 |
Antes de começar este artigo, deixemos a palavra com o cineasta italiano Luigi Cozzi, o diretor de PAGANINI HORROR. Falando sobre sua obra recentemente à revista européia Violent Vision, Cozzi foi humilde: "Para este filme, eu escrevi um excelente roteiro, mas tive que rodar um filme pobre. PAGANINI HORROR com certeza não é uma obra-prima".
Agora, vamos fazer um regresso no tempo. Em 1989, Cozzi dirigiu PAGANINI HORROR, um dos mais esquisitos filmes do cinema de terror italiano daquela época e uma das maiores raridades do mercado de vídeo brasileiro - foi lançado por uma tal Yellow Vídeo e, sinceramente, este é o único filme da distribuidora que eu conheço... Em 1991 (quando eu tinha meus míseros 12 anos de idade e ainda era um fã de Jason e Freddy), fiquei sabendo da existência do filme pelo velho e sempre útil Guia de Filmes Nova Cultural, que naquela época era verdadeiramente útil porque trazia todos os filmes, |
inclusive os ruins, com uma ou nenhuma estrelinha (hoje só publica os "bons", com 3 estrelas pra cima).
A crítica era das mais mal-humoradas: "O filme não se preocupa em ter lógica, desfilando sustos e mortes numa incrível mistura de idéias e referências. Há algum charme nessa anarquia, mas o filme se aproxima do ridículo". Pronto! Para mim, que sempre gostei de filmes esquisitos, nasceu uma verdadeira obsessão por PAGANINI HORROR.
O problema: em 1991 ainda estávamos muito longe de existir Internet, pelo menos do jeito que existe hoje. Tanto que o guia da Nova Cultural costumava ser a única fonte para quem gostava de cinema (além das revistas SET e da extinta Vídeo News). Não tinha como saber mais sobre um filme de que se tivesse conhecimento (hoje é só entrar no Google), e nem como assistí-lo se ele não existisse nas locadoras da sua cidade. Dependíamos de troca de correspondências entre fãs e de fanzines impressos para saber novidades. Parece a pré-história, não é??? Mas foi há apenas 13 anos atrás!
PAGANINI HORROR foi um sonho por mais de 10 anos. Só neste ano (2004) eu finalmente consegui comprar uma fita original do filme lançada no Brasil lá nos primórdios do videocassete. E assisti com prazer a esta obra de Cozzi que, devo confessar, é realmente infernal, em todos os aspectos: maluca, esquisita, bizarra mas, sim, muito divertida.
Mesmo na Internet, hoje em dia, existem poucas fontes sobre o filme. Há poucas críticas, e a maioria escritas em italiano. Ao que parece, PAGANINI HORROR é uma raridade também nos Estados Unidos. Mas a fama que a obra de Luigi Cozzi tem, pelo menos nos poucos sites em que li a respeito, é de um completo fiasco, um filme muito ruim, uma pérola da ruindade. Ainda assim, um motivo a mais para conferir.
Mas vamos por partes. Em primeiro lugar, quem é esse maldito Paganini? Bem, aí entra a grande curiosidade do filme. O roteiro escrito pelo próprio Cozzi, com a ajuda da atriz Daria Nicolodi, aproveita a figura sinistra do violinista italiano Niccolò Paganini, que realmente existiu (viveu entre 1792 e 1840). Numa época em que não havia a imprensa sensacionalista de hoje e muito menos a Internet, o músico já era alvo de histórias e boatos, tornando-se uma espécie de "lenda urbana". Isso porque seu tipo sinistro fez com que as pessoas acreditassem que ele tinha vendido a alma ao diabo em troca de fama e fortuna!
Paganini sempre se apresentava em um cenário fantasmagórico, com pouca luz, e sempre vestido de preto. Chamava seu violino de "Il Cannone" ("O Canhão"). Apresentava-se com casa lotada em Londres, Milão, Paris, Viena e praticamente toda a Europa, onde tinha legiões de fãs que pagavam qualquer preço para ver o mestre. Uma das lendas mais famosas ao redor do músico diz que, em uma de suas apresentações, três cordas do seu violino se partiram, a orquestra parava a cada vez, mas Paganini nunca parava de tocar, conseguindo tirar um som fantástico da única corda que sobrou intacta no instrumento (coisa do diabo???).
Para alguns, as cordas do seu violino eram confeccionadas com os próprios cabelos do diabo, cedidos após o pacto satânico. Em outros boatos, Paganini teria matado a amante e feito dos intestinos da vítima as cordas do violino (esta lenda é aproveitada no filme). Em toda sua carreira, foi cercado de honrarias, sendo escolhido solista da princesa de Lucca, ganhando o título de Cavaleiro da Espora Dourada, dado pelo Papa Leão XII em pessoa, entre outros. Fama e fortuna, mas a que preço? Teria Paganini realmente vendido a alma para o diabo?
PAGANINI HORROR tenta aproveitar esta história sobre o pacto demoníaco do violinista para criar uma atmosfera de medo e horror, e é criativo neste ponto. O filme começa nos anos 50. Uma menina (Giada Cozzi, filha de Luigi e atriz em outros dois filmes do papai), estudante de violino em Veneza, mata a mãe friamente, atirando um secador de cabelo na banheira onde a mulher está tomando banho, matando-a por eletrocução.


Um salto no tempo e estamos nos dias atuais (no caso, o final dos anos 80), onde uma anônima banda feminina está ensaiando o repertório de seu novo disco, em estúdio. O grupo é liderado por Kate (a feiosa Jasmine Maimone, que apareceu também em
DEMONS, de Lamberto Bava), que canta, toca guitarra e violino (!). Enquanto a banda desfila um hit tecno-pop bem oitentista (ou seja, praticamente insuportável nos dias de hoje), a produtora Lavinia (Maria Cristina Mastrangeli) se descabela. Ela pede para a banda parar e desfila um rosário de insultos:
"Vocês estão fazendo a mesma coisa de sempre, não há nada de original! Na minha opinião, sua criatividade está descendo para o traseiro! Vocês estão fazendo as mesmas músicas estúpidas mais uma vez! É tudo muito chato e idiota!".
No meio do bate-boca, o baterista e único homem da banda, Daniel (Pascal Persiano), tem uma idéia fantástica. Ele se encontra com um homem esquisito, um tal de Mister Pickett (o excelente Donald Pleasence, que aparece pouco e é dublado em inglês, ainda por cima!), que lhe vende a raríssima partitura de uma música inédita de Paganini (entendeu o título agora?). No que Daniel mostra a partitura para as colegas de banda, elas têm um faniquito: a música é soberba e nunca foi gravada!
Kate convence Lavinia a gravar a música com o título
"O Horror de Paganini" (Paganini Horror), aproveitando a lenda de que o músico vendeu a alma ao diabo para compor um videoclip aterrorizante, como Michael Jackson (lembre-se, na época ele estava em alta ainda) havia feito anos antes com o clip de
"Thriller" - aquele dos mortos-vivos! Para tanto, resolvem gravar a música e o videoclip na
"Casa de Sol", um velho casarão onde, segundo a lenda, Paganini teria feito o pacto diabólico. As gatinhas contratam Mark Singer (Pietro Genuardi), um famoso diretor de filmes de terror, para dirigir o clip - Singer seria uma espécie de alter-ego do próprio Cozzi, que queria se retratar num filme!
A cena onde a sinistra música inédita de Paganini ganha vida como um pop-rock oitentista é filmada em forma de videoclip por Cozzi, no velho casarão decorado com manequins, lençóis brancos, velas acesas e até um caixão. Daniel participa interpretando o
"espírito" de Paganini, vestido com uma arrepiante máscara dourada.


O que a banda não desconfia é que a execução da música demoníaca do violinista maldito libera as forças do Mal existentes no casarão. Um fantasma (que pode ser tanto o próprio demônio quanto o espírito de Paganini, o que não fica bem explicado), que veste as mesmas roupas do personagem interpretado por Daniel (inclusive a máscara), passa a rodear o casarão. Uma das integrantes da banda é a primeira a morrer, tendo o pescoço cortado a punhaladas.
O restante do grupo se desespera com o desaparecimento da garota e percebem que o casarão parece mais sinistro do que o usual. Sylvia Hackett (Daria Nicolodi, atriz habitual nos filmes de
Dario Argento), que é proprietária do imóvel, acredita que uma força misteriosa foi desencadeada. Quando eles tentam fugir, entretanto, descobrem que uma barreira invisível (é sério!) os impede de sair da área do casarão, e eles terão que ficar e enfrentar seu destino... ou descobrir uma forma de combater as forças fantasmagóricas que foram despertadas.
Confesse: não é um bom ponto de partida? Pois é, mas, infelizmente,
PAGANINI HORROR perde o rumo em algum ponto entre a metade e o final. Subitamente, o filme se torna um verdadeiro pesadelo, ruim de acompanhar, com os personagens desaparecendo sem explicações e muitas coisas esquisitas acontecendo ao mesmo tempo, novamente sem muitas explicações. Alguns mortos voltam como fantasmas, atraindo os amigos para armadilhas. Um túnel existente em um dos quartos leva Lavinia, após meia hora se arrastando por ele, exatamente de volta ao mesmo quarto! Logo, as leis da lógica e do tempo não existem no casarão, uma verdadeira armadilha do inferno onde todos deverão encontrar a morte.
E é justamente nas mortes que o filme falha miseravelmente. Temos um fantasma que poderia ser o de Paganini, mas ele não faz nada de muito útil. O próprio diretor Cozzi não é um fanático por violência explícita (apesar do excesso de sangue de seu
ALIEN CONTAMINATION, cópia de
ALIEN, O OITAVO PASSAGEIRO feita em 1980), preferindo violência sugerida e suspense. Por isso,
PAGANINI HORROR tem bem pouco sangue. Uma das vítimas morre na explosão do carro que dirigia contra a
"barreira invisível" na saída da casa (vale ressaltar que a tal barreira são uns falsos raios azuis que parecem ter sido riscados no próprio negativo); uma mulher é prensada na parede por outra
"barreira invisível", sendo literalmente achatada; outra ainda aparece toda deformada e ensangüentada, aparentemente corroída por um fungo secular (o diálogo das amigas da vítima sobre o fato é risível, e eu volto a esse assunto mais no final do texto), e não vamos esquecer da cena em que o fantasma ataca usando um violino com punhal embutido!!! Coisa de James Bond...


Infelizmente, nem a pequena aparição do veterano Donald Pleasence (que gravou sua participação entre as filmagens de
HALLOWEEN 4, de 1988, e
HALLOWEEN 5, de 1989) é lá muito interessante. Isso que seu personagem tem um segredo desvendado no final surpresa, muito semelhante ao do filme brasileiro
A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES, de Marcelo Motta e José Mojica Marins. Sobre essa semelhança, parece ter sido apenas coincidência. Pelo menos quando tive a oportunidade de entrevistar o próprio Cozzi por telefone, ele me disse que viu o filme de Mojica, mas não lembrava do final. Somadas, as cenas de Pleasence não chegam a cinco minutos de filme. Ele aparece brevemente no início, vendendo a partitura de Paganini; depois sobe numa catedral e joga de lá de cima todo o dinheiro que faturou na venda (dizendo, alucinado,
"voem, pequenos demônios"), e surge novamente na conclusão da história, quando explica os eventos ocorridos no casarão demoníaco.
A maquiagem de Franco Casagni e Rosario Prestopino é bem fraquinha. No começo dos anos 80, o cinema italiano de horror valorizava justamente a sangreira e o máximo de explicitação possível (é só olhar os filmes de Lucio Fulci, as obras dos ciclos de zumbis e canibalismo, ou mesmo o sangrento
ALIEN CONTAMINATION, de Cozzi). Já
PAGANINI HORROR, feito no fim da década, já tenta um outro caminho, investindo mais no suspense do que na violência. Se Fulci faria miséria com a cena da moça esmagada pela tal parede invisível, Cozzi se limita a mostrar uma explosão de sangue pra lá de falsa, que não provoca grandes comoções! A única cena verdadeiramente violenta, ainda que rápida, é aquela em que um punhal é enterrado, em close, na garganta de uma vítima. O resto será totalmente inocente para quem espera por muito
"gore" - até porque não era a proposta do diretor.
Curiosamente, Casagni e Prestopino já fizeram coisas bem mais sangrentas: o primeiro trabalhou em
TERROR NA ÓPERA e
SÍNDROME DE STENDHAL (de
Dario Argento),
DEMONS 3/BLACK DEMONS (Umberto Lenzi) e
A CATEDRAL (Michele Soavi); enquanto Prestopino é conhecido por seu trabalho sangrento em
DEMONS 1 e
2,
NIGHTS OF TERROR (Andrea Bianchi) e
NEW YORK RIPPER (Lucio Fulci), entre outros. Já os efeitos especiais, de Paolo Ricci (famoso por seus trabalhos em filmes de canibais, como
O ÚLTIMO MUNDO CANIBAL, de Ruggero Deodato, e
MANGIATI VIVI, de Lenzi), são bem fraquinhos, resumindo-se a alguns raios azulados e era isso!


Se faltam sangue e tripas, Cozzi consegue criar um clima de horror verdadeiramente interessante. A música de Vince Tempera é bem sinistra, principalmente no início, que mostra a menininha andando pelas ruas de Veneza antes de ir para casa matar a mãe (a identidade da menina homicida também é revelada no final). A versão pop da suposta partitura de Paganini também é legal. E a ambientação no escuro e sinistro casarão onde teria vivido Paganini consegue criar uma atmosfera de terror, com o uso de corredores escuros, sinistras escadarias e portas escancaradas.


O elenco está péssimo (incluindo Pleasence, que nem ao menos tenta interpretar), mas pelo menos a expert Daria Nicolodi consegue "entrar" no seu papel, e tem alguns monólogos interessantes, como aquele em que conta a lenda de Paganini, sobre seu violino feito com as tripas da amante assassinada. Daria é atriz-fetiche e foi esposa de
Dario Argento: apareceu em
TERROR NA ÓPERA,
PHENOMENA,
TENEBRE,
INFERNO e
PRELÚDIO PARA MATAR (Profondo Rosso), e colaborou no roteiro original de
PAGANINI HORROR, escrito por Cozzi baseado em história de Raimondo Del Balzo. Como é tradicional, Cozzi assina a direção como
"Lewis Coates", mas como roteirista está creditado com seu nome de batismo,
"Luigi Cozzi".
Além de tudo isso, o roteiro contém algumas várias abobrinhas... A pior delas é quando aparece uma das meninas da banda com a pele toda corroída, como se tivesse tomado banho de ácido de bateria, e coberta de sangue. Falando com a maior tranqüilidade do mundo, Sylvia diz:
"Ela foi contaminada por um fungo raro existente na madeira usada para fazer violinos no século 19". Caramba! E ainda emenda:
"Eu vi um programa na TV sobre isso". E, de repente, Kate aparece com a idéia de que foi sua música que despertou o fantasma de Paganini e só ela poderá destruí-lo. Toca a partitura no seu violino, e nada. Aí, tem um palpite:
"Claro, como sou boba! Nós abrimos o portal, agora precisamos fechar o círculo. Temos que tocar a música de trás para frente". Quer dizer, ela nem sabe se vai funcionar, mas fala com a maior das convicções - e realmente funciona!!!
Mesmo com tantos erros e mal-entendidos, confesso que gostei de
PAGANINI HORROR, principalmente pela poética ligação entre música e horror. É a partitura maldita de Paganini que deflagra o horror do filme (embora no final a idéia seja colocada em segundo plano, quando a
"verdade" vem à tona). Esta relação entre música e demonismo infelizmente nunca foi bem explorada pelo cinema de horror. As
"mensagens satânicas" em discos de heavy metal, por exemplo, até hoje só foram usadas em um filminho bem meia-boca,
HEAVY METAL DO HORROR. E o uso da música para despertar forças malignas poderia render um grande filme!


E se o filme no todo é irregular, ele tem algumas partes muito boas, com criativos movimentos e enquadramentos de câmera, outras cenas de suspense que funcionam e outras ainda que, de tão ruins, ficam boas, no melhor esquemão
"trash". Claro que há também seqüências absolutamente dispensáveis, chatas até, e que só estão ali para enrolar – incluindo algumas andanças intermináveis pelo casarão escuro. Diferente de outros filmes muito ruins (os de
Bruno Mattei, por exemplo) e porcarias tão mal-feitas que se tornam insuportáveis (eu não canso de citar o recente
HOUSE OF THE DEAD como exemplo),
PAGANINI HORROR está longe de ser um fiasco: ele tem uma história criativa, uma boa ambientação, um clima sinistro e, o que falta à maioria dos filmes de horror recentes, tem estilo, identidade... Tudo bem que o filme é, de certa forma, decepcionante (eu mesmo esperava muito mais, depois de 13 anos em busca da fita). Mas o que atrai é o fato de ser um filme sobre música e horror, com todas as características (boas e ruins) do melhor cinemão italiano.
Por sinal,
PAGANINI HORROR é um verdadeiro retrato da decadência do cinema italiano da época. Foi bem no final dos anos 80 que os diretores, até então cheios de trabalho (dois ou três filmes por ano), começaram a encontrar dificuldades (recursos, principalmente) para produzir. Na mesma entrevista à revista Violent Vision, Cozzi fala sobre isso:
"Os produtores queriam fazer deste filme um 'supersplatter'. Mas, no final, ele se tornou uma completa nulidade porque o produtor De Angelis [Fabrizio De Angelis] queria economizar em tudo. O filme todo foi rodado em apenas três semanas".
Cozzi continua, sempre ressaltando que o filme é bem diferente daquilo que ele imaginava fazer:
"Lá estava eu com meu lindo e ambicioso roteiro, e eles me deram uma única câmera de 16mm, me deram um casarão antigo para ambientar a história e falaram: 'Comece a filmar!'. Mas naquelas condições que eu tinha, nem mesmo o melhor diretor de cinema do mundo poderia ter feito uma coisa melhor do que eu fiz", justifica, sobre aquele que muitos críticos consideraram um dos maiores fiascos do cinema de horror italiano da época.


Recentemente, o diretor gravou uma enorme faixa de comentário para o relançamento de
PAGANINI HORROR em DVD (só na Europa, infelizmente). Ele foi muito duro com a própria obra, que chamou de
"um verdadeiro pesadelo". Já a atriz e co-roteirista Daria Nicolodi tentou minimizar o pessimismo de Cozzi:
"PAGANINI HORROR não poderia ter acabado de outra forma, porque nós filmamos ele com recursos muito limitados e em muito pouco tempo". Quando entrevistei Cozzi por telefone (confira a entrevista
clicando aqui), em agosto/2004, ele já estava com a cabeça um pouco mais fria e disse que não considera o filme tão ruim, embora esteja ciente de que ficou bem diferente daquilo que ele queria.
Fabrizio De Angelis, o produtor de
PAGANINI HORROR, citado por Cozzi anteriormente, era o homem por trás da Fulvia Films, a mesma produtora de sucessos como os filmes de Fulci feitos no início da década de 80 (
THE BEYOND,
A CASA DO CEMITÉRIO...) e a trilogia
THUNDER (dirigida pelo próprio De Angelis com o pseudônimo
"Larry Ludman"). No final dos anos 80, a pequena produtora italiana sofria com as condições extremamente difíceis para produzir cinema. Os filmes nem eram mais lançados nos cinemas dos Estados Unidos, como anteriormente, ficando restritos à Europa, às vezes somente à Itália. Para piorar, muitas destas produtoras começaram a ser compradas por emissoras de TV italianas - o que acabou provocando sua extinção em meio aos anos 90.
Cozzi tinha 42 anos quando fez
PAGANINI HORROR, que, por ironia, foi um de seus últimos filmes. No total, fez 17 filmes. Começou em filmes obscuros. Em 1979 dirigiu o famoso
STAR CRASH, cópia de
STAR WARS com um elenco interessante de astros americanos - David Hasselhoff (
BAYWATCH), Caroline Munro e Joe Spinell (
MANIAC) e Chistopher Plummer -, e em 1980 dirigiu seu melhor filme, o excelente
ALIEN CONTAMINATION. Depois, na primeira metade dos anos 80, rodou aventuras de
HÉRCULES, para a produtora americana Cannon (um dos filmes era para ter sido feito por
Bruno Mattei!!!), e foi um dos diretores, não-creditados, de
NOSFERATU EM VENEZA, onde a personalidade forte e excêntrica do astro Klaus Kinski fez com que fossem expulsos vários diretores envolvidos no projeto (Mario Caiano, Cozzi e Maurizio Lucidi, sendo que o próprio Kinski rodou algumas cenas, também sem crédito). O filme acabou sendo creditado a Augusto Caminito, produtor da fita.


Após
PAGANINI HORROR, Cozzi só conseguiu dirigir
IL GATTO NERO (no mesmo ano de 1989), que, apesar do título, não é uma adaptação de Edgar Allan Poe. Desta vez, a produção não foi de Fabrizio De Angelis, mas acabou sendo pior: nem Cozzi nem os atores foram pagos pela produtora, que faliu em meio às filmagens. Este filme, lançado no Brasil como
FILMAGEM MACABRA, foi o último de Cozzi. Ele só rodou, depois disso, dois documentários sobre o ídolo e colega
Dario Argento, com quem trabalhou como diretor de segunda unidade em
DOIS OLHOS SATÂNICOS (1990) e
SÍNDROME DE STENDHAL (1995) - também foi assistente de direção e fez uma ponta em outro filme do mestre,
QUATRO MOSCAS NO VELUDO CINZA, de 1971.
Atualmente afastado do cinema, como muitas outras feras do período (tipo Enzo G. Castellari e Ruggero Deodato), Luigi dirige a livraria Profondo Rosso em Roma, onde também funciona um museu dedicado a
Dario Argento. Eventualmente, faz colaborações como diretor em produções da TV italiana, mas nada de muito destaque.
PAGANINI HORROR é um filme de poucos fãs, odiado pelos seus próprios realizadores e praticamente desconhecido fora da Europa. Dentro do território europeu, entretanto, a história é outra: o filme é respeitadíssimo e tem uma grande legião de fãs! Tanto que recentemente foi lançada na Alemanha uma versão do filme em DVD DUPLO (nem clássicos de Lucio Fulci e Mario Bava tiveram tratamento semelhante!)!!! A preciosidade contém a versão de produtor (a mesma lançada no Brasil) num dos discos e a versão feita para a TV no outro (com menos violência e algumas cenas adicionais). Tem também uma faixa de comentário, onde Luigi Cozzi vai falando sobre os detalhes que levaram
PAGANINI HORROR a se tornar a esquisitice que é, e ainda uma entrevista de uma hora com o diretor. Fechando o cardápio, trailers italianos e alemães, cenas excluídas e um início e um final alternativos. É mole ou quer mais?
E pensar que no Brasil filmes clássicos e/ou elementares são lançados sem nem ao menos um trailer como extra!!!

Felipe M.Guerra
 |
PAGANINI HORROR (Paganini Horror, Itália, 1989. 82 minutos)
Direção: Luigi Cozzi
Roteiro: Luigi Cozzi; Raimondo Del Balzo
Produção: Fabrizio De Angelis
Música: Vince Tempera
Fotografia: Franco Lecca
Edição: Sergio Montanari
Direção de Arte: Marina Pinzuti Anzolini
Efeitos Especiais: Paolo Ricci
Elenco: Daria Nicolodi (Sylvia Hackett); Jasmine Maimone (Kate); Pascal Persiano (Daniel); Maria Cristina Mastrangeli (Lavinia); Michele Klippstein; Pietro Genuardi (Mark Singer); Luana Ravegnini; Roberto Giannini; Giada Cozzi (Sylvia, quando criança); Elena Pompei; Perla Costantini; Donald Pleasence
|