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Nos últimos anos os olhos do mundo cinematográfico ocidental têm se voltado para filmes vindos da Ásia, especialmente Japão, China e Coréia. É lá que os chefões da indústria estão buscando inspiração para se renovar e trazer um sopro de criatividade para suas produções. Aconteceu assim com a recente safra de “importação” de filmes japoneses de terror que ganharam remakes com o carimbo de Hollywood (caso de “O Chamado” e de “Água Negra”, refilmagem dirigida pelo brasileiro Walter Salles). O mesmo ocorreu com os filmes de ação vindos do oriente. Eles foram fonte de inspiração para uma série de produções que vão desde a trilogia “Matrix” até “Kill Bill”, sem esquecer os filmes de John Woo (ele próprio importado por Hollywood). O fenômeno parece que vai se reproduzir mais uma vez com a descoberta de uma jóia cinematográfica produzida na Coréia chamada “Old Boy”, de Park Chan-Wook.
Antes de invadir os cinemas do ocidente “Old Boy” causou furor no Festival de |
Cannes, onde recebeu o Grande Prêmio do júri e levou Quentin Tarantino às lágrimas, comovido pela “violência selvagem” do filme. Qualquer profissional de marketing sabe o efeito que as “lágrimas de Tarantino”, bem divulgadas pelo mundo, podem fazer pela bilheteria de um filme. As lágrimas até podem ter sido de crocodilo, mas o fato é que “Old Boy” possui valores suficientes para conquistar o interesse do público sem qualquer artifício promocional que não sejam suas verdadeiras qualidades.
Segundo título da chamada “trilogia da vingança”, iniciada por “Sympathy for Mr. Vengeance”, “Old Boy” foi baseado em um mangá japonês. Nesta origem reside grande parte de sua força narrativa. O filme é forte, violento, bizarro e brutal, sem abrir mão de personagens com dimensões humanas e sentimentais.


A história começa de forma banal. Após uma bebedeira, homem, pai de família, chamado Oh Dae-su, é seqüestrado sem motivo aparente e mantido em cativeiro num quarto-prisão por 15 anos. Sem saber o real motivo de sua detenção ele passa seus dias assistindo TV, seu único elo com o mundo exterior. É justamente pela TV (uma distorção do mundo real) que Dae-su toma conhecimento que sua mulher foi assassinada e o principal suspeito é ele próprio. Certo dia, inesperadamente, é solto apenas com uma mala de roupas, um celular e um desafio: descobrir motivo de sua prisão e o responsável por tudo. Sem referências no novo mundo que se abre a sua frente Dae-su age movido apenas pelo instinto da sobrevivência e pelo desejo de vingança, ainda que não saiba exatamente a quem direcionar sua fúria.
Em sua odisséia em busca da chave de seu destino o protagonista de “
Old Boy” encontra a violência do mundo real que amargamente substitui a violência abstrata que estava condicionado a ver apenas na TV. Na vida real o sangue é mais vermelho e costuma vir acompanhado da dor física. Mas Dae-su acha normal pagar este preço para reconstruir sua vida. O inevitável confronto final com seu inimigo é revelado em um extenso flashback que dá ordem às peças dispersas no tabuleiro.


Em “
Old Boy” o diretor Park Chan-Wook explora com maestria a composição elaborada dos planos para representar a perturbação do personagem principal. Sem contato com o mundo exterior por 15 anos, Dae-su parece viver uma permanente sensação de vertigem num universo em desequilíbrio. Seus atos parecem em constante choque com a ordem
“natural” das coisas. Assim, comer um polvo vivo numa lanchonete é uma manifestação absolutamente natural para quem busca unicamente saciar o instinto básico da sobrevivência (ainda que esta iguaria seja comum por aquelas bandas do oriente).
O sentimento de vingança, que perpassa o filme de ponta a ponta, é o motor que impulsiona a ação. Depois de anos encarcerado sem saber o motivo, a vingança parece outro ato natural que deve ser alcançado a qualquer custo. Passa a ser a razão de viver de Dae-su, ainda que ela possa custar sua própria vida, já tão sem sentido. A descoberta dos verdadeiros motivos que levaram a sua prisão provoca uma reviravolta no rumo da história e remexe profundamente em fatos do passado que pareciam esquecidos. A jornada de Dae-su em busca das respostas o leva a um reencontro consigo mesmo. “
Old Boy” não propõe uma visão fácil e maniqueísta, e em certo nível não deixa bem claro quem é herói e quem é vilão. Vale notar que inúmeras características do mocinho e do vilão são compartilhadas pelo protagonista e por seu antagonista. Abordar personalidades multifacetadas e de muitas dimensões em filmes de ação é uma ousadia que Park Chan-Wook assume sem riscos.


O uso da violência em “
Old Boy” é outro importante aspecto a ser ressaltado. Ela está lá a serviço da narrativa, e não apenas por razões estéticas, ainda que por vezes a direção se deixe levar apenas pelo efeito do recurso cênico. A essência cinemática do filme de ação pressupõe o movimento físico de objetos e corpos em fuga ou rota de colisão. O realizador coreano Park Chan-Wook parece entender essa premissa e aplica a lição sem perder a noção de espetáculo. A violência em “
Old Boy” é crua, mas também muito sugestionada por nossa mente. Na maior parte das vezes está apenas na cabeça do espectador, mas quando se mostra explícita atinge níveis que beiram ao sadismo. Um destes momentos cruéis é a tortura dentária praticada com um martelo numa seqüência que não faz feio em comparação a outra cena clássica de tortura dentária de
“Maratona da Morte”, de John Schlesinger.
“
Old Boy” retrata a experiência bizarra do personagem principal e transfere a sensação de estranhamento para o público. Na contramão da tese de Hitchcock, que mostrava o verdadeiro assassino na primeira cena e sadicamente torturava o espectador com essa informação até o final, Park Chan-Wook não revela nada. Nem ao personagem, nem ao público. A jornada da descoberta é compartilhada por todos. Não antecipa a próxima jogada. Não aponta caminhos. Apenas divide a angústia da escuridão. Com esta abordagem o diretor potencializa o drama e transforma a narrativa num thriller que beira à paranóia. Depois de 15 anos aprisionado o protagonista de “
Old Boy” descobre que as restrições da liberdade não se limitam a quatro paredes sólidas. A distorção da realidade também aprisiona. Sem cadeados a serem abertos. A catarse de Dae-su se dá na climática seqüência final quando expectativas são revertidas e o caos dá lugar à ordem, ainda que banhada em sangue. O filme de Park Chan-Wook é uma obra meticulosa e bem sucedida que cumpre com virtuosismo sua tarefa de proporcionar uma experiência sensorial na platéia.


Por fim, um conselho para aqueles que ainda não assistiram “
Old Boy”. Fiquem com o original coreano. Não esperem pela refilmagem americana que certamente virá. Se com o original você vai roer as unhas, com certeza na versão hollywoodiana o máximo que você vai fazer é comer um saco de pipocas.
Jorge Ghiorzi
por Renato Rosatti
"Ria… e o mundo rirá com você. Chore... e chorará sozinho." - Dae-su Oh
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Para a satisfação dos fãs do Horror, o cinema oriental do gênero foi finalmente reconhecido pelo resto do mundo e agora temos diversas produções japonesas, coreanas ou tailandesas chegando ao Brasil, sendo que até alguns destes filmes são exibidos nos cinemas, como "Visões" (The Eye 2) e "Espíritos - A Morte Está ao Seu Lado" (Shutter), distribuídos pela "PlayArte", e outros vão diretamente para o mercado de vídeo. O coreano "Oldboy" (2003), escrito e dirigido por Chan-wook Park, foi exibido nas telas grandes por aqui em Maio de 2005, e lançado em DVD e VHS pela "Europa" na segunda quinzena de Outubro.
Um homem, Dae-su Oh (Min-sik Choi), é preso por bebedeira e depois de solto da cadeia com a ajuda do amigo No Joo-hwan (Dae-han Ji), é misteriosamente seqüestrado numa cabine telefônica quando tentava falar com sua filha pequena. Ele é então mantido prisioneiro num quarto por quinze longos anos, sem ter a mínima idéia do motivo. |
Ele é alimentado normalmente e tem apenas uma televisão como diversão, de onde descobre num noticiário policial que sua esposa foi encontrada morta e que o principal suspeito era ele, através de provas plantadas para incriminá-lo. Ele também fica sem saber o destino de sua filha de três anos.
Durante todos os anos de cárcere forçado, o homem passa o tempo fazendo condicionamento físico e treinando movimentos de luta marcial golpeando uma parede, e por causa do isolamento, sofre com alucinações envolvendo formigas. Seu maior desejo, alimentado por anos de ódio, é sair da prisão, descobrir o motivo do cárcere e se vingar violentamente do responsável. Mas, para sua surpresa, após quinze anos, ele é solto dentro de uma mala no alto de um prédio no mesmo lugar onde no passado estava a cabine telefônica, recebendo dinheiro, um telefone celular e roupas novas.


A partir daí, começa sua trajetória em busca de informação para poder cumprir seu desejo de vingança, onde surge em seu caminho uma bela cozinheira de restaurante, a jovem Mi-do (Hye-jeong Kang), que o ajuda na jornada e com quem inevitavelmente se apaixona, além de outros personagens sinistros e fundamentais para o entendimento de todos os eventos do passado de sua vida (incluindo antigos colegas de colégio, conhecidos como
"Evergreen Old Boys"), como um homem poderoso chamado Woo-jin Lee (Ji-tae Yu).
"Seja grão de areia, seja pedra. Ambos afundam na água." - Woo-jin Lee 

Eu estava bastante curioso em conhecer "
Oldboy", pois o filme estava sendo muito elogiado e não tive a oportunidade de ver nos cinemas. Portanto, minha expectativa seria o lançamento em DVD, e somente consegui ver o filme no final de Janeiro de 2006, numa cópia de serviço da
"Europa", dublada em francês e com legendas em português. E realmente sou obrigado a concordar com todos os comentários positivos sobre esse filme, que foi um dos principais lançamentos do cinema de horror no Brasil em 2005.
"
Oldboy" é o filme intermediário de uma trilogia sobre vingança, precedido em 2002 por "
Boksuneun naui geot" (Sympathy for Mr. Vengeance), e sucedido em 2005 por "
Chinjeolhan geumjassi" (Sympathy for Lady Vengeance). E tem o roteiro baseado num mangá homônimo japonês criado por Minegishi Nobuaki e Tsuchiya Garon.


O filme do meio, apesar da história básica de vingança, possui revelações crescentes e reviravoltas que mantém a atenção e interesse todo o tempo em suas duas horas de duração. Normalmente estamos acostumados a ouvir a frase
"A vingança é um prato que se come frio", referindo-se ao fato de que não há pressa para se consumar uma vingança, pois ela pode tardar, mas uma hora chega, e a paciência nesses casos é um grande segredo para o sucesso do objetivo. Porém, no caso de "
Oldboy", e como diz uma campanha de marketing do filme,
"A vingança é um prato que se come quente, muito quente", pois após ser libertado de sua prisão particular o protagonista tornou-se obcecado em obter sua vingança o mais rápido possível, além também de tentar descobrir o motivo do cárcere. Sem contar que depois de conhecer pessoalmente o responsável por perder quinze anos de sua vida, ele é obrigado a participar de um jogo onde tinha apenas cinco dias para encontrar a resposta, ou a jovem Mi-do seria assassinada.
Podemos considerar que "
Oldboy" é mais um filme dramático, com um roteiro inteligente que tem boas doses de ação, pancadarias e violência, do que propriamente um filme de horror, apesar dos fortes elementos desse gênero presentes em sua história, com as cenas sangrentas de tortura com direito a dentes arrancados com alicate e língua cortada, sem contar ainda uma cena onde o protagonista Dae-su devora um polvo vivo. Isso pode até ser comum nos restaurantes coreanos, mas por aqui certamente é encarado como um ato no mínimo bizarro e de gosto duvidoso, e fico imaginando o sofrimento do animal vivo ao sentir as dentadas de seu algoz rasgando-lhe o corpo.


Curiosamente, quando Dae-su está assistindo TV em seu cárcere privado, aparece rapidamente na tela uma cena do clássico "
A Noiva de Frankenstein" (1935), onde o monstro (o lendário
Boris Karloff sob forte maquiagem) está aprendendo a fumar. E na cena final, numa floresta coberta de neve, as filmagens foram na Nova Zelândia, país conhecido por suas paisagens belíssimas (como as vistas na trilogia de "
O Senhor dos Anéis").
"Embora eu não passe de um animal... não tenho o direito de viver?" - Dae-su Oh
Curiosidades
- Aclamado pela crítica,
Oldboy é o segundo filme de uma trilogia sobre vingança planejada pelo diretor e co-roteirista Chan-wook Park, iniciada com
Sympathy for Mr. Vengeance (02).
- O ator Min-sik Choi emagreceu doze quilos para interpretar seu papel e comeu de fato um polvo vivo (foram usados, na verdade, cinco), numa das cenas mais controversas da obra - na Coréia do Sul, porém, é hábito comer vivos tais animais.
- Como o ator é budista, depois da cena em que come o polvo, Min-sik Choi orou...
- A famosa cena do corredor, em uma única tomada, levou três dias para ser concluída.
- A frase
"Livra-te, como a gazela da mão do caçador, e como a ave da mão do passarinheiro.", que serviu como pista para a casa de Woo-jin, está na Bíblia, no livro dos
PROVÉRBIOS 6:5 e não 6:4 como é mencionado no filme. O diretor disse que foi apenas um engano, não necessariamente um erro.
- A ùltima cena do filme (com a neve e as pegadas) foi realizada na Nova Zelândia. Depois dos créditos, podemos ouvir o som do vento, gravado originalmente nesse país.
- o ator Kwang-rok Oh (que cometeu suicídio com o cachorro no começo do filme) é o único que participa de dois filmes da trilogia com o tema vingança. Em
Sympathy for Mr. Vengeance, ele aparece como um anarquista bem no final do filme.
Renato Rosatti
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OLDBOY (Oldboy, Coréia do Sul, 2003). distribuição Europa Filmes. Duração: 120 minutos
Direção: Chan-wook Park
Roteiro: Jo-yun Hwang; Chan-wook Park; Chun-hyeong Lim; Joon-hyung Lim, baseado em história de Garon Tsuchiya
Produção: Seung-yong Lim
Produção Executiva: Dong-ju Kim
Música: Yeong-wook Jo
Fotografia: Jeong-hun Jeong
Edição: Sang-Beom Kim
Direção de Arte: Seong-hie Ryu
Elenco: Min-sik Choi (Dae-su Oh); Ji-tae Yu (Woo-jin Lee); Hye-jeong Kang (Mi-do); Dae-han Ji (No Joo-hwan); Dal-su Oh (Park Cheol-woong); Byeong-ok Kim (Mr. Han); Seung-Shin Lee (Yoo Hyung-ja); Jin-seo Yun (Lee Soo-ah); Dae-yeon Lee (Beggar); Kwang-rok Oh (homem suicida); Tae-kyung Oh (jovem Dae-su); Yeon-suk Ahn (jovem Woo-jin); Il-han Oo (jovem Joo-hwan); Su-hyeon Kim; Seung-jin Lee; Su-kyeong Yun; Myeong-shin Park
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