O GRITO

por André Bozzetto Junior

Muitas pessoas já comentaram em críticas e artigos aqui da Boca do Inferno, ou mesmo na lista de discussão do site, o quanto é bom ser surpreendido por um filme ao qual relegamos poucas expectativas, e que de repente se mostra muito superior ao que imaginávamos. Provavelmente pelo fato de eu ser um aficionado por filmes de terror e suspense desde a infância mais tenra, e com isso já estar bastante familiarizado com o que há de melhor e pior dentro do gênero, essas surpresas positivas costumam me acontecer com muito pouca freqüência. Nos últimos anos, lembro que isso aconteceu quando assisti "Do Inferno" (surpreendente adaptação dos quadrinhos de Allan Moore sobre Jack, o Estripador), "O olho que tudo vê" (filme criativo e inteligente), "Cães de Caça" (empolgante filme inglês
sobre lobisomens) e "Rota da Morte" (produção de baixo orçamento extremamente intrigante) e ponto, não me recordo de outros. É claro que gostei também de "Identidade", "Freddy X Jason" (por favor, não me crucifiquem), "Madrugada dos Mortos" e vários outros, mas esses não chegaram necessariamente a me surpreender.

E quem diria, isso voltou a acontecer há poucos dias, graças a uma gafe do meu pai. Vou explicar melhor: Apesar de ser relativamente jovem (ainda está na faixa dos quarenta e poucos), meu pai sempre foi um tanto conservador em determinados aspectos. Nunca engoliu, por exemplo, o apreço que eu e meu irmão sempre tivemos por filmes e quadrinhos de terror, coisa que ele considerava "bizarra". Felizmente, com o passar do tempo, essa relutância foi se amenizando, e ele começou a permitir com mais freqüência que nós assistíssemos a filmes na TV (logicamente estou me referindo a saudosa década de 1980, onde passavam filmes de terror na televisão praticamente todas as semanas) e até passou a nos comprar aquelas revistas em quadrinhos do tipo "Histórias Reais de Drácula", "Mestres do Terror" e "Calafrio". Mas na verdade, acredito que foi apenas depois que publiquei meu primeiro livro, "Odisséia nas Sombras", que ele se convenceu que a afeição por esse gênero artístico se constitui em uma forma de entretenimento como qualquer outra, não sendo mais repreensível apenas por ser diferente e digamos, mais obscura.



Mas de qualquer forma, alguns dias atrás, meu pai iria viajar para uma "cidade grande" (usei essa expressão como analogia a minha própria cidade, que na verdade mais parece uma aldeia, com apenas 5.000 habitantes) e como eu sabia que em determinada loja havia vários DVDs em promoção, pedi para que ele trouxesse para mim o do filme "Grito de Horror", clássico sobre lobisomens dirigido pelo cultuado diretor Joe Dante. Contudo, por falta de paciência, ou talvez ainda devido a resquícios da aversão mencionada acima, meu pai se confundiu e apareceu em casa com o DVD do filme "O Grito", versão "americanizada" do sucesso japonês "Ju-on: The Grudge" dirigido por Takashi Shimizu e produzido pelo mestre Sam Raimi. É claro que fiquei um pouco desapontado com o equívoco, mas eu já tinha lido algumas resenhas sobre o filme e fiquei curioso, pois alguns amaram e outros odiaram. Além disso, a produção contava com um elenco de respeito, encabeçado pela ex-caçadora de vampiros Sarah Michelle Gellar (mais conhecida como Buffy), e tendo ainda nomes como Bill Pullman (que já trabalhou com Wes Craven e Steve Miner em filmes como "A Maldição dos Mortos-vivos" e "Pânico no Lago") e Ted Raimi (irmão de Sam, e que trabalhou como co-roteirista e assistente de direção na lendária trilogia "Evil Dead").

Lá fui eu assistir ao filme, em um monótono domingo, e que surpresa! "O Grito" é de longe o melhor filme que assisti esse ano, e provavelmente um dos mais assustadores dos últimos tempos. Aliás, "susto" é a palavra-chave nesse filme. Lembro-me que quando eu escrevi o artigo para o filme "Cães de Caça", se eu não me engano ainda em 2003, mencionei que o referido filme despertava o medo no expectador. "O Grito" também amedronta, mas de uma forma diferente. Enquanto em "Cães de Caça" a sensação de medo que sentíamos derivava da apreensão que nutríamos pelo destino dos personagens, em "O Grito" o medo vem do fato que podemos facilmente nos deixar envolver pela trama e situações do filme, de forma que, quando vemos algo horripilante prestes a acontecer, podemos nos imaginar ali, no lugar do personagem, a mercê de uma força maligna e desconhecida, a um passo de nos atacar. Contribui para isso o fato dos personagens terem um comportamento coerente com a situação, como por exemplo quando Karen (Gellar) encontra aquele garotinho sinistro atrás da porta lacrada. Ao invés de ficar investigando, ou mostrar-se indiferente, como muitas vezes alguns filmes insistem em fazer, a moça se manda dali cheia de medo, e liga para que o seu chefe venha imediatamente para o local, pois algo muito estranho está acontecendo. Ou seja, uma atitude sensata.



Acho interessante esclarecer aqui que não vi o filme original, por isso não posso tecer comparações. Também não assisti ao filme com olhar clínico, como alguns gostam de fazer, procurando cada incoerência do roteiro, cada expressão equivocada dos atores, cada clichê do diretor. Não, nada disso. Assisti ao longa sem maiores pretensões, e acho que por isso gostei tanto. Basicamente, a trama não apresenta nada de extraordinário ou inovador. Começa com um letreiro dizendo que quando uma pessoa morre sentindo muita raiva, surge uma maldição, que irá imperar no local onde o individuo morreu e afligirá fatalmente todos que cruzarem por ali. Na seqüência, temos uma cena surpreendente e impactante logo de cara, com o personagem de Bill Pullman (que só mais tarde ficamos sabendo quem era na verdade) se suicida, atirando-se da sacada de um prédio. Logicamente, a cena que acabei de relatar não chega a ser um spoiler, pois acontece com três minutos de filme. Mas certamente, existem várias outras cenas que não devem ser mencionadas, pois ai sim, diminuiria em muito a diversão de quem vai assistir pela primeira vez, pois é um susto atrás do outro. E quando eu falo em susto, me refiro a algo verdadeiro e genuíno, típico do cinema de horror oriental, e não aquelas bobagens que estamos cansados de ver nos filmes pop americanos, do tipo a mocinha vai andando de costas e esbarra em alguém, e quando se vira é o seu amigo, ou ainda quando alguém ouve um ruído estranho, vai chegar e é apenas um gato. Até tem um gato no filme, mas posso garantir que ele não é nada meigo.

Na verdade, a única síntese que se poderia fazer do enredo sem correr o risco de prejudicar quem for assistir é justamente aquela que todo mundo já conhece: Karen (Gellar) é uma norte-americana que mora com o namorado em Tókio, onde ambos estudam e trabalham. Um dia, a moça é mandada para uma casa muito sombria, onde deverá cuidar de uma senhora (também americana) que se encontra gravemente enferma, já que a pessoa que cuidava dela anteriormente desapareceu sem deixar vestígios. Logo ela nota que algo muito estranho e ameaçador habita aquela casa.



Um dos pontos fortes do roteiro é que ele trabalha com vários personagens ao mesmo tempo, apresentando-os aos poucos e sem seguir uma ordem cronológica, de forma que alguns fatos apresentados parecem sem sentido num primeiro momento, mas no decorrer da história as peças vão se encaixando e o mistério que envolve a trama vai sendo elucidado. Também é impossível não mencionar alguns momentos realmente aterradores que marcam o filme, como a cena em que a empregada vai investigar o sótão, logo no início, a seqüência que se passa nas escadarias desertas de um grande edifício, a parte em que um detetive chega a sombrias descobertas observando imagens do circuito interno de TV, e o próprio final, aberto e um tanto quanto tétrico, e que ganha pontos por não se render ao convencional.

É claro que o filme tem seus deslizes, não se constituindo em uma obra perfeita, e convenhamos, nem poderia. Uma das razões pela qual algumas pessoas criticam o filme é o fato de nunca ficar claro porque alguns personagens morrem tão logo adentram na casa enquanto outros são aparentemente poupados. Não há como se chegar a uma conclusão definitiva quanto a isso apenas assistindo ao filme passivamente. Eu me dei a liberdade de elaborar uma teoria, que talvez muitos já tenham pensado: algumas pessoas eram inicialmente poupadas de forma deliberada pelas forças malignas que habitavam a casa justamente para que continuassem, mesmo que de forma involuntária, atraindo mais vítimas para o local, em um ciclo permanente. Além disso, existem outras coisas que poderiam ser melhores, como por exemplo, alguns personagens que poderiam ser mais bem desenvolvidos, algumas cenas com efeitos em CGI bastante dispensáveis, etc. Mas definitivamente, nada destes pormenores compromete o ótimo resultado da obra.

De uma maneira geral, as maiores virtudes do filme acabam se concentrando na eficientíssima direção do japonês Takashi Shimizu, que demonstra conhecer os meios certos para assustar o expectador, e também no roteiro, de autoria do próprio Shimizu com colaboração de Stephen Susco, que instiga o expectador a tirar as suas próprias conclusões a respeito de certas passagens. Como menciona Ted Raimi numa entrevista que integra os extras que acompanham o DVD, os roteiros da maioria dos filmes de terror americanos costumam apresentar uma origem certa para o mal, bem como uma forma igualmente clara para combatê-lo. No cinema oriental, as coisas são mais subjetivas, onde o mal nem sempre tem uma origem conhecida, e muitas vezes não se tem a menor idéia de como enfrentá-lo, o que, na minha opinião, é muito mais assustador.



Por fim, a conclusão a que se chega é que, embora ande dirigindo superproduções pipoca como "Homem-aranha", Sam Raimi não se esqueceu de suas raízes no cinema de horror. Ele ainda entende do assunto. E muito.

André Bozzetto Junior


O GRITO(The Grudge, Japão/EUA/Alemanha, 2004). 92 minutos
Direção: Takashi Shimizu
Roteiro: Stephen Susco; Takashi Shimizu
Produção: Doug Davison; Takashige Ichise; Roy Lee; Robert G. Tapert
Produção Executiva: Sam Raimi; Joseph Drake; Nathan Kahane; Carsten H.W. Lorenz
Fotografia: Lukas Ettlin; Hideo Yamamoto
Figurino: Shawn Holly Cookson
Edição: Jeff Betancourt
Desenho de Produção: Iwao Saito
Efeitos Visuais: Kory Jones; Hajime Matsumoto
Maquiagem: Sachie Munemura; Jane O'Kane; Yuuichi Matsui; Veronica Lorenz
Elenco: Sarah Michelle Gellar (Karen Davis); Jason Behr (Doug); William Mapother (Matthew Williams); Clea DuVall (Jennifer Williams); KaDee Strickland (Susan Williams); Grace Zabriskie (Emma Williams); Bill Pullman (Peter Kirk); Rosa Blasi (Maria Kirk); Ted Raimi (Alex); Ryo Ishibashi (Nakagawa); Yoko Maki (Yoko); Yuya Ozeki (Toshio Saeki); Takako Fuji (Kayako Saeki); Takashi Matsuyama (Takeo Saeki)



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