DESEJO DE MATAR 2
por Felipe M.Guerra
Tem uma piada infame sobre DESEJO DE MATAR 2, dizendo que o título do filme é uma grande propaganda enganosa - pois ele deseja matar só dois, mas mata muito mais! Bobagens à parte, esta primeira continuação do clássico setentista de Michael Winner tem a cara das aventuras exageradas e barulhentas dos anos 80, incluindo rajadas de metralhadora e até explosões de carros - tudo que o original NÃO tinha. Ironicamente, é o próprio Winner o diretor desta seqüência e também da terceira e ainda mais bizarra aventura. Mas o "mérito", aqui, é todo do roteiro de David Engelbach, reconhecido no meio trash como diretor/roteirista de um dos piores filmes de todos os tempos, AMÉRICA 3000.
Considerando o nível que a série tomaria a partir de então, e o nível das dezenas de imitações surgidas no rastro do sucesso do filme original, DESEJO DE MATAR 2 é a melhor seqüência da série. Bronson volta ao papel do arquiteto Paul Kersey ainda mais implacável que no primeiro filme, sempre calado e implacável, matando a sangue-frio os seus oponentes - embora aqui, já refletindo o humor
negro dos anos 80, ele diga uma frase de efeitos bem engraçada, quando pergunta a um marginal se ele acredita em Jesus só para depois completar: "Então agora você vai se encontrar com ele". A direção de Winner é precisa, segurando as rédeas do que poderia ser apenas mais um festival gratuito de tiros e explosões. Com o retorno de personagens do original, o filme também mantém uma identificação com a história anterior, algo raro de se ver em seqüências.
Feito em 1982, oito anos após o primeiro filme, DESEJO DE MATAR 2 é uma produção da Cannon Picutes, de Golan & Globus, dois israelenses picaretas que adoravam fazer filminhos violentos e sensacionalistas, de olhos nos lucros. A história começa dois anos depois dos eventos do primeiro filme, mostrando Kersey vivendo em Los Angeles - no final do original ele era praticamente obrigado a mudar-se para Chicago. Ele é um homem mudado e que aposentou sua vida de vigilante; tem um novo amor, a jornalista Geri Nichols (Jill Ireland, esposa de Bronson na vida real), e convive com a filha Carol, que continua internada no manicômio, de onde se recupera do estupro sofrido no filme original. Kersey vive numa casa de classe média com uma governanta latina, Rosario (Silvana Gallardo, esposa do astro trash Billy Drago). O personagem do genro do herói no primeiro filme desapareceu e ninguém explica o que aconteceu com ele - provavelmente se separou de Carol. E poucos vão perceber que a atriz que fazia a filha foi trocada por Robin Sherwood (de ARMADILHA PARA TURISTAS e UM TIRO NA NOITE).
Certo dia, Kersey leva Carol para casa, pensando num fim de semana diferente. É uma pena que, passeando num parque, ele, Geri e Carol tenham um encontro nada agradável com uma quadrilha de punks. Eles roubam a carteira do arquiteto e um deles é perseguido pelo herói, levando uma sova. Claro que basta para que os bandidos armem um plano de vingança contra o velhote esquentadinho. Com a carteira de Kersey, eles descobrem seu endereço e partem direto para lá. Só encontram Rosario em casa, e a pobre empregada passa por uma nauseante e longa sessão de estupro - tão violenta e grotesca que só vi piores em A VINGANÇA DE JENNIFER e no recente IRREVERSÍVEL. Winner registra o ataque à mulher da forma mais gráfica e detalhada possível, mostrando cada um dos agressores (são cinco ao todo) saltando sobre a vítima e a violentando de formas e posições diferentes, ao mesmo tempo em que ela grita e chora. A cena foi reduzida na versão lançada nos Estados Unidos e cortada na exibição na TV brasileira, mas está completa no DVD recentemente lançado no país.
Quando Kersey volta para casa com a filha, tenta reagir e é atacado pelos punks. Rosario é morta com golpes na cabeça e o arquiteto cai desacordado, mas os agressores julgam que está morto. Resolvem levar Carol como refém, para poderem fugir sem enfrentar problemas. A pobre filha do herói é levada para um depósito sujo e novamente estuprada pelos bandidos - sofrendo, impassível, o mesmo trauma por que já havia passado no original. Aproveitando um momento de distração de seus agressores, Carol levanta e foge, saltando por uma vidraça. Infelizmente, ela cai sobre uma cerca daquelas de ferro com pontas, acabando empalada, num momento sangrento e ao mesmo tempo triste.
O justiceiro aposentado acorda e descobre o corpo da empregada; momentos depois, novo choque ao saber do destino da filha. Aos policiais ele diz não poder reconhecer os agressores, mas lembra dos bastardos muito bem, é claro. E logo ele estará saindo às ruas com sua pistola para vingar-se dos bandidos. Ao contrário do primeiro DESEJO DE MATAR, quando levava muito tempo para Kersey decidir-se pela vida de justiceiro, aqui ele não tem lá muitas dúvidas em vingar a pobre filha. Por isso, compra algumas roupas velhas num brechó e instala-se num hotel de quinta categoria, para ganhar mais liberdade de circular à noite pelo bairro mais pobre de Los Angeles. Em pouco tempo, começará a identificar seus alvos - e crivá-los de balas, é claro.
Assim que a notícia de que há um vigilante nas ruas chega primeiro à polícia, depois ao governo, entra em cena o detetive nova-iorquino Frank Ochoa (Vincent Gardenia), o mesmo que "resolveu a situação" em Nova York no final do primeiro filme. Ele é enviado a Los Angeles pelo prefeito da Big Apple para impedir que a polícia de lá consiga agarrar Kersey - afinal, os políticos temem que o vigilante abra a boca e conte que ganhou liberdade para sair de Nova York sem um julgamento, como seria necessário. Sem desconfiar que está sendo seguido por Ochoa, Kersey segue sua cruzada sanguinária pelas ruas de Los Angeles... Mas logo sua nova namorada também começará a suspeitar da vida dupla do arquiteto.
Com uma brilhante trilha sonora de Jimmy Page (que foi injustamente indicada ao Framboesa de Ouro de pior música na época), DESEJO DE MATAR 2 é radicalmente diferente do original. Se no primeiro filme Kersey jamais conseguia agarrar os assassinos e agressores de sua esposa e sua filha, dedicando-se a exterminar criminosos em geral pelas ruas de Nova York, nesta segunda aventura o vigilante tem um alvo definido (os bandidos que invadiram sua casa e mataram sua filha), e não parece se importar muito com outros criminosos em geral que circulam ao seu redor. Isso fica evidente na cena em que Kersey encontra seu primeiro alvo e pede que os traficantes que o acompanham simplesmente saiam do recinto para que ele possa matar sua vítima mais tranqüilamente - quando o correto seria passar fogo logo em todos eles.
DESEJO DE MATAR 2 também é estupidamente mais violento e sangrento que o primeiro, a começar pelas cenas detalhadas de estupro. Além disso, a sede de sangue de Kersey é ainda maior, os buracos de bala são extremamente gráficos e ele não poupa os criminosos de balaços nas costas e até na cabeça. Infelizmente, o roteiro toma algumas soluções muito fáceis, a começar pela forma como o herói encontra seus desafetos. Basta circular por algumas ruas de Los Angeles à noite e logo Kersey topa com algum dos bandidos que procura - e sempre os reconhece de primeira, apesar de só ter visto os marginais uma vez na vida, e rapidamente ainda por cima! Ele também consgue com a maior facilidade uma aparelhagem de rádio para poder acompanhar a freqüência dos carros da polícia. Mas o cúmulo do absurdo é quando o vigilante faz-se passar por médico para invadir o manicômio onde um de seus alvos é mantido à espera de um julgamento.
É claro que o espectador mais uma vez é obrigado a torcer por Paul Kersey, aqui mostrado como uma pessoa bem mais simpática que no primeiro filme - até por estar vivendo um novo caso amoroso. Mesmo que saibamos que Kersey é um justiceiro sanguinário à noite, é impossível não simpatizar com seu jeito bem humorado e atencioso com a namorada Geri.
Infelizmente, o roteiro se concentra na ação e na violência e não abre espaço para questionamentos sobre a justiça pelas próprias mãos. Chega a ser irônico o fato do filme começar com Geri entrevistando um juiz contrário à pena de morte, que lhe diz: "Qual a utilidade de matarmos o acusado de matar alguém para tentar provar que matar é errado?". Após esta inteligente constatação, entretanto, Kersey continua livre e matando sem dó nem piedade. A mensagem é ainda mais forte do que a do primeiro filme: a vingança do indivíduo é muito mais eficiente que a da justiça.
DESEJO DE MATAR 2 é o último filme da série (que tem um total de cinco filmes) a seguir uma proposta mais realista, menos aventuresca e exagerada. A partir de então, as continuações transformariam o personagem de Paul Kersey num justiceiro invencível e piadista, quase um Rambo envelhecido, usando metralhadoras e até lançadores de mísseis contra os criminosos. Embora abaixo da média se comparado às aventuras atuais, ainda assim este segundo filme é um excelente programa, que merece ser conhecido.
Como curiosidade, o atual Morpheus (de MATRIX) Laurence Fishburne aparece pouco como um dos delinqüentes, que toma um tirambaço de Kersey bem no meio da fuça!!!
Publicado originalmente no endereço martindolman.multiply.com
Felipe M.Guerra
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DESEJO DE MATAR 2 (Death Wish 2, Estados Unidos, 1982). Duração: 95 minutos.
Direção: Michael Winner
Roteiro:
David Engelbach, baseado em personagens criados por Brian Garfield
Produção: Yoram Globus; Menahem Golan
Produção Executiva: Hal Landers; Bobby Roberts
Fotografia: Thomas Del Ruth; Richard H. Kline
Música: Jimmy Page; David Whitaker
Edição: Julian Semilian; Michael Winner
Desenho de Produção: William Hiney
Elenco: Charles Bronson (Paul Kersey); Jill Ireland (Geri Nichols); Vincent Gardenia (Det. Frank Ochoa); J.D. Cannon; Anthony Franciosa (Herman Baldwin); Ben Frank; Robin Sherwood; Silvana Gallardo (Rosario); Robert F. Lyons; Michael Prince; Drew Snyder; Paul Lambert; Thomas F. Duffy; Kevyn Major Howard; Stuart K. Robinson
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