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Jerry possui poucas ambições. Está satisfeito com o emprego de vendedor de imóveis, possui muitos amigos e uma boa casa. Seu único desejo é uma família unida e feliz. Seu relacionamento com a Bela Susan é estável, apesar da desconfiança da enteada Stephanie. Mas o passado de Jerry esconde um segredo que, se trazido à tona, pode colocar mãe e filha em perigo.
Não, não é um drama destes exibidos no Supercine aos sábados, apesar de “baseado em fatos reais”. E sim, é um dos primeiros trabalhos do ator Terry “Locke” O’Quinn, o careca mais famoso da ilha de “Lost”.
“O Padrasto”, que carrega uma injusta fama de trash e se destacou nos anos 80 como um dos clássicos da saudosa era do VHS, permanece inédito em DVD por aqui até hoje (na época foi lançado em “fita” pela também falecida VTI). Ao contrário do que se possa pensar a princípio, “O Padrasto” é um thriller de suspense psicológico, com um clima tenso e carregado, criado principalmente em cima da aparente normalidade do personagem interpretado por Terry O’Quinn. |
Já nos primeiros minutos de filme a índole do personagem Jerry Blake nos é revelada. Esta seqüência (arrepiante, diga-se de passagem), mostra Jerry (com cara de psicopata) se limpando num banheiro. Seu rosto, sua roupa e suas mãos estão sujas de sangue. Após se limpar, o homem faz a barba e arruma as malas. Agora Jerry parece um respeitável pai de família. Enquanto desce as escadas rumo à porta, vemos marcas de sangue nas paredes. A câmera então nos mostra o perturbador cenário: vários corpos espalhados por uma sala toda destruída. Entre os corpos está o de uma mulher e o de uma criança segurando um ursinho de pelúcia coberto de sangue. Jerry, indiferente, recolhe o jornal e parte, como um pai responsável no início de mais um dia de trabalho.
Algum tempo depois, Jerry já tem uma nova família: a encantadora Susan e a enteada Stephanie. A garota ainda não superou a morte do pai e não vai com a cara do padrasto. Quando Stephanie resolve investigar seu passado, Jerry vê suas chances de construir a família ideal ameaçadas. Tenta ainda manter o controle da situação, mas a sua “identidade-psicopata” pouco a pouco começa a se manifestar.
“O Padrasto” é um dos melhores trabalhos do diretor americano Joseph Rubem, responsável por longas conhecidos como “Dormindo com o Inimigo” (Sleeping With the Enemy, 1991) e “Os Esquecidos” (The Forgotten, 2004). Em “O Padrasto”, a sua direção é extremamente segura. O cineasta usa inteligentemente as panorâmicas externas, algumas mostrando as casas de família dispostas geometricamente lado a lado, as ruas vazias, o jovem entregador de cartas, criando uma atmosfera melancólica de perfeição (a mesma idealizada por Jerry Blake). As poucas cenas de violência são explícitas e o espectador não é poupado. O vilão também é muito bem desenvolvido, apresentado como um homem comum, fugindo do estereótipo “assassino imortal”, usado a exaustão nos slashers dos anos 80.


O roteiro é uma adaptação de Carolyn Lefcourt e Donald E. Westlake para a novela homônima escrita por Brian Garfield. Ele se inspirou no caso real de John List, que matou sua família na década de setenta e só foi capturado dezoito anos depois, quando a tragédia foi mostrada no programa de televisão
“America’s Most Wanted”. Garfield é famoso por ter escrito os livros
“Death Wish” e
“Death Sentence”, filmados como “
Desejo de Matar” (com Charles Bronson) e o recente “
Sentença de Morte” (dirigido pelo criador da franquia “
Jogos Mortais”, James Wan).
Mas o ponto máximo de “
O Padrasto” é a interpretação vigorosa e intensa de Terry O’Quinn, que consegue convencer e impressionar tanto quanto o pai dedicado como o assassino em série de famílias. O bom desempenho do ator compensa as fracas atuações do resto do elenco. Entre eles Shelley Hack (do seriado televisivo
“As Panteras”) interpretando a viúva Susan e a jovem Jill Schoelen, que ganha um desconto graças a uma bela cena de chuveiro, no papel da enteada problemática. Futuramente, Jill protagonizaria o ótimo “
Popcorn – O Pesadelo Está de Volta” (Popcorn, 1991).
A trilha sonora composta pelo ex-tecladista da banda de rock progressivo
Yes, Patrick Moraz, soa muitas vezes incomoda e não acrescenta nada ao suspense da trama. A trilha, constituída quase exclusivamente por efeitos de teclado, acabou datada e hoje parece mais trilha sonora de vídeo-game antigo. Uma história interessante é que Moraz já viveu no Brasil. Quando em terras tupiniquins, tentou montar uma banda com a
“nata” da música brasileira. A banda, que deveria tocar rock progressivo chamou-se
Vimana e contava com Lobão e Lulu Santos. Dizem as más línguas que o Lobo Mau roubou sua namorada e abandonou o grupo. A banda acabou e Moraz foi embora do Brasil.


“
O Padrasto” obteve relativo sucesso nos festivais onde foi apresentado. Terry O'Quinn foi indicado para
“melhor ator” no
Saturn Award de 1988 e
Independent Spirit Awards,
"melhor filme e roteiro" no
Edgar Allan Poe Awards,
"melhor atriz" no
Young Artist Awards e
"melhor filme" no
Fantasporto de 1990. Ganhou os prêmios de
"melhor atriz" (Jill Schoelen) no
Sitges - Catalonian International Film Festival e
"prêmio da crítica" no
Cognac Festival du Film Policier.
Estreou nos Estados Unidos em 105 salas no dia 25 de Janeiro de 1987. A bilheteria bruta (gross box), em solo americano, foi de míseros 2,5 milhões de dólares. No entanto, “
O Padrasto” saiu-se muito bem quando lançado mundialmente no mercado de vídeo, viabilizando a produção de mais duas continuações (inferiores, lógico): “
A Volta do Padrasto” (The Stepfather 2, 1989, ainda com Terry O'Quinn no papel do psicopata) e “
O Padrasto - Ele Voltou para Ficar” (The Stepfather 3: Father's Day, 1991, agora com Robert Wightman no papel do padrasto). A
Sony Pictures/ Screen Gems promete uma
refilmagem para 2008/2009.

Enfim, “
O Padrasto” é um inteligente e inquietante suspense que faz parte da safra de
“bons filmes” produzidos na década de 80. Merece ser conhecido e relembrado.
Para comentar o artigo e entrar em contato com João Pires Neto:
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O PADRASTO (The Stepfather, EUA, 1987).
Direção: Joseph Ruben.
Roteiro: Carolyn Lefcourt, Brian Garfield e Donald E. Westlake.
Produção: Jay Benson. .
Edição: George Bowers.
Fotografia: John Lindley
Música: Patrick Moraz.
Figurino: Mina Mittelman.
Elenco: Terry O'Quinn (Jerry Blake / Dexter), Jill Schoelen (Stephanie Maine), Shelley Hack (Susan Maine), Charles Lanyer (Dr. Bondurant), Stephen Shellen (Jim Ogilvie), Stephen E. Miller (Al Brennan), Robyn Stevan (Karen), Jeff Schultz (Paul Baker), Lindsay Bourne (Professor de arte), Anna Hagan (Sra Leitner) e Gillian Barber (Anne Barnes).
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