ÚLTIMA ESPERANÇA SOBRE A TERRA, A

por João Pires Neto

Sejam bem-vindos ao futuro. No caso ao ano de 1977. Uma guerra biológica entre a China e a União Soviética dizimou grande parte da população. É neste cenário pós-apocalíptico que vive Dr. Robert Neville, um dos poucos sobreviventes. O incansável cientista vasculha as ruas aparentemente desertas de Los Angeles em busca de alimentos, armas e outros humanos. Após o pôr-do-sol, se refugia em seu apartamento, transformado em um bunker. Mas alguns dos infectados também sobreviveram, sofrendo mutações que os transformaram em albinos sensíveis a luz, impedidos de andar durante o dia. Liderados por Matthias, que antes da catástrofe era um popular apresentador de televisão, os mutantes investem toda a sua fúria contra Neville, o
representante da ciência que levou o ser humano a quase-extinção.

Vagar sem destino com seu Cadillac vermelho por avenidas vazias. Ter a disposição todos os shoppings e lojas da cidade. Poder, a qualquer momento, só porque furou um pneu, trocar seu “modesto” Cadillac por um clássico Mustang azul conversível. Não parece nenhum pesadelo para os que sofrem com o stress das caóticas megalópoles do século XXI. Entretanto nem tudo são flores para o último homem sobre a terra. Robert Neville é atormentado pela solidão e pela loucura iminente, além de passar de caçador a caça quando a noite chega. O cientista é perseguido por uma legião de infectados que se autodenomina “A Família”. O grupo concentra sua força na missão quase religiosa de eliminar o último representante dos paradigmas de uma sociedade cujos pilares foram a ciência e a tecnologia.

Condenados a escuridão, os contaminados usam óculos escuros e trajes negros que os protegem da luz e que lembram os usados por monges durante a idade média. Este visual dark remete à uma doutrina medievalista, que entre outros princípios, pregaria a negação da ciência. No entanto, ironicamente, o cientista Neville é o único que possui a cura para o mal destes infectados.

O nome do grupo de mutantes (“A Família”) é uma clara alusão dos roteiristas ao caso Charles Manson. O filme foi lançado poucos meses após sua condenação e o termo tinha uma conotação nefasta e associada a Manson e seus seguidores (que também se chamavam de “família”).



Um dos livros mais importantes da literatura fantástica contemporânea, o clássico “Eu Sou a Lenda”, escrito pelo norte-americano Richard Matheson, foi adaptado para o cinema em pelo menos quatro ocasiões. Filmado pela primeira vez em 1964, pelo cineasta italiano Ubaldo Ragona, “Mortos que Matam” (The Last Man on the Earth, 1964, EUA), tinha o protagonista interpretado por Vincent Price. “A Última Esperança Sobre a Terra” é a segunda versão para o texto de Matheson. Recentemente foram mais duas produções: o arrasa-quarteirão “Eu Sou a Lenda” (com Will Smith) e o caça-níqueis “Batalha dos Mortos” (“I Am Omega”, com Mark Dacascos). O próprio Richard Matheson teve seu nome imortalizado escrevendo dezenas de roteiros para séries clássicas como “Demônios da Noite”, “Alfred Hitchcock Apresenta” e “Além da Imaginação”, entre outras. É ainda o responsável pelo roteiro de “Encurralado” (Duel, 1971, EUA), um dos primeiros sucessos de Steven Spielberg.

Mesmo não sendo completamente fiel ao texto original, há uma grande jogada na adaptação realizada pelo casal de roteiristas John e Joyce Hooper Corrington. Os vampiros sedentos de sangue das páginas de Matheson foram convertidos em hippies albinos homicidas. Esta mudança, eliminando qualquer possibilidade sobrenatural, permite uma abordagem mais atualizada da trama, tornando possível aos responsáveis pelo roteiro questionar os conflitos raciais e o fanatismo religioso tão em voga na época. A paranóia típica do período da Guerra Fria, o temor por um holocausto nuclear ou biológico é também muito bem aproveitado pelo novo script. Todas estas mudanças foram muito bem aceitas pela crítica, já que era necessário inovar, pois “A Última Esperança Sobre a Terra” foi realizado apenas sete anos após “Mortos que Matam”. Porém a versão de 1971 comete o mesmo pecado da versão mais recente (“Eu Sou a Lenda”), que é ignorar a grande reviravolta que representa o clímax da novela de Matheson. Em ambos os filmes o cientista Robert Neville é apresentado como um virtuoso e inquestionável herói. No livro, entretanto, em determinado momento, sabemos que quem causa mortes por onde passa é o próprio Neville. É ele na verdade o grande vilão. Ele é a lenda para os vampiros.

A Última Esperança Sobre a Terra” foi dirigido pelo especialista em televisão Boris Sagal. O filme conta com um ótimo elenco, encabeçado por Charlton Heston, que entre 1968 e 1973, trabalhou em três longas com temáticas muito semelhantes. Nestes filmes de ficção científica o futuro do planeta Terra foi retratado sob uma perspectiva um tanto pessimista e sombia. São eles: “A Última Esperança Sobre a Terra”, o clássico “O Planeta dos Macacos” (Planet of the Apes, 1968, EUA) e ainda “No Mundo de 2020” (Soylent Green, 1973, EUA). Junta-se a Heston a bela atriz afro-descendente Rosalind Cash, interpretando Lisa. Juntos formaram um polêmico par romântico inter-racial, muito comentado pela sociedade americana na época. Completa o elenco o carismático ator californiano Anthony Zerbe (o Conselheiro Hamann de “Matrix Reload” e “Matrix Revolutions”), interpretando o antagonista Matthias.



A trilha sonora foi concebida por Ron Grainer. Os arranjos são constituídos por interpretações extravagantes que misturam jazz e pop, utilizando composições orquestrais, sons de teclado e percussão. A ousada mistura, a princípio, desperta certa estranheza no espectador, mas cai como uma luva para o clima bizarro proposto pelo filme.

O ômega do título original em inglês (“The Omega Man”), refere-se a vigésima quarta e última letra do alfabeto grego. Numa tradução mais literal, o título em português seria algo como “O Último Homem” ou mesmo “O Homem Ômega”. A escolha da distribuidora brasileira (“A Última Esperança sobre a Terra”), acertada ou não, foi bem mais dramática e poética, diga-se de passagem. Ainda sobre este simbolozinho grego que parece uma ferradura (O), Charlton Heston se depara com ele em outro clássico da ficção-científica. Em “De Volta ao Planeta dos Macacos”, o personagem de Heston encontra uma raça de mutantes que adoram uma bomba atômica pintada com os símbolos alfa (a) e ômega (O).



Enfim, “A Última Esperança Sobre a Terra”, além de um clássico absoluto do gênero, é um filme emblemático, reflexo de uma geração e de uma época um tanto conturbada. Pode parecer datado aos olhos menos atentos. Mas ainda hoje impressiona pela originalidade (fato raro, tratando-se de uma refilmagem). Uma obra essencial a qualquer cinéfilo ou apreciador do cinema de boa qualidade.

Parágrafos finais da novela de Richard Matheson, “Eu Sou a Lenda”:
“Robert Neville olhou para o novo povo sobre a Terra. Sabia que não pertencia àquela gente, sabia que, como os vampiros, ele era o anátema, o terror a ser destruído. E abruptamente, outra idéia nascia, divertindo-o, apesar da dor. Uma gargalhada partiu de sua garganta. Virou-se, apoiando as costas na parede enquanto engolia as pílulas. O circulo se fechava e se reiniciava, pensou sentindo a letargia final tomar conta de seu corpo. Um novo terror nascia com sua morte, uma nova superstição se instalava na fortaleza da eternidade. Eu sou a lenda.”

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A ÚLTIMA ESPERANÇA SOBRE A TERRA (The Omega Man, 1971, EUA)
Direção: Boris Sagal
Roteiro: John e Joyce Hooper Corrington, do romance “Eu Sou a Lenda”, de Richard Matheson.
Produção: Walter Seltzer
Fotografia: Russell Metty.
Música: Ron Grainer.
Direção de Arte: Walter M. Simonds
Edição: William H. Ziegler.
Maquiagem: Gordon Bau; Jean Burt Reilly
Elenco: Charlton Heston (Robert Neville), Anthony Zerbe (Matthias), Rosalind Cash (Lisa), Paul Koslo (Dutch), Eric Laneuville (Richie), Lincoln Kilpatrick (Zachary), Jill Giraldi (pequena garota) e Brian Tochi (Tommy).




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