OS QUATRO DO APOCALIPSE

por Felipe M.Guerra

Um jogador de pôquer trapaceiro e simpático. Uma prostituta grávida. Um beberrão que vive sob efeito de álcool. Um escravo fugitivo que conversa com os mortos. Qual a relação entre estes quatro personagens tão incomuns? Aparentemente, nenhuma. Mas eles terão que unir forças para sobreviver às provações do deserto em OS QUATRO DO APOCALIPSE (I Quattro dell'Apocalisse), um dos mais bizarros faroestes spaghetti já realizados. O roteiro de Ennio De Concini (que no ano seguinte escreveria o depravado SALLON KITTY) foi levado às telas por Lucio Fulci, um dos mais respeitados cineastas italianos do gênero horror, conhecido pela violência desmedida e extrema sangreira em seus filmes. Como ele se sai num bangue-bangue?

Bom, Fulci não é exatamente um amador na área. Ele então já havia dirigido vários western-spaghetti, incluindo o excelente TEMPO DE MASSACRE, com Franco Nero, em 1966 (e posteriormente, em 1978, faria SELA DE PRATA, com o ícone do gênero Giulianno Gemma). E em OS QUATRO DO APOCALIPSE ele mantém seu estilo exagerado, filmando tiroteios sangrentos, que praticamente explodem o peito e as roupas das vítimas, e outras barbaridades diversas. A diferença é que o filme é centrado mais nos protagonistas e nas suas bizarras aventuras do que em ação. Você consegue contar nos dedos de uma mão as cenas de duelos existentes na película. E a trama não tem os clichês tradicionais do gênero. Ou seja: é um faroeste bem... digamos, diferente! Para dizer o mínimo!

O filme começa com o jogador de pôquer Stubby Preston (o excelente Fabio Testi) chegando à pequena cidade de Salt Flat. Antes que ele possa sequer descer da carruagem, entretanto, é "calçado" pelo xerife (Donald O'Brien, o vilão de KEOMA, em pequena participação). O homem da lei leva o trapaceiro até a cadeia e começa a jogar na lareira os baralhos "preparados" por Preston para limpar os jogadores nas mesas de pôquer. Em seguida, atira o rapaz numa cela ao lado dos outros "cavaleiros do apocalipse": a prostituta Emanuelle "Bunny" O'Neill (Lynne Frederick, belíssima), o beberrão Clem (o americano Michael J. Pollard) e o negro louco Bud (Harry Baird), cujo divertimento é ficar nos cemitérios conversando com os mortos!

Logo na primeira noite do quarteto na cadeia, estoura o inferno em Salt Flat. Enquanto rolam os créditos iniciais do filme, um grupo de pistoleiros fortemente armados e mascarados toma as ruas e inicia um massacre, chacinando praticamente toda a cidadezinha. A matança não poupa em sangue, com as balas arrebentando o peito das vítimas, num efeito que só faltava ser em slow motion para lembrar MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA, de Peckinpah. Enquanto isso, o xerife janta e dorme calmamente, e os quatro prisioneiros se apavoram pensando que logo os pistoleiros matarão eles também. Mas amanhece e vem a revelação: o xerife liberta os quatro e diz que os mascarados eram moradores de Salt Flat, que se uniram para exterminar todos os bandidos e vigaristas que haviam tomado conta da cidadezinha. Como o quarteto não havia feito nada de tão horrível, podia ir embora com a condição de nunca mais voltar à agora pacífica vila.

Abandonados em uma carroça precária, sem dinheiro, armas ou comida, os "quatro do apocalipse" resolvem cruzar o deserto até a próxima cidade, unindo-se para sobreviver às privações. No auge do desespero por álcool, Clem chega a beber um frasco de perfume de Stubby! O roteiro de OS QUATRO DO APOCALIPSE então se desenvolve praticamente como se fosse um moderno "road movie", porém sem road (estrada): o quarteto é mostrado cruzando o deserto e encontrando todo tipo de pessoas e imprevistos pela frente. Começam cruzando o caminho de um grupo de fanáticos religiosos, quando ganham comida e bebida. O líder do grupo, o reverendo Sullivan (Adolfo Lastretti), pensa que Stubby e Bunny são casados, e isso desperta uma espécie de romance entre o jogador e a prostituta. Posteriormente, os quatro do apocalipse sobrevivem a um estranho tiroteio (onde nunca é mostrado quem está atirando e quem está morrendo!!!) e encontram um pistoleiro vestido como índio, Chaco (Tomas Millian, que rouba o filme).

Stubby reluta em deixar que Chaco os acompanhe. Mas ele está cheio de armas e conquista a confiança do grupo matando alguns pássaros e coelhos para o jantar. Em meio à travessia, quando a "caravana" é ataca por um grupo de justiceiros, é Chaco quem defende os "colegas". E ainda tortura violentamente o xerife que estava entre os justiceiros. Esta cena, cortada na versão americana do filme, mostra o cruel pistoleiro arrancando tiras de carne do peito do pobre xerife, e depois fincando em seu peito nu a estrela de prata. No mesmo dia, Chaco revela sua verdadeira face: é um homem frio e sanguinário, que dopa os quatro amigos com peyote (uma semente alucinógena) e os amarra para que morram no deserto. Antes de ir, ainda estupra Bunny e atira na perna de Clem, fazendo nascer um desejo de vingança em Stubby.

O restante de OS QUATRO DO APOCALIPSE é a maior viagem: parece que a história vai se concentrar na história da vingança de Stubby contra Chaco, mas o filme vai além. Surpreendendo cada vez mais o espectador, o quarteto chega a uma cidade-fantasma, numa noite de tempestade, onde o destino do grupo vai mudar radicalmente. A história vai continuando cada vez mais bizarra até mostrar finalmente o embate cruel entre Stubby e Chaco. Mas até lá tem muita coisa esquisita pela frente: nudez, morte e até canibalismo!!! Nada convencional e nada previsível, é um filme certamente não-indicado a todos os públicos, ainda mais para aqueles que gostam de westerns cheios de ação, como DJANGO ou POR UM PUNHADO DE DÓLARES. A maior parte do filme é intimista, quase lisérgica, com a música Franco Bixio, Fabio Frizzi e Vince Tempera lembrando mais o movimento hippie do que as canções tradicionais dos westerns.

OS QUATRO DO APOCALIPSE vale principalmente pela química entre os cinco personagens centrais - os "quatro do apocalipse" e Chaco. O vilão, principalmente, é bastante marcante, e tão cruel que dá mesmo vontade de vê-lo crivado de balas (especialmente na cena em que ele provoca Stubby, lembrando como estuprou Bunny). Alguns críticos acreditam que o roteirista De Concini inspirou-se no psicopata Charles Manson para criar Chaco, e não é uma idéia tão absurda: o vilão está especialmente demoníaco na "cena do peyote", quando aparece com cruzes pintadas debaixo dos olhos - não entendi se é viagem provocada pelo alucinógeno ou se o vilão realmente pintou aquilo na cara. Os atores são fantásticos, mas especialmente Testi e Millian. Enquanto o primeiro hoje faz apenas produções para a TV italiana, Millian continua na ativa, com pequenas participações em grandes filmes americanos, como JFK e TRAFFIC. Talvez a história mais triste seja a da linda Lynne Frederick: ela abandonou o cinema em 1979, quando conheceu o famoso ator Peter Sellers no filme O PRISIONEIRO DE ZENDA. Casou com ele, que morreu alguns anos depois. Lynne nunca se recuperou e entregou-se ao alcoolismo, morrendo em 1994, aos 40 anos de idade, por causa do vício. Um fim de carreira ingrato para uma boa (e bela) atriz.

Quem gosta de westerns com bastante duelos e tiroteios deve ficar longe deste filme. A maior parte da trama apenas narra a viagem dos quatro amigos pelo deserto e seus encontros insólitos com todo tipo de pessoas. Entre as cenas violentas, além daquela da tortura do xerife, está a "operação" improvisada que Stubby é obrigado a fazer para retirar a bala da perna de Clem. Fulci não poupa o espectador, mostrando closes do ferimento durante a "cirurgia". O filme também ganha pontos pela extraordinária fotografia (principalmente quando mostra o deserto ao entardecer, em cores quentes), e por mostrar os personagens (mesmo os heróis) sempre sujos, suados e poeirentos, como qualquer pessoa estaria cruzando um deserto daquele tamanho.

Resumindo: OS QUATRO DO APOCALIPSE é um western feio, sujo e malvado. Mas, definitivamente, não é para todos os paladares...

Publicado originalmente no endereço martindolman.multiply.com

Felipe M.Guerra


OS QUATRO DO APOCALIPSE (I Quattro dell'Apocalisse , Itália, 1975). Duração: 104 minutos.
Direção: Lucio Fulci
Roteiro: Ennio De Concini, Bret Harte
Produção: Edmondo Amati
Fotografia: Curtis Petersen
Música: Franco Bixio; Fabio Frizzi; Vince Tempera
Edição: Ornella Micheli
Figurino: Massimo Lentini
Desenho de Produção: Giovanni Natalucci
Elenco: Fabio Testi (Stubby Preston); e Frederick (Emanuelle 'Bunny' O'Neill); Michael J. Pollard (Clem); Harry Baird (Bud); Adolfo Lastretti (Rev. Sullivan); Bruno Corazzari (Lemmy); Giorgio Trestini (Saul); Donald O'Brien (Xerife); Tomas Milian (Chaco)


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