O JUSTICEIRO

por Felipe M.Guerra

Depois de ver os primeiros 70 minutos da nova versão de O JUSTICEIRO, concluí que estava diante do filme de ação mais covarde e do herói mais fresco do moderno cinema de ação. Quer dizer, na maior parte do filme, o Frank Castle interpretado por Thomas Jane (que só usa a alcunha "O Justiceiro" no final) não lembra em NADA o Justiceiro dos quadrinhos - que, por sinal, é um dos meus personagens Marvel preferidos.

Isso fica mais evidente em três cenas distintas. Na primeira, o Castle versão 2004 agarra um criminoso "peixe-pequeno" e apenas finge torturá-lo para obter informações sobre seus inimigos; além de não fazer mal ao moço, ainda o utiliza como "ajudante". Na segunda, ele invade um prédio onde capangas do vilão contabilizam dinheiro sujo e mata apenas dois dos seis bandidos que ali estão. E na terceira cena, o Castle politicamente correto coloca uma bomba num barco, que explode. O bandido ocupante da embarcação sobrevive, e Castle apenas lhe dá um sorrisinho antes de ir embora. Se fosse o VERDADEIRO JUSTICEIRO, aquele dos quadrinhos, o que veríamos, na ordem: na primeira cena, ele torturaria mesmo o ladrãozinho e depois lhe mataria sem hesitar, pois o Justiceiro age sozinho, não precisando de ajudantes, muito menos da ajuda de um criminoso; na segunda, ele massacraria sem piedade todos os bandidos, mesmo os subalternos; e na terceira, ao invés do sorrisinho, Castle devolveria um montão de balas na cabeça do bandido sortudo.

O maior problema de O JUSTICEIRO versão 2004 é que o herói parece politicamente correto demais durante a maior parte do tempo. Bem diferente do personagem dos quadrinhos, criado nos anos 70, e que no século 21 está ainda mais amoral e violento - nos gibis, bem lembrado. Enquanto no filme Frank Castle só finge torturar o bandido pé-de-chinelo, numa cena engraçadinha, outros filmes de ação mais corajosos, como o recente CHAMAS DA VINGANÇA, de Tony Scott, não se preocupam em poupar o estômago do espectador e mostram o herói torturando graficamente o vilão. O que, no caso de O JUSTICEIRO, seria o mais lógico, para aproximar o personagem dos vilões que ele combate - a grande sacada dos quadrinhos, pois, na verdade, o Justiceiro não é um herói, mas sim um anti-herói.

Felizmente, o filme tem 124 minutos de duração. E os 50 minutos seguintes melhoram um pouco no quesito ação, com Frank Castle fazendo jus à sua alcunha original (The Punisher/O Punidor), e matando sem clemência seus antagonistas. Na verdade, em minha modesta opinião, o filme só se salvou do fiasco pela excelente e selvagem luta do Justiceiro contra o enorme assassino conhecido como Russo e pelo final, onde finalmente o herói mostra a que veio, enchendo a bandidada de tiros e facada - um deles tem um fim particularmente gráfico, com uma faca enfiada na garganta que sai por dentro da sua boca!

Para quem não sabe, o Justiceiro já teve uma adaptação anterior para o cinema, meio capenga, com baixíssimo orçamento, feita em 1989. A direção era do editor de filmes Mark Goldblatt, e o herói era interpretado por Dolph Lundgren, com o cabelo pintado de preto. Bem, embora a maior parte da humanidade critique esta versão anos 80, principalmente devido a algumas mudanças infelizes na trama (o Justiceiro não usa seu tradicional uniforme com uma caveira branca no peito, por exemplo, e tem dois "companheiros", um mendigo e um policial interpretado pelo sumido Louis Gosset Jr.), O JUSTICEIRO 1989 está bem mais fiel ao personagem dos quadrinhos do que esta nova versão de 2004.

Tudo bem que a versão recente tem um orçamento mais apropriado e um ótimo elenco (John Travolta como vilão? Uau!). Mas, no fim, parece apenas mais uma historinha de vingança como inúmeras que o cinema já mostrou do que uma aventura do Justiceiro. Poderia, muito bem, ser estrelada por Charles Bronson, se ele estivesse vivo. Só para o leitor ter uma idéia, no mesmo ano em que O JUSTICEIRO 2004 era lançado, chegava às locadoras o filme VINGANÇA (Wake of Death), produção de baixo orçamento estrelada por Jean-Claude Van Damme. Os dois filmes são diferentes e não têm absolutamente nada a ver, mas o enredo de ambos é bem parecido - o herói tem a família assassinada e parte para a vingança contra os algozes. Pois, ironicamente, Van Damme dá um banho no Justiceiro de Thomas Jane ao retratar um homem verdadeiramente amargurado e traumatizado pela perda, matando sem dó nem piedade os responsáveis pelo crime - coisa que o herói de O JUSTICEIRO demora um tempão para fazer.

Enquanto O JUSTICEIRO 1989 começava com o herói já na ativa, combatendo quadrilhas de mafiosos e de Yakuzas, esta nova versão prefere ser mais didática e gasta meia hora contando a "origem" do personagem, que não tem nenhum superpoder, ao contrário da maioria dos heróis Marvel. No novo filme, Frank Castle é um agente do FBI, que trabalha disfarçado e participa de uma operação para prender traficantes de armas. O resultado da intervenção é a morte de Bobby Saint (James Carpinello), filho de um figurão do mundo do crime, Howard Saint (Travolta). Claro, o bam-bam-bam do submundo vai querer se vingar, matando toda a família de Castle num atentado. Chocado pela morte da mulher, do filho, dos pais e de um montão de figurantes (provavelmente tios e primos, hehehehe), Frank sobrevive ao atentado (TRÊS TIROS E UMA EXPLOSÃO!!!), escapa misteriosamente de afogar-se em alto-mar e é salvo por um "curandeiro" (argh!!!), que faz com que ele sobreviva e, em poucos dias, fique mais forte e atlético do que era.

Como qualquer fã do Justiceiro vai perceber, o roteiro tomou diversas liberdades poéticas quanto ao material original, já que Frank Castle originalmente era um policial cuja família (mulher e filho) presenciou uma execução realizada por mafiosos em um parque. Os bandidos então mataram os entes queridos do tira, que resolveu parar de acreditar na justiça burocrática e "oficial" para punir os bandidos ao seu modo. Ou seja, matando-os brutalmente. O engraçado dos quadrinhos é que o Justiceiro é perseguido tanto pelos bandidos quanto pela polícia (o que não acontece no novo filme), e até pelos demais super-heróis Marvel, como Homem-Aranha e Demolidor - até o Wolverine já saiu no pau com Castle e tomou um tiro de espingarda na cara. Neste quesito, o filme de 1989 é muito mais fiel, tanto à origem do personagem (policial cuja família foi executada por mafiosos) quanto no fato de ser alvo tanto de bandidos quanto dos homens da lei, numa verdadeira caçada humana.

O JUSTICEIRO 2004 continua com Frank adquirindo um montão de armas de todos os calibres e indo morar em um velho prédio de apartamentos. Até aí, tudo bem, e bem fiel à recente série dos quadrinhos "Bem-vindo de Volta, Frank", com roteiro de Garth Ennis e desenhos de Steve Dillon. No prédio, vivem figuras insólitas como Spadker Dave (um jovem cheio de piercings no rosto, interpretado por Ben Foster), o gordão Bumpo (John Pinette) e a garçonete Joan (a gracinha Rebecca Romijn-Stamos). Todos estes personagens existem também nos quadrinhos e acabam se relacionando com Frank, como acontece no filme, o que garante a fidelidade ao material original.

O problema do roteiro é que, de repente, Frank Castle decide declarar aos quatro ventos que está vivo, ao invés de continuar oficialmente morto para poder completar sua vingança de forma mais tranqüila. Primeiro ele se apresenta à polícia - que não volta a dar as caras no filme, surpreendentemente, e nem toma qualquer atitude ao ver um agente do FBI dado como morto ali, vivinho da silva -; depois, deixa bem claro a Howard Saint e sua turma que está vivo e disposto a se vingar. Apesar disso, numa incoerência completa do enredo, Frank continua saindo na rua tranqüilamente, tomando café em lanchonetes e saindo e voltando do seu apartamento sem alertar policiais ou bandidos!!! Ou seja: o Justiceiro versão 2004 tem pelo menos um superpoder, o da INVISIBILIDADE!

Outro grande problema deste novo Justiceiro é que ele raramente bota a mão na massa (afinal, o verdadeiro Justiceiro também tem um lado sádico que lhe faz gostar de executar os criminosos). Pelo contrário, o Frank Castle versão 2004 prefere jogar os bandidos uns contra os outros, fazendo com que eles próprios se matem, algo que eu acho que não combinou com a personalidade de Frank Castle. Ele arma, por exemplo, para que Howard Saint comece a desconfiar de um dos seus melhores capangas, Quentin (o ótimo Will Patton, um dos melhores em cena). Isso sabendo que Quentin liderou e participou da execução da sua família - ou seja, Castle teria mais do que motivos para matar o crápula ele mesmo!!!

De qualquer forma, apesar do começo lento e xarope, no final, quando o Justiceiro começa a efetivamente "punir" os criminosos, a coisa esquenta um pouco. Conforme citado anteriormente, o melhor do filme é o duelo de Castle com um assassino profissional contratado por Saint, o Russo (Kevin Nash), que também está na série "Bem-vindo de Volta, Frank". A única diferença é que o Russo cinematográfico fica calado, enquanto a versão dos quadrinhos fala (e muito), xingando e provocando o herói o tempo inteiro. Mas a luta entre os dois é bem filmada e parece real - tanto que Thomas Jane acabou esfaqueando Nash de verdade durante as filmagens!!!

Mas é impossível deixar de citar o fato de que o roteiro desperdiça o vilão Howard Saint - e, conseqüentemente, John Travolta, que interpretou um excelente vilão em BROKEN ARROW - A ÚLTIMA AMEAÇA, de John Woo. Pois aqui Travolta não faz praticamente nada durante o filme inteiro, ficando atrás da mesa e do telefone, comandando seus capangas. Por isso, o personagem de Quentin é bem mais elaborado e ameaçador do que o próprio patrão, já que está presente em todos os momentos violentos do filme. Parece ser ele o grande vilão, e não Travolta - que, ao confrontar-se com o Justiceiro no final, chega a dar uma de covarde e sair correndo de medo!!!

Infelizmente, O JUSTICEIRO 2004 está bem aquém do esperado e, como eu escrevi anteriormente, parece um filminho de ação como qualquer outro. Se durante os 124 minutos a contagem de cadáveres é bem pequena - pelo menos uns 20 bandidos são "punidos" por Castle -, nunca é demais lembrar que na versão de 1989, aquela execrada pelo público e pela crítica, o Justiceiro fazia jus à sua versão dos quadrinhos, matando mais de 100 rivais de todas as formas possíveis e imagináveis - até detonava uns 40 samurais desarmados, à traição, num dos momentos mais politicamente incorretos que o cinema já mostrou!!!

Esse era o Justiceiro que queríamos ver, e não o articulista e melindroso personagem mostrado na nova versão cinematográfica - que não duraria dois segundos se fosse "teletransportado" para as aventuras do herói nas revistas em quadrinhos.

Publicado originalmente no endereço martindolman.multiply.com

Felipe M.Guerra


O JUSTICEIRO (The Punisher, Estados Unidos/Alemanha, 2004). Duração: 124 minutos.
Direção: Jonathan Hensleigh
Roteiro: Jonathan Hensleigh e Michael France
Produção: Avi Arad e Gale Anne Hurd
Produção Executiva: Christopher Eberts, Kevin Feige, Andrew Golov, Patrick Gunn, Stan Lee, Amir Jacob Malin, Chris Roberts, Richard Saperstein, Andreas Schmid e John H. Starke
Fotografia: Conrad W. Hall
Figurino: Lisa Tomczeszyn
Edição: Jeff Gullo e Steven Kemper
Desenho de Produção: Michael Z. Hanan
Elenco: Thomas Jane (Frank Castle / Justiceiro); John Travolta (Howard Saint); A. Russell Andrews (Jimmy Weeks); James Carpinello (John Saint); Mark Collie (Harry Thornton); Russ Comegys (Mike); Ben Foster (Spacker Dave); Laura Harring (Livia Saint); Rebecca Romijn-Stamos (Joan); Eddie Jemison (Micky Ducka); Eddie Jemison (Micky Ducka); Marcus Johns (Will Castle); Nick Loren (Agente Moss); Marc Macaulay (Dante); Samantha Mathis (Maria Castle); Tom Nowicki (Lincoln)


Artigos