1984:
O PESADELO FUTURISTA DE GEORGE ORWELL


Por Orivaldo Leme Biagi

Numa sociedade do futuro, as pessoas eram controladas o tempo todo através de telas de televisão (as chamadas teletelas) que observam cada ato, em nome do líder supremo da nação, o Big Brother – foi da obra 1984, de George Orwell, que nasceu a idéia do programa televisivo onde câmaras observam as pessoas o tempo todo. Mas a semelhança acaba por aí: a obra de Orwell denuncia o excessivo controle do estado na vida das pessoas, sem entretenimento.
George Orwell é o pseudônimo de Eric Blair, nascido na Índia em 1903, na época colônia inglesa. Sua formação escolar foi tradicional, em Eton, ou seja, ele foi educado com os objetivos de servir o Império Britânico – Blair chegou a fazer parte da Polícia Imperial Indiana, em 1928, na Birmânia, abandonando-a ao ver-se como instrumento de preservação de uma política que não concordava. Decidido a ser escritor, Blair foi viver nos bairros operários de Paris nos dois anos seguintes e, depois, mudou-se para a Inglaterra onde trabalhou como professor, bibliotecário auxiliar de escritório e jornalista. Observando as regiões industrializadas e a exploração que sofria a classe proletária, tornou-se socialista.
Blair participaria da Guerra Civil Espanhola (1936-39), engajando-se ao lado dos republicanos no Partido Obrero de Unificación Marxista, de orientação soviética, contra as forças do general Franco, com amplo apoio dos nazistas alemães. Blair ficou horrorizado com a guerra, não por causa das forças de Franco (apoiadas com armamentos alemães), mas sim com o comportamento ditatorial dos comunistas: estes atirariam nas costas dos anarquistas, pois o pensamento de esquerda deveria ser único – de Moscou e, mais especificamente, do líder na União Soviética na época, Stalin.
Blair desencantou-se com o socialismo e, ao voltar à Inglaterra, ingressou no Partido Trabalhista Independente, lutando contra o crescimento do nazi-fascismo na Inglaterra - e contra o stalinismo.
Blair tentou alistar-se para combater o nazismo, mas sua saúde frágil o impediu. Tornou-se, em 1943, editor do jornal de esquerda Tribune e, ao mesmo tempo, começaria a escrever, já como George Orwell, A Revolução dos Bichos, sátira mordaz à Revolução Russa onde os animais tomam a fazenda onde vivem em nome da liberdade, justiça e igualdade – conceitos estes que são destruídos pela nova elite administrativa, os porcos, numa clara referência ao partido comunista soviético. Em 1947 sua tuberculose agravou-se e ele retirou-se para a ilha de Jura, na Escócia, começando a escrever 1984, concluído em 1949. Orwell morreria em 1950, em Londres.
1984 critica furiosamente o advento de regimes totalitários ligados a partidos políticos intransigentes – mais especificamente o nazismo alemão e, logicamente, o regime comunista soviético. Winston, o personagem principal da obra, começa a contestar o mundo em que vive modificando de maneira pessoal uma notícia (sua função é mudar as notícias do passado, criando, assim, um novo passado, de acordo com os interesses do partido do poder – “quem domina o passado domina o futuro; quem domina o presente domina o passado”, idéia fundamental da obra) tendo um caso proibido com Júlia e sendo descoberto pela Polícia do Pensamento.
Torturado fisicamente, Winston descobre a lógica cruel do seu mundo: “2 + 2 = 4” apenas é assim se o partido quiser, podendo ser 5 ou 3 ou qualquer coisa – o partido domina tudo e a todos, inclusive determinando o que é verdade e o que não é. Num dos textos mais fortes do século XX, Orwell, na figura do captor de Winston, O’Brien, explica a lógica do partido:

“Não nos contentamos com a obediência negativa, nem mesmo com a mais abjeta submissão. Quando finalmente te renderes a nós, deverá ser por tua livre e espontânea vontade. Não destruímos o herege porque nos resista; enquanto nos resiste, nunca o destruímos. Convertemo-lo, capturamos-lhe a mente, damos-lhe nova forma. Nele queimamos todo o mal e toda a alucinação; trazemo-lo para o nosso lado, não em aparência, mas genuinamente, de corpo e alma.”
A vontade das pessoas submetidas aos interesses do partido era uma idéia polêmica para o momento, pois o mundo ainda estava estarrecido com as imagens do recém derrotado regime nazista, com seus críticos mortos ou tendo de fazer retratação em praça pública – algo que também acontecia, com freqüência, na União Soviética de Stalin.
A resistência de Winston em amar o Big Brother o leva à terrível sala 101, “a pior sala do mundo”: é o lugar onde são explorados os piores medos das pessoas. Winston, que sempre teve medo de ratos, foi preso numa cadeira, com uma gaiola de três fases colocada no seu rosto, com dois ratos famintos na primeira fase. O’Brien os libera para a segunda fase da gaiola e ambos vão, sedentos, muito perto do rosto de Winston, que está na terceira fase. Desesperado, Winston entrega seu último ponto de resistência, seu amor por Júlia: aos berros, ele suplica para que Júlia seja colocada no seu lugar. A traição de seu amor o destruiu totalmente – o trabalho do partido estava completo.
O universo de 1984 não se limita aos infortúnios de Winston, pois mostra uma realidade extremamente repressiva: crianças que denunciam seus pais pelos menores delitos; uma intensa produção de literatura pornográfica (tão medíocre que são os computadores quem escrevem os livros) para as massas ignorantes, numa clara crítica à cultura de massas do momento – cultura esta que ajudou na ascensão dos nazistas e na fixação dos comunistas na União Soviética; e a guerra como justificativa para o controle social do partido, estimulando a exaltação fanática contra o inimigo, seja ele quem for.
Obra pessimista, pesada, acusada de plágio e rejeitada nos antigos países da Cortina de Ferro – 1984 levanta uma série de questões sobre o papel do indivíduo na sociedade, do controle social do estado e, principalmente, da função dos partidos políticos na vida social. O comunismo de “modo soviético” praticamente acabou na virada das décadas de 80 e 90 do século XX e a Globalização prega a vida humana com menor peso do estado, mas com autoritarismo: contestar a ordem globalizada, em particular de seu maior interessado, os Estados Unidos, é difícil pela intensa propaganda e publicidade aplicada pela cultura de massas atual, quando não pela força militar dos próprios Estados Unidos. Aparentemente, o Big Brother nunca saiu do poder realmente.

Orivaldo Leme Biagi, Doutor em História pela UNICAMP, Professor das Faculdades Atibaia (FAAT) e Membro da Academia Literária Atibaiense (ALA).

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