DESEJO DE MATAR 3
por Felipe M.Guerra
Ai, ai, ai... Por onde começar?
Se em DESEJO DE MATAR 1, de 1974, tínhamos uma história policial séria, sobre um homem pressionado ao extremo que resolve libertar sua fúria exterminando marginais na rua, e em DESEJO DE MATAR 2, de 1982, vimos o mesmo homem comum agora transformado definitivamente num justiceiro, que vinga a morte da sua filha, em DESEJO DE MATAR 3, lançado 11 anos após o original, a coisa parte direto para a avacalhação.
Sem tentar manter um tom sério e realista, como fez nos dois filmes anteriores, o cineasta Michael Winner (o mesmo dos anteriores) deu a esta terceira parte a cara da avacalhação e do exagero típicos do ano em que foi produzida. Para quem não lembra, 1985 foi o ano em que saíram os filmes na linha "um homem só contra um exército", iniciando o ciclo de aventuras exageradas e inverossímeis que perdura até os dias atuais. Foi na mesma época que saíram COMANDO PARA MATAR, com Schwarzenegger; o excelente CÓDIGO DO SILÊNCIO, com Chuck Norris, e RAMBO 2, com Stallone.
Portanto, é indispensável assistir DESEJO DE MATAR 3 como uma aventura independente, isolada dos filmes anteriores, ou a decepção será inevitável. Se tivesse que analisar o filme como cinema, por exemplo, eu daria de cara nota zero para ele: roteiro inexistente, situações sem pé nem cabeça, violência gratuita e direção precária - parece até que o profissional Winner abandonou o projeto e deixou a direção na mão dos produtores, pois o filme é marcado por exagerados "zoom" de câmera no estilo do cinema italiano. Agora, analisando pelo lado "diversão trash", DESEJO DE MATAR 3 é o filme perfeito para assistir com os amigos e se mijar de rir. A história não se preocupa em tentar ser séria, encheram o personagem de Charles Bronson com frases prontas e engraçadinhas e o final é um massacre onde nosso amigo justiceiro mata mais de 200 pessoas, sem tomar um único tiro dos inimigos! Pode? Acredite: são 95 minutos que te deixarão com o peito doendo de tanto rir. E novamente com a produção da picareta Cannon Pictures, especialista em aventuras bagaceiras repletas de tiros e explosões.
O roteiro é de Don Jakoby, o mesmo que escreveu FORÇA SINISTRA, de Tobe Hooper, e PROJETO FILADÉLFIA (uma gema do cinema B). Mas ele deve ter ficado envergonhado do material que escreveu e resolveu assinar com pseudônimo, Michael Edmonds. Sem muita preocupação em explicar o que aconteceu com o personagem do arquiteto vingador Paul Kersey após os acontecimentos de DESEJO DE MATAR 2, o fiapo de história já começa com nosso herói num ônibus, com destino a Nova York - de onde foi praticamente expulso pela lei no final do primeiro DESEJO DE MATAR. A trilha sonora, mais uma vez, é de Jimmy Page, mas agora exagerada, como todo o filme, sem repetir o bom trabalho que Page fez na Parte 2.
Aparentemente (já que o roteiro não explica), Kersey teve que deixar Los Angeles após ter matado todos os assassinos da sua filha, como vimos no filme anterior, e depois de levar um chute na bunda da sua ex-noiva (que descobriu a vida dupla de Kersey). A única coisa que o roteiro deste terceiro filme se preocupa em esclarecer é que o destino do nosso herói é um bairro pobre nova-iorquino, onde pretende encontrar Charley (Francis Drake), um amigo dos tempos da Guerra da Coréia.
O problema é que o velho Charley está enfrentando problemas. Uma gangue de delinqüentes que domina o bairro invade seu apartamento e quebra o velhote a pau. Quando Kersey chega ao local, encontra o amigão se esvaindo em sangue no piso. E, no exato momento em que o chapa morre, a polícia aparece e prende o pobre herói como suspeito do crime. Espertinho, Kersey se identifica como Kimball (mesmo nome falso que usou para alugar um quarto de hotel na Parte 2), mas o inspetor Richard Shriker (o eterno coadjuvante e eterno careca Ed Lauter) o reconhece como o vigilante que agiu na cidade 10 anos antes. Por isso, joga Kersey numa cela repleta de marginais - onde ele toma e dá porrada -, mas logo resolve aliviar para o herói, com uma condição: que ele vá para o tal bairro onde seu amigo foi morto e faça uma limpeza, "por fora". Sacou? É isso mesmo que você leu: o policial pede para o vigilante fazer seu trabalho, já que aparentemente até a polícia tem medo dos marginais naquele bairro!!!
E não sem motivo: o lugar faz a favela do filme CIDADE DE DEUS parecer um bairro rico e tranqüilo. Adolescentes e punks armados fazem a maior algazarra, agredindo velhinhos e invadindo apartamentos, estuprando mulheres e botando para correr qualquer policial que chegue próximo aos limites do bairro. Ou seja, é uma verdadeira terra de ninguém - só não me pergunte porque é que Shriker não envia ao lugar uma tropa de choque fortemente armada, ao invés de um vigilante na terceira idade!!! Kersey chega ao local e se apropria do apartamento do amigo morto, conhecendo outros moradores do local: um casal de judeus, um veterano da Segunda Guerra Mundial chamado Bennett (Martin Balsam), um casal porto-riquenho... Todos vivem com medo e trancados em seus apartamentos. Isso até Kersey chegar ao local, é claro.
Mas junto com o herói chega o vilão. Libertado da cadeia no mesmo dia, Fraker (Gavan O'Herlihy) é a verdadeira encarnação da maldade. Ele volta ao bairro para se apropriar do local e já sai cortando a garganta do marginal que estava comandando a gangue na sua ausência. Apesar de Kersey saber quem são os bandidos e, principalmente, quem é o chefão deles, não sai mandando bala a torto e a direito, como nos filmes anteriores, preferindo que os agressores ataquem primeiro. Essa atitude imbecil do herói renderá vários mortos inocentes ao longo da história...
O vigilante começa provocando os bandidos. Primeiro, aluga um carro somente como isca; quando alguns marginais vão roubar o rádio do veículo, Kersey aparece e enche-os de bala. Depois, ao perceber que bandidos estão entrando pelas janelas do seu apartamento, o esperto herói coloca uma madeira cheia de pregos debaixo da janela, furando os pés dos invasores. Mais adiante, ainda, vai passear pelo pouco tranqüilo bairro levando uma máquina fotográfica a tiracolo como isca; ao ser roubado, atira no ladrãozinho pelas costas. Graças às atitudes de Kersey, os moradores decentes do bairro (aproximadamente 3% das pessoas que lá vivem, diga-se de passagem) começam também a reagir à brutalidade dos bandidos. Mas os vilões também respondem na mesma moeda, matando e agredindo inocentes. Logo, Kersey percebe que o problema é ele e resolve abandonar o local.
A estas alturas, o ex-arquiteto já está tendo um caso com a advogada Kathryn Davis (a bonitinha Deborah Raffin), que deve ser 30 anos mais nova que ele e se apaixona pelo velhote da maneira mais improvável possível. Acredite se quiser, mas a mocinha vê o garanhão de asilo uma única vez e, no segundo momento em que se cruzam, ela já o convida para jantar!!!! Pior: no primeiro encontro, eles já dormem juntos! Eta!
Quando Kersey pensa em abandonar tudo, Fraker dá o troco matando Kathryn. A cena é patética: o bandidão simplesmente desacorda a advogada com um soco e solta o freio-de-mão do carro onde ela está, fazendo-o descer uma ladeira e bater em outro veículo. Até aí, tudo bem... Mas após a batida os dois carros EXPLODEM! Uma batidinha de nada! Já perceberam como os carros americanos explodem ao menor choque? A lataria deve ser feita com nitroglicerina!!!
Com Kathryn morta (a personagem é tão dispensável que não chega a ter três cenas no filme), nem ao menos vemos Kersey se lamentando, choramingando ou indo a seu enterro. Pelo contrário: no dia seguinte ele já está de volta ao bairro com um arsenal digno do exército americano. Acontece que, além da morte da amada, Kersey também teve que agüentar a sova levada pelo seu amigo Bennett, que tentou disparar com uma metralhadora da Segunda Guerra (aquelas grandes, que usam munição pesada) contra a bandidagem, mas a dita cuja falhou na hora H. Sentiu o drama? O coroa levou duas metralhadoras e um montão de munição como lembrança da guerra, e ninguém deu pela falta das armas!!!
Depois de quase linchado pela gangue, Bennett foi parar no hospital, aumentando ainda mais a sede de sangue do vigilante. Afinal, vamos fazer as contas: os caras mataram o melhor amigo de Kersey, mataram sua nova namoradinha e ainda cagaram a pau seu vizinho??? Caramba, os caras são loucos!!! Kersey já chacinou marginais por muito menos que isso!!!
Como Fraker não é bobo nem nada, ele chamou reforços: uma gangue de motoqueiros das redondezas, que ataca o bairro com granadas e metralhadoras. O resultado do confronto é uma guerra campal entre Kersey, os moradores do bairro e os marginais, que preenche a meia hora final - tão violenta quanto o exagerado final de COMANDO PARA MATAR. Sem brincadeira: a coisa parte para a palhaçada assumida, com o vigilante correndo pelas ruas levando uma pistola de munição pesada (apelidade "Wilde") e um lança-mísseis, que usa para detonar o grande vilão no final - numa chupação da conclusão de INVASÃO USA, de Chuck Norris, feito no mesmo ano. O roteiro só não explica como é que Kersey, que afinal é apenas um maldito arquiteto, consegue estas armas das Forças Armadas (que, detalhe, ele recebe tranqüilamente PELO CORREIO!!!!!). Será que comprou pelo E-Bay da época???
A coisa parte tão para o lado do vale-tudo assumido que a batalha final inclui velhas donas-de-casa pegando em espingardas para detonar a bandidagem. E, na hora H, surge o inspetor Shriker... não para controlar a bagunça, mas sim para lutar ao lado de Kersey! Eu quase me mijei de rir ao ver aqueles dois coroas correndo pelas ruas repletas de carros e prédios em chamas, dando tiros nos bandidos como se estivessem numa cidade do Velho Oeste, e como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Detalhe: um helicóptero da TV filma tudo e em nenhum momento vemos a intervenção do exército ou de tropas de choque. Outro detalhe: apesar de sair mandando chumbo em tudo e todos, Shriker, que é um policial, nem deve ter perdido ou o emprego nem nada disso.
DESEJO DE MATAR 3 é a mais vergonhosa apologia à violência que o cinema já mostrou. "Bandido bom é bandido morto", parece ser a mensagem, e aparentemente ele tenta nos convencer de que a paz só é possível se todos os marginais forem implacavelmente exterminados - no diálogo mais fascista da história, Kersey chega a comparar os criminosos a baratas, dizendo: "Temos que eliminar todas as baratas, senão não adianta nada!". Devia ser exibido uma vez por mês para a polícia do Rio de Janeiro, como uma verdadeira aula prática de como acabar com a alta criminalidade sem muita encheção de saco. Ou, melhor ainda, deveria ser usado como vídeo institucional pelas bichas que defendem o desarmamento do cidadão, pois eles certamente devem sentir arrepios em cenas como aquela em que um grupo de velhotes e donas-de-casa sai às ruas com armas de fogo, baleando bandidos desarmados e caídos ao chão!!! Cada segundo de DESEJO DE MATAR 3 é uma ode à beleza da matança e da carnificina, uma espécie de propaganda do prazer proporcionado pelas armas de fogo, pelo disparo de revólveres contra pessoas - desde que elas sejam "malvadas", é claro...
Mas, na prática, a limpeza efetuada por Kersey & cia. não serve para muita coisa, considerando que a maior parte dos bonzinhos do bairro são chacinados pelos bandidos ao longo da história ou na guerra final, sobrando uma meia dúzia para tomar conta dos escombros que restaram - sim, porque a maioria dos prédios são bombardeados ou incendiados pela gangue!!! Logo, será que valeu a pena lutar? Também são patéticas as soluções simplistas que o roteiro usa para eliminar personagens. Quando uma mulher é estuprada, por exemplo, seu marido vai ao hospital sabendo que ela apenas teve o braço torcido. Ao chegar lá, descobre que ela morreu. O médico explica: "O braço foi torcido com muita gravidade e coágulos de sangue chegaram ao seu coração". Pode??? Não era mais fácil mostrar logo os bandidos matando a mulher do que inventar esta forçada reviravolta?
Além disso, é muito improvável acreditar em Bronson como herói à la Schwarzenegger ou Stallone. O cara está muito velho e acabado (tinha 64 anos na época), e olha que voltou em mais duas seqüências!!! Embora o filme tenha cenas como Kersey fazendo flexões, é impossível acreditar que o velhote tenha disposição para correr e perseguir bandidos, escalar muros e subir escadas correndo (percebe-se um dublê na maioria das cenas). E ele não é ferido uma única vez durante toda a trama, apesar de balas de revólver e metralhadora zunirem ao seu redor o tempo todo! Agora, se já é difícil engolir Bronson como herói, como galã romântico é ainda pior: prepare-se para gargalhar na cena de amor entre ele e a advogada, que deveria ser geriatra, tal sua paixão pela terceira idade!!! A personagem de Deborah Raffin parece estar na trama apenas para morrer e dar mais incentivo à cruzada de Kersey - mas nem era necessário, considerando que vários dos seus amigos apanham ou são mortos ao longo do filme!!!
Resumindo: DESEJO DE MATAR 3 é um dos piores filmes da história do cinema, mas engraçadíssimo desde que encarado da maneira correta, ou seja, como uma diversão exagerada e uma comédia involuntária. Simplesmente não dá para acreditar que o personagem (Paul Kersey) e o diretor (Winner) sejam os mesmos dos dois filmes originais, que primavam mais pelo realismo do que pelo heroísmo inverossímil demonstrado nesta terceira parte - e isso que Kersey voltaria como justiceiro em mais dois filmes!!! Também não dá para acreditar que o personagem não seja preso ou pelo menos processado por matar implacavelmente tanta gente, mesmo que sejam marginais sem coração - típicos do cinema de ação classe B. A única lembrança da crítica social presente nos dois primeiros filmes é a cena onde a polícia dá uma batida no bairro... não para prender a bandidagem, mas sim para confiscar a arma usada por um casal de idosos para se defender (já que é ilegal portar arma em Nova York)!!! Num local dominado por bandidos fortemente armados, os policiais ameaçam prender o velhote se ele não entregar seu revólver! Pode?
Assista e prepare-se para rir muito!
Publicado originalmente no endereço martindolman.multiply.com
Felipe M.Guerra
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DESEJO DE MATAR 3 (Death Wish, Estados Unidos, 1985). Duração: 92 minutos.
Direção: Michael Winner
Roteiro:
Don Jakoby , baseado em personagens criados por Brian Garfield
Produção: Yoram Globus, Menahem Golan
Fotografia: John Stanier
Música: Jimmy Page
Edição: Michael Winner
Desenho de Produção: Peter Mullins
Elenco: Charles Bronson (Paul Kersey); Deborah Raffin (Kathryn Davis); Ed Lauter (Richard S. Shriker); Martin Balsam (Bennett); Gavan O'Herlihy (Fraker); Kirk Taylor (Giggler); Alex Winter (Hermosa); Tony Spiridakis (Angel); Ricco Ross, Tony Britts (Tulio); David Crean (Hector), Nelson Fernandez (Chaco), Alan Cooke
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