PERFUME - A HISTÓRIA DE UM ASSASSINO

por João Pires Neto

Em 1738, o lugar mais fétido do planeta era o mercado de peixes de Paris, a maior cidade da Europa. Um fedor inconcebível para os tempos modernos. Era a quinta vez que a vendedora de peixes dava a luz em sua barraca. O recém nascido, quase morto, seria jogado ao lixo, em meio às tripas e peixes podres, assim como os outros. Mas Jean-Baptiste Grenouille decidiu que seu destino seria diferente. O primeiro som que saiu de seus lábios conduziu sua mãe a forca.



Jean-Baptiste Grenouille se tornou um dos homens mais geniais e notórios de seu tempo. Sobreviveu a uma infância de maus-tratos num orfanato, trabalhou como escravo num curtume até tornar-se aprendiz do famoso perfumista Baldini. Entretanto Grenouille não era um ser humano comum. Ele possuía o dom extraordinário de identificar o odor de todas as coisas, o que fez com que rapidamente superasse seu mestre na arte de misturar essências. Mas sua obsessão em eternizar todos os aromas e manipular o perfume perfeito terminou por arrastá-lo à uma realidade em que fugia ao controle da razão, transformando sua vida numa história de loucura e horror.

O escritor alemão Patrick Süskind conseguiu imprimir nas páginas de seu best-seller um universo repleto de odores, fazendo com que o leitor mergulhasse numa dimensão alternativa e vivesse através do olfato de Jean-Baptiste. “O Perfume – A História de um Assassino” (1985) é considerado por muitos leitores e críticos uma obra-prima da literatura mundial contemporânea, sendo traduzido para mais de 37 países e vendido mais de 30 milhões de exemplares.



A inevitável adaptação cinematográfica já havia sido anunciada várias vezes e diversos diretores de peso tiveram seus nomes ligados ao projeto, entre eles Tim Burton e Ridley Scott. Até mesmo Stanley Kubrick esteve envolvido no projeto, mas desistiu afirmando que a obra era infilmável. O produtor alemão Bernd Eichinger (de “A Queda – As Últimas Horas de Hitler”) negociou com o autor Patrick Süskind durante anos os direitos pela adaptação. O entendimento aconteceu apenas em 2001, num valor aproximado de 10 milhões de Euros. A direção acabou nas mãos do também alemão Tom Tykwer, do pop-cultuado “Corra Lola Corra” (Lola Rennt, 1998).

Esboçava-se então a produção de maior orçamento a ser realizado pelo cinema alemão (algo em torno de 50 milhões de Euros). A tarefa não era das mais fáceis. A própria transposição do texto literário para a linguagem audiovisual já se constituía um grande obstáculo. Fora a fidelidade à obra original, era necessário definir um foco para a adaptação: poderia ser um drama, um thriller ou mesmo um suspense. A escolha mais sensata e menos arriscada foi a mistura quase homogênea entre o drama e o suspense. O roteiro, muito bem redigido por Andrew Birkin, Bernd Eichinger e o próprio Tom Tykwer, converge para as ações e os sentimentos da personagem central Jean-Baptiste Grenouille, quase como uma obra biográfica.



Em “Perfume – A História de um Assassino”, as cenas de violência não são estilizadas ou ressaltadas, elas acontecem naturalmente, assim como os assassinatos são naturais ao propósito de Jean-Baptiste, um homem solitário e incompreendido, que enxerga o mundo através aromas. Existe ainda uma grande ironia na vida do nosso anti-herói (o enredo não o define exatamente como vilão), mesmo podendo sentir e distinguir cheiros a quilômetros de distância, seu corpo não exala nenhum odor. Ainda criança, é esta ausência de cheiro que o faz refletir sobre a falta de sentido em sua vida e futuramente o move em busca dos seus objetivos.

O protagonista é interpretado brilhantemente pelo novato Ben Wishaw (o Keith Richards de “Stoned - A História Secreta dos Rolling Stones”). Pouco conhecido, mas talentoso, Wishaw consegue dar profundidade ao silencioso e misterioso personagem central, sem exagerar ou torná-lo artificial. Ao elenco unem-se ainda veteranos de renome como Dustin Hoffman (“Sob o Domínio do Medo”, de Sam Peckinpah) e Alan Rickman (o professor Severus Snape da série “Harry Potter”). John Hurt (“O Homem Elefante”), ainda empresta sua voz à narração poética e enfática da trama.



A bela trilha musical, cuja sonoridade e arranjos harmônicos ajustam-se perfeitamente ao cenário, foi composta pelos parceiros Reinhold Heil e Johnny Klimek (responsáveis pela trilha “Terra dos Mortos”, de George Romero). E Se a direção competente de Tom Tykwer, na maioria das vezes não se mostra inovadora, a beleza plástica da fotografia de Frank Griebe confere a “Perfume” um tom a mais na grandiosidade do resultado final. Um filme sombrio, de beleza ímpar, refinada e sensível.

João Pires Neto


Perfume - A História de um Assassino (Perfume: The Story of a Murderer, Alemanha/França/Espanha, 2006)
Direção: Tom Tykwer
Roteiro: Andrew Birkin, Tom Tykwer, Bernd Eichinger.
Produção: Bernd Eichinger
Produção Executiva: Julio Fernández; Andreas Grosch; Samuel Hadida; Manuel Cuotemoc Malle; Martin Moszkowicz; Andreas Schmid
Fotografia: Frank Griebe
Edição: Alexander Berner
Desenho de Produção: Uli Hanisch
Figurino: Pierre-Yves Gayraud
Música: Johnny Klimek, Reinhold Heil, Tom Tykwer.
Elenco: Alan Rickman (Antoine Richis), Ben Whishaw (Jean-Baptiste Grenouille), Dustin Hoffman (Giuseppe Baldini), John Hurt (Narrador), Karoline Herfurth, Michael Smiley (Porter), Perry Millward (Marcel), Rachel Hurd-Wood (Laura Richis), Ramón Pujol (Lucien).

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