O VINGADOR
por Felipe M.Guerra
O título original de O VINGADOR, "Murphy's Law", é um curioso trocadilho com a famosa "Lei de Murphy", aquela lei que diz que quando uma coisa tem que dar errado, ela vai dar errado. Lei esta que se aplica ao próprio filme: com um argumento ruim e inconvincente, uma direção burocrática e a absoluta falta de novidades, O VINGADOR só pode ser um filme fraco e descartável, daquela fase decadente de Charles Bronson, quando ele fazia filmes por atacado, sempre com o amigão J. Lee Thompson na direção e a Cannon Pictures produzindo a festa.
O VINGADOR é de 1986, pós-DESEJO DE MATAR 3, quando as aventuras estreladas por Bronson ficaram progressivamente piores e mais inconvincentes. Quer dizer, àquela altura o ator estava com 65 anos, e fica beeeem difícil engolir sua milésima interpretação de policial durão, que sai dando tiros e sopapos em bandidões muito mais jovens e ágeis do que ele. Jack Murphy é o nome do tira casca-grossa, que já começa o filme perseguindo uma adolescente que está roubando seu carro - e só não consegue prendê-la, após correr quase dois quilômetros, porque leva um chute no saco.
Murphy é um policial com problemas: sua esposa Jan (Angel Tompkins), que, claro, é muito mais jovem e gostosa do que ele, pediu o divórcio para virar stripper (!!!), e os outros policiais do departamento vivem fazendo piadinhas por causa disso. Só que Murphy ainda ama a esposa, e mesmo tendo sido largado, vai noite após noite até o inferninho onde ela "dança" para fazer uma sessão de auto-punição masoquista, assistindo a ex-mulher tirar a roupa para um montão de depravados. Murphy também enfrenta um problema crônico de alcoolismo. Infelizmente, o roteiro perde apenas cinco minutos enfocando todos estes problemas, que poderiam criar um personagem rico em uma aventura diferente. A partir de então, Bronson se transforma no herói indestrutível de sempre.
O roteiro de Gail Morgan Hickman (que também escreveu o ruinzinho DESEJO DE MATAR 4) é uma verdadeira zona: Murphy vai investigar o assassinato de uma prostituta e descobre que o culpado é Tony Vincenzo (Chris DeRose), irmão de um chefe mafioso chamado Frank Vincenzo (Richard Romanus). Após um tiroteio no aeroporto, onde várias pessoas inocentes são baleados, um Murphy mal-humorado e de ressaca criva Tony de tirambaços, o que faz com que Frank jure vingança ao policial. Mas isso não tem praticamente nada a ver com a história principal (!!!).
Isso porque o foco do roteiro é uma psicopata chamada Joan Freeman (Carrie Snodgress), uma assassina que Murphy colocou na cadeia, mas que agora está livre e eliminando todas as pessoas que julga culpadas por sua prisão. Sobra para o juiz, para o advogado de acusação e, claro, para o pobre Jack Murphy. Só que ela não quer matar o tira; pelo contrário, ela prefere fazer com que Murphy sofra os horrores da prisão. Por isso, usando a arma do herói, Joan mata a ex-mulher stripper e seu novo namorado, um cafetão, com vários tiros, fazendo com que a culpa recaia sobre Jack Murphy.
Ele é preso sem poder se queixar e, na delegacia, acaba algemado com a jovem marginal que tentou roubar seu carro no começo do filme (lembra?). A pivete boca-suja e de pose rebelde se chama Arabella McGee, e é interpretada por Kathleen Wilhoite, uma cantora pop da época, espécie de Avril Lavigne piorada (inclusive canta algumas das músicas da trilha sonora de O VINGADOR). Arabella é uma das personagens mais insuportáveis que já tive a oportunidade de ver no cinema: uma adolescente imatura e xarope, que vive falando palavrões e xingando tudo e todos com expressões infantis, como "nariz de vibrador" e "cocô de macaco". E o roteiro cretino logo arma uma forma preguiçosa de juntar ela e Murphy, quando ambos fogem algemados da delegacia - e de helicóptero!!!
Após uma dispensável queda da aeronave no celeiro de cultivadores de maconha (uma cena de ação gratuita de dar dó), Murphy e Arabella chegam à fazenda de Ben Wilcove (o cantor de jazz Bill Henderson), antigo parceiro do herói, afastado por ter tomado um tiro nas costas. Ben resolve ajudar a dupla, dando-lhes um veículo e armas para que o amigo possa livrar seu nome. Mas a psicopata Joan está na cola de Murphy, mata Ben e faz novamente a culpa recair sobre o herói, que nem imagina quem está armando para ele e acha que a culpa é toda da família Vincenzo. No final, o acerto de contas é entre Murphy e a assassina, que pegou Arabella como refém; mas homens armados da família Vincenzo também querem dar um fim no policial, e todos acabam se encontrando num prédio escuro e deserto (!!!).
O VINGADOR não tem absolutamente nada que o diferencia de outras aventuras baratas do período, e nem mesmo as cenas de ação são especialmente elaboradas ou empolgantes. Bronson não convence como herói em momento algum, parece estar sempre cansado e em alguns momentos à beira de um ataque cardíaco - como engolir o fato de ele sair correndo atrás dos bandidos e dar até voadoras em seus desafetos? A idéia de juntar um policial com um bandido nem é nova, já que é reciclada do sucesso 48 HORAS, com Nick Nolte e Eddie Murphy. E o roteiro ainda é implausível no todo: por que a assassina em busca de vingança mata todos os responsáveis pela sua prisão, mas prefere dar a Murphy um tratamento diferenciado, acusando-o de crimes que não cometeu? E mais: como é que ninguém desconfiou do fato de todos os responsáveis pela prisão de Joan estarem sendo eliminados?
O que sobra são alguns tiroteios sangrentos e as tradicionais frases de efeito, populares nesse tipo de aventura classe B. A melhor é aquela em que Frank Vincenzo diz ao herói: "Você já ouviu falar na Lei de Murphy? Ela diz que o que tem que dar errado, vai dar errado". E Bronson responde, com sua habitual cara cínica: "Eu só conheço a Lei de Jack Murphy, que diz: Don´t fuck with Jack Murphy". É uma pena que cada frase de efeito venha acompanhada de uma cena completamente inverossímil, como Bronson escapando tranqüilamente de helicóptero da delegacia (e isso que ele não pilotava desde os tempos da Guerra da Coréia!!!), ou Bronson e Arabella conseguindo entrar com a maior facilidade na fortaleza cheia de seguranças da família Vincenzo.
Num roteiro fraquíssimo, há ainda um lamentável momento de "amor geriátrico" quase pedófilo, onde Arabella, que é uma menina bonitinha de 20 e poucos anos, tenta seduzir o galã de terceira idade Bronson - o que, felizmente, fica apenas na tentativa. Quer dizer, mesmo o ator tendo lá seus 60 anos, os roteiristas e produtores continuam tentando vender uma imagem de herói machão e galã, que Bronson não tem de forma alguma. É tão inacreditável quanto Sean Connery e Francisco Cuoco até hoje querendo fazer papéis de comedor.
Fãs de Bronson, esqueçam que O VINGADOR existe.
Publicado originalmente no endereço martindolman.multiply.com
Felipe M.Guerra
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O VINGADOR (Murphy's Law, Estados Unidos, 1986). Duração: 100 minutos.
Direção: J. Lee Thompson
Roteiro:
Gail Morgan Hickman
Produção: Pancho Kohner
Produção Executiva: Menahem Golan; Yoram Globus
Fotografia: Álex Phillips Jr.
Figurino: Shelley Komarov
Edição: Peter Lee-Thompson; Charles Simmons
Desenho de Produção: William Cruse
Elenco: Charles Bronson (Jack Murphy); Kathleen Wilhoite (Arabella McGee); Carrie Snodgress (Joan Freeman); Robert F. Lyons (Art Penney); Richard Romanus (Frank Vincenzo); Angel Tompkins (Jan); Bill Henderson (Ben Wilcove); James Luisi (Ed Reineke); Clifford A. Pellow (Nachman); Janet MacLachlan (Dr. Lovell); Lawrence Tierney (Cameron)
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