DESEJO DE MATAR

por Felipe M.Guerra

A justiça com as próprias mãos sempre foi um tema recorrente ao cinema, seja de ação, western, horror ou suspense. Se antigamente os justiceiros eram policiais e xerifes, a partir dos anos 60, principalmente, os filmes começaram a mostrar pessoas pacatas e comuns transformando-se em máquinas de matar quando abusadas de maneira muito violenta. Quem não lembra do clássico SOB O DOMÍNIO DO MEDO, de Sam Peckinpah, onde um jovem Dustin Hoffman se transforma num vingador animalesco quando um bando de desocupados estupra sua mulher? Ou do grotesco LAST HOUSE ON THE LEFT, de Wes Craven, que mostra de maneira gráfica a vingança dos pais de uma menina assassinada (vingança esta que inclui até pênis arrancado com os dentes durante sessão de sexo oral!)???

Porém, quando se fala em justiça com as próprias mãos, e realizada por pessoas comuns, um dos filmes mais marcantes, um dos primeiros que vêm à cabeça, é o clássico DESEJO DE MATAR, feito por Michael Winner em 1974 e estrelado por Charles Bronson, naquele que talvez seja o grande papel de sua vida - os produtores queriam o também veterano Steve McQueen no filme, mas ele não quis participar com medo do potencial polêmico da trama. É esquisito falar sobre DESEJO DE MATAR considerando o rumo que o cinema tomaria a partir de então, com "filmes de vigilante" cada vez mais exagerados. O próprio potencial sério e realista do filme de Michael Winner foi diluído em continuações bem bobinhas, onde o justiceiro personificado por Bronson se transformou num absurdo guerrilheiro, praticamente um Rambo urbano - e da terceira idade. O melhor é esquecer as seqüências e concentrar-se neste primeiro filme, que adota um tom dramático e convincente.

Bronson é Paul Kersey, um arquiteto de Nova York que começa o filme passando férias inesquecíveis com a esposa, Joanna (Hope Lange), em Honolulu, no Hawai. Subitamente, o filme corta do ensolarado e pacífico Hawai para a deprimente Nova York, mostrada como uma selva de pedra, violenta e dominada por tipos mal-encarados, punks e criminosos diversos. Tanto que, na chegada de volta à cidade, Kersey vai trabalhar e recebe de um colega as "estatísticas" do dia em matéria de roubos e homicídios. "Como é voltar do paraíso para o campo de batalha?", pergunta o amigo. Mas Kersey é um cara humanitário, acredita na polícia e defende os menos favorecidos. Isso até se tornar mais uma vítima do sistema.

Certo dia, um trio de jovens marginais (um deles é o jovem Jeff Goldblum, em sua estréia no cinema) invade a casa do arquiteto, num condomínio residencial de bom nível. Além de espancar violentamente a esposa de Kersey, ainda estupram sua filha, Carol (Kathleen Tolan). Mesmo feita há mais de 30 anos, a cena do ataque à família do arquiteto continua brutal e realista, indignando o espectador. No trabalho, preocupado em projetar uma vila residencial nas colinas do Arizona, Kersey nem imagina o que está acontecendo até receber um telefonema do genro, Jack Toby (Steven Keats, que cometeu suicídio em 1994), avisando sobre a agressão. Ao chegar no hospital, o pacato arquiteto descobre que a esposa morreu em conseqüência das agressões e que a filha ficou em estado catatônico, praticamente um vegetal, incapaz de superar o trauma do estupro. Ela é levada direto para um manicômio, fazendo com que a vida de Kersey desmorone.

Ao contrário dos filmes que se seguiriam, não é neste momento que o herói se transforma num vingador sanguinário. Muito pelo contrário: ele continua agindo como uma pessoa normal, buscando os meios "oficiais", procurando a polícia para saber detalhes sobre a caçada aos criminosos, chorando muito ao lembrar da esposa (principalmente ao receber, pelo correio, as fotos reveladas da viagem ao Hawai, numa cena que chega a sensibilizar o espectador) e tentando encontrar um meio de reconstruir sua vida. Logo, porém, Kersey percebe que é inútil esperar pela polícia, quando o próprio detetive que investiga o caso diz que é muito difícil que os bandidos sejam localizados. Então, o arquiteto aceita uma viagem proposta pelo seu chefe para o Arizona, onde poderá ver de perto os detalhes do projeto que está realizando.

Lá, na cidade de Tucson, é que nasce o lado vingador de Kersey. Ele visita uma típica cidade do Velho Oeste e assiste a uma encenação onde um xerife dá cabo de vários bandidos. Depois, é levado pelo seu contato no Arizona para um clube de tiro, onde pega gosto pela coisa. Neste momento, Kersey, um pacifista que era opositor à guerra nos tempos do conflito contra a Coréia, resolve se transformar num "xerifão", num justiceiro, para defender não a sua pátria, mas o seu próprio lar. Novamente, o filme vai mostrando aos poucos a transformação do herói. Sentindo-se seguro com um revólver calibre 32 no bolso, Kersey começa a andar sozinho pelas ruas de Nova York, à noite, dando folga para a bandidagem. Seu primeiro alvo ele encontra num parque. O assaltante é atingido com um tiro certeiro na barriga e cai berrando de dor ao chão. Assustado, Kersey foge, volta para casa e, chocado com o próprio ato, vomita de asco - mais uma vez dando um tom realista ao filme.

Então, o roteiro começa a mostrar que o herói se sente cada vez melhor ao matar os marginais. Após algumas saídas noturnas, e algumas sessões de tiro ao alvo em delinqüentes, Kersey deixa de lado a carapuça de sujeito amargurado pela perda e vira uma pessoa feliz e alegre, como se somente o sangue dos criminosos pudesse trazer a paz a alguém que sofreu uma perda como a dele. E é interessante notar que Kersey tem bem pouco de heróico, baleando criminosos com canivetes ou atirando pelas costas num bandido que tenta escapar. Mas, claro, é impossível não torcer pelo vingador.

Em pouco tempo, o vigilante se transforma num exemplo para os nova-iorquinos, que esperavam por uma solução para a alta criminalidade. O ato solitário de Kersey faz com que os cidadãos reajam e se transformem, eles próprios, em vigilantes. A idéia interessante é muito bem aproveitada pelo roteiro, que mostra a matança do vigilante transformando-se em capa dos principais jornais e revistas do país, e as manchetes na TV mostrando outras pessoas que resolveram aderir à cruzada solitária, dando o troco nos bandidos. Mas é claro que logo Kersey passará a ser uma ameaça política. O prefeito da cidade descobre que a criminalidade baixou em quase 50% desde que o arquiteto iniciou sua vingança, mas não pode incentivar a justiça individual. Por isso, não quer que Kersey seja preso - para não criar um mártir diante da opinião pública -, e sim identificado e "expulso da cidade". O detetive Frank Ochoa (Vincent Gardenia, morto em 1992) fica responsável pela investigação.

DESEJO DE MATAR é um filmaço do começo ao fim, ainda que sua apologia à justiça pelas próprias mãos seja perigosa - dá a maior vontade de responder, como Kersey, às injustiças e à alta criminalidade dos dias atuais. O roteiro se preocupa ao máximo em não criar soluções bobas, por isso o lado vingador e justiceiro de Paul Kersey só aflora depois dos primeiros 45 minutos de projeção - quando ele atira em seu primeiro criminoso. No total, a contagem de cadáveres pára nos nove bandidos, o que parece uma piada quando lembramos que o herói matou mais de 100 no exagerado DESEJO DE MATAR 3. Também é interessante o fato da jornada do herói pelas ruas começar mais amena, com o arquiteto enchendo uma meia com moedas para agredir assaltantes desavisados, e somente depois apelando para as balas de revólver. Mas talvez o detalhe mais realista do roteiro seja o fato do herói NUNCA encontrar os agressores da sua filha e assassinos da sua esposa, limitando-se a endereçar suas balas aos marginais em geral!

No fim, parece que estamos vendo um faroeste moderno, onde Bronson é o xerifão solitário que sai metendo chumbo nos bandidos (ou índios) para defender sua cidade dos malfeitores. O próprio Kersey lembra o fato quando se encontra com o detetive Ochoa e este lhe pede para deixar a cidade. "Ao pôr-do-sol?", responde Kersey, numa citação ao clichê dos velhos filmes de bangue-bangue. A conclusão mostra que o problema do vigilante não foi resolvido: apesar de "convidado" a se retirar de Nova York, Kersey não tem a menor idéia de desistir da matança de bandidos ao se transferir para outra cidade.

Como já citei anteriormente, DESEJO DE MATAR deu origem a uma longa e desnecessária franquia, com as seqüências ficando cada vez mais absurdas e estragando o personagem. Também ficou cada vez mais perigoso ser amigo ou familiar do personagem de Charles Bronson (falecido em 2003), já que estes se transformaram em vítimas em potencial para justificar a sede de sangue do protagonista. A fama de durão de Bronson também ficou marcada para sempre com Paul Kersey, e nos anos 80 o ator iria estrelar inúmeros filmes classe B onde aparecia como vingador violento e implacável... Mas nenhum deles é tão marcante e bem realizado quanto o DESEJO DE MATAR original. Se você nunca gostou de Charles Bronson, este é o filme ideal para mudar seu conceito sobre este excelente ator.

Publicado originalmente no endereço martindolman.multiply.com

Felipe M.Guerra


DESEJO DE MATAR (Death Wish, Estados Unidos, 1974). Duração: 93 minutos.
Direção: Michael Winner
Roteiro: Wendell Mayes, baseado em romance escrito por Brian Garfield
Produção: Hal Landers; Bobby Roberts; Dino De Laurentiis
Fotografia: Arthur J. Ornitz
Música: Herbie Hancock
Edição: Bernard Gribble
Desenho de Produção: Robert Gundlach
Elenco: Charles Bronson (Paul Kersey); Hope Lange (Joanna Kersey); Vincent Gardenia (Frank Ochoa); Steven Keats (Jack Toby); William Redfield (Sam Kreutzer); Stuart Margolin (Ames Jainchill); Stephen Elliott; Kathleen Tolan (Carol Toby); Jack Wallace (Hank); Fred J. Scollay


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