A VIDA E A MORTE DE PETER SELLERS
por Felipe M.Guerra
Eu fico até entristecido quando percebo que alguns grandes filmes foram feitos para mofar nas prateleiras das locadoras. Ou então acabam jamais sendo compreendidos pelo grande público. Produção feita para a TV americana em 2004, baseada no livro de Roger Lewis, A VIDA E A MORTE DE PETER SELLERS, surpreendentemente lançado no Brasil (onde poucos ainda lembram quem foi Peter Sellers), é um destes filmaços. Até já visualizo a cena: centenas, milhares de clientes aborrecidos voltando às suas locadoras com o VHS ou DVD do filme debaixo do braço, reclamando com o balconista que aquela é a pior porcaria que já viram na vida, pedindo o dinheiro de volta, falando mal dele para os amigos, etc etc. Em suma, uma verdadeira injustiça.
Acontece que é preciso saber muito sobre Peter Sellers - e especialmente gostar muito do trabalho deste genial ator - para curtir o filme. Ele era um daqueles tipos fantásticos, que viviam interpretando, e você não sabia onde terminava o personagem e começava a pessoa (guardadas as devidas proporções, é mais ou menos como o atual Mike Myers). Teve quatro esposas, incluindo a atriz sueca Britt Ekland (em quem batia regularmente, dizem os fofoqueiros de Hollywood) e Lynne Frederick, que herdou sua fortuna. E, como muitos outros gênios de Hollywood (tipo Jerry Lewis), acabou sua carreira no esquecimento, fazendo um último grande filme (o fantástico MUITO ALÉM DO JARDIM) e sendo indicado ao Oscar, porém sem ganhar. Como minha paixão por Sellers é antiga (eu o acho um dos grandes atores de todos os tempos), curti cada minuto desta caprichada, engraçada e emocionante cinebiografia. O ator Geoffrey Rush fez um trabalho fantástico de caracterização e interpretação, praticamente transformando-se no próprio Peter Sellers. É difícil separar um do outro, ainda mais quando a história apresenta trechos de filmes famosos estrelados por Sellers, mas com Rush no lugar do ator.
A VIDA E A MORTE DE PETER SELLERS mostra o astro como um sujeito engraçado e carismático em seus filmes - como a série A PANTERA COR-DE-ROSA e DOUTOR FANTÁSTICO -, mas um egocêntrico sem personalidade fora dos sets de filmagem. Após uma abertura sem graça feita em desenho animado (para recordar dos velhos filmes da série A PANTERA COR-DE-ROSA, que sempre começavam com o tradicional cartoon), a biografia nos apresenta a vida de Sellers desde o início, mais especificamente entre os anos de 50 e 60, quando ele apresentava um famoso programa de rádio na Inglaterra, o "Goon Show". Porém, sua mãe dominadora, Peg, não queria que o filho vivesse acomodado com o sucesso na rádio e praticamente o forçou a investir no cinema.
Sellers então é mostrado como um sujeito legal, casado Anne Howe (interpretada por Emily Watson) e com dois filhos pequenos. Sua estréia no mundo do cinema é mostrada muito rapidamente e nem tenta explicar como o ator de repente se transforma num dos grandes astros ingleses. Em um passe de mágica, o astro do rádio já é um galã do cinema (e este é um dos furos do roteiro desta biografia), vivendo numa mansão e já mostrando certo descaso e ataques de raiva diante da esposa e dos filhos. E então, durante as filmagens de THE MILIONAIRESS (de 1960), Sellers se apaixona pela magnífica atriz italiana Sophia Loren (magnificamente interpretada pela linda italiana Sonia Aquino), e acredita que o amor é correspondido. Por isso, se divorcia de Anne - somente para tomar um fora da italiana e acabar emocionalmente destruído.
A carreira de Sellers está em frangalhos quando, no ano de 1963, seu agente lhe apresenta o roteiro do novo filme de Blake Edwards (interpretado por John Litgow), A PANTERA COR-DE-ROSA. "O filme foi recusado por Peter Ustinov, mas Edwards é o grande nome hoje em Hollywood e quer você para o papel", diz o agente. Sellers, em um de seus ataques de fúria, recusa, dizendo que não é ator para pegar "as sobras de Peter Ustinov". Mas acaba voltando atrás após algumas visitas a um místico charlatão, que diz ler o futuro de sucesso de atores e atrizes de Hollywood. O resultado é que Sellers rouba a cena do então astro David Niven e transforma A PANTERA COR-DE-ROSA em um grande sucesso. E a interpretação de Geoffrey Rush como Inspetor Clouseau, o famoso personagem de Sellers, é fantástica, praticamente uma ressurreição de Peter Sellers.
A partir de então, a carreira do ator decola. Em 1964, o diretor-gênio Stanley Kubrick (bem personificado por Stanley Tucci) o contrata para fazer quatro papéis em DR. FANTÁSTICO. As cenas das filmagens deste clássico de Kubrick são mostradas em preto-e-branco (como o próprio filme), e vemos como Sellers se recusa a fazer o quarto papel - o do piloto de avião, que acabou com Slim Pickens - por total estafa. Vale lembrar que se hoje em dia é moda atores fazerem três ou quatro papéis em filmes (tipo Mike Myers em AUSTIN POWERS ou Eddie Murphy em O PROFESSOR ALOPRADO), naquela época não era. Considerado um dos melhores atores do período graças a DR. FANTÁSTICO, Peter casa-se com uma jovem atriz sueca, Britt Ekland (vivida pela bela Charlize Theron), e mergulha num mundo de drogas e sexo. E, então, acontece o inevitável: ele acaba no hospital, entre a vida e a morte após sucessivas paradas cardíacas.
A partir deste ponto, A VIDA E A MORTE DE PETER SELLERS enfoca o declínio do fabuloso astro, em parte pelas suas escolhas erradas. A biografia não esquece, por exemplo, de enfocar as caóticas filmagens da bomba CASSINO ROYALE, em 1967, que teve cinco diretores (um deles foi John Huston) e dezenas de roteiristas e astros envolvidos. Sellers abandonou a produção - que era uma sátira a James Bond - depois da milésima mudança no roteiro, e a cinebiografia representa bem a zorra total que eram as filmagens (quando o ator é obrigado a improvisar uma cena inteira). Suas brigas com Britt Ekland, quando a moça engravida (gravidez não-desejada por Sellers), também são mostradas.
Como toda cinebiografia, A VIDA E A MORTE DE PETER SELLERS tem seus furos. A terceira esposa do ator, Miranda Quarry, após quatro anos de casamento com Britt, nem é mostrada, e a quarta, Lynne Frederick (atriz de OS QUATRO DO APOCALIPSE, de Lucio Fulci), é apenas citada nos letreiros finais - embora tenham sido filmadas algumas cenas mostrando seu envolvimento com Sellers, que acabaram nos extras do DVD. O filme também usa um duvidoso recurso de parar a trama no meio para mostrar Geoffrey Rush interpretando diversos outros papéis, como a mãe e o pai de Peter Sellers, falando diretamente para a câmera sobre a dificuldade de conviver (e entender) o verdadeiro Sellers. Dá um tom teatral à coisa, mas não se encaixa na proposta e soa meio desnecessário.
O melhor de tudo é a forma como o filme enfoca a relação de amor e ódio de Sellers e Blake Edwards. Embora ignore o sucesso de UM CONVIDADO BEM TRAPALHÃO, realizado por ambos em 1968, a biografia acerta ao retratar o decadente Sellers como um ator aprisionado pelo sucesso do Inspetor Clouseau, de A PANTERA COR-DE-ROSA, obrigado a aparecer nas péssimas seqüências da comédia somente por dinheiro e por não ter a chance de fazer melhores papéis. É especialmente engraçada (e dramática) a cena do lançamento de THE PINK PANTHER STRIKES BACK (no Brasil, "A Nova Transa da Pantera Cor-de-Rosa"), em 1978, quando Sellers dá um discurso para os convidados da premiére dizendo que Blake é o pior diretor de Hollywood e como o filme é ruim e ele fez apenas por dinheiro. Ironicamente, ele fez mais quatro filmes como Clouseau.
Nos seus últimos anos de vida, conforme mostra a cinebiografia, Sellers queria muito filmar um livro chamado "Being There", que mostrava um jardineiro meio retardado e sem qualquer personalidade. Ele pensava que aquele era o melhor papel para ele, que passou a vida toda em busca de uma personalidade própria, mas sem encontrar - refletindo-se em sua galeria de personagens. Mas acabou obrigado a fazer as seqüências de A PANTERA COR-DE-ROSA até levantar dinheiro para produzir o filme que queria, batizado MUITO ALÉM DO JARDIM no Brasil, e filmado em 1979. O ator morreu de ataque cardíaco em 1980, deixando inacabada a bomba THE FIENDISH PLOT OF DR. FU MANCHU, que até hoje é considerada uma das comédias mais sem graça da história do cinema.
A última cena de A VIDA E A MORTE DE PETER SELLERS chega a ser comovente, com o envelhecido ator, orgulhoso do seu trabalho em MUITO ALÉM DO JARDIM, mas arruinado na vida pessoal e financeira, desdenhado pelos críticos, vai encontrar-se com Blake Edwards. Ao ver que o diretor tem nas mãos um roteiro chamado "Romance of the Pink Panther" - sim, mais um filme ruim com o Inspetor Clouseau -, Sellers simplesmente sai e fica imóvel na neve, como uma estátua. A seqüência jamais seria filmada por causa da morte de Sellers, mas Blake, numa tática discutível, usou cenas de arquivo de A NOVA TRANSA DA PANTERA COR-DE-ROSA para fazer um novo filme, chamado A TRILHA DA PANTERA COR-DE-ROSA, em 1982, quando o ator já estava morto e enterrado. A picaretagem não passou em branco: a última esposa de Sellers, Lynne, processou os produtores e faturou um milhão de dólares com a brincadeira. Este fato também não é mostrado em A VIDA E A MORTE DE PETER SELLERS - e nem a insistência de Blake Edwards em continuar a série, fazendo mais dois filmes sem Sellers, inclusive o mais recente colocando Robert Benigni como filho do Inspetor Clouseau!
Embora, como eu já citei, A VIDA E A MORTE DE PETER SELLERS seja emocionante para quem gosta e conhece o trabalho do ator, será nulo (e difícil de ver) por quem jamais ouviu falar em Peter Sellers. O filme também não se preocupa em explicar quem foi, afinal, Peter Sellers - e talvez nem o próprio Sellers soubesse disso. Ele é sempre representado como um sujeito genial, mas que não sabia quem era, moldando sua personalidade a partir das figuras que interpretava no cinema. Numa das cenas mais emblemáticas do filme, o ator passa diante de um espelho e percebe que não tem reflexo - como se não existisse um verdadeiro Peter Sellers, apenas seus personagens. Em outro momento emocionante, o ator é cercado pelos seus personagens no limbo, onde está lutando pela vida, após sucessivas paradas cardíacas.
Com um trabalho caprichado do diretor Stephen Hopkins (que no passado gostava de filmes cheios de efeitos especiais, como PREDADOR 2 e PERDIDOS NO ESPAÇO, e agora parece ter se acalmado um pouco), A VIDA E A MORTE DE PETER SELLERS é uma ótima produção que vai, injustamente, acabar esquecida em algum canto das locadoras. Aliás, como o verdadeiro Peter Sellers, hoje um nome esquecido até pelos ditos "grandes cinéfilos". Esta biografia não é um tributo à altura da grandiosidade do astro, mas certamente não faz feio.
Publicado originalmente no endereço martindolman.multiply.com
Felipe M.Guerra
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A VIDA E A MORTE DE PETER SELLERS (The Life and Death of Peter Sellers, EUA/Inglaterra, 2004). Duração: 126 minutos.
Direção: Stephen Hopkins
Roteiro: Stephen McFeely e Christopher Markus, baseado num livro de Roger Lewis
Produção: Simon Bosanquet
Produção Executiva: Freddy De Mann; George Faber; Charles Pattinson e David M. Thompson
Fotografia: Peter Levy
Direção de Arte: John Ralph e Lucy Richardson
Desenho de Produção: Norman Garwood
Maquiagem: Ashley Johnson; Greg Cannom; Veronica Brebner; Tapio Salmi; Keith; Ameneh Mahloudji
Música: Ray Davies e Richard Hartley
Figurino: Jill Taylor
Edição: John Smith
Elenco: Geoffrey Rush (Peter Sellers); Charlize Theron (Britt Ekland); Emily Watson (Anne Sellers); John Lithgow (Blake Edwards); Miriam Margolyes (Peg Sellers); Peter Vaughan (Bill Sellers); Sonia Aquino (Sophia Loren); Stanley Tucci (Stanley Kubrick); Stephen Fry (Maurice Woodruff); Henry Goodman (Dennis Selinger); Alison Steadman; Peter Gevisser; David Robb (Dr. Lyle Wexler); Steve Pemberton; Nigel Havers
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