OLHOS DA MORTE

por Gabriel Paixão

"Não estar viva não significa que não seja real"
Kenneth Winslow

Para começar a falar deste filme temos de botar a imaginação para funcionar: Você tem uma garota, mas está apaixonado por outra. Então você decide largá-la, porém ela é psicoticamente ciumenta e começa a te perseguir. Até aí simples, mas e se eu dissesse que ela é uma boneca inflável?
Diga a verdade, com uma premissa como essa você acha que renderia um bom filme de suspense? Se você pensou em um não, então faça como eu e pense novamente.
Muito mal lançado em DVD no Brasil pela Lk-Tel e com o título desnecessariamente tosco 'Olhos da Morte' sendo que a tradução do título original seria mais condizente com o filme, e um encarte sem atrativos, 'Love Object' é o primeiro trabalho de
Robert Parigi como diretor e roteirista sendo mais conhecido como produtor de alguns episódios do seriado 'Contos da Cripta'.
Premiado em diversos festivais de cinema e filmado em apenas 18 dias com a mixaria de um milhão de doletas, Parigi, alternando momentos de romance, humor negro, suspense e terror, consegue contar uma história diferente e delicada e faz um filme com personalidade mesmo com as falhas que ocorrem provavelmente pela sua falta de experiência.



Kenneth Winslow (Desmond Harrington de 'Navio Fantasma' e 'Pânico na Floresta') é um cara com uma fixa rotina, tem um emprego que não pode ser considerado como divertido, escrevendo manuais de instruções, mora sozinho, tem uma vida social nula e, em relação a mulheres, bem, digamos que não é o seu forte.
Neste assunto, Kenneth é um caso complicado, não conhece mulheres e para se satisfazer sexualmente, recorre ao voyeurismo, ouvindo seu vizinho-sindico-esquisitão Radley (Udo Kier, de trocentos filmes entre os atuais 'Drácula 3000' e estará no próximo filme de "gasp", "cof", Uwe Bowl [pausa para bater na madeira], 'Bloodrayne') em suas transas e visitas a sex-shops.
Sua rotina começa a mudar quando um dia seu chefe Novak (Rip Torn, de 'Homens de Preto I' e 'II) lhe apresenta um trabalho altamente complexo, a criação de manual para um software do governo, e com o prazo apertado contrata uma assistente para auxiliá-lo, a gatinha Lisa Bellmer (Melissa Sagemiller). Acostumado a trabalhar sozinho, Kenneth inicialmente resiste à presença da nova ajudante, porém acaba cedendo ao patrão e com o tempo descobre uma leve queda por ela.
No dia seguinte, chegando ao serviço, Kenneth é apresentado a uma foto de Nikki, a mulher perfeita: muito atraente anatomicamente perfeita, disponível, fogosa, não reclama, não tem TPM e não estoura seu limite de cartão de crédito (antes que as garotas que estão lendo este artigo me peguem de pau na porta de casa, é brincadeira viu...), mas tem dois grandes inconvenientes: custa dez mil dólares e é feita de borracha.
Trocando em miúdos, Nikki é uma Barbie para fins não ortodoxos. Seus colegas a encontraram em um site e levam a história na gozação, entretanto Kenneth acaba tratando isso muito a sério e fica absorvido pela boneca, a ponto de seu trabalho ficar prejudicado pela sua situação.



Não tarda muito e Kenneth resolve comprar sua boneca, mas devido à atração pela sua assistente, ele escolhe todos os detalhes pensando nela. Na entrega, e a impressionante semelhança entre Nikki e Lisa, Kenneth nem tira a embalagem direito e já vai "testar" seu novo brinquedo (eita...).
Em cinco minutos, Kenneth está exausto e insatisfeito com o produto e tenta devolvê-lo, mas já está usado e por isso é forçado a ficar com ela, quando faz uma importante descoberta: o manual de instruções (hehehe, não me levem a mal, cena é séria, mas minha mente pervertida me fez rir muito nesta hora). É o manual que o ensina a usar sua própria imaginação e faz Kenneth refletir na boneca Nikki tudo o que ele desejaria fazer com Lisa.
Agora, satisfeito e feliz, Kenneth se dedica muito mais ao seu trabalho, mas Lisa passa por maus bocados. Vista com preconceito por ser apenas uma estagiária, ela pensa em sair, porém Kenneth a faz mudar de idéia e acaba se aproximando mais, ficando após o horário para lhe ajudar.



Kenneth definitivamente obcecado por Lisa tenta ir além com sua boneca, chegando até a montar uma grande estrutura de madeira em seu apartamento para dançar valsa com Nikki. O que soa estranho, mas na mente de Kenneth é com Lisa que está dançando. Se Lisa pinta as unhas de uma cor diferente, Kenneth pinta as unhas de Nikki iguais. Se Lisa usa um outro batom, Kenneth usa o mesmo nos lábios de Nikki, e assim por diante.
Kenneth é promovido, Lisa é contratada, ambos não escondem mais que estão atraídos um pelo outro, e chega o conseqüente ponto em de Nikki fica finalmente obsoleta.
Se o filme parasse por aqui, seria facilmente classificado com um dramalhão sem graça do Super Cine. É então que o roteiro genial de Robert Parigi entra em ação.
Fatos estranhos começam a acontecer como Kenneth acordar acorrentado à boneca, mesmo deixando-a em uma cadeira na noite anterior, receber telefonemas mudos e encontrar Nikki com uma faca na mão enquanto todo o material que tinha de Lisa rasgado.
Enfim, desesperado após um encontro não muito bem sucedido com Lisa, Kenneth desmembra sua boneca e a joga no lixo, porém Lisa descobre a verdade e desmancha com Kenneth que acaba demitido e seu mundinho vai caindo até o inferno chegando ao limiar da loucura.



Não vou contar o resto, mas saibam que a partir daí, a tensão é crescente e com momentos cada vez mais incômodos até o final diferente e saindo um pouco das soluções fáceis, mesmo não sendo muito empolgante.
O mais legal é que, ao contrario de outros bonecos assassinos, Nikki não fala e nem se move voluntariamente o filme todo, de modo que você fica na dúvida depois que o filme acaba, se ela é mesmo uma boneca ciumenta e psicótica ou são alucinações e delírios de Kenneth. O que não quer dizer que Nikki não seja assustadora, sinceramente, em certos momentos sua presença chega a ser arrepiante.
Kenneth é um personagem complexo e tanto o diretor-roteirista Robert Parigi quanto o ator Desmond Harrington primam em não retratá-lo como um tarado maluco ou um maníaco sexual. O cara é muito tímido e reprimido e isso acabou causando alguns distúrbios, que vão crescendo e desenvolvendo até o extremo. Um personagem como esse nas mãos erradas poderia virar uma piada.



A trilha sonora de Nicolas Pike (Sleepwalkers) também é digna de destaque, cadenciando bem os momentos e sentimentos de Kenneth e as aparições assustadoras de Nikki.
Mas existem alguns grandes problemas: talvez por ser o primeiro trabalho como diretor Robert Parigi concentra toda a tensão nos 30 minutos finais, e até lá o filme desenvolve o "triângulo amoroso" entre Kenneth, Lisa e Nikki. Assim você só se dá conta de que alugou um filme de terror no finalzinho, onde possivelmente você está com uma baita vontade de desligar a TV.
E concluindo, fique de olho nos próximos trabalhos de Parigi e enquanto isso se você estiver cansado dos mesmos filmes convencionais e tem mente aberta, não hesite em pegar este aqui. Depois se você quiser comprar uma boneca inflável, não se esqueça de antes levá-la a um psicólogo.



Gabriel Paixão


OLHOS DA MORTE (Love Object, EUA, 2003). Duração: 91 minutos.
Direção: Robert Parigi
Roteiro: Robert Parigi
Produção: Kathleen Haase; Lawrence Levy; Bruce Wayne Gillies
Produção Executiva: Alessandro Camon; Edward R. Pressman; John Schmidt
Música: Nicholas Pike
Fotografia: Jerry Sidell
Desenhos de Produção: Trae King
Edição: Troy Takaki
Direção de Arte: Philip Godwin
Maquiagem: Brian Penikas; Richard Redlefsen; Tracy Wilcox
Efeitos Especiais: Brian Penikas; Nicole Michaud
Elenco: Desmond Harrington (Kenneth Winslow); Melissa Sagemiller (Lisa Bellmer); Udo Kier (Radley); Rip Torn (Novak); Robert Bagnell (Martin); Brad William Henke (Dotson); John Cassini (Jason); Camille Guaty; Michael Pena; Edie Mirman; Lyle Kanouse; Ellen Greene; Opal Anchel; John Joseph Burns; Bryan Crump; Ward Shrake


Artigos