Louco eu mato", "A culpa é do juiz, a gente prende e o juiz solta", "Você é a doença. Eu sou a cura", "A lei acaba aqui". São frases como essas que o policial Cobra - interpretado com olhar de peixe morto por Sylvester Stallone no auge da fama - sussurra, com um palito de fósforo no canto da boca, antes de crivar bandidos de balas em STALLONE COBRA, um daqueles clássicos do cinema de ação apelativo dos anos 80, lançado em 1986, no auge destas aventuras repletas de tiroteios e violência. Para muitos, COBRA é um remake não-assumido de PERSEGUIDOR IMPLACÁVEL, aquele filme onde Clint Eastwood é um policial durão.

Na época de seu lançamento, muito se falou da violência de STALLONE COBRA. O tal Cobra, que devia ser o herói, se assemelha muitas vezes aos bandidos, tomando a justiça em suas mãos, atirando em bandidos desarmados e muitas vezes matando-os sadicamente. Na melhor cena, ele incendeia um criminoso vivo enquanto diz: "Você tem o direito de permanecer calado...". Em outra, um repórter pergunta ao policial, após a ação onde um criminoso foi múltiplas vezes baleado, se era mesmo necessário acabar daquele jeito, ou seja, com o bandido morto. "Não houve excesso de força?", questiona o jornalista. Cobra, certamente bem pouco interessado com a liberdade de imprensa, pega o cara pelo colarinho, enfia a fuça dele na maca onde está deitado um refém morto pelo bandido e diz: "Pergunta isso pra família dele!".

Resumindo: STALLONE COBRA é uma bomba, com um roteiro ridículo e preguiçoso (os personagens praticamente nem têm nome), muitos furos, cenas difíceis de engolir e bobagens diversas - apenas uma desculpa para perseguições automobilísticas, tiroteios e muita violência. Mas o filme funciona como símbolo de uma época exagerada que não volta mais. É divertido e muito engraçado - as ações e frases prontas do Cobra me fazem rolar de rir toda vez que revejo esta porcaria. E nestes tempos politicamente corretos de hoje os filmes pegam mais leve, embora a ação de Cobra fosse mais do que necessária (quem não concorda que bandido bom é bandido morto?). Talvez os roteiristas julguem que mostrar excesso da força dos policiais para parar criminosos, matando-os ao invés de julgá-los (como faz Cobra), poderia ser um mau exemplo nesse nosso mundo já tão violento...

O roteiro monossilábico e infantil foi escrito pelo próprio Stallone, que encheu o filme de cenas mostrando como seu personagem é machão. De fato, em nenhum momento dos 87 minutos de filme o policial Marion Cobretti (verdadeiro nome do Cobra) é mostrado como um ser humano normal, apenas como uma máquina de matar. Ele anda sempre com luvas de couro negras e óculos escuros espelhados, daqueles mais bregas, de motorista de ônibus - sem esquecer do palito de fósforo no canto da boca, super fashion. Nunca fala, e quando fala é para ameaçar algum bandido. Apesar de parecer mais bandido do que herói, ele é o maior policial do departamento. E em todas as cenas que aparece "fora do trabalho", Cobra está ou treinando tiro ou limpando sua pistola enquanto come pizza cortando as fatias com uma tesoura!!! Logo, o cara vive e respira violência.

No começo, um maluco sitia um supermercado e faz vários reféns. A polícia cerca o local com mais de 30 homens, mas o inspetor diz apenas: "Chame o Cobra". Chega Cobretti e simplesmente entra no local e enche o bandido de tiros. Nenhum outro dos 30 policiais podia fazer isso? Interessante é que o superior de cobra, o detetive Monte, desaprova seus métodos violentos - apesar de ser interpretado por Andrew Robinson, que foi um assassino frio e calculista em PERSEGUIDOR IMPLACÁVEL.

Depois desta bela introdução, descobrimos que um grupo de assassinos está rodeando pela cidade esganando gente inocente. Dezesseis pessoas já foram mortas e a contagem vai aumentando. O principal assassino da quadrilha é o "Caçador Noturno" interpretado pelo fortão Brian Thompson. Os malucos, aparentemente, matam pessoas esperando criar um "Mundo Novo", mas isso nunca fica explicado. Nas únicas cenas que vemos os psicopatas, eles estão realizando uma bizarra cerimônia onde ficam batendo machados ritmadamente. Talvez o "Mundo Novo" seja isso: matar toda a humanidade para que possam bater seus machados em paz! O grupo também inclui uma policial feiosa, chamada Stalk (Lee Garlington), que passa o filme todo dando bandeira, acompanhando os matadores, e mesmo assim ninguém desconfia dela!!!

Certo dia, a modelo Ingrid (a linda Brigitte Nielsen) testemunha um dos assassinatos e passa a ser perseguida pelo grupo de malucos. Claro, Cobra e seu parceiro engraçadinho Gonzales (Reni Santoni, outro que apareceu em PERSEGUIDOR IMPLACÁVEL) são designados para protegê-la. Ainda que a moça não tenha condições reais de identificar nenhum dos vilões, os assassinos passam todo o resto do filme se expondo publicamente, tentando a todo custo matá-la. O final é algo bizarro: Cobra, Ingrid e Gonzales fogem para o interior seguidos por um batalhão de malucos em motocicletas, mascarados e com rifles e metralhadoras nas costas - e ninguém suspeita daquilo e chama a polícia!!!

A maior parte de STALLONE COBRA é simplesmente uma bobagem. Como quando o "Caçador Noturno" entra disfarçado (mas qualquer um vê que o cara é um bandido) no hospital onde Ingrid está e perde tempo matando praticamente todo mundo por ali, MENOS a garota - que, claro, é salva na hora por Cobra. Também é ridículo o fato da policial Stalk passar o filme inteiro ajudando os assassinos e até telefonando para eles na frente dos colegas Cobra e Gonzales, e mesmo assim ninguém desconfia dela até que é tarde demais - belo trabalho policial!

Porém as cenas de ação são muito bem realizadas e compensam a comédia que é o restante do filme. Uma cena em especial é marcante: a perseguição automobilística em alta velocidade pelas ruas de Los Angeles, com o carrão anos 50 de Cobra fugindo de dois veículos repletos de caras armados. Só que o veículo do herói está turbinado com nitro. Em determinado momento, ele fecha um cavalinho-de-pau no meio da estrada, começa a andar de ré e atira com sua metralhadora no carro que vem atrás, explodindo-o, para então dar outro cavalinho-de-pau e voltar à posição normal! Mas como é que um policial de Los Angeles consegue metralhadoras e granadas para a guerra campal que é o final do filme? E é no final que Cobra enfrenta sozinho o exército de assassinos e o próprio "Caçador Noturno". Este, no auge de sua maluquice, comete o erro de ameaçar o herói: "Me leva preso, seu porco!". Mas Cobra prefere assumir o papel de juiz e executor e enfia o psicopata num enorme gancho metálico, que leva o pobre coitado direto para dentro de uma fornalha. The End.

STALLONE COBRA é um filme muito, muito ruim. Um souvenir de uma época exagerada, onde se fazia filmes como COMANDO PARA MATAR, com Schwarzenegger, e INVASÃO USA, com Chuck Norris. Isso não desmerece o trabalho do recentemente falecido George Pan Cosmatos, que cria algumas boas cenas de ação. O problema mesmo é o roteiro (ou falta dele). Quando não está matando gente, Cobra fica falando bobagens, tentando incentivar os outros personagens a comer comida saudável. "Vai, come uma fruta, uma ameixa", diz para o parceiro viciado em fast food. É claro que soa artificial. Assim como o romance de Cobretti com Ingrid. Aliás, é o cúmulo do hilário ver os dois num quarto de motel: a mocinha desamparada deitada na cama, esperando pelo seu herói... mas este prefere ficar sentado à mesa limpando sua metralhadora!!! hahahahaha

Como curiosidade, Stallone apaixonou-se pela atriz Brigitte Nielsen, promessa de estrelinha da época - também apareceu em ROCKY 4, de Stallone. Depois, descobriu que era traído: Brigitte saía com sua própria secretária!!! Pode? Nessa o Cobretti se deu mal...

Publicado originalmente no endereço martindolman.multiply.com

Felipe M.Guerra


STALLONE COBRA (Cobra, Estados Unidos, 1986). Duração: 87 minutos.
Direção: George P. Cosmatos
Roteiro: Sylvester Stallone, baseado em romance de Paula Gosling
Produção: Yoram Globus; Menahem Golan
Fotografia: Ric Waite
Música: John Cafferty; Sylvester Levay
Edição: James R. Symons; Don Zimmerman
Direção de Arte: Adrian Gorton; William Ladd Skinner
Elenco: Sylvester Stallone (Marion 'Cobra' Cobretti); Brigitte Nielsen (Ingrid); Reni Santoni (Sargento Gonzales); Andrew Robinson (Detetive Monte); Brian Thompson (Caçador Noturno); John Herzfeld (Cho); Lee Garlington (Nancy Stalk); Art LaFleur; Marco Rodríguez; Ross St. Phillip


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