CONFRONTO FINAL
por Felipe M.Guerra
É desde a retomada do cinema nacional, no começo dos anos 90, com CARLOTA JOAQUINA e O QUATRILHO, que os filmes brasileiros estão extremamente “intelectualóides” e pretensiosos, como se todo mundo, de uma hora para a outra, quisesse ser Glauber Rocha e ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Aquele cinema mais popularesco, voltado às massas, desapareceu do mapa, e isso explica o fenômeno que foi o recente DOIS FILHOS DE FRANCISCO, uma história popular bem filmada. Mas cadê aqueles filmes brasileiros classe B que faziam a alegria dos velhos cinemas de interior nos anos 70 e 80, repletos de tiros, palavrões e mulher pelada?
Realizado pelo técnico em efeitos especiais Alonso Gonçalves com um punhado de reais (o orçamento irrisório aparece na tela), CONFRONTO FINAL, produção de 2005, é uma tentativa de retomar o cinema de ação popular brasileiro, que nas últimas décadas esteve exclusivamente nas mãos de cineastas independentes, como o falecido Afonso Brazza. Gonçalves faz aqui uma espécie de versão nacional de DESEJO DE MATAR, tentando provar que nós podemos, sim, fazer filmes de pancadaria e tiroteio, como estes que os americanos despejam às dúzias em nossas locadoras. Só faltaram as mulheres peladas, tradicionais no cinema brazuca de outrora, e meio desaparecidas nos filmes da nova geração...
Fiquei entusiasmado com o projeto desde que vi um trailer circulando pela Internet. Ele mostrava tiros, socos e uma explosão tosquíssima em computação gráfica (certamente o ponto mais baixo da película, justificado pela produção barata). Mostrava, também, Jackson Antunes como uma espécie de reencarnação do falecido Charles Bronson - o brasileiro é uma cópia xerox do velhote duro na queda. Na hora em que vi o trailer, pensei que CONFRONTO FINAL poderia ser um divisor de águas, capaz de abrir as portas (ou seria reabrir?) para um novo nicho de mercado, os filmes de ação brasileiros. Só cego - ou burro - não vê que o gênero tem um público enorme - não só os que curtem cinema "alternativo", como eu, mas também aquele pessoal que vai à locadora pedir fita (sim, fita) dublada dos filmes de Chuck Norris e Charles Bronson. Porque quem não é muito novo certamente lembra que no Brasil antigamente se fazia westerns (de ROGO A DEUS E MANDO BALA a GRINGO, O ÚLTIMO MATADOR), filmes de vingança no estilo DESEJO DE MATAR e até de artes marciais (o "clássico" A GAIOLA DA MORTE).
Mesmo barato e filmado com câmera digital, CONFRONTO FINAL é bem feitinho e não fica nada a dever a similares americanos (que normalmente são feitos com o triplo do orçamento usado por Gonçalves, mesmo as produções mais furrecas). Após uma introdução surreal, onde um narrador apresenta dados como população e clima (!!!) da cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais (lembrando um vídeo institucional para turistas), somos apresentados ao nosso herói, Marcos Ferranti (Jackson Antunes), proprietário de uma rede mineira de padarias, classe média alta, que mora numa casa de bom nível com a esposa Carolina (Patrícia Novaes) e a filha pequena Luíza (Barbara Salomão). Acordando em uma manhã como todas as outras, o empresário descobre que sua casa foi assaltada na madrugada.
Numa cena bastante realista, o filme nos apresenta o trabalho inoperante da polícia, que pede à vítima se sabe os “números de série” dos eletrodomésticos roubados, para facilitar a identificação, e nem se preocupa com as impressões digitais deixadas pelos ladrões - “É muito difícil que a gente consiga identificá-las”, lamenta um preguiçoso policial militar. Eu vi algo assim com meus próprios olhos aqui na minha cidade, quando a casa de um familiar foi assaltada e a polícia não moveu um dedo na tentativa de investigar o crime, dizendo que seria preciso “muita sorte” para pegar os ladrões e recuperar as coisas roubadas. Dito e feito: o que foi roubado nunca mais apareceu, muito menos alguém foi preso pelo crime. Mas voltemos à ficção...
O assalto transforma Marcos num homem paranóico, que tem medo de um provável retorno dos ladrões. Novamente mantendo o tom realista, no estilo "podia acontecer mesmo", a história mostra o empresário transformando sua casa numa fortaleza, com grades e um sistema de alarme caprichado. No auge do desespero, Marcos chega a comprar uma arma, para defender o lar como uma espécie de “justiceiro vingador” - será que o pessoal da campanha do desarmamento viu este filme? O que o herói não sabe é que os policiais que investigam o roubo na sua casa são corruptos: o delegado Alvarenga (Ílvio Amaral) e o detetive Glayson (Rodrigo Signoretti) usam sua posição de homens da lei para ganhar a confiança da vítima e ter acesso facilitado à casa. Que tal?
Numa noite, Glayson e dois marginais voltam ao local para roubar um quadro de DiCavalcanti que Marcos tem na sala. Só que dessa vez o “vingador” está preparado para os meliantes. Ele troca tiros com os três, explodindo a mão de um deles com um tiro de espingarda e saindo na porrada com outro - uma luta bem coreografada. Glayson escapa levando o quadro, mas Marcos vê seu rosto, dando início a uma investigação da Corregedoria para acabar com a corrupção policial. A partir deste momento, o empresário se transforma numa testemunha perigosa para a organização chefiada pelo corrupto Alvarenga, que resolve silenciá-lo de qualquer maneira. A partir de então, o roteiro segue a cartilha dos filmes de ação, mostrando os malvados torturando e matando familiares e amigos de Marcos, até que ele se revolta com a situação e resolve responder na mesma moeda. Ou seja, a tiros!
Os primeiros 40 minutos de CONFRONTO FINAL são extremamente realistas, num tom semelhante ao adotado pelo primeiro DESEJO DE MATAR, com Michael Winner, sem muita pressa de transformar o personagem principal num justiceiro que sai metralhando todo mundo. Depois, infelizmente, a trama esfria e se arrasta por algum tempo, com cenas desnecessárias envolvendo a ação da Corregedoria. Finalmente, a história retoma o bom ritmo e se entrega à ação violenta nos 20 minutos finais, aí sim lembrando os velhos filmes da Cannon Pictures, com direito a frases de efeito, explosões e tiros na cabeça. Uma das minhas cenas preferidas é aquela em que Marcos encara um grupo de bandidões e o chefe deles diz: “O que você vai fazer? Pretende enfrentar a nós cinco?”. E Marcos responde: “Cinco não... Quatro!”, fazendo o bandidão voar metros distante com um tirambaço de espingarda no peito!!! Chuck Norris na veia!!!!
A interpretação de Jackson Antunes é estupenda para o tipo de filme que CONFRONTO FINAL pretende ser, lembrando - e muito - o velho Bronson, com seu olhar frio e cara de durão. O mesmo não se pode dizer de outros atores, que não negam a falta de prática. A garotinha que interpreta a filha de Marcos é péssima, o que até se justifica, considerando a pouca idade; os intérpretes dos bandidos, por sua vez, são extremamente caricatos, em especial o grande vilão, Alvarenga, que fica o tempo todo fazendo cara de malvado e largando sentenças do tipo “Agora vamos pegar este filha da puta”; outros atores, em especial Walber Silva (que interpreta o corregedor Barbosa), parecem estar num teatrinho de 2º grau, pela forma como falam de maneira decorada o seu texto.
Mas quer saber? Essas pequenas falhas (incluindo o CGI mal-feito nas duas cenas de explosão e alguns furos de roteiro) não alteram o resultado final, e CONFRONTO FINAL pode ser considerado, sim, um bom filme de ação. Isso embora eu até esperasse, pelo trailer, uma produção mais movimentada, com o dobro de tiros e sopapos. Pelo menos fica anos-luz à frente de outras produções baratas do gênero feitas no Brasil em tempos antigos, como o antológico HORAS FATAIS - CABEÇAS TROCADAS, dirigido e estrelado por Francisco Cavalcanti na década de 80, e que também era uma versão tupiniquim de DESEJO DE MATAR. Um detalhe, porém, é imperdoável no roteiro de Alonso Gonçalves: o falso gaúcho que aparece no final, forçando um sotaque sulista e até um "tchê", é pra matar de rir, especialmente o público aqui do Rio Grande do Sul!
Para completar, é muito divertido de ver, nos extras do DVD de CONFRONTO FINAL, o diretor Gonçalves achincalhando com os críticos que sentaram o pau no seu filme, chamando-o de tosco e previsível. Ele fala que tudo que queria era contar uma história com começo, meio e fim, e isso conseguiu; e que o crítico em questão (cujo nome ele não cita) deve ter ciúmes por nunca ter conseguido fazer um filme - hahahaha. Xingamentos à parte, Gonçalves tem certa razão: a maior parte da imprensa brasileira simplesmente fechou os olhos para a sua obra, e não lembro de ter lido uma única linha sobre a aventura em revistas (tipo SET) e sites (tipo Cinema em Cena) especializados em cinema.
Por isso, para fazer justiça ao trabalho do esforçado Gonçalves, espero que CONFRONTO FINAL dê nos dedos dessa gente hipócrita e mesquinha que monopoliza os comentários cinematográficos no Brasil, que seja um sucesso de locações (já que foi mal-lançado nos cinemas), e, principalmente, que abra espaço para este filão de cinema popular no Brasil, dando mais oportunidades para que Alonso Gonçalves e outros cineastas possam fazer mais filmes do gênero no país. Porque espaço existe; público também. Agora é só esperar pelo próximo Charles Bronson, Chuck Norris ou Steven Seagal tupiniquim...
Publicado originalmente no endereço martindolman.multiply.com
Felipe M.Guerra
 |
CONFRONTO FINAL (Confronto Final, Brasil, 2005). Duração: 98 minutos.
Direção: Alonso Gonçalves
Roteiro:
Alonso Gonçalves e Paulo Augusto Gomes
Produção Executiva: Jorge Moreno e Andréa Reis Gonçalves
Fotografia: Markão
Direção de Arte: Ana Gusmão
Maquiagem: Elizinha Silva
Figurino: Simone Almeida
Elenco: Jackson Antunes (Marcos Ferranti); Patrícia Novaes (Carolina Ferranti); Bárbara Salomão (Luíza Ferranti); Ílvio Amaral (Delegado Alvarenga); Rodrigo Signoretti (Detetive Glayson); Geraldo Carrato (Bandido); Adílson Magha (Ferreira); Walber Silva (Corregedor Barbosa); Cláudio Costa Val (Assistente do corregedor)
|
|