DR. PHIBES RI NOVAMENTE!

por E.R.Corrêa

"A incrível lenda do abominável Dr. Phibes começou há poucos anos, porém todas são verdadeiras. Foi aqui em Londres, na praça Mauding, que Phibes elaborou sua diabólica vingança contra os responsáveis pela morte de sua adorada esposa Victoria. A destruição de seu rosto fez necessário criar um mecanismo especial no seu pescoço. As mais brilhantes mentes da Scotland Yard foram chamadas, mas as incríveis mortes continuaram - cada uma mais cruel que a outra. Do porão de sua mansão ninguém podia ouvir as músicas de crime e vingança, executadas no órgão e por seus músicos mecânicos..."
"A Câmara de Horrores do Abominável Dr. Phibes" (1972)

O psicopata Dr. Anton Phibes é um dos personagens mais originais e divertidos da história do cinema. E se isso não bastasse, ele ainda foi interpretado por ninguém mais, ninguém menos que o inigualável ator americano Vincent Price, o canastrão mais aristocrático de todos os astros do horror. Sua aparição ocorreu em dois clássicos genuínos do humor macabro dirigidos e escritos por Robert Fuest em 1970 e 1971, respectivamente: O Abominável Dr. Phibes (The Abominable Dr. Phibes) e A Vingança do Dr. Phibes (Dr. Phibes Rises Again), em produção da "American Internacional Pictures". Ainda hoje, depois de milhares de sessões duplas madrugadas a dentro, me debato para saber qual dos dois é o melhor, ainda que isso não queira dizer absolutamente nada.



No primeiro vemos o genial Dr. Phibes, outrora mestre em teologia e músico de talento, elaborando sua maquiavélica vingança contra a equipe de nove cirurgiões incompetentes que deixaram sua amada esposa Victoria morrer, depois de trágico acidente de carro - o mesmo acidente que o deixou desfigurado para sempre, obrigando-o a usar uma máscara de látex com sua antiga feição e um gramofone plugado à garganta para poder se comunicar (o que só fez aumentar seu vozeirão gutural e característico e sua ferocidade). No ritmo dos diabólicos vilões das histórias em quadrinhos, Phibes utiliza as famosas "Dez Pragas de Deus sobre o Egito" (a praga do gafanhoto, da escuridão, do sangue, da morte do primogênito, e todas as demais), descritas no "Êxodo", para exterminar um a um os abobalhados cirurgiões, enquanto dois agentes pra lá de incompetentes da Scotland Yard (interpretados pelos impagáveis Peter Jeffrey e Norman Jones) ficam apenas mastigando as migalhas das pistas deixadas por ele. Nesse meio tempo o que não faltam são as cenas de mortes originalíssimas que o tornaram famoso, que são festejadas pelo psicopata e por sua ajudante Vulnavia (Virginia North) com requintes de sadismo e perversão: a cada vitória sobre os médicos, ele queima em efígie seu correspondente em cera; em seguida, eles ainda dançam embalados ao som metálico de uma surreal orquestra de bonecos, ou então ao som do sinistro órgão tocado pelo psicopata.



É dificílimo destacar a melhor cena do filme, mas talvez a mais espetacular seja aquela em que um dos médicos é atacado por uma faminta legião de ratos num avião em pleno vôo; enquanto assiste a tudo com uma luneta, Phibes se delicia com a melancólica ária tocada ao violino por Vulnavia. A cena, em seu todo, é um espetáculo que simboliza o ideal do vilão bem sucedido e verdadeiramente competente, a anos-luz de toda uma cambada de serial killers que surgiria depois, no seu rastro original. E também tem aquela cena, de uma canastrice irretocável, em que uma das enfermeiras tem o corpo besuntado em mel enquanto dormia e é cruelmente devorada viva por um batalhão de enormes gafanhotos carnívoros, sobrando apenas o seu esqueleto sobre a cama, para a surpresa de um regimento inteiro de policiais que velavam pela sua segurança. Mas isso tudo é nos tempos em que o cinema tinha histórias para contar.



Sucesso absoluto e sem dúvida o maior clássico do estilo "camp", que subentende filmes propositadamente bregas e exóticos, com abuso de cores berrantes (que, no caso desse filme em especial, causa um contraste ainda mais bizarro devido à sua proposta predominantemente "gótica"), O Abominável Dr. Phibes tinha tudo para virar uma seqüência interminável de filmes, mas, felizmente, nessa época isso não era de praxe. Ele ganhou uma única e suficiente continuação, A Vingança do Dr. Phibes (que na TV brasileira já foi apresentado como A Câmara de Horrores do Abominável Dr. Phibes e A Volta do Dr. Phibes).



Em termos de produção, caracterização, estética e atuação é praticamente uma réplica do anterior, com situações ainda mais bizarras e forçadas, num equilíbrio seguro entre "seriedade shakespeareana" e esculhambação sem escrúpulo. Agora, o furioso psicopata desfigurado, na intenção de ressuscitar sua amada esposa Victoria (Caroline Munro, não creditada) no lendário "Rio da Vida", que corre numa misteriosa e desconhecida catacumba entre as pirâmides egípcias, parte para o país dos faraós mas tem seus planos ameaçados por um perigoso arqueólogo rival (interpretado por Robert Quarry), que pretende alcançar a vida eterna com a utilização do mesmo rio. E o que se segue é mais uma seqüência de mortes das mais inusitadas e criativas, algumas vezes lembrando os melhores momentos daquele antigo seriado do "Batman" com Adam West, em que nos últimos momentos os heróis conseguiam escapar das mais mirabolantes armadilhas. Só que com Phibes não há oportunidades de últimos momentos... Destaque para a cena em que um explorador bobalhão é esmagado por um enorme escorpião de metal, enquanto pequenos escorpiões de verdade passeiam pelo seu corpo. A hilária dupla de investigadores da Scotland Yard do filme anterior também aparece por aqui, mas isso passa novamente despercebido pelo serial killer e sua misteriosa e inseparável companheira (desta vez interpretada por outra atriz, Fiona Lewis). No confronto final entre os dois arqui inimigos, Phibes obviamente leva a melhor, para seguir rumo ao desconhecido junto à sua esposa embalsamada, enquanto o arqueólogo, vítima de decrepitude acelerada, fica a ver navios.



Os dois filmes são duas pérolas impagáveis do humor negro e parodiam o gênero terror e a própria carreira de Price sem abusar de sangue ou piadas de mau gosto, muito à frente das produções que infestariam o cinema daí em diante, tentando imitá-los com vilões bobocas metidos a engraçadinhos do tipo Freddy Krueger. São filmes que não se levam a sério e forçam a barra propositadamente nas cenas de morte - e é aí que reside sua força e originalidade. Até Peter Cushing aparece de relance nessa história, numa ponta ultra-rápida como um capitão de navio.


Parece que esse famoso e divertidíssimo personagem, dono de uma ferocidade instintiva e símbolo único e insubstituível da bizarra década de 70, foi o único na carreira de Price a ter uma seqüência, mas não foi o único que se utilizava de métodos sádicos e criativos para dar cabo a seus inimigos - é só dar uma conferida rápida em clássicos absolutos como As Sete Mascaras da Morte, O Poço e o Pêndulo, A Casa dos Rituais Satânicos, entre vários outros. Mas é aqui, indubitavelmente, onde o ator atinge o máximo de perfeição, originalidade, sadismo e canastrice.

Se tudo mais que Price fez viesse de repente a ser apagado da existência, somente pela interpretação de Phibes ele seria, certamente, considerado um dos maiores ícones do gênero. Só vendo pra crer!!!



E.R.Corrêa

Esse artigo foi publicado originalmente no fanzine "Juvenatrix" # 79 (Outubro de 2003).

A CÂMARA DOS HORRORES DO ABOMINÁVEL DR. PHIBES (Dr. Phibes Rises Again,Inglaterra, 1971) 89 minutos
Direção: Robert Fuest
Roteiro: Robert Fuest e Robert Blees
Produção: Samuel Z. Arkoff e Louis M. Heyward
Produção Executiva: James H. Nicholson
Música: John Gale; Gus Kahn; Nacio Herb Brown; James Harpham (não-creditado); Paul Lewis (não-acreditado)
Fotografia: Alex Thomson
Maquiagem: Trevor Cole-Rees
Figurino: Brian Cox
Edição: Tristam Cones
Elenco: Vincent Price (Dr. Anton Phibes), Robert Quarry (Darius Biederbeck); Peter Jeffrey (Inspetor Trout); Fiona Lewis (Diana Trobridge); Hugh Griffith (Harry Ambrose); John Cater (Sir Wayne Waverley); Gerald Sim (Hackett); Lewis Fiander (Baker); John Thaw (Shavers); Peter Cushing (capitão do navio); Beryl Reid (Miss Ambrose); Terry-Thomas (Lombardo); Keith Buckley (Stewart)


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