DESEJO DE MATAR 4 - OPERAÇÃO CRACKDOWN

por Felipe M.Guerra

Que fim levou o Paul Kersey que Charles Bronson interpretou com tanto realismo e dedicação em DESEJO DE MATAR 1 e 2? Bem, a década de 80 (e a parceria com a produtora Cannon Groups, especializada em filmes classe B de ação) não fez bem ao personagem, que em DESEJO DE MATAR 3, de 1985, já tinha se transformado mais num exterminador à la Stallone ou Schwarzenegger e menos no vingador urbano que era tão legal nos dois primeiros filmes. DESEJO DE MATAR 4 - OPERAÇÃO CRACKDOWN não tenta fugir desta linha: apesar de colocar novamente Kersey na profissão de arquiteto, como nos dois primeiros filmes (na 3ª parte não há qualquer menção ao trabalho do herói), ele continua um exterminador que usa explosivos, metralhadoras e fuzis para detonar bandidos nas horas vagas.

O Titara, que teve a paciência de ler minhas resenhas para as três aventuras anteriores da série, já tinha me alertado que este DESEJO DE MATAR 4 era meia-boca. Não podia estar mais certo: a quarta aventura de Paul Kersey está muito distante daquele tom mais sério dos dois primeiros, e se aproxima das aventuras bobinhas dos anos 80. Depois de exterminar uma gangue de punks que atemorizava um bairro nova-iorquino (na Parte 3), agora Kersey novamente faz um trabalho "humanitário", limpando as ruas de Los Angeles (sim, ele mudou-se de volta para a cidade) dos traficantes de drogas. DESEJO DE MATAR 4 foi feito em 1987, quando a Cannon parecia estar querendo dar uma de salvadora da pátria - no mesmo ano, produziu SUPERMAN 4: EM BUSCA DA PAZ, onde o super-herói salvava o mundo da ameaça das bombas atômicas. Claro, Kersey precisa de um motivo para declarar guerra ao tráfico, já que nos dois anos que separam a Parte 4 da Parte 3 ele aparentemente deixou de ser vigilante e justiceiro para concentrar-se novamente na profissão de arquiteto.

Então, o roteiro de Gail Morgan Hickman inventou mais um caso amoroso para o herói, a jornalista Karen Sheldon (Kay Lenz, de A CASA DO ESPANTO), novamente vários anos mais nova que ele (Bronson tinha 66 anos época, e Kay apenas 34!). O roteiro não faz nenhuma menção à pobre advogada com quem Kersey se envolveu em DESEJO DE MATAR 3, e que foi morta pelos delinqüentes e, aparentemente, esquecida com a maior facilidade. Karen tem uma enteada, Erica (Dana Barron, filha de Chevy Chase no clássico FÉRIAS FRUSTRADAS), que está envolvida com o vício em cocaína. Certa noite, ela sai com seu namorado panaca, Randy (Jesse Dabson), dá uma cafungadas a mais e acaba comendo capim pela raiz, morrendo de overdose. Isso acontece aos 10 minutos de filme, pois desenvolvimento de personagens e da história não é algo que interesse muito nos filmes de ação dos anos 80.

Kersey nem espera o cadáver esfriar e segue Randy até o traficante que vendeu a coca, Jojo (Héctor Mercado, será parente do Walter????). Quando o meliante mata o rapaz a punhaladas, Kersey resolve agir e dar o devido castigo ao "assassino" da sua enteada, crivando-lhe de balas. O crime é investigado por uma dupla de policiais, os detetives Reiner (George Dickerson, que também foi policial em VELUDO AZUL, de David Lynch) e Nozaki (Soon-Tek Oh). Sim, você não leu errado: um dos policiais é interpretado pelo ator que fez o vilão filha da puta de BRADDOCK 2!!! Você pensa: "Como é que eu vou engolir o bastardo como policial?". Mas não se preocupe, pois ele logo se revela um policial corrupto.

Paralelamente, quando Kersey já pensa em abandonar as armas - afinal, de um modo ou de outro fez justiça -, é contatado por um poderoso milionário, dono de um império de veículos de comunicação, chamado Nathan White (John P. Ryan). Ele quer "contratar" o vingador para um trabalhinho bem sujo: aniquilar as duas quadrilhas de traficantes que comandam o império dos entorpecentes em Los Angeles. Nathan alega que sua única filha também morreu em conseqüência de overdose, e por isso não vai economizar dinheiro ou armas para que Kersey acabe com a raça dos bandidos. Apesar de não ter mais nada a ver com a história, e de não ser nenhum mercenário ou guerrilheiro, o vigilante aceita a proposta - com a desculpa de acabar com aqueles que estão matando "as crianças".

As duas quadrilhas de traficantes são chefiadas por Ed Zacharias (Perry Lopez, que apareceu no clássico CHINATOWN) e pelos irmãos latinos Jack (Mike Moroff, de A BALADA DO PISTOLEIRO) e Tony Romero (Dan Ferro). Uma quadrilha não se bica com a outra e só precisa riscar um fósforo para explodir o barril de pólvora. Kersey percebe isso e dá uma de Clint Eastwood em POR UM PUNHADO DE DÓLARES, do mestre Leone, jogando um contra o outro, matando os homens-chave de cada organização e fazendo parecer que foi trabalho da outra. O resultado é uma mini-guerra que chega a lembrar DESEJO DE MATAR 3 (mas é rápida demais!), onde os bandidos chacinam uns aos outros e Kersey ainda aparece nos bastidores para matá-los pelas costas!!!

Sem grandes novidades em relação a outros filmes da época, e definitivamente distante do tom dos primeiros filmes, DESEJO DE MATAR 4 não parece ter absolutamente nada a ver com a série, e é mais fácil acompanhá-lo como uma aventura independente. Aliás, a presença de um outro diretor, o amigão de Charles Bronson e especialista em ação J. Lee Thompson (os outros três eram de Michael Winner), e o subtítulo (THE CRACKDOWN), me fazem pensar seriamente que o roteiro foi escrito para uma produção independente qualquer, e resolveram incluir o personagem de Paul Kersey e mudar o título para DESEJO DE MATAR 4 apenas para faturar em cima dos fãs da série. "Dessa vez é guerra!", diz a frase no cartaz do cinema. Mas e das outras vezes não foi???

O roteiro, por sinal, é muito fraco. Embora tenha algumas citações aos filmes anteriores (quando os policiais que investigam o caso citam as tragédias acontecidas na família Kersey em 1974 e 1981, mostradas nas duas primeiras aventuras), e novamente Kersey se identifique com o nome falso "Kimball" para os bandidos (como fez nas partes 2 e 3), o roteiro simplesmente não aproveita o fato do personagem não ser um soldado nem um policial, mas sim apenas um cara normal. A primeira cena do filme é um pesadelo que o vigilante tem, onde se vê interrompendo uma tentativa de estupro e, mais tarde, matando a um clone de sim mesmo. Kersey então acorda suado e gritando na cama. Um roteiro inteligente e mais ambicioso iria explorar mais este lado de que o personagem vive um dilema moral - será que dorme bem à noite alguém que tem tantas mortes e violência no seu passado? Mas, tirando esta primeira cena, a história se entrega rapidamente à ação e qualquer tentativa de criar uma história melhorzinha cai por terra.

Também é difícil engolir que Kersey consiga esconder de todo mundo (da nova namorada, da polícia) o seu passado justiceiro e assassino, ainda mais pelo fato de ele sair tranqüilamente com uma pistola no paletó o tempo todo - pelo menos ele sempre tem uma arma quando precisa despachar algum bandido. E é ainda mais difícil de engolir o fato de Kersey, mesmo sendo um simples arquiteto, conseguir se infiltrar com a maior facilidade em qualquer lugar, como ao entrar disfarçado de garçom numa festa promovida por Zacharias ou ao se infiltrar como funcionário numa refinaria de cocaína do mesmo traficante - nos dois casos, o pessoal que cuida da segurança da quadrilha deve ser muito, mas muito fraco.

Há algumas boas cenas de ação (especialmente o ataque à refinaria, quando Thompson chega a filmar uns tiroteios em câmera lenta) e piadinhas inspiradas aqui e ali, além de uma intereressante reviravolta no final (pouco convincente, mas inesperada). Mas, no geral, o filme é inconsistente, uma diversão ligeira e descartável, com um roteiro muito fraco, que ainda desperdiça o novo interesse amoroso de Kersey. A pobre Karen aparece apenas no começo, quando vê a filha morrer de overdose, e então desaparece da trama até o final, quando é seqüestrada pelos bandidos - e, claro, tem um final trágico, como todas as namoradas ou familiares de Paul Kersey. O roteiro só não explica o que a personagem fez durante toda esta parte do filme em que simplesmente desaparece, já que ela nem se encontra mais com Kersey - que tem todas as noites livres para sair matando bandidos.

DESEJO DE MATAR 4 - OPERAÇÃO CRACKDOWN só não é o filme mais fraco da série porque, em 1991, Bronson cometeria a imbecilidade de voltar no fraquíssimo e ordinário DESEJO DE MATAR 5, de longe um dos piores (e últimos) filmes de sua carreira, onde não há nem ao menos uma tentativa de mudar um pouco o disco - novamente, Kersey vinga a morte de uma namorada!!! Se na Parte 3 ele acabou com a quadrilha que assustava um bairro pobre e na Parte 4 eliminou o tráfico de drogas de Los Angeles, ainda bem que Charles Bronson morreu antes de assinar o contrato para futuras continuações!!! Senão, era bem capaz de ele voltar trabalhando para o SPC, eliminando maus pagadores, em DESEJO DE MATAR 6 - O ACERTO DE CONTAS, ou então fuzilando motoristas irresponsáveis que não param nas faixas-de-segurança, em DESEJO DE MATAR 7. Quem duvida???

PS: Repare nas participações minúsculas de atores com carrancas beeeeem características: Danny Trejo (o feioso tatuado da trilogia UM DRINK NO INFERNO), como um dos homens de Zacharia, e Mitch Pileggi, o Skinner de ARQUIVO X, como um traficante que toma umas bolachas de Kersey na refinaria de cocaína. A participação de ambos é minúscula. Piscou, perdeu! Também dá pra ver como cresceu (e ficou mais bonita) a ninfetinha de SLUMBER PARTY MASSACRE, Michelle Michaels, que aqui faz a secretária de Kersey.

Publicado originalmente no endereço martindolman.multiply.com

Felipe M.Guerra


DESEJO DE MATAR 3 (Death Wish 4: The Crackdown, Estados Unidos, 1987). Duração: 99 minutos.
Direção: J. Lee Thompson
Roteiro: Gail Morgan Hickman, baseado em personagens criados por Brian Garfield
Produção: Pancho Kohner
Fotografia: Gideon Porath
Música: John Bisharat; Michael Bishop; Paul McCallum; Valentine McCallum; Robert O. Ragland
Edição: Peter Lee-Thompson
Direção de Arte: Whitney Brooke Wheeler
Elenco: Charles Bronson (Paul Kersey); Kay Lenz (Karen Sheldon); John P. Ryan (Nathan White); Perry Lopez (Ed Zacharias); George Dickerson (Detetive Reiner); Soon-Tek Oh (Detetive Nozaki); Dana Barron (Erica Sheldon); Jesse Dabson (Randy Viscovich); Peter Sherayko (Nick Franco); James Purcell (Vince Montono); Michael Russo (Danny Moreno); Danny Trejo (Art Sanella); Michelle Michaels (Marilyn)


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