DESEJO DE MATAR 5 - OPERAÇÃO CRACKDOWN

por Felipe M.Guerra

Pergunta: Será que a humanidade precisa de um DESEJO DE MATAR 5?

Resposta de 99% da humanidade: “Tanto faz, eu não assisto estes filmes mesmo.”

Resposta dos fãs apaixonados da série (o 1% restante): “Acho que não... DESEJO DE MATAR 3 e 4 já foram bem ruinzinhos. Melhor deixar quieto.”

Resposta dos produtores ávidos por dinheiro rápido: “Ora, mas é claro que SIM! Charles Bronson está meio velho, mas usaremos um dublê em praticamente todas as suas cenas mesmo. Consigam rápido um roteiro onde a mulher dele é morta por bandidos, filmem em uma semana e vamos jogar logo nos cinemas. O quê? Ah, já matamos três interesses românticos de Bronson nos outros filmes? Tudo bem, vamos fazer de novo, ninguém vai notar.”

E é isso mesmo: nós precisamos tanto de um DESEJO DE MATAR 5 quanto de um pedaço de bambu enfiado debaixo da unha. Ainda mais quando o filme em questão é tão preguiçoso, precário e esquemático que consegue ser ainda pior do que a razoável Parte 4. É o fundo do poço da série, e felizmente Charles Bronson morreu antes que os produtores pudessem colocá-lo para pagar mico em um DESEJO DE MATAR 6. É claro que quando os atores ficam velhos os bons papéis ficam escassos, mas bem que Bronson poderia ter se valorizado um pouco mais e escapado de abacaxis como esse. Lamentavelmente, este é seu último filme exibido nos cinemas; os próximos, todos convencionais, foram feitos para a TV ou direto para o mercado de vídeo.

O cara já percebe que a coisa está feia quando vê que todos os envolvidos nos filmes anteriores pularam fora, com exceção do próprio Charles Bronson, é claro. Michael Winner, idealizador da série e diretor das três primeiras aventuras, já tinha saído ainda no quarto filme, que foi dirigido por J. Lee Thompson. Nesta quinta parte, a bomba ficou para Allan A. Goldstein, que também assina o roteiro. Seu trabalho é simplesmente lamentável, para dizer o mínimo. E o cara ainda faz uma ponta como balconista de uma loja de brinquedos. Alguns anos depois, Goldstein terminaria de afundar sua carreira fazendo comédias sem graça com Leslie Nielsen.

Recapitulemos: após iniciar uma onda de assassinatos de bandidos em Nova York após a morte da esposa (Parte 1) e de matar os assassinos da sua filha adolescente em Los Angeles (Parte 2), Paul Kersey, o personagem de Bronson na série, varreu um bairro pobre de Nova York de uma gangue violenta (Parte 3) e aniquilou três quadrilhas de traficantes de cocaína (Parte 4). No processo, perdeu a esposa, a filha, a empregada (!!!), um velho amigo dos tempos da guerra, uma namorada advogada, uma namorada jornalista e sua enteada, filha desta última. Ou seja, o cara é um verdadeiro azarão e “grupo de risco”: envolveu-se com ele, nem que seja dando “bom dia” na rua, e você morre! Mas o próprio Kersey não aprende, e continua acumulando interesses românticos - que, obviamente, nem desconfiam de sua vida dupla como vigilante assassino.

Neste DESEJO DE MATAR 5 (que tem o subtítulo “The Face of Death” e foi filmado em 1994), Kersey foi novamente morar em Nova York, desta vez escondido através do programa de proteção a testemunhas, com a identidade falsa do pacato professor de arquitetura Paul Stewart. Ninguém além dos policiais que cudiam de sua proteção sabe a real identidade do velhinho matador. E tudo vai bem na vida de Kersey: além de ter aposentado as armas e de lecionar numa universidade, ele arrumou novamente uma namorada bonitona e muitos anos mais nova que ele, Olivia (a bonita Lesley Anne-Down, mero enfeite do filme, pois suas cenas não somam 15 minutos). Ela é uma estilista com uma filhinha pequena, Chelsea, e que é divorciada de um temido gângster irlandês, Tommy O’Shea (o malvadão Michael Parks, de UM DRINK NO INFERNO e KILL BILL).

O’Shea usa um punhado de confecções como ferramenta para lavar o dinheiro de suas ações criminosas. A grife de Olivia é uma delas. Mas a moça já não quer mais colaborar com seu esquema sujo. O que, é claro, significa problemas. Quando Kersey fica sabendo que O’Shea anda ameaçando sua amada, tenta conversar numa boa. Mas um dos capangas do bandidão lhe aponta uma arma. “O que há? Armas te deixam nervoso?”, pergunta O’Shea. E Kersey responde engraçadinho: “Armas podem ser úteis. Idiotas com armas é que me deixam nervoso”.

Nosso herói escapa ileso deste primeiro confronto, mas insiste para que Olivia testemunhe contra seu ex-marido, já que a polícia está louca para colocar as mãos nele, mas nunca encontra provas de seus negócios escusos. Infelizmente, O’Shea tem um contato na Corregedoria. E, quando fica sabendo das intenções da ex-esposa, manda um assassino psicótico chamado Freddie Flakes (Robert Joy) primeiro deformar a cara da moça, e depois apagá-la definitivamente. É claro que perder a quarta pretendente enfurece Kersey, que saca sua arma e parte para dar o troco nos bandidos.

DESEJO DE MATAR 5 é vergonhosamente vagabundo e nem ao menos respeita o que vimos nos filmes anteriores. Nas partes 3 e 4, por exemplo, precisou de muito pouco para Paul Kersey sair metendo bala na bandidagem. Neste quinto episódio, o justiceiro virou um mané cansado e medroso, que prefere engolir as ameaças de O’Shea durante mais de meia hora de filme e acreditar no trabalho da Justiça, resolvendo encarar por conta própria os criminosos somente quando Olivia é morta - coisa que ele poderia ter evitado se começasse a agir bem antes.

Além disso, numa estratégia que lembra a Parte 4, Kersey aqui prefere criar armadilhas para seus desafetos do que enchê-los de chumbo. Primeiro ele despacha um dos capangas de O’Shea envenenando sua comida; depois, compra uma bola acionada por controle remoto (e vai saber qual a graça desse brinquedo... será para quem gosta de futebol, mas tem preguiça de chutar a bola), enche ela de explosivo e explode Freddie Flakes em pedacinhos. Por si só, esta morte já dá o tom da pobreza do filme: aperte “pause” segundos antes da explosão para ver o ridículo boneco que teoricamente deveria substituir o ator Robert Joy...

Há um número ínfimo de bandidos para Kersey matar (uns seis ou sete), o que não deixa de ser frustrante, ainda mais depois que vimos o justiceiro aniquilar uns 300 marginais em DESEJO DE MATAR 3. Para piorar, os vilões não tomam precaução alguma, tornando o trabalho do herói bem fácil... Desse jeito, DESEJO DE MATAR 5 se desenvolve sem suspense, sem surpresas e sem emoção, pulando de uma morte a outra, sem qualquer novidade ou tentativa de criar algo novo. Simplesmente pavoroso.

Algumas coisas precisam ser destacadas. Em primeiro lugar, o clima de comédia involuntária que reina no filme. Kersey parece ter desenvolvido um superpoder neste quinto filme, que é o de desviar das balas. Na cena em que bandidos com metralhadoras atacam a casa de Olivia, eles disparam rajadas de metralhadoras certeiras no herói e este (um visível dublê) fica se desviando como se fosse o Neo, da série MATRIX, enquanto móveis, vasos e janelas explodem atrás dele. Vai ser ágil assim lá na PQP! Pior: com 70 anos na cara e um corpo velho e enrugado, Kersey (ou melhor, o dublê de Bronson) ainda consegue fazer malabarismos ousados para um garotão de 20 anos, como mergulhar, de cabeça (!!!), do segundo andar de uma casa direto numa pilha de sacos de lixo! É mole ou quer mais?

Outras cenas que provocam risos parecem estar completamente fora de lugar: a primeira é o velório de um dos bandidos mortos por Kersey, onde todas as pessoas presentes sacam suas armas quando alguém entra correndo na igreja! Ou, ainda, a cena em que O’Shea fica revoltado com a burrice da sua amante, que prepara bombas de chocolate para ele comer depois que um de seus capangas foi morto com doces envenenados; o bandidão se vinga jogando as bombas na pobre moça!!! E tem coisa pior que ver Robert Joy, o Charlie de LAND OF THE DEAD, vestido de mulher? Cacetada, é a própria visão do inferno!

Também é necessário salientar a extrema previsibilidade do roteiro de Goldstein: nos 10 minutos iniciais, quando o filme mostra uma piscina de ácido (!!!) na fábrica de confecções de Olivia, a primeira coisa que passa pela cabeça é: “Kersey vai jogar alguém aí!”. Dito e feito. A identidade de um traidor da polícia que ajuda O’Shea, então, salta aos olhos no momento em que o sujeito aparece no filme - mas o roteiro insiste em tratar a revelação como se fosse uma grande surpresa!

A história ainda está repleta de incongruências. Um policial revela a Kersey que está tentando colocar O’Shea na cadeia há 16 anos (!!!), mas não consegue provas para incriminar a ele ou seus capangas. Pois em dois dias seguindo a trupe, Kersey testemunha pelo menos meia dúzia de atos de violência perpetrados pelos bandidos, incluindo extorsão, agressão e tentativa de homicídio. E a polícia, em 16 anos, nunca conseguiu provas para incriminá-los. Pode?

Para piorar, lá pelas tantas Goldstein acha que é John Woo. Começa a mostrar todas as cenas de tiroteio e ação em câmera lenta, closes de cartuchos vazios voando das armas após os disparos, etc etc - só faltou as pombas voando no tiroteio final. Duas cenas até são bem filmadas: aquela onde um sujeito é atropelado e voa por uma vidraça em câmera lenta, e em seguida uma policial tem o mesmo destino, virando uma cambalhora em slow motion após ser atingida pelo carro em alta velocidade (pobres dublês). O resto é resto, e com um montão de erros de continuidade: os homens de O’Shea cortam o rosto de um desafeto a faca, mas na cena seguinte a cicatriz está mais longe do que o local onde o corte foi feito; Kersey mata um cara com dois tiros e sua camisa fica cheia de sangue, mas na cena seguinte há apenas umas gotinhas... E por aí vai. É inútil continuar a catalogar os defeitos de um filme tão ruim e dispensável.

Com todos estes defeitos, chega a ser incrível o fato dos produtores desta bomba terem reunido tanto gente boa numa porcaria deste calibre. Além de Bronson e Lesley Anne-Down, temos o excelente Michael Parks (cuja Tarantino tratou de ressuscitar em seus filmes), o feioso Robert Joy e pequenas participações de Saul Rubinek (AMOR À QUEIMA-ROUPA) e Kenneth Welsh (que contracenou com Parks na série TWIN PEAKS, onde ambos interpretavam vilões).

No fim, o subtítulo "A Face da Morte" cai como uma luva para Charles Bronson, e não para Paul Kersey: visivelmente de saco cheio, interpretando seu papel pela quinta vez sem qualquer convicção, vontade ou mesmo tesão, Bronson parece estar literalmente com a face da morte, como se fosse cair duro a qualquer momento, velho, acabado, enfim, um caco, que não convence de qualquer maneira como interesse amoroso, pistoleiro ou super-herói capaz de pular do topo de um prédio, desviar de balas e enfrentar dezenas de bandidos ao mesmo tempo. No final, quando ele sai por uma porta iluminada, é como se estivesse morrendo e a caminho do Paraíso. E mesmo que sua última fala seja "Se precisarem de alguma coisa é só me chamar", deixando um gancho para a sexta parte, todos sabemos que Paul Kersey (e Charles Bronson) nunca mais vão voltar. Porém, a julgar pela qualidade deste DESEJO DE MATAR 5, não seria injusto dizer: "Já vai tarde, Paul Kersey...".

Publicado originalmente no endereço martindolman.multiply.com

Felipe M.Guerra


DESEJO DE MATAR 5 (Death Wish V: The Face of Death , Estados Unidos, 1994). Duração: 95 minutos.
Direção: Allan A. Goldstein
Roteiro: Michael Colleary e Allan A. Goldstein, baseado em personagens criados por Brian Garfield
Produção: Damian Lee
Fotografia: Curtis Petersen
Música: Terry Plumeri
Edição: Patrick Rand
Direção de Arte: Ian Hall
Elenco: Charles Bronson (Paul Kersey); Lesley-Anne Down (Olivia Regent); Michael Parks (Tommy O'Shea); Chuck Shamata (Sal Paconi); Kevin Lund (Chuck Paconi); Robert Joy (Freddie 'Flakes'); Saul Rubinek (Tony Hoyle); Miguel Sandoval (Hector Vasquez); Kenneth Welsh (Mickey King); Lisa Inouye (Janice Omori)


Artigos