1957. Indiana Jones (Harrison Ford) e seu ajudante Mac (Ray Winstone) escapam por pouco de um encontro com agentes soviéticos, em um campo de pouso remoto. Agora Indiana está de volta à sua casa na Universidade Marshall, mas seu amigo e reitor da escola, Dean Stanforth (Jim Broadbent), explica que suas ações recentes o tornaram alvo de suspeita e que o governo está pressionando para que o demita. Ao deixar a cidade Indiana conhece o rebelde jovem Mutt Williams (Shia LaBeouf), que tem uma proposta: caso o ajude em uma missão Indiana pode deparar-se com a caveira de cristal de Akator. Agentes soviéticos também estão em busca do artefato, entre eles a fria e bela Irina Spalko (Cate Blanchett), cujo esquadrão de elite está cruzando o globo atrás da Caveira de Cristal.
CRÍTICAS
(É claro que, com um orçamento de 125 milhões de dólares e tudo do bom e do melhor na produção, este não pode ser encarado um legítimo “filme B”. Embora, em se tratando de Indiana Jones, não passe de uma aventura classe A com cara de filme B...)
Quase 20 anos separam “Indiana Jones e a Última Cruzada” do novo INDIANA JONES E O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL. E 20 anos, fora do mundo fantasioso do cinema, é muito tempo. Nada que Steven Spielberg fizesse podia ficar aos pés das expectativas que os fãs do personagem alimentavam desde aquele hoje longínquo ano de 1989, e isso em parte justifica a quantidade de críticas negativas que a quarta e nova aventura do arqueólogo vivido por Harrison Ford recebeu. Injustas, em sua maioria, embora o filme tenha vários e inegáveis pontos fracos.
Lembrando sempre que, antes de O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL, eu considerava “A Última Cruzada” o mais fraco dos Indiana Jones. Agora, claro, esta “honra” coube à nova aventura, que bebe da mesma fonte do terceiro filme, apostando mais no humor e nas cenas de ação absurdas (heróis e vilões parecem personagens de desenho animado, que raramente se machucam com seriedade), o extremo oposto dos dois primeiros, “Os Caçadores da Arca Perdida” e “O Templo da Perdição”, que eram aventuras para adultos, com eventuais pitadas de humor, mas também cenas escabrosas, como o derretimento de nazistas no primeiro e o coração arrancado do peito do garoto no segundo.


Em 20 anos, dezenas de argumentos foram escritos para uma quarta aventura de Indiana Jones, mas nada saiu do papel até que os amigos/produtores Spielberg e George Lucas não estivessem 100% satisfeitos com o material. Fico imaginando o quão ruim eram os outros roteiros, a julgar pela “qualidade” deste que David Koepp escreveu, baseado na história de Lucas e de Jeff Nathanson, e inspirado em fragmentos de todos os outros argumentos (inclusive um do cineasta Frank Darabont).
O maior problema do novo filme é justamente a busca empreendida pelo herói, sem graça, sem mistério e quase sem aquela investigação legal que era a alma dos três anteriores, misturando mitos do mundo real com muita ficção, anos antes de "O Código DaVinci" transformar isso em moda.
Seria infinitamente mais legal ver Indy em busca de algum outro artefato religioso (como a lança que feriu Cristo na cruz, a Arca de Noé...), ou talvez em busca do lendário continente submerso de Atlântida, seguindo os passos do velho e fantástico RPG “Fate of Atlantis”, que muita gente deve ter jogado nos velhos PC 486 (inclusive o jogo era um roteiro pronto, muito bem bolado, só faltava filmar!).
Mas George Lucas, o “co-mentor” desta quarta aventura, preferiu incluir ETs na jogada. Esta é a origem da tal “caveira de cristal” do título, uma relíquia muito sem graça que podia muito bem estar num filme de imitadores, tipo o Ben Gates (Nicolas Cage na série "A Lenda do Tesouro Perdido"). Tudo bem, as pedras Sankara de “O Templo da Perdição” não eram lá grande coisa, mas esta segunda aventura dava mais destaque à escravização de crianças do que ao artefato buscado pelo herói.


O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL começa com uma introdução onde jovens num carrão aceleram para ultrapassar um comboio de veículos militares. Isso comprova, para o espectador, que os tempos mudaram. As outras aventuras se passavam nos anos 30 (“O Templo da Perdição”) e 40 (“Caçadores...” e “A Última Cruzada”), tempos de Segunda Guerra Mundial, em que os vilões eram os nazistas. Agora, além do próprio herói estar bem mais velho, o mundo também mudou.
A história se passa em 1957, tempos de Guerra Fria. Suspeitos de comunismo eram caçados e excomungados pelo governo norte-americano, o rock-and-roll e os carros velozes enlouqueciam a juventude, e os russos eram os vilões do momento. Para o próprio Indiana Jones as coisas mudaram: além de professor universitário e arqueólogo, ele também trabalhou como espião para o governo norte-americano, ao lado do parceiro Mac (Ray Winestone).
O famoso personagem aparece no filme lentamente: primeiro, é seu chapéu que cai no chão. Depois, surge sua sombra inconfundível projetada num veículo. E então finalmente vemos o velho e enrugado Harrison Ford enquanto ele ainda é prisioneiro de soldados russos, liderados pela vilã Irina Spalko (Cate Blanchett). Esqueça todas as críticas que leu sobre a moça: Cate interpreta uma vilã tão apagada, caricata e simplória quanto os vilões dos outros filmes da série, e qualquer elogio ao seu desempenho ou à composição da vilã é pura rasgação de seda, e nada mais.
Indiana e os russos estão na famigerada Área 51, base militar no deserto de Nevada onde supostamente estão escondidos todos os segredos do governo dos EUA. Ironicamente, o enorme hangar onde os personagens vão parar é o mesmo depósito repleto de caixotes mostrado no final de “Os Caçadores da Arca Perdida”! E os inimigos estão em busca de um destes segredos: o cadáver de um dos extraterrestres cujo disco voador se espatifou em Roswell no ano de 1947. Não, este não é um episódio de “Arquivo X”... hehehehe.
Após encontrar o caixote onde os restos do alienígena são mantidos, o herói aproveita a distração dos soldados inimigos para fugir “ao seu estilo”, ou seja, com chicote em punho e derrubando vilões de caminhões em movimento. Na fuga, ele ainda atinge um dos caixotes e, numa participação especial, aparece a famosa Arca da Aliança encontrada por Indy no primeiro filme da série!
Passado o prólogo, conhecemos um Indiana Jones velho e amargurado, que perdeu o antigo companheiro de aventuras, Marcus Brody (o ator que o interpretava, Denholm Eliott, faleceu em 1992), e o pai, Henry Jones (Sean Connery não quis sair da aposentadoria para interpretá-lo uma segunda vez), num curto espaço de dois anos. Como foi prisioneiro dos russos, o FBI logo aparece investigando possíveis relações do herói com os comunistas, e ele acaba perdendo o emprego na universidade.
Quase ao mesmo tempo, surge Mutt Williams (Shia LaBeouf), um jovem e rebelde motociclista que pede a ajuda de Indy para resgatar seu mentor, o professor Oxley (John Hurt), que teria desaparecido na América do Sul, após enviar uma carta repleta de símbolos estranhos para o rapaz.
Claro, Indiana parte para o Peru atrás de encrenca, acompanhado por Mutt, e a nova dupla dinâmica descobre mais do que imaginava encontrar. Primeiro, que Oxley estava atrás de um misterioso crânio de cristal roubado por conquistadores espanhóis no século 17; depois, que os russos cobiçam a mesma relíquia, e para obtê-la aprisionaram um antigo interesse amoroso de Indiana, Marion Ravenwood (Karen Allen, que estava sumida do mundo do cinema), a namorada do herói em “Os Caçadores da Arca Perdida”. Logo, Indy também descobre que Mutt é seu filho, Henry Jones Terceiro, fruto do rápido romance entre os dois em “Caçadores...”. Finalmente, os mocinhos concluem que a caveira de cristal é a chave para o lendário El Dorado (a Cidade do Ouro), procurado pelos conquistadores, e que a origem deste lugar mítico pode estar ligada a uma antiga civilização extraterrestre.
Explicando assim, até parece que acontece um monte de coisa, que Indiana investiga bastante e que vários fatos e lugares históricos são utilizados para deslumbrar o espectador, como acontecia em "Caçadores..." e "A Última Cruzada". Mas não é bem assim, não. A história é simples e sem complicação, mas o roteiro de Koepp ainda consegue deixar um monte de furos e detalhes que ficam se explicação. No momento em que Indiana e Mutt chegam ao Peru, tudo começa a andar rápido demais e há pouco espaço para explicações históricas; assim, a aventura se transforma numa longa seqüência de cenas de ação, onde os heróis fogem dos russos, são aprisionados, fogem de novo, e de novo, e novo... Enfim, é um festival de bem boladas cenas de perigo e belas lutas no coração da selva amazônica, com destaque para a participação de bizarras formigas assassinas (infelizmente feitas em CGI) e também para uma arriscada perseguição de carros à beira de um abismo, que quase arranca um "ohhh" do espectador (embora bastante inferior à cena dos caminhões em "Caçadores...").
Isso tudo até a chegada no tal templo de El Dorado, quando infelizmente o filme degringola e vira uma palhaçada no nível de “A.I. - Inteligência Artificial”, um dos maiores fiascos de Spielberg. Claro que, até chegar ali, o espectador já estará plenamente satisfeito com os malabarismos de Indiana Jones e seus amigos, e o final fraco e besta não chega a estragar a diversão que o filme proporciona. É injusto criticar um passatempo competente e bem realizado apenas pela conclusão medonha, mas tudo bem...
Entre os pontos positivos, destaco a química entre o herói e seu filho rebelde. Quando começaram a surgir os primeiros boatos de que Indiana teria um filho neste novo filme, fiquei com medo de que o roteiro pudesse dar mais destaque ao jovem, relegando o herói a um segundo plano (até pelo peso da idade de Harrison Ford). Felizmente, não é o que acontece: embora Mutt protagonize duas das melhores cenas de ação do filme (a fuga de moto dos agentes do FBI e a longa perseguição na selva), a alma do filme continua sendo Indiana Jones, que por sinal está em todas estas e as outras cenas de ação.
Embora esta seja uma legítima aventura de Indiana Jones, com tudo que ela tem direito (inclusive os absurdos e exageros), um grande problema do filme é que ele é muito politicamente correto, quase infantil às vezes. O herói quase não mata ninguém e não vemos Indiana disparar um único tiro durante a aventura (muito menos em pessoas desarmadas, como fez em “Caçadores...”). Juro que quando vi os russos desmatando a selva com um enorme caminhão dotado de lâminas circulares, pensei na hora que o herói ia jogar algum soldado inimigo no meio das lâminas... Mas ficou só na idéia mesmo!
Inocente e muitas vezes até infantil (como na ridícula cena envolvendo Mutt e um montão de macaquinhos feitos em CGI), O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL, como seu antecessor “A Última Cruzada”, prefere investir nas piadas envolvendo a idade do herói e na divertida relação entre Indy e seus familiares. Se no filme de 1989 o herói enfrentava o pai ranzinza, aqui acontece o oposto, com as intermináveis discussões entre o velho Indy e seu filho rebelde. Pena que a personagem de Marion caia de pára-quedas na história e seja tão mal-aproveitada... E quem espera algo mais sério, na linha de "Caçadores..." e "O Templo da Perdição", certamente vai se decepcionar.
Mas o maior problema do novo filme é mesmo o toque “Arquivo X” do roteiro. Se ficasse apenas no cadáver do alien de Roswell e nos desenhos aéreos no deserto de Nazca, no Peru (brevemente citados e nunca aproveitados na trama), vá lá. Poderia até ser um interessante ponto de partida. E se o final ficasse apenas nos esqueletos de alienígenas no velho templo, também vá lá. O problema ocorre justamente no momento em que os ETs aparecem em carne, osso e disco voador. Aí a coisa vira bobagem, e olha que até tentei fechar um olho para a lógica e tentar engolir aquilo. Pior: Spielberg nem ao menos aproveitou o toque mais interessante da idéia, o fato de os 13 alienígenas talvez serem a inspiração para Jesus e seus 12 apóstolos, e não apenas dos deuses sul-americanos.
Esse desleixo, somado a alguma falta de criatividade (os vilões têm fim muito parecido com o dos nazistas em "Caçadores...") e aos furos e coisas mal-explicadas, tornam irônico o fato de os produtores estarem esperando há 20 anos por um roteiro perfeito, e então sem mais nem menos filmarem uma misturança dos diabos como esta escrita por Koepp. Maldito George Lucas! Quero ser um mico de circo se não é ele o culpado por todas as coisas que não funcionam...
Na soma de qualidades e defeitos, O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL passa com louvor. É um filme que eu certamente verei de novo muitas outras vezes até decorar os diálogos, como fiz com os três anteriores, e também cumpre seu papel de apresentar Indiana Jones, um aventureiro das antigas (seus filmes são dos anos 80, caramba!) para as novas gerações.
Quem sabe o sucesso de bilheteria e a intensa divulgação da aventura não sejam um incentivo para Spielberg e Lucas filmarem uma quinta aventura mais cedo, sem esperar 20 anos?.
E quem está criticando o filme certamente não lembra do espírito de brincadeira que os três anteriores já possuíam: no conjunto, a série Indiana Jones, na mesma linha das aventuras de 007, não é para ser levada tão a sério. É apenas uma matinê divertida, exagerada e bem-humorada, que mal termina e você já quer ver de novo. Simples assim.
E a "revitalização" do personagem, que mesmo envelhecido ainda consegue se adequar a um novo mundo e lutar contra novos inimigos (a exemplo de Stallone em RAMBO 4, guardadas as devidas proporções), comprova que ainda há muitas aventuras de Indy para contar, levando-o, quem sabe, aos anos 60 e 70, mostrando um aventureiro mais maduro e acostumado à ação.
Quem sabe no próximo a Era Atômica (um teste de bomba nuclear aparece no começo de O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL) não traga de volta do fundo do oceano a lendária Atlântida, e lá aconteça a busca de Indy pelo seu mentor desaparecido e pai de Marion, o professor Abner Ravenwood (ele é dado como morto em "Caçadores...", mas nunca se sabe). Enfim, há infinitas possibilidades muito mais interessantes que os aliens, e é só questão de achar um roteirista talentoso, à altura de Lawrence Kasdan (que escreveu "Caçadores...").
Por isso, que venha a próxima aventura! E bem-vindo, Indy, ao século 21!
DIVERSÃO: 



Felipe M. Guerra