PALHAÇOS ASSASSINOS

por Felipe M.Guerra

Armas de pipoca. Casulos de algodão doce. Uma nave em forma de circo. Um filme B de primeira!


"Palhaços assassinos... do espaço sideral. Puta merda!". Ao citar o nome original do filme quando os heróis de PALHAÇOS ASSASSINOS vão até a delegacia para contar sobre os acontecimentos bizarros que presenciaram, o veterano guarda Moony, com aquele ar cético que só policial de filme B americano tem, parece refletir a mesma incredulidade do espectador. Quer dizer, quem iria imaginar que palhaços assassinos - e espaciais - existissem; ou, no caso, quem iria imaginar um dia assistir um filme sobre palhaços assassinos espaciais? Se já seria um tanto absurdo uma história sobre palhaços assassinos, quem dirá um sobre palhaços assassinos vindos do espaço sideral?
Ao atrair o espectador já com seu título bizarro, os responsáveis por PALHAÇOS ASSASSINOS já revelam que uma coisa têm de sobra: criatividade. E assim fizeram um dos mais memoráveis e absurdos filmes B dos anos 80.



Eu era um gurizão ainda, mas compartilhei do mesmo ceticismo do guarda Moony (interpretado pelo veterano John Vernon, de CLUBE DOS CAFAJESTES) ao ouvir a chamada de PALHAÇOS ASSASSINOS na TV Bandeirantes, em tempos imemoriáveis. Não foi na época em que a Band cansou de reprisar o filme no Cine Trash, mas sim anos antes, quando ele foi exibido pela primeira vez num programa "sério" de filmes de horror que a emissora tinha, chamado Cine Mistério, e que passava à noite. No caso, a Bandeirantes exibiu um comercial que tratava o filme - e a ameaça dos palhaços assassinos espaciais - a sério, como se fosse uma assustadora história de terror. E na hora em que vi aquela chamada eu lembro de ter pensado: "Palhaços assassinos espaciais? Não pode ser verdade!".



E foi assim que PALHAÇOS ASSASSINOS inseriu-se entre os meus filmes de estimação. Ele é tão colorido, divertido, absurdo, engraçado e criativo que somente uma pessoa muito chata e mal-humorada não iria embarcar na idéia, uma espécie de sátira aos velhos filmes de ficção científica americanos dos anos 50, com suas ameaças alienígenas vagabundas a pequenas cidadezinhas dos Estados Unidos. É o tal do filme em que a história não importa (até porque ela é fraquíssima); o que vale é a execução. Em seu caldeirão de cultura pop, os irmãos Chiodo - diretores, produtores e roteiristas deste seu projeto dos sonhos - incluíram referências ao maior número de filmes possíveis, através de situações banais já vistas e revistas em centenas de produções, do velho fazendeiro que vai atrás de um meteoro que viu cair na floresta (tirada de A BOLHA, dos anos 50) aos adolescentes que combatem a ameaça com o descrédito da polícia (situação advinda de qualquer filme do gênero feito nos últimos 50 anos), passando ainda por humanos presos em casulos (à la INVASORES DE CORPOS) e outros clichês do gênero. Tudo já foi visto antes; mas a execução é tão charmosa, e criativa, que emana um frescor de novidade.



Quem nunca viu o filme - se é que existe tal pessoa, depois que o Cine Trash fez o favor de reprisá-lo umas 15 vezes - deve estar se perguntando se PALHAÇOS ASSASSINOS é pra valer, levado a sério, ou uma esculhambação assumida. Acredite se quiser, mas é um filme esculhambado que se leva a sério. É muito diferente, por exemplo, das produções assumidamente toscas da produtora Troma (tal qual a série THE TOXIC AVENGER), que se caracterizam por serem propositadamente ruins. PALHAÇOS ASSASSINOS tem uma excelente produção, ótimos (e baratos) efeitos especiais e um elenco desconhecido, mas empenhado, que não fica fazendo competição de quem atua pior. Além disso, o filme raramente extrapola o limite do bom gosto, de maneira que eu não concordo que possa ser considerado, simplesmente, "trash" - o rótulo que normalmente ganham as produções que, de tão ruins, são boas, embora hoje em dia qualquer filme de terror seja assim chamado. PALHAÇOS ASSASSINOS é trash? Talvez a idéia, a concepção, sim; mas a realização, com certeza, não é. Estamos diante de um verdadeiro e espirituoso filme B, é verdade, mas muito longe de ser ruim.



Tudo bem, tudo bem, trata-se de uma esculhambação levada a sério. Mas assusta? Óbvio que não! Talvez assustasse se os diretores fosse uns manés quaisquer, que colocassem seus palhaços assassinos atacando a população da cidadezinha com machados e facões afiados. Mas os irmãos Chiodo são uns caras legais. Eles fizeram um filme onde os palhaços assassinos do espaço sideral (hehehe) usam artifícios criativos para eliminar suas vítimas, através de objetos, situações e brincadeiras feitas pelos palhaços como se estivessem num grande circo. Assim, as pessoas são mortas com torta de creme na cara e armas que disparam pipoca, ou então acabam presas em balões e casulos de algodão-doce (!!!). No universo bizarro e bem humorado do filme, até um simples jogo de sombras refletidas numa parede pode ser mortal! E embora inclua umas duas ou três cenas que são um pouquinho mais sérias e podem até parecer arrepiantes - como a do palhaço tentando atrair uma menininha para fora da lanchonete com uma marreta enorme escondida por trás das costas -, PALHAÇOS ASSASSINOS não é um filme assustador. A não ser, é claro, que você morra de medo de palhaços, como os próprios irmãos Chiodo.



Na trama, é tarde da noite de uma sexta-feira na pequena cidadezinha americana (fictícia) de Crescent Cove, que bem poderia ter saído de um daqueles filmes sci-fi antigões, onde os jovens se encontram em lanchonetes para comer hamburger e milk-shake e vão namorar no banco traseiro dos seus carros no topo de um morro. É ali, no chamado "Top of the World" (Topo do Mundo), que encontramos nossos heróis, o casal Mike Tobacco (Grant Cramer, filho da veterana atriz de Hollywood Terry Moore, que fez vários filmes nos anos 40 e 50) e Debbie Stone (Suzanne Snyder, que apareceu em A NOITE DOS ARREPIOS e A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS 2). Mike e Debbie estão com seu carro estacionado junto com os amigos, namorando, curtindo uns bons momentos deitados num bote inflável (!!!) e tomando champanhe, quando algo flamejante cruza a escuridão da noite, no céu. Um meteoro, talvez? Debbie, curiosa como toda moça em filmes de terror (e fora deles), insiste para que Mike pegue o carro e vá atrás do meteoro com ela. E ele vai, é claro.

Só que não é um meteoro, como iremos descobrir rapidamente. Um velho fazendeiro - que nos créditos é chamado de Gene Green, mas nunca é nomeado no filme - também vê o objeto flamejante cruzando o céu e exclama, surpreso, para seu cachorro (!!!), chamado Ursinho Puff: "Você viu só, Puff? O Cometa Halley pousou aqui no nosso quintal!". hahahahaha. No caso, o pobre fazendeiro é interpretado de maneira propositalmente ruim e fiasquenta pelo veterano Royal Dano (de A CASA DO ESPANTO 2, falecido em 1994), o único que atua como se estivesse numa comédia escrachada. Com seu "Ursinho Puff" do lado e levando uma pá e um balde (o que ele esperava fazer, recolher o "Cometa Halley"?), o velho fazendeiro põe-se a atravessar a floresta até o local onde caiu o "meteoro", imaginando que montes e montes de pessoas virão ao seu quintal para ver aquela formidável atração. Só que no local onde o "meteoro" caiu ele só encontra uma luminosa tenda de circo, amarela e vermelha. E, do alto de sua ingenuidade caipira, diz bobagens que perdem a graça e o sentido na tradução, como "What in the blue blazes is the circus doing here in these parts?", ou "There's something kinda peculiar around here". hahahaha. "Peculiar"??? quaquaquaqua!!!!



Mas vamos aos fatos: nosso amigo fazendeiro, com sua pá, seu balde e seu cachorrinho chamado Ursinho Puff, vão até a tenda com a esperança de conseguir alguns ingressos grátis (hehehe) para o circo. E assim que se aproximam, descobrem que o circo não é o que parece ser. Principalmente porque uns palhaços medonhos, vestindo roupas berrantes, surgem com armas coloridas que parecem de brinquedo e disparam uns raios rosa-choque no velhote. Corta para o casal 20, Mike e Debbie, que chega ao mesmo local e também acha o máximo aquela tenda luminosa e colorida. Eles nem estranham muito o fato da entrada do "circo" ser um túnel colorido e repleto de badulaques. "Parece que este lugar foi decorado por palhaços!", exclama o muito observador Mike, para depois completar: "Deve ser aquele novo circo europeu". hahahaha. "Circo europeu"??? Caramba!



Zanzando pelo interior do "circo", os jovens ocasionalmente chegam a um elevador e vão parar primeiro numa colorida estação de energia, depois no que parece um depósito de armazenamento de algodão-doce, com grandes casulos rosa-choque pendurados. "Não sei o que vimos antes, mas com certeza isso é uma fábrica de algodão-doce, e aqui eles penduram o algodão-doce para secar", arrisca Mike. "Fábrica de algodão-doce?" "Pendurar para secar?" Mas em que mundo será que Mike Tobacco vive??? hahahaha. Não demora para o casal descobrir a verdade, quando puxam um chumaço de "algodão-doce" de um dos casulos e descobrem o corpo semi-corroído do velho fazendeiro aprisionado momentos atrás. Apavorados, Mike e Debbie percebem que não estão num circo, mas sim na terrível nave dos tenebrosos palhaços assassinos do espaço sideral. Numa amostra de que tem um QI privilegiado, Debbie larga uma pérola: "Eu não acredito em UFOS... Mas, se eles existem, estamos presos dentro de um!". hahahahaha. Bem observado...



A dupla foge correndo, perseguida primeiro por um palhaço com uma bazuca que dispara pipocas (!!!), depois por dois outros palhaços que "fazem" um cão farejador com bexigas de gás, num dos melhores momentos visualmente criativos do filme - uma piada que, sem dúvida alguma, deve ser aplaudida de pé. O "cão" segue o faro de Debbie e Mike pela floresta, mas é tarde demais: eles já chegaram ao seu carro e estão voltando a mil para Crescent Cove, para alertar as autoridades. Não que isso vá ajudar muito, é claro... Não se esqueça: estamos num filme de ficção científica classe B! O xerife titular da delegacia está em viagem e a autoridade é dividida entre o policial veterano, o violento Curtis Moony anteriormente citado, e o policial jovem e gente-boa, Dave Hanson (John Allen Nelson, que também combateu criaturas esquisitas no papel-título da terceira aventura da série DEATHSTALKER). Moony é o típico velho recalcado que não suporta a juventude e prende qualquer rapaz que encontra com uma garrafa de cerveja na mão; Dave é mais tolerante, mas Mike é uma exceção - porque Dave é um ex-namorado de Debbie. Sentiu o drama?



Quando Mike e Debbie surgem na delegacia gritando histórias mirabolantes sobre palhaços, casulos de algodão-doce e cadáveres, Moony solta a ironia do começo do texto: "Killer clowns... from outer space. Holy Shit!". Dave quer ir ao local dar uma olhada, mesmo com Moony alertando que aquilo tudo é uma brincadeira da garotada e que vão fazer ele de bobo. E é óbvio que quando Mike e Dave chegarem na floresta com a viatura, após deixar Debbie em casa, a tenda de circo não estará mais lá. Acontece que os palhaços assassinos trocaram sua base e já estão invadindo a cidade, matando as pessoas da forma mais brincalhona possível e aprisionando outras em casulos de algodão-doce (cujo propósito é descoberto mais tarde).

Aí entra uma dúvida pertinente: se o objetivo dos palhaços espaciais é aprisionar a galera no algodão-doce, por que é que eles preferem matar alguns dos humanos que encontram ao invés de também colocá-los nos casulos? Essa é facíl de responder: mais do que vilões tenebrosos ou monstros malvados, os palhaços assassinos do espaço sideral são verdadeiras crianças malcriadas, verdadeiros piadistas... enfim, verdadeiros palhaços! Eles querem é aprontar, sacanear os outros, fazer brincadeiras de mau gosto, destruir de uma forma divertida e engraçada... Provocar o caos, mas de preferência com palhaçada. E aí vale desde engolir um montão de pedestres com um tiranossauro-rex feito de sombra refletida na parede (outro dos momentos geniais do filme), até transformar um policial em marionete viva - cena que fica ainda mais engraçada porque a vítima, momentos antes do fato, disse que "não iam fazê-lo de bobo", ou, em bom inglês, "make dummy with me" (brincar de marionete comigo), piada que se perde na tradução. hahahahaha.



Voltando ao filme: depois de ser tomado por louco graças ao desaparecimento da nave alienígena, Mike consegue convencer Dave do perigo iminente quando eles vão até o "Topo do Mundo" e encontram todos os carros dos outros jovens namorados cobertos com algodão-doce. A estas alturas, a cidade inteira está sob ataque, mas Moony não se convence, mesmo com o telefone que não pára de tocar. "O quê? Levaram sua esposa num balão? Você não precisa da polícia, e sim de um psiquiatra!", responde ele a um dos muitos pedidos de ajuda. Assim, o contra-ataque parte de Mike, Debbie e Dave, com a ajuda de dois irmãos debilóides e vendedores de sorvete, os irmãos Terenzi, Rich (Michael Siegel) e Paul (Peter Licassi). Apesar de bobões, os irmãos Terenzi mantêm a tradição de que todo vendedor de sorvete se transforma em herói corajoso nos filmes de horror - sendo que Reggie, da série PHANTASM, é o exemplo mais clássico!



PALHAÇOS ASSASSINOS é um filme fantástico: a ação começa rapidamente e nunca pára, com os ataques dos palhaços preenchendo a maior parte da narrativa. Como as mortes não são padronizadas, e os "vilões" sempre conseguem dar um ar de palhaçada a todas as cenas em que aparecem, o filme se desenvolve com uma surpresa atrás da outra, uma cena de rachar o bico seguida de mais uma, e mais uma, e mais uma. Na sua simplicidade (e absurdo), o roteiro dos irmãos Chiodo é simplesmente brilhante, e sempre aliado a uma bizarra direção de arte e efeitos especiais. O ápice de toda esta loucura é a cena final, que se passa no interior da nave-circo dos palhaços assassinos, devidamente transformada em uma "casa maluca" ao estilo dos parques de diversões, com piscinas de bolinhas, corredores tortos e por aí vai... E o que dizer da maneira que o roteiro apresenta a única forma de matar os palhaços espaciais? Genial, genial!!!



Às vezes, até surpreende o fato de PALHAÇOS ASSASSINOS ser um filme barato, pois a maquiagem dos monstruosos palhaços (na sua maior parte, máscaras de látex) é excelente, os efeitos especiais convencem, a trilha sonora de John Massari tem momentos incríveis e a pobreza da produção é compensada com muita criatividade. Alegadamente, o filme custou apenas 2 milhões de dólares - o que não paga nem a camiseta molhada que Jessica Biel usou no remake de O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA. Foram imensas as dificuldades dos irmãos Chiodo. Uma cena envolvendo um acidente de carro deu errado e eles nem tinham outro veículo semelhante para refilmá-la (sente só o drama). Com pouco dinheiro, mas muita disposição e criatividade, eles driblaram os problemas orçamentários usando truques simples, de quem passou a infância brincando com uma velha câmera Super-8. Para mostrar um palhaço gigante que ataca no final, por exemplo, eles nem precisaram construir um modelo gigantesco, nem usar CGI (que na época ainda era algo inexistente): simplesmente colocaram o ator com a roupa de monstro numa plataforma elevada em relação aos outros atores e filmaram a partir das suas costas. Resultado: o palhaço parece realmente gigantesco, mas é apenas um cara normal sobre um pedestal!!!

PALHAÇOS ASSASSINOS foi lançado nos cinemas em maio de 1988. Era uma época radicalmente diferente desta em que vivemos, quando os cinemas de shopping-center ainda não tinham tanta força, nem os multiplex. Assim, o filme barato dos irmãos Chiodo fez sua fama no circuito "alternativo", transformando-se em programa "cult" nos drive-inns, onde era exibido em sessão dupla com outros filmes de "mais destaque", tipo RAMBO 3 (!!!). Ao ser lançado em VHS (no Brasil, saiu selado no começo dos anos 90 pela extinta Alvorada Vídeo), PALHAÇOS ASSASSINOS rapidamente se tornou um clássico podreira ao lado de títulos como O ATAQUE DOS TOMATES ASSASSINOS e THE TOXIC AVENGER. Os brasileiros começaram a curtir o filme principalmente após as inúmeras reprises no Cine Trash, mas até hoje esperam pelo seu relançamento em DVD. Lá fora, a produção ganhou uma edição caprichada lançada pela MGM em 2001, com vários featurettes esmiuçando o processo de criação e desenvolvimento do filme, cenas excluídas e até uma faixa de comentário com os hilariantes irmãos Chiodo - que parecem aqueles caras brincalhões que você conheceu na escola e que, mesmo depois de adultos, continuam sendo uns crianções!



Surpreendentemente, mesmo tendo sido feita há quase 20 anos, esta "brincadeira" dos irmãos Chiodo segue sendo adorada apaixonadamente por legiões de fãs no mundo inteiro. Faça uma busca no Google para ver que existem até "fan sites". Destaco o link, onde há uma troca de e-mails com o diretor Stephen Chiodo sobre uma provável seqüência, e este aqui, com muitas imagens e screensavers do filme. No Orkut, entre centenas de comunidades do tipo "Eu tenho medo de palhaços", também é possível encontrar algumas dedicadas ao filme. Uma delas, "Palhaços Assassinos", está com mais de 120 membros, mas há outras menores com de 15 a 30 participantes. Entre as comunidades gringas, vale a pena citar a "Killer Klowns", que tem uns 40 integrantes. A fama dos palhaços alienígenas é tão grande que chegou a desbancar outros filmes com palhaços assassinos, como IT (baseado em livro de Stephen King) e O PALHAÇO ASSASSINO, de Victor Salva.

Com tantos fãs apaixonados, será que um dia veremos um KILLER KLOWNS FROM OUTER SPACE 2? Para os irmãos Chiodo, a idéia não é de todo desprezível. Eles até já trocaram e-mails com os webmasters dos fan sites em homenagem à obra, dizendo que têm planos de fazer, sim, uma seqüência, pois deixaram muitas idéias e piadas de fora do primeiro filme devido ao orçamento reduzido. A idéia ganhou corpo em 1998, mas os Chiodo garantiram que foi o relançamento do filme nos States em DVD que deu o fôlego para eles voltarem a pensar numa nova aventura dos palhaços assassinos do espaço sideral. Mas será que valerá a pena trazer de volta aqueles velhos personagens agora com uma roupagem moderna, incluindo efeitos em CGI e um orçamento mais caprichado? Não sei...

Talvez seja melhor que os palhaços assassinos continuem no espaço sideral e no primeiro filme. Até porque poucas experiências são tão divertidas quanto ver PALHAÇOS ASSASSINOS pela primeira vez...
CRÔNICAS SOBRE PALHAÇOS ESPACIAIS

"No espaço ninguém pode comer sorvete", dizia a frase original no cartaz de KILLER KLOWNS FROM OUTER SPACE na época da sua estréia nos cinemas americanos, em 1988. Era uma gozação com a clássica tagline da série ALIEN: "No espaço ninguém ouvirá você gritar!". Foi com esta e outras palhaçadas que os irmãos Chiodo transformaram seu pequeno e único filme, PALHAÇOS ASSASSINOS, em uma pérola cultuada do cinema classe B.

Os irmãos Chiodo são três e, no comentário de áudio que acompanha o DVD importado do filme, até brincam com o fato de vários "Chiodo" aparecerem nos créditos iniciais e finais da obra. Eles são Stephen Chiodo (que assina a direção, a produção e o roteiro), Charles Chiodo (que assina o design dos palhaços, a produção, o roteiro e ainda vestiu uma fantasia, a do imenso "Klownzilla" no final do filme) e Edward Chiodo (que assina a produção e o roteiro). O trio cresceu no Bronx, em Nova Iorque, e desde cedo usou a câmera Super-8 da família para criar filminhos com efeitos em stop-motion e coisas do gênero. Fizeram cursos de cinema, trabalharam em filmes conhecidos e, logo, surgiu a vontade de fazer o seu próprio.
Na segunda metade da década de 80, os três se especializaram em efeitos especiais do tipo "bom e barato", principalmente efeitos mecânicos e de stop-motion. Com sua empresa Chiodo Bros. Productions Inc., trabalharam em filmes tipo CRIATURAS (1986) e KING COBRA (1999). Mais recentemente, voltaram ao mundo da palhaçada ao assinar a produção dos bonecos do extraordinário TEAM AMERICA (2004), comédia com marionetes realizada pela dupla do desenho SOUTH PARK. O desejo de dirigir o próprio filme surgiu em 1987, quando eles começaram a conversar sobre um detalhe que os três têm em comum: o medo de palhaços!



"Foi um trabalho de amor para nós, pois fazia anos que tínhamos conversas sobre este filme", diz Charles Chiodo num dos featurettes que acompanha o DVD importado. "Porque achávamos que não havia nada mais assustador do que você dirigir por uma estrada deserta à noite e encontrar um palhaço dirigindo no carro ao lado". Curiosamente, uma cena parecida com esta - onde um motorista é "ultrapassado" por um palhaço assassino numa estrada deserta à noite - foi utilizada no filme. Eles escreveram o roteiro de PALHAÇOS ASSASSINOS a seis mãos e o produziram por conta, com Stephen assumindo a direção. Decidiram, por unanimidade, não se envolver com os efeitos especiais desta vez, apenas coordenando o processo de criação dos vilões.

Como todo trabalho de baixo orçamento e de início de carreira, PALHAÇOS ASSASSINOS foi praticamente um parto. Os Chiodo rodaram o filme numa cidadezinha chamada Watsonville, perto de Santa Cruz, na Califórnia. Nem precisa dizer que os moradores do local receberam aquela trupe mambembe com desconfiança e até um pouco de medo. Uma série de limitações foi imposta aos produtores. Uma delas era que não poderiam filmar carros em alta velocidade nas ruas da cidade. E, para piorar, o roteiro previa uma cena onde um carro de polícia e uma van de sorvetes perseguiam velozmente o carro onde estavam os palhaços assassinos! Novamente, os irmãos Chiodo viram-se obrigados a usar a criatividade para driblar as dificuldades: simplesmente filmaram a perseguição com os carros numa velocidade permitida e depois aceleraram seu movimento na edição - o que é perceptível devido a alguns movimentos bruscos, mas não compromete em nada a cena.



Tudo era complicado para os pobres debutantes no cinema: até o cão farejador feito de bexigas deu dores de cabeça, pois os balões sempre estouravam ao tocar no chão - claro, o solo de uma floresta está coberto de espinhos e pedregulhos pontudos! Após várias tentativas frustradas de filmar a cena, que sempre encerravam com o pobre cachorrinho "explodindo", os Chiodo resolveram o problema passando látex ao redor das bexigas para impedir que estourassem.

No momento de escrever o roteiro, os três irmãos resolveram se basear em personagens da sua juventude, para dar mais realismo aos papéis principais. Assim, personagens como Mike Tobacco, os irmãos Terenzi e Joe Lombardo (uma das primeiras vítimas dos palhaços) são fielmente baseados em pessoas reais com quem os Chiodo cresceram. Eles contam que realmente existia um Mike Tobacco boa pinta que ficava com todas as gatinhas, realmente existiam dois irmãos Terenzi que só aprontavam coisas idiotas, e por aí vai. "Pegamos estes ícones da nossa juventude e colocamos no script", justificou Stephen Chiodo. Em seguida, foi a vez de pegar as referências de seus filmes de ficção científica preferidos.



E por falar em "Joe Lombardo", é interessante destacar uma curiosidade a respeito da concepção de PALHAÇOS ASSASSINOS: originalmente, o filme começaria com uma cena mostrando um casal aos amassos, no meio de uma floresta escura. Repentimamente, a moça começa uma discussão por causa da mão boba do rapaz e ele a deixa a pé, saindo sozinho com seu carro. O mal-educado, segundo os irmãos Chiodo, seria o tal "Joe Lombardo". Nesta cena inicial, ele sairia com seu carro pela rua deserta e seria alcançado por um dos palhaços alienígenas, que usava os próprios pés como se fosse uma motocicleta. Então, o palhaço jogaria Lombardo para fora da estrada e entrariam os créditos iniciais. É por isso que alguns minutos depois, quando Mike e Debbie entram na nave espacial dos palhaços, encontram um cadáver envolto em algodão-doce que Mike identifica como "Joe Lombardo". Claro, ele foi uma das primeiras vítimas!

Os Chiodo chegaram a filmar toda esta cena de abertura. Mas, por problemas de iluminação, ela ficou muito escura. Como eles queriam muito começar o filme deste jeito, aceleraram o cronograma de filmagens para que pudessem refilmar a tal cena. E realmente o fizeram. Desta vez, a iluminação ficou boa. Mas a estrada escolhida para a filmagem era tão esburacada que a câmera só sacudia! Mais de metade dos takes ficaram impossíveis de aproveitar. Assim, os irmãos viram-se obrigados a dispensar a abertura do jeito que sonhavam, iniciando o filme diretamente com os créditos. Entretanto, alguns takes da cena do palhaço de "moto" jogando o carro para fora da estrada, os que não ficaram tão ruins, foram incluídos na edição final, só que na metade do filme. E, obviamente, o motorista passou a ser apenas um anônimo qualquer. "Joe Lombardo" aparece, em sua única cena, como o cadáver que Mike e Debbie encontram enrolado em algodão-doce na primeira vez que entram na nave.



A própria cena do carro saindo da pista foi filmada com enormes dificuldades. E tudo por causa de uma distração! Os Chiodo amarraram um cabo para puxar o carro e fazê-lo voar de um barranco. Armaram as câmeras, as luzes e saíram correndo do local, pois sabiam que o veículo iria voar vários metros e poderia até machucar alguém. Na hora em que gritaram "ação", o problema: algum mané esqueceu de tirar as travas que prendiam as rodas dianteiras do carro! Resultado: ao invés de "voar", como deveria, ele apenas andou alguns metros e deslizou mansamente barranco abaixo. A cena do carro caindo mal e porcamente foi mantida no filme (fazer o quê...), e os momentos dos bastidores da filmagem acabaram incluídos nos extras do DVD - inclusive com os comentários entristecidos de "oh no!" do pessoal que estava filmando. Com o carro destruído, e nem uma réplica para usar num novo take, os Chiodo viram-se obrigados a deixar a cena do "carro deslizante" no filme...

Problemas de iluminação também estragaram outra cena bem legal de PALHAÇOS ASSASSINOS, que acabou cortada, mas está nos extras do DVD americano: nela, Mike, Debbie e Dave andam, sem saber, sobre uma corda bamba no interior da nave alienígena dos palhaços; absurdamente, uma das pontas da corda se transforma numa escada, por onde o trio de heróis sobe até outra sala! Como a cena ficou muito escura, e mal permitia ver a "corda bamba", os Chiodo acabaram cortando tudo, bem como um curto diálogo entre Mike e Debbie, em que a garota fala que tem medo de palhaços devido a um trauma de infância.

Hoje, o trio Chiodo vive de trabalhar nos efeitos especiais de filmes dos outros (inclusive a bomba PIÑATA), do contato com fãs de sua primeira e única obra e da venda de bonequinhos dos palhaços assassinos, todos de confecção própria (confira neste link). Também sonham com um KILLER KLOWNS FROM OUTER SPACE 2. Mas, infelizmente, o mundo anda muito sério e chato para que projetos divertidos como este tenham algum futuro...

Felipe M.Guerra

PALHAÇOS ASSASSINOS
(Killer Klowns From Outer Space , EUA, 1982). 90 minutos
Direção: Stephen Chiodo
Roteiro: Stephen Chiodo; Edward Chiodo; Charles Chiodo
Produção: Stephen Chiodo; Edward Chiodo; Charles Chiodo
Produção Executiva: Paul Mason; Helen Sarlui-Tucker
Música: John Massari
Fotografia: Alfred Taylor
Edição: Christopher Roth
Desenho de Produção: Charles Chiodo; Philip Dean Foreman
Figurino: Darcie F. Olson
Efeitos Especiais: Tassilo Baur; Charles Belardinelli; Robert Scott; Joe Viskocil; Gene Warren Jr.
Efeitos Visuais: Leslie Huntley; Frank H. Isaacs; Candy Lewis; Bret Mixon; Donna Tracy; Betzy Bromberg; Tony Alderson
Elenco: Grant Cramer (Mike Tobacco); Suzanne Snyder (Debbie Stone); John Allen Nelson (Dave Hanson); John Vernon (Curtis Mooney); Michael Siegel (Rich Terenzi); Peter Licassi (Paul Terenzi); Royal Dano (Gene Green); Christopher Titus (Bob McReed); Irene Michaels (Stacy); Karla Sue Krull (Tracy); Adele Proom (Mrs. Franco); Howard Malpas (Mr. Myers); Claire Bartle (garotinha); Sharon O'Mahoney (garçonete); Lucinda Burgess (Sheila)



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