PHILIP K.DICK E O CINEMA

Por E.R.Corrêa

"O homem normal não sabe que tudo é possível" - Philip K. Dick

Uma união das mais felizes, poderíamos resumir.
Blade Runner, apesar de não ter começado de maneira promissora na expectativa de críticos e fãs, não só sobreviveu a cuidadosa e talvez não exagerada releitura que se verificou, como se tornou um dos ícones máximos do cinema e da moderna FC. Total Recall, com sua postura descompromissada e livre, conquistou logo de cara a simpatia dos fãs e geralmente é visto como uma boa adaptação da história original. O Impostor teve a infelicidade de surgir num momento em que todas as badalações e expectativas estavam voltadas para outra obra de K. Dick em andamento, Minority Report, de modo que passou relativamente despercebido, apesar de ser um bom filme, fiel ao conto original. E este último, juntamente com o inesperado O Pagamento, de John Woo, prova de uma vez por todas que o famoso escritor americano, ao contrário do que muita gente dizia, não só pode render bons filmes, como pode render alguns dos melhores filmes de ficção científica. Afinal, são dele algumas das melhores histórias.

Replicantes correndo no fio da navalha

Blade Runner, O Caçador de Andróides (Blade Runner, 1982), entre outras coisas, já foi destrinchado até em teses acadêmicas, e se existe algo a seu respeito que ainda não foi dito, esse algo pertence ao fantasioso mundo da imaginação. Mesmo para aqueles que possuem apenas o mais remoto interesse pelo cinema, é famosa aquela história das "duas versões" que foram feitas pelo diretor Ridley Scott a pedido dos chefões da Warner (circulam boatos na internet de que existiriam ainda outros finais não revelados para o filme, alguns chegando a citar sete ou oito finais alternativos, mas isso tudo é muito provavelmente bobagem): a primeira versão (que só apareceu no começo dos anos 90) seria a original, rejeitada pelo estúdio na época por ser demasiadamente sombria, por que desconfortavelmente aberta, talvez, e, por isso mesmo, comercialmente inviável (nesta versão, somente a cena em que Deckard aplica o teste Voigt-Kampff em Raquel, nos escritórios da Tyrell Corporation, é filmada à luz do dia); e a segunda versão, remexida no contexto central e modificada completamente na conclusão, em relação à primeira, foi aquela que apareceu e que, desafortunadamente, acabou por se transformar num enorme fracasso de bilheteria, completamente imprevisto.



Imprevisto porque Ridley Scott vinha do recente sucesso de público e crítica Alien, o Oitavo Passageiro (Alien, 1979) - sucesso que, não por acaso, fez com que os chefões da Warner lhe dessem carta branca para orquestrar o Blade Runner, outra inteligente e empolgante história de FC que, segundo eles, tinha tudo para arrecadar milhões (assim, podemos conjeturar: se não tivesse existido o Alien, ou se ele tivesse redundado em um enorme fracasso, talvez o Blade Runner jamais tivesse existido). O que houve, porém, foi exatamente o contrário; assim como o 2001, Uma Odisséia no Espaço (2001, A Space Odissey, 1968), de Stanley Kubrick, a película de Scott se revelou cerebral demais para repetir a façanha anterior, mesmo com aquela versão medíocre e rotineira que apareceu originalmente, narrada em Off por um Harrison Ford puto da vida.

Normal, para uma produção até hoje repleta de controvérsias e pontos em falso. Também houve aquela história relativa a plágio, alegada pela revista francesa de HQ's "Metal Hurlant", de que Scott e seus produtores teriam deliberadamente copiado, sem autorização, o visual futurista de uma das histórias do consagrado desenhista Moebius, "The Long Tomorrow", para a caracterização do filme. Coisa nem confirmada, nem desmentida.



Com roteiro de Hampton Fancher e David Peoples, o filme foi baseado no romance "O Caçador de Andróides" ("Do Androids Dream of Eletric Sheep?", de 1968), um dos melhores trabalhos de Philip K. Dick e uma das mais aclamadas, consistentes e perversas visões à cerca do futuro do homem e seu relacionamento com a tecnologia. Dick, mais esperto do que nunca, cria andróides revoltados não especificamente com sua condição de andróide - dá a entender que isso, para eles, é indiferente - mas sim com o fato de que, a despeito das memórias falsas que carregam, viverão por apenas quatro anos, por "motivos de segurança". E, o que é pior, na condição de escravos: são os instrumentos perfeitos para os perigos da exploração espacial, em colônias distantes da Terra, já que são mais fortes fisicamente e no mínimo tão inteligentes quanto os engenheiros genéticos seus criadores (nem no livro, nem no filme sabemos qual tipo de tratamento tais andróides recebem nas colônias, mas é fácil adivinhar). Outro parêntese: os produtores do filme preferiram abordar essas criaturas como "replicantes", ao em vez de "andróides", na intenção óbvia de aproxima-los ainda mais dos seres humanos, já que o termo "andróide", já completamente assimilado tanto dentro da cultura ficcional quanto fora dela, é próximo demais do termo "robô", pesado e repulsivo em sua totalidade inumana, rapidamente lembrando uma coisa insólita e artificial, o que apagaria, ou neutralizaria, a intenção do filme de fazer com que o público simpatizasse com os "replicantes" ou, no mínimo, adquirisse uma espécie de empatia para com eles. O caso é que em nenhum momento do filme é utilizada a palavra "andróide". "Monstrengo" é outro termo utilizado, ironicamente.

Um grupo de Nexus-6 (andróides de última geração) se revolta com sua condição e, após um motim sangrento numa das colônias espaciais, resolve voltar a Terra - o que lhes é proibido - em busca de respostas; já que seus criadores se deram ao trabalho de cria-los com inteligência o suficiente para indagar os por quês da questão, agora que agüentem as conseqüências. Mas os criadores não agüentam as conseqüências e por isso preferem jogar a sujeira para debaixo do tapete, quando ela surge. Unidades especiais chamadas de "blade runner's" são encarregadas de "retirar" os replicantes invasores, da mesma forma que apertamos sem cerimônia o botão "power" do computador quando dá um treco no windows e ele trava - mas talvez esse não seja um exemplo sensato, pois, quando nosso computador trava, ficamos com remorso de desliga-lo sem recorrer ao método padrão de desativa-lo antes; nesse mundo caótico de valores duvidosos, os blade runner's não sentem remorso. Ou, ao menos, não sentiam...



Rick Deckard (interpretado por Ford, num papel que era originalmente destinado a Dustim Hoffman), a despeito de tudo, ainda é um dos principais blade runner's em circulação e por isso é recrutado à força para se livrar do caso, o mais discretamente possível. No livro, Deckard é um sonhador, disposto a tudo para conseguir dinheiro suficiente para comprar um animal verdadeiro, já que sua ovelha elétrica só traz aborrecimentos e risos desaprovadores dos vizinhos; somente aos poucos ele percebe que o que está fazendo é uma incongruência das mais absurdas: retirar andróides inteiramente capazes de especular a respeito da própria existência somente para satisfazer a seu "ego pseudo-ecológico" (seria na verdade um assassino?, ele se pergunta, lembrando das reprimendas da esposa e dos conselhos de Mesmer, o guru). No filme ele é um misantropo completamente indiferente, uma espécie de Humphrey Bogart com excesso de melancolia (se é que isso é possível), e solteiro; enquanto tenta dar início a um almoço rápido num botequim superlotado de Chinatown é abordado estupidamente por Gaff (Edward James Olmos), um oficial de polícia que, a mando do chefe de polícia Bryant (M. Emmet Walsh), o quer novamente recrutado como um blade runner. Gaff utiliza um dialeto estranho, indefinido, conhecido principalmente no meio policial, e Deckard finge não entende-lo. Mas o balconista do botequim traduz para ele e diz, sorridente: "Ele disse que está preso, senhor Deckard". O detetive dirige-se então à central de polícia e ali recebe sua nova missão. Ele recusa-se de início a voltar ao oficio de exterminador de andróides, mas, acuado pelo ex-chefe, não vê outra alternativa - ele sabe que não tem escolha. E então ele vai em frente, recolhe as pistas, como um verdadeiro detetive solitário e sorumbático dos anos 40 (tipo Sam Spade, ou Philip Marlowe) e inicia o processo de retirada dos "produtos" ilegais em circulação na obscura e poluída Los Angeles de 2019. Até que se envolve emocionalmente com Raquel (Sean Young), uma Nexus-6 que, numa reviravolta, acaba lhe salvando a vida.



E é aí que a fragilidade da situação começa a se revelar com mais intensidade. Fragilidade que culminará no salvamento de Deckard por um de seus próprios perseguidos, o replicante Roy Betty (Rutger Hauer), o cabeça do levante andróide, numa das cenas mais fortes e envolventes da sétima arte. É quando Deckard se pergunta até onde vai a moral do criador para determinar limites para sua criação - o complexo de Frankenstein em versão "cyberpunk". "Nada pior que a coceira que não se pode coçar", a certa altura diz Leon (Brion James), um replicante.

Mas se esta situação é densa e enigmática por si só, resta ainda lembrar o destino do próprio Deckard; Raquel, graças às memórias implantadas que utilizava, afinal de contas, só ficou sabendo que era uma replicante depois que lhe contaram. Durante todo o filme o oficial de polícia Gaff se divertia fazendo pequenas dobraduras de papel e palitos de fósforo, e nós, bestalhões, acreditávamos que isso não passava de uma excentricidade neurótica típica da vida urbana, mas a coisa, aparentemente tão simples e banal, carregava consigo - agora sabemos - um significado espantoso e revelador.

É como se os personagens fossem, todos eles, anti-heróis indiferentes: no fundo, é difícil simpatizar com um ou com outro, apoiar uma ou outra causa, pois tudo se dilui num plot de complexidade sufocante, até culminar num dado momento em que todos percebem que, qualquer que tenha sido o vencedor, esse vencedor não terá nada além do que teve o perdedor, se é que é possível diferenciar um do outro. Aliás, o paralelo que se faz com esse filme e os filmes de detetive dos anos 40, os films noir, geralmente inspirados em obras de mestres do romance policial como Dashiell Hammett e Raymond Chandler, oriunda não somente de seu visual sombrio e depressivo, mas principalmente desse fato: a quase ausência de uma "moral" clara, límpida, tal como a que aprendemos a reconhecer - os "heróis" vira e mexe se apresentando como vilões, e os "vilões" fazendo as vezes de heróis, tanto uns como os outros unicamente em busca da solução de seus próprios problemas, sabendo que, no fundo, no fundo, é só isso que realmente importa.



Blade Runner, O Caçador de Andróides, apesar de não ser exatamente fiel ao romance que o inspirou, é, definitivamente, um dos filmes mais espetaculares da história do cinema; um filme único que não terá substitutos ou "parentes próximos". Rapidamente envolvente em seu clima de policial noir (a começar pelo título, tomado de empréstimo de um dos livros do escritor William S. Burroughs), é dono de uma plasticidade comovente, um mosaico futurista que vai de encontro certeiro à música espantosamente apropriada do mestre Vangelis; um trabalho que remodelou a ficção científica no cinema, não só do ponto de vista técnico, mas também conceitual, assim como o 2001, de Kubrick, fizera em 1968 - um rompimento com a ingenuidade. Um trabalho que, visual e esteticamente falando, parece ter sido feito ontem. Trabalha apenas com um nível do romance, é verdade, aquele que pode ser descrito, com reservas, como a parte aventureira da história, deixando de lado as outras implicações; principalmente as religiosas, um tema subsidiário sempre explorado por Dick em suas obras, e que aqui se apresenta através das aparições esporádicas do guru messiânico Mesmer e sua doutrina empática de redenção e perda, o mesmerismo. Se no livro o mesmerismo, então a religião dominante, tinha um papel fundamental para o desenvolvimento da trama, no filme vemos o aspecto religioso, em sua conotação literal, sendo substituído por um apelo comercial metaforicamente ambíguo: néons ultracoloridos e insinuantes que se espalham por todos os cantos da cidade, invadindo mesmo até a privacidade dos lares, enquanto enormes plataformas de anúncios ambulantes (patrocinadas por coisas como Coca-Cola e JVC) sobrevoam a cidade lembrando a todo tempo os benefícios de se mudar para uma colônia planetária, "a chance de começar de novo, num mundo de maravilhas e descobertas". Como em "Os Mercadores do Espaço" ("The Space Merchants", 1953), de Frederick Pohl e Cyril M. Kornbluth, a propaganda é levada às últimas conseqüências, num mundo superpovoado e sem qualquer esperança (isto porque, antes de fazer carreira no cinema, Ridley Scott era um famoso diretor de comerciais de TV).

Assim, mesmo substituindo um tópico importante por outro, o filme materializa de forma sensacional a visão dickiana do futuro. Num artigo para a "Starlog" número 64 (novembro de 1982), diz Norman Spinrad: "Blade Runner é uma tradução essencialmente verdadeira de 'Do Androids Dream of Eletric Sheep?', um filme sério para adultos, um filme de ficção científica mais verdadeiro do que quase qualquer outra coisa já feita no gênero. Torna inválido a todos, é uma pequena obra prima no mínimo, e qualquer um que procure uma ficção científica real, com intenções realmente sérias, deveria vê-lo". O olha que ele falava daquela versão truncada e superficial que apareceu originalmente.



O caso é que tudo conspira para tornar a obra realmente épica e mítica: a futurística e chuvosa Los Angeles é uma megalópole terrível e ao mesmo tempo fascinante, palpável, crua, tão assustadoramente real quanto os coloridíssimos néons que a enfeitam; a mais completa e verdadeira já imaginada pela FC em película (cortesia de Douglas Trumbull e Syd Mead, gênios na área dos efeitos visuais). Cyberpunk, como preferem alguns. O pano de fundo perfeito para o desenrolar do drama complexo e sufocante dos andróides invasores em busca de sua identidade, enquanto são caçados impiedosamente por um blade runner que nem ao menos sabe por que está fazendo aquilo. Um blade runner que descobre, espantado, que ele mesmo pode ser um replicante. Quem irá caçá-lo?, nos perguntamos naturalmente, mas a moral é clara: quem não for um replicante que atire a primeira pedra.

BLADE RUNNER - O CAÇADOR DE ANDRÓIDES (Blade Runner , Estados Unidos, 1982). Duração: 118 minutos
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Hampton Francher e David Webb Peoples, baseado em livro de Philip K. Dirk
Produção: Michael Deeley
Produção Executiva: Hampton Fancher; Brian Kelly;
Música: Vangelis
Fotografia: Jordan Cronenweth
Edição:Les Healey; Terry Rawlings
Desenho de Produção: Lawrence G. Paull; Peter J. Hampton
Figurino: Michael Kaplan; Charles Knode; Jean Giraud
Direção de Arte: David L. Snyder
Maquiagem: Marvin G. Westmore; John Chambers; Michael Westmore
Elenco: Harrison Ford (Deckard / Narrador); Rutger Hauer (Roy Batty); Sean Young (Rachael); Edward James Olmos (Gaff); M. Emmet Walsh (Capitão Bryant); Daryl Hannah (Pris); William Sanderson (J.F. Sebastian); Brion James (Leon); Joe Turkel (Tyrell); Joanna Cassidy (Zhora); James Hong (Hannibal); Morgan Paull (Holden); Kevin Thompson; John Edward Allen; Hy Pyke; Kimiko Hiroshige; Bob Okazaki

Lembre-se: você pode se arrepender

O Vingador do Futuro (Total Recall, 1990) deu início ao que está se demonstrando, por parte dos figurões envolvidos com o cinema, uma preferência aos trabalhos curtos de Philip K. Dick. Se levarmos em conta que os próprios romances e novelas de Dick eram, em sua maioria, versões expandidas e remodeladas de idéias já anteriormente utilizadas nos contos, veremos que este procedimento, ainda que não de todo justo, tem sua razão de ser. Quanto a isso o próprio Dick tem algo a declarar: "A maior parte de meus próprios romances é fruto de expansões de contos anteriores, ou fusões de diversos contos - sobreposições. O germe estava no conto; num sentido muito real, aquilo foi verdadeiramente destilado. E algumas das minhas melhores idéias, que significaram mais para mim, nunca consegui expandir em forma de romance. Elas existem como contos, apesar de todos os meus esforços" ("O Vingador do Futuro - Histórias de Philip K. Dick", Editora Paulicéia, 1991).

Dono de uma vasta produção de contos e noveletas, o trabalho de busca e catalogação de idéias para sua expansão em forma de romance ficava, pois, obviamente mais fácil, de forma que Dick já tinha uma boa parcela do trabalho realizada, quando se propunha a faze-lo.
"O Vingador do Futuro" ("Recordamos para você por atacado") apareceu originalmente na edição de Abril de 1966 na "The Magazine of Fantasy and Science Fiction", com o título "We Can Remember It For You Wholesale" e tinha potencial para ser transporto num trabalho mais arrojado, talvez até mesmo um romance, mas, como isso não aconteceu, obrigou os roteiristas Ronald Shusett, Dan O'Bannon e Gary Goldman a se virarem com o que tinham nas mãos. E eles não fizeram feio, apesar dos contratempos...

O caso é que a história de O vingador do Futuro é ainda mais tumultuada e confusa que a de Blade Runner; consta que o filme, desde que sua idéia germinal foi lançada pela primeira vez nos idos da década de 1970, demorou mais de quinze anos para ser rodado. Sua produção passou por tantas mãos e seu roteiro sofreu reviravoltas tão alucinantes que, em determinados momentos, não se sabia mais do que tratava: se aventura, comédia, drama, espionagem... Ronald Shusett, o grande responsável pela realização do filme, já estava quase desistindo quando, repentinamente, dois nomes de enorme relevo no final da década de 80 se envolveram na contenda: o holandês Paul Verhoeven e o austríaco Arnold Schwarzenegger. Foi então que a coisa funcionou. Nada como ares europeus para revigorar as coisas...



No conto, Douglas Quail é um "miserável empregadinho assalariado"; seu sonho é visitar o planeta Marte, onde existem sofisticadas colônias humanas acessíveis somente aos grandes figurões do governo e às pessoas de muita, muita grana. Sua esposa não se cansa de dizer que ele não pertence a essa nata.

Sem alternativa, Quail resolve recorrer aos transplantes de memória da famosa Rekord Associados, empresa especializada em realizar os mais diferentes e exóticos sonhos de maneira alternativa, ou seja, ela faz com que o cliente passe a acreditar que, de fato, fez aquilo que desejava realmente; memórias falsas de passeios, realização pessoal, conquistas amorosas e tudo mais são sua especialidade.

Acontece que no caso de Douglas há um pequeno problema: ele já esteve em Marte numa missão importante como espião-assassino para o governo, e essa lembrança estava simplesmente apagada de sua memória por questões de segurança; com o tratamento de implante na Rekord, essa lembrança remota vem acidentalmente à tona e lhe traz enormes problemas - passa a ser caçado impiedosamente. Depois de muita correria e perseguição, ele consegue convencer os agentes secretos do governo a deixar com que a Rekord lhe implante uma nova memória falsa, um sonho louco que ele tivera na infância a respeito de alienígenas e invasão da Terra, apagando, no processo, todas as referências a Marte. Assim, poderiam poupa-lo por saber demais. O problema é que esse novo implante revela segredos escondidos infinitamente mais desagradáveis do que aqueles referentes ao planeta vermelho e a espionagens extraplanetárias...

Mesmo sendo relativamente curto, o conto é de uma potencialidade extraordinária, fornecendo todos os elementos indispensáveis para uma boa intriga futurista repleta de paranóias e reviravoltas alucinantes típicas não só do trabalho dickiano mas também desse tipo de enredo em geral. Sem falar da conclusão, uma das mais espetaculares e divertidas já feitas para uma short story.



Na época em que a produção do filme ainda estava em andamento e Schwarzenegger foi finalmente anunciado como astro principal, os ânimos ficaram exaltados. Imediatamente se imaginou um filme de ação e violência inteiramente desnudado de seus elementos dickianos característicos em favor da notória truculência do ator; felizmente, essa visão simplória não se verificou de todo. O que ocorreu, nas mãos versáteis e inteligentes de Verhoeven, foi uma inteira remodelação tanto das idéias quanto do conteúdo: o filme teria ação e violência, sim senhor - e bastante - mas, exceto por poucas modificações feitas no roteiro de Shusett, preservaria uma grande parte dos elementos instigantes característicos do famoso autor de "O Homem do Castelo Alto", além de acrescentar elementos hitchcockianos sob uma ótica futurista pra lá de engenhosa. Isso porque, naquela época, um filme com Arnold Schwarzenegger sem ação e pancadaria era simplesmente impensável, ainda mais sob a batuta de Paul Verhoeven, que acabava de sair do grande sucesso comercial Robocop, O Policial do Futuro (Robocop, 1987), produção futurista de ficção científica cuja palavra chave era violência. (Durante todo o tempo em que esteve em andamento, a produção de Total Recall contou com diversificados nomes tanto para sua direção quanto para seu elenco; George Miller, David Cronemberg, Bruce Beresford e Russel Mulcahy foram alguns dos cogitados para conduzir a película, enquanto Patrick Swayze, Christopher Reeve, Jeff Bridges e Richard Dreyfuss em algum momento apareceram escalados como o ator principal). Mas esses elementos ficaram equilibrados e contidos e não prejudicaram a trama inteligente e criativa que nos joga de frente, assim como ao personagem central, a um jogo de intriga e paranóia realmente de tirar o fôlego, tudo sob o impulso inspirado da música sempre competente do mestre Jerry Goldsmith, perito em dar forma audível às idéias visuais da ficção científica.



Produção de quase sessenta milhões de dólares (hoje um orçamento banal para uma mega produção), O Vingador do Futuro não desagradou à maioria dos fãs de Philip K. Dick, ao contrário do que se imaginava a princípio, mesmo sua trama não tendo sido totalmente fiel ao conto original, já que o texto é curto e não sustenta, por si só, um molho de situações que justifique uma cumplicidade literal de quase duas horas de projeção em película. Enquanto no conto, por exemplo, Marte é apenas citado como o palco da ação em que o personagem estivera envolvido, em quase toda a segunda metade do filme a ação se passa justamente lá, acrescentando personagens e motivações, com um indispensável tema romântico se desenvolvendo em paralelo, com um final que muitos consideraram chocho, envolvendo beijo na mocinha e tudo mais. A verdade é que, numa leitura mais atenta, esse final apoteótico quase sempre criticado pode se revelar enganador: tudo, e eu digo tudo, afinal de contas, pode não ter passado de uma alucinação de Douglas Quaid (no filme é Quaid), pode não ter passado exatamente daquilo que ele queria na Recall - uma brincadeira neuroterapêutica. Assim, a "verdadeira realidade", tanto para ele quanto para nós, poderia ser entendida somente até o momento em que ele decide ignorar os protestos da esposa Rachel (Sharon Stone) e sacrificar um dia de trabalho pesado para visitar a Recall; daí para frente - e por que não? - tudo estaria incluído no pacote de recordações de aluguel pelo qual ele pagara. (O próprio personagem se pergunta o tempo todo se essa possibilidade poderia ser a verdadeira). Seria uma visão dickiana perfeita; mas, ao mesmo tempo, soa como pouco provável que os roteiristas tenham pensado assim, do contrário seria fácil acrescentar um daqueles detalhezinhos surpresa que muitos diretores adoram colocar após os créditos finais... De uma forma ou de outra, o filme cumpre o que se propõe de maneira satisfatória e inteligente; os efeitos especiais são de primeira qualidade e a trama é enxuta, com ação e perguntas suficientes para agradar não só aos fãs da pancadaria como também aos amantes do trabalho do grande autor americano de ficção científica, num filme que, no mínimo, pode ser considerado como um dos melhores da década de 1990. Em 1999 foi produzida a série Total Recall 2070, dando prosseguimento às complicadas idéias passadas no divertido universo do filme de Paul Verhoeven.

VINGADOR DO FUTURO, O (Total Recall , Estados Unidos, 1990). Duração: 113 minutos
Direção: Paul Verhoeven
Roteiro: Gary Goldman; Dan O'Bannon; Ronald Shusett; baseado em conto de Philip K. Dick
Produção: Buzz Feitshans; Ronald Shusett
Produção Executiva: Mario Kassar; Andrew G. Vajna
Música: Jerry Goldsmith; Bruno Louchouarn
Fotografia: Jost Vacano
Edição: Frank J. Urioste
Desenho de Produção: William Sandell
Figurino: Erica Edell Phillips
Direção de Arte: José Rodríguez Granada; James E. Tocci
Maquiagem: Craig Berkeley; Jeff Dawn; Rob Bottin; Robin Weiss
Elenco: Arnold Schwarzenegger (Douglas Quaid/Hauser); Rachel Ticotin (Melina); Sharon Stone (Lori); Ronny Cox (Vilos Cohaagen); Michael Ironside (Richter); Marshall Bell (George/Kuato); Mel Johnson Jr. (Benny); Michael Champion (Helm); Roy Brocksmith (Dr. Edgemar); Ray Baker (Bob McClane); Rosemary Dunsmore (Dr. Lull); David Knell (Ernie); Alexia Robinson (Tiffany)

Uma pausa para a Segunda Variedade

Screamers - Assassinos Cibernéticos (Screamers, 1995) é outra adaptação baseada num dos trabalhos curtos de Dick: “Segunda Variedade” (“Second Variety”), publicado originalmente em Maio de 1953 na revista “Space Science Fiction” e posteriormente incluído nas principais coletâneas de histórias do autor, tornando-se um de seus contos antigos mais conhecidos e apreciados.
A história poderia ser resumida como um pesadelo Darwiniano cibernético: a ação se passa numa França em ruínas (daí o título original do conto), depois de toda a Europa devastada pela Terceira Guerra Mundial, quando os grandes paises envolvidos na Guerra Fria chegaram definitivamente às vias de fato e se exterminaram mutuamente. No meio da total devastação, americanos e russos ainda se esbofeteavam miseravelmente, mas os russos estavam ganhando - haviam praticamente devastado a América do Norte com seus poderosos mísseis nucleares. Os americanos, é claro, reagiram ferozmente, alimentando a idéia de que os russos é que haviam começado, mas pouco puderam fazer para remediar a situação, exceto emigrar para a Lua e ali estabelecer uma base estratégica. Mas a coisa começou a mudar de figura quando eles - os ianques - inventaram as garras-robôs, pequenas esferas de metal dotadas de lâminas mortais, auto-suficientes. Eram produzidas na Terra, nas antigas fábricas de mísseis, agora praticamente esquecidos.
No início as garras eram toscas, facilmente detectáveis e eliminadas, mas com o tempo seu desenvolvimento foi ficando cada vez mais sofisticado e complexo, acabando por se tornarem uma arma decisiva para os americanos, baseados na Lua. Acontece que mesmo os americanos, depois de seis longos anos de disputas sangrentas, começaram a perceber a ameaça cada vez maior representada pelas garras-robôs, pois acabaram se tornando completamente independentes e auto-suficientes, fabricando-se a si mesmas aos milhares nas imensas fabricas subterrâneas, longe da desnecessária supervisão humana; passaram, por iniciativa própria - Deus sabe quando e por que - a se auto-aperfeiçoarem.

A única coisa que protegia o ser humano das garras era uma pulseira emissora de radiação, capaz de bloquear temporariamente e a uma certa distância o seu mecanismo: sem essa pulseira, era indiferente para as garras o uniforme utilizado pelo humano. Foi quando os seres humanos - russos, americanos e de qualquer outra nação - perceberam que a guerra já estava praticamente ganha - pelas malditas máquinas, quem diria!

No entretempo, uma das frentes de comando russas pede tréguas para os americanos através de um soldado que, desafortunadamente, vira picadinhos miúdos num oceano brilhante de lâminas afiadas - mas consegue fazer chegar seu recado: os vermelhos pedem um representante político de alta patente para a discussão de um possível armistício. O major Hendricks decide ir. No caminho ele encontra um garotinho solitário, David, que o acompanha. Mas, chegando a casamata russa, David é impiedosamente destruído pelos soldados vermelhos. Descobre-se, então, que o pirralho não passava de um andróide ultra-sofisticado, só esperando uma oportunidade de entrar em locais de grande concentração humana para iniciar uma carnificina sangrenta e rápida. Os soldados contam a um estupefato Hendricks que David era um dos novos modelos de exterminadores, fabricado às centenas e completamente idênticos, classificados como “variedade três”. A “variedade um” é representada por uma espécie de “soldado ferido”, também fabricado às centenas para enganar e penetrar em possíveis postos de comando humanos. Esses novos modelos aperfeiçoados não são afetados pelas pulseiras de radiação. O socialismo perfeito - e terrível - na visão xenofóbica de Philip Dick.

A pulga atrás da orelha surge quando, entre os humanos, todos desconhecidos entre si, cogita-se quem, diabos, poderia ser a misteriosa “variedade dois”. Essa mesma variedade dois que, uma vez chegando a base lunar, o único local teoricamente livre dos assassinos cibernéticos, poria um fim definitivo na esperança humana de remediar a situação e fazer frente à máquina, numa batalha pela posse do planeta. A partir daí é que Dick entra em seu elemento preferido, explorando a paranóia e o pavor de uma situação bem característica de sua ficção, até culminar num final que, se não chega as ser inteiramente imprevisível, surpreende pelo tom amargo com que imprime a frágil condição humana tanto do ponto de vista individual quanto coletivo; o homem insistindo em sua própria destruição mesmo em frente a perigos maiores com os quais voltar sua energia. E ele não se restringe ao homem: cria andróides que, uma vez dado o passo crucial para a evolução, passam a destruírem-se a si próprios, como verdadeiros seguidores de uma seleção natural impiedosa.

Rodado no Canadá e ali recebendo o sofisticado título de Screamers - Larmée Souterraine, Assassinos Cibernéticos é uma capitulação quase literal desse famoso conto apocalíptico, chegando às telas numa colaboração Canadá/Estados Unidos/Japão e numa produção modestíssima dirigida por Christian Dugway, a partir do roteiro de Dan O‘Bannon e Miguel Tejada Flores. É um filme pouco conhecido e bastante criticado, embora tenha virtudes suficientes para dar ainda mais consistência à teoria de que Dick, até agora, está sendo incrivelmente bem aproveitado pelo cinema. Uma de suas virtudes, por exemplo, é o fato de ser bastante fiel ao conto, embora transfira a ação da Terra devastada em decorrência de uma Guerra Mundial para um planeta distante envolvido em disputas político-comerciais. Outra virtude é proveniente de uma fraqueza: a boa qualidade de seu rendimento cênico em vista de seu orçamento vergonhoso.

Agora estamos no ano de 2078, numa gigantesca colônia de mineração no planeta Sirius 6B, outrora dominado pela mega corporação do Novo Bloco Econômico (NBE), que controla a mineração de todos os sistemas solares. No planeta foi descoberto o berínio, a solução para a crise mundial de energia; o problema é que a substância emitia doses letais de radiação e poluição, obrigando a Aliança, uma importante federação de mineiros e cientistas, a exigir o término imediato das operações no planeta. A reação do NBE foi declarar guerra total à Aliança, fazendo ressurgir, na Terra, uma nova espécie de Guerra Fria entre os poderosos, mas por enquanto limitada somente a Sirius 6B. É desnecessário dizer que, nesse caso, os vilões antiecológicos do NBE representam os russos, enquanto a Aliança, misteriosamente desprezando as riquezas infinitas propiciadas pelo berínio em favor do bem estar do planeta e de seus colonos, se faz passar pelos americanos, os mocinhos da história. Mas não demora muito e descobrimos que essa visão, é óbvio, não passa de uma ilusão completamente ridícula em sua falta de precedentes: a guerra estava simplesmente sendo transferida de Sirius 6B para Triton 4, sem que os colonos do primeiro planeta soubessem de nada. Abandonados e descartados numa jogada política de interesses comerciais, agora a única coisa que têm a fazer é lutar com a ameaça mortal que eles mesmos criaram para ganhar a guerra contra o NBE: os assassinos cibernéticos “screamers”, mortíferas garras-robôs que se auto-aperfeiçoaram nas gigantescas fábricas abandonadas do planeta. São chamados de “screamers” porque, quando descobertos, eles literalmente gritam, para assustar aos humanos e chamar a atenção de outros andróides.

Fora esse expediente absolutamente normal de atualização temática, o filme segue bastante fiel ao extraordinário conto de Philip Dick, reproduzindo até mesmo passagens inteiras de diálogos e situações, com um inspirado Peter Weller (Robocop - O Policial do Futuro) encabeçando e conduzindo firmemente um elenco formado exclusivamente por desconhecidos. Se no conto vemos um exercício habilidoso de neurose e paranóia (elementos que se tornariam cada vez mais constantes na obra do autor), tendo como pano de fundo uma crítica costumeira à Guerra Fria - então no auge de sua postura como fonte inspiradora aos escritores, principalmente, de ficção científica - na transição do roteiro para a tela essas idéias se tornam menos declarações que ecos, num pano de fundo ecológico que, se não chega a convencer como autêntico, ao menos se esforça para não parecer demagógico - como seria de se esperar numa produção barata feita com seriedade: centra-se apenas naquilo que no próprio conto era a matéria principal, ou seja, as máquinas assassinas. Quanto aos aspectos técnicos, o filme se equilibra modestamente entre o bom e o regular, tendo até mesmo alguns momentos inspirados, dada a sua precariedade de grana; as imagens externas do planeta Sirius 6B são muito boas, e os técnicos não se furtam em utilizar à vontade a nostálgica e hoje obsoleta técnica “stop-motion” (quadro a quadro) para dar vida a seus pequenos robôs, numa era onde os recursos de computação gráfica já haviam revelado coisas como O Exterminador do Futuro II - O Julgamento Final (Terminator 2: Judgment Day, 1991) e O parque dos Dinossauros (Jurassic Park, 1993), ambos considerados divisores de água no que se refere a efeitos especiais. De verdadeiramente negativo mesmo nessa produção, encontra-se seu final medíocre, diferente daquele imaginado por Dick e completamente deslocado do resto da ação; é verdade que o ursinho de pelúcia do garoto-robô David sugere um final pessimista, depois de, na última seqüência, se revelar como um outro tipo de variedade, agora em direção a Terra (embora seja difícil de engolir que um pequeno ursinho, mesmo dotado de garras mortíferas e más intenções, possa fazer algum estrago realmente significativo), mas aquela história da andróide Jéssica (Jennifer Rubin) se apaixonando pelo herói da história e até mesmo ajudando-o na fuga soa como algo forçado demais, não condizente com a atmosfera da história e muito menos com o universo do autor. Um triste detalhe que impediu esse filme de se tornar mais conhecido e, talvez, um pequeno clássico da produção B. Parece que são poucos os que entendem Dick verdadeiramente - e ainda menos os que entendem os figuras envolvidos com o cinema.

SCREAMERS - ASSASSINOS CIBERNÉTICOS (Screamers, Estados Unidos/Canadá/Japão, 1995). Duração: 108 minutos
Direção: Christian Duguay
Roteiro: Dan O'Bannon e Miguel Tejada-Flores, baseado em uma história original de Philip K. Dick
Produção: Franco Battista; Tom Berry
Produção Executiva: Charles W. Fries
Música: Normand Corbeil
Fotografia: Rodney Gibbons
Edição: Yves Langlois
Desenho de Produção: Perri Gorrara
Figurino: Trixi Rittenhouse
Direção de Arte: Michael Devine
Maquiagem: Roxy D'Alonzo,
Elenco: Peter Weller (Hendricksson), Roy Dupuis (Becker), Jennifer Rubin (Jessica), Andrew Lauer (Ace Jefferson), Charles Powell (Ross), Ron White (Elbarak), Michael Caloz (David), Liliana Komorowska (Landowska), Jason Cavalier (Leone), Leni Parker (Cpl. McDonald), Sylvain Massé (NEB Soldier), Bruce Boa (Green)

Aliens que olham para Olham

Impostor (Impostor, 2002): a quarta das adaptações da ficção científica de Dick para as telas e a terceira a lhe resgatar uma short story. O conto foi publicado originalmente na edição de Junho de 1953 do “Astounding Science Fiction”, de Mr. John W. Campbell Jr., sendo um dos textos ficcionais mais curtos de Philip Dick, uma brincadeira rápida e mortal num tema em que ele particularmente adorava trabalhar: a confusão de personalidade e suas conseqüências.



Já desde cedo demonstrando interesse em desvirtuar o foco da maioria das histórias de ficção científica de então, que se preocupavam mais com a tecnologia do que com a introspecção, Dick percorre um caminho já trilhado tanto por Theodore Sturgueon quanto por Alfred Bester, mas o faz de uma maneira tão particular que, posteriormente, passaria a ser considerado como o legítimo precursor de uma nova mentalidade para o gênero, chamada “New Wave”, cuja preocupação era trabalhar não com os conceitos externos do desenvolvimento humano (como a tecnologia, por exemplo, e as ciências exatas em geral), mas internos (como a psicologia e as demais ciências humanas). O “Impostor” já demonstra isso claramente. É uma história de guerra espacial como tantas outras, mas Dick faz a diferença: ele não está nem um pouco interessado no poder das naves terrestres e alienígenas, na pirotecnia científica dos envolvidos, ou mesmo na ideologia dos antagonistas; ele está preocupado apenas no conflito existente no íntimo de seu personagem, na sua postura em relação a tudo isso e no modo como esse personagem - Spencer Olham (pronuncia-se “Ourram”) - trabalha com a questão, ao mesmo tempo em que o mundo desaba a seu redor. E essa idéia, esse conceito fixo, não se limitará e esses seus primeiros trabalhos, mas o seguirá como uma obsessão ao longo de toda a sua obra, tornando-se cada vez mais complexo, até culminar no momento em que o autor a abrangerá de maneira religiosa, na sua fase mais controversa e especulativa.

O conto: num futuro indeterminado a raça humana se vê forçada a entrar numa guerra mortal contra invasores hostis de Alfa Centauri. Para diminuir um pouco a devastação causada pelos poderosos centaurianos, foram criadas as bolhas de proteção, que envolvem cidades inteiras e servem de escudos aos ataques cada vez mais intensos dos inimigos; o processo está se demonstrando eficaz e poderá ser uma boa maneira de segurar as coisas até uma contra-ofensiva mais objetiva. Spencer Olham é um dos cientistas-chave envolvidos num projeto mais arrojado, que poderá ser decisivo na guerra contra os centaurianos. O problema é que, num belo dia, a alta segurança do Projeto passa a acreditar que Olham não é mais Olham, mas um simulacro-bomba enviado pelos centaurianos para destruir a tentativa de contra-ofensiva terrestre, um robô humanóide que havia conseguido penetrar na bolha de segurança e agora, tomado o lugar do verdadeiro Olham, dirigia-se ao centro do Projeto para, depois de pronunciada uma determinada frase padrão, detonar tudo com a bomba-U. A guerra está comendo frouxa e não há tempo para averiguações - Olham deverá ser destruído. Depois de ser levado até a Lua, ele consegue enganar os agentes de segurança e voltar a Terra. Ora, ele sabe que tudo não passa de um engano, um terrível engano, droga!, e só resta encontrar a nave que atravessou o escudo e seu miserável andróide centauriano original para, diante das malditas autoridades apressadas, provar sua inocência. Depois de muita perseguição e correria, Olham consegue realizar seu objetivo: encontra a nave e o maldito humanóide alienígena, isso no exato momento em que os agentes do governo o localizam. Ele prova que estava com a razão, até que Nelson, seu melhor amigo, retira a faca ensangüentada do peito do verdadeiro Olham, dentro da nave...



“Mas se esse é Olham, então eu devo ser...” Estarrecido, ele descobre, de fato, a terrível verdade; o caso é que “a explosão foi ouvida até em Alfa Centauri”.

É incrível o volume de dramaticidade, cumplicidade e ação que Dick consegue criar em tão reduzido número de páginas, e ainda por cima nos jogar de encontro ao pavor do personagem a ponto de nos fazer simpatizar por ele. Sim, hoje é fácil dizer que o conto é previsível; hoje - depois de lida e, senão assimilada, pelo menos captada, as principais facetas dos trabalhos do escritor - é fácil dizer que seu desfecho está claramente escrito desde as primeiras sentenças. Mas isso não vem ao caso. Com freqüência, as pessoas se referem a esse tipo de trabalho que Dick realizava como sendo parte do tema do “homem errado”, então tornado clássico nas mãos de Alfred Hitchcock, quando, muito pelo contrário, raramente havia engano e o personagem, quando distorcido por algum motivo na malhas da realidade (ou aquilo que ele acreditava como realidade), é porque, até então, ele é que estava no lugar errado, ou na época errada, ou de maneira errada, sendo vítima de circunstâncias extraordinárias e além do conhecimento comum. E “Impostor” não é uma exceção.
Meio século depois de ter sido escrita, a história ganhou uma adaptação cinematográfica. Impostor chegou às telas em meados de 2002 pelas mãos do eficiente Gary Fedler, com Gary Sinise (que também participou da produção) encabeçando um elenco muito bem colocado e disposto.
Vincent D’Onófrio (no papel do implacável chefe da segurança, Major Hathaway) rouba todas as cenas, numa performance sensacional. De todas as adaptações de Dick para as telas feitas até o momento, esta, sem dúvida, é a mais fiel. Estamos agora no ano de 2079, no auge de uma longa guerra com as criaturas mal intencionadas de Alfa Centauri I; todas as principais cidades da Terra estão envolvidas em gigantescos campos energéticos que formam uma espécie de bolha protetora, enquanto um projeto especial do governo norte-americano, desenvolvido por Spencer John Olham, finaliza uma arma que talvez possa decidir definitivamente a batalha. E o resto é história.

Resta a Spencer correr atrás do prejuízo e provar sua “inocência”... Fugas espetaculares, correria, reviravoltas e muita ação preenchem esse movimentado thriller ambientado numa cidade completamente caótica e opressiva, onde alta tecnologia convive com a miséria de guetos isolados e governos corruptos (qualquer semelhança com nossa atualidade não é, tenho certeza, mera coincidência). A crítica social é uma faceta da boa ficção científica desde seus primórdios, e se o filme aproveita para dar sua versão dos fatos, não faz nada que Dick já não tenha feito. Mas se o pano de fundo é óbvio, a ação, pelo menos, se volta para o personagem, revitalizando a visão do autor e lhe sendo fiel tanto quanto os interesses comerciais dos envolvidos com cinema permitiram - e, nesse caso, realizando um verdadeiro tour de force de autenticidade inventiva. Tanto o personagem do conto quanto o do filme é retratado como réplica perfeita do verdadeiro Olham, com emoções e tudo, e isso é o rolo propulsor de toda o suspense dessa magnífica história. É verdade que no filme essas “emoções” do personagem são levadas ao extremo, transformando-o, simulacro ou não, num verdadeiro herói social, preocupado com os outros e, principalmente, com aqueles que lhe eram mais próximos.
A única mudança significativa feita na versão em roteiro é a inclusão da esposa de Spencer, a senhora Maya Olham (a belíssima Madaleine Stowe), como um outro andróide-bomba enviado pelos centaurianos, juntamente com seu marido.
É dramática a cena final, quando ambos descobrem a verdade momentos antes de produzirem uma enorme cratera nos quilômetros circundantes. Essa modificação, aliás, é incrivelmente bem sucedida, já que tem a virtude de pegar desprevenidos aqueles que já conheciam o conto e não alterar a essência e o impacto da história original (é verdade que com Hollywood não se brinca, e o simples fato de o final ter sido concluído de maneira pessimista, tal como no conto, já é de surpreender). Quanto aos aspectos técnicos e visuais, não há nada a dizer.

O que surpreendeu, realmente, nessa história toda, além da boa qualidade do filme, foi a total indiferença da mídia brasileira em relação a ele; é impressionante como essa produção passou despercebida por aqui, e a teoria mais válida, nesse caso, foi a quase simultaneidade do lançamento da superprodução de Steven Spielberg para o seu Minority Report, que também trazia o nome de Philip Dick nos créditos - além de outro, muito mais importante para o freqüentador de cinema padrão, Tom Cruise - e por isso desencorajou, ou confundiu, a cabeça dos tupiniquins, redundando em seu esquecimento. Não é paranóia: é só pegar qualquer jornal, revista, livro, ou fanzine nacional, nas partes dedicadas a cinema, correspondentes à época de lançamento do filme, e muito pouco, ou nada, estará relacionado a Impostor, exceto uma nota rápida num Box obscuro, quando muito. E parece que o fenômeno se estende também aos americanos - mas no caso deles a coisa é mais facilmente compreensível. Também há uma segunda hipótese, mais sombria: talvez só eu tenha gostado dessa produção!



IMPOSTOR (Impostor, Estados Unidos, 2002). Duração: 96 minutos
Direção: Gary Fleder
Roteiro: Caroline Case, Ehren Krueger e David N. Twohy, baseado em estória de Philip K. Dick
Produção: Gary Fleder, Marty Katz, Daniel Lupi e Gary Sinise
Música: Mark Isham
Fotografia: Robert Elswit
Edição: Bob Ducsay e Armen Minasian
Desenho de Produção: Nelson Coates
Figurino: Abigail Murray
Direção de Arte: Kevin Cozen
Elenco: Gary Sinise (Spencer John Olham); Scott Burkholder (Jack Stoller); Lindsay Crouse (Chanceler); Vincent D'Onofrio (Agente D.H. Hathaway); Gary Dourdan (Capitão Burke); Tim Guinee (Dr. Carone); Tony Shalhoub (Nelson Gittes); Madeleine Stowe (Maya Olham); Tracey Walter (Sr. Siegel); Golden Brooks (Irmã de Cale); Shane Brolly (Tenente Burrows); Mac Sinise (Jovem Spencer)

Relatório da Minoria é o de menos

Chegamos ao Minority Report - A Nova Lei (Minority Report, 2002), um dos mais comentados e badalados filmes de ficção científica dos últimos anos.
Apesar de ter recebido críticas bastante negativas nos Estados Unidos, essa superprodução de Steven Spielberg, em parceria inédita com o astro Tom Cruise, superou em muito as expectativas de fãs e admiradores tanto deles mesmos quanto de Philip K. Dick. Spielberg é geralmente conhecido pela sua visão sentimental, purista, antifatalista, do mundo - um otimista, portanto; exatamente o oposto do autor cuja obra vem sendo cada vez mais seriamente analisada pelos entusiastas e simples apaixonados pelo gênero. Por que, então, registrou-se essa união marcante e extremamente bem sucedida de ambos?

Minority Report” (“Relatório da Minoria”) foi publicado pela primeira vez em janeiro de 1956 na revista “Fantastic Universe”. É outro dos trabalhos curtos de Dick, uma noveleta escrita não muito depois de ser publicado seu primeiro romance de ficção científica, “Loteria Solar” (“Solar Lotery”, 1955), além de ser um de seus textos mais imaginativos e controversos. (Segundo John Clute, na “Science Fiction - The Ilustrated Encyclopédia”, grande parte dos primeiros trabalhos do autor não apareceu senão depois de sua morte - tornando-se hoje objetos de culto -, mas é certo que no começo dos anos 50 ele já havia publicado alguns pequenos romances contemporâneos, rotineiros, geralmente ironizando o american way of life do dia a dia californiano e seus reveses contra-culturais).



Num futuro indeterminado, John Anderton é o criador e diretor da Precrime, a organização não governamental da cidade de Nova Iorque que conseguiu reduzir a taxa de criminalidade quase à zero, graças à utilização de três mutantes precognitivos capazes de ver o futuro. A organização combate o crime de uma maneira ousada: antes de ele ser cometido. Os mutantes vêem o futuro e repassam os dados obtidos ao computador central; este analisa o que é de interesse para sua agência (os crimes, no caso) e ejeta um cartão com o nome da futura vítima e seu criminoso, que serão ambos alertados antes que se efetive a previsão. O criminoso, obviamente, será detido. O método é um sucesso e sua aplicação no resto do país é apenas uma questão de tempo, até o momento em que o cartão ejetado pelos mutantes traz o nome de John Anderton como um futuro criminoso. Como Anderton é a primeira pessoa a ter acesso aos cartões, ele terá uma chance de fugir e descobrir o que houve de errado com o processo - sim, houve algo errado, porque ele nem sequer conhece a vítima. O problema é que uma cópia do cartão cai instantaneamente no Quartel General do Exército, agora inoperante e obsoleto (e rancoroso por causa disso), de modo que simplesmente destruir o cartão não será o suficiente: ele precisará agir para provar sua inocência. Estaria sendo vítima de uma gigantesca conspiração organizada pelo seu próprio pessoal, no intento de tira-lo do cargo? Estaria sendo vítima do Exército, louco para recuperar as rédeas da situação e provar a ineficácia do sistema? O sistema de prevenção do crime por ele inventado seria, afinal de contas, realmente infalível?

Ora demonstrando a integridade da Precrime, ora expondo suas fraquezas, Dick trabalha com esses elementos e especula na validade ou não de sua própria criação. Ele sabe que, embora aparentemente infalível, o sistema é apoiado numa linha de raciocínio extremamente paradoxal. A Precrime se baseia no principio de que, utlizando-se três mutantes precognitivos “cientificamente” capazes de prever o futuro, e havendo concordância entre pelos menos dois desses precognitivos (o relatório da maioria), em oposição à discordância do terceiro (relatório da minoria), é matematicamente infalível de que esse futuro previsto se concretize. Entretanto, a contradição surge no fato de que, assim que a informação precognitiva é obtida, ela é cancelada por si mesma, ou seja, essa revelação pode mudar o ato futuro completamente, inocentando o assassino em potencial. Afinal, ele jamais cometeu o crime, pois os mutantes são capazes de prever não os eventos futuros, mas apenas o futuro como uma possibilidade aberta, passível de ser alterada, portanto.

A idéia é extremamente complexa, não há dúvidas, e, nas mãos de Dick, se transformou num exercício político-social extremamente fascinante e habilidoso, mais tarde trabalhado e expandido novamente em seu romance “Ubik” (Idem, 1969). Contudo, alguns anos antes do conto ser publicado, Alfred Bester já havia trabalhado com o tema em seu livro “O Homem Demolido” (“The Demolished Man”), ganhador do Prêmio Hugo de 1952. O romance de Bester é uma complicada trama policial futurista envolvendo uma sociedade em que o crime é detectado e impedido por telepatas secretos infiltrados em todos os setores do governo - inclusive na polícia. Mas aqui as implicações escorregam para uma outra tangente.

Ambientado em Washington DC no admirável mundo novo de 2054, o Minority Report de Spielberg acrescenta elementos à história mas não altera sua essência básica; pode-se dizer que a releitura é fiel, com uma nova rede de motivações impulsionando John Anderton (Tom Cruise) para a descoberta do significado verdadeiro do sistema, por ele defendido com unhas e dentes, funcionando apenas como uma forma de expandir o roteiro para duas horas e meia de projeção e, também, como uma necessária atualização temática.



É verdade que Spielberg é um crente fervoroso no sistema (em geral) e que, por isso, tenha diluído a controversa trama político-ideológica dickiana em favor de uma culpabilidade individual talvez um tanto forçada, o que desagradou a muitos fãs do autor. Se no conto Anderton era apenas uma das peças desse enorme quebra-cabeça de conspirações governamentais, um fluxo contínuo para desenvolver algo muito mais complexo, no filme a coisa funciona de maneira diferente. Agora, por exemplo, ele tem sobre si a pressão de um filho assassinado e usa a Precrime como um meio de se vingar de assassinos em potencial e como uma forma de se libertar de seus antigos traumas e paranóias. A utilização de drogas que faz é apenas uma alternativa menor. Aqui não há intrigas com um Exército inoperante; em seu lugar, há intrigas entre os próprios criadores da Precrime, principalmente na figura de Lamar Burgess (Max Von Sidow), defensor fervoroso do sistema - embora ciente de sua ineficácia - e disposto a sacrificar não só a Anderton mas qualquer um que cruzar o seu caminho para continuar expressando sua fé paradoxal. Paranóia e medo do governo, representados na figura de Denny Witwer (Collin Farrel), disposto a espremer cada possibilidade de falha por parte da Precrime antes de uma possível implantação do sistema no resto do país. Há também um visível desconforto na utilização dos pré-cogs como arma de combate ao crime - embora alterados geneticamente numa experiência anterior, são humanos, afinal de contas, e não parece ter havido um entendimento mútuo de ambas as partes para a implantação do sistema. (No conto, os pré-cogs são três mutantes débeis mentais deformados e grotescos, inteiramente presos na realidade futura). E embora o filme conclua demonstrando as falhas do sistema (sob uma ótica diferente daquela utilizada por Dick), e como ele pode ludibriar-se a si mesmo, as previsões dos pré-cogs, sob a liderança da pré-cog principal, Agatha (Samantha Morton), de qualquer forma não deixaram de se cumprir: Anderton matou aquele que estava previsto para matar e o próprio Lamar teve um fim previsto.

Por mais que a tecnologia avance e se imponha na sociedade de então, fica claro que as falhas continuam sendo humanas - sempre haverá formas de utilizar o avanço para fins obtusos, e Dick já vinha escrevendo sobre isso desde a década de 50; em sua visão pessimista, ele jamais acreditou que o homem, um dia, fosse se beneficiar plenamente da tecnologia - não pela tecnologia em si, mas pela sua própria mente auto-destrutiva, pronta a tirar vantagem de tudo e de todos. Andróides, memórias implantadas, memórias subtraídas, contatos alienígenas, novas drogas, tudo pode verter à sociedade sob forma de ameaça, e não importa o tipo de controle inventado a fim de se conseguir um equilíbrio. Se a falha não for do sistema, será do indivíduo, e vice-versa.



Fora isso, a história é pura diversão e fantasia, num ótimo trabalho de um diretor que foi duramente criticado pouco antes pela sua insossa continuidade ao projeto engavetado de Stanley Kubrick, A. I. - Inteligência Artificial (A. I., 2002), baseado em conto de outra grande figura da ficção científica, o inglês Brian Aldiss. A beleza plástica das cenas é incomparável, e a fotografia um caso a parte de realização superior em tecnologia digital, como é possível ver só mesmo no cinema spibergueniano.

Ao que parece, e, é claro, utilizando-se daquelas velhas ressalvas, com esse filme ele se reabilitou. Tom Cruise está sendo elogiado até agora pela sua interpretação de John Anderton, e o restante do elenco não fica atrás, destacando-se o trabalho do veterano Max Von Sidow, implacavelmente convincente na pele de Lamar Burguess. A música é do mestre John Williams, e não demorará nada para Minority Report ser incluído na categoria dos clássicos. Entre seus momentos memoráveis, está a cena de abertura, quando os soldados da Precrime impedem um marido cornudo de cometer um assassinato; ou a supercitada cena das aranhas rastreadoras cibernéticas, num momento de alta tensão na trama; e também a concretização do crime previsto para o próprio Anderton.

Mas, logicamente, é necessário registrar o maior aspecto negativo dessa produção: sua ambientação futurista. O futuro de Dick é conturbado, suas cidades são centros urbanos de pavor e caos, seus personagens estão para heróis assim como Arthur Schopenhauer está para a literatura infantil; quando não ambientadas dentro de uma guerra, suas histórias quase sempre se desenvolvem após o mundo ter passado por uma delas - como é o caso de “Minority Report”. Ou seja, o futuro que ele imaginou é o futuro que nos espera realmente - ou você ainda tem alguma dúvida? Assim, uma boa maneira de se visualizar esse futuro é pegar a trama de Spielberg, enxugá-la de seu sentimentalismo conservador e barato e inseri-la no universo visual e estético do filme Brazil (Idem, 1985), de Terry Gilliam, que continua sendo a melhor transposição dickiana para as telas, ainda que não baseada em uma das obras do autor. O Blade Runner também apresenta uma visão bem apurada do futuro imaginado por Dick - ora, mas o Blade Runner é o Blade Runner.

MINORITY REPORT - A NOVA LEI (Minority Report, Estados Unidos, 2002). Duração: 145 minutos
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Jon Cohen e Scott Frank, baseado em estória de Philip K. Dick
Produção: Jan de Bont; Bonnie Curtis; Gerald R. Molen; Walter F. Parkes
Produção Executiva: Gary Goldman; Ronald Shusett
Música: Bob Kurtz; Paul Haslinger; Guy Moon; John Williams
Fotografia: Janusz Kaminski
Edição: Michael Kahn
Desenho de Produção: Alex McDowell
Figurino: Deborah Lynn Scott
Direção de Arte: Ramsey Avery; Leslie McDonald; Seth Reed; Paul M. Sonski
Elenco: Tom Cruise (John Anderton); Colin Farrell (Danny Witwer); Samantha Morton (Agatha); Max Von Sydow (Pre-Crime diretor Lamar Burgess); Lois Smith (Dr. Iris Hineman); Tim Blake Nelson (Gideon); Steve Harris (Jad); Patrick Kilpatrick (Jeff Knott); Jessica Capshaw (Evanna); Anna Maria Horsford (Casey); Michael Dickman (Arthur); Matthew Dickman (Dashiell)

Lembre-se: você não vai se arrepender

O Pagamento (Paycheck, 2003) aparece como a sexta adaptação dickiana para o cinema e a quinta baseada numa história curta, “O Pagamento” (“Paycheck”), cuja publicação original apareceu em Junho de 1953 num obscuro magazine de ficção científica chamado “Imagination”.



Talvez esteja havendo uma super-faturação de oportunismo quanto ao trabalho de Dick, já que seu nome passou a ser, definitivamente, um nome mágico não só para uma crescente legião de fãs espalhados pelo mundo inteiro, mas também para uma leva cada vez mais interessada de figurões do alto escalão cinematográfico norte-americano (nos cartazes originais e até mesmo nos créditos iniciais de Blade Runner não aparecia sequer o nome do autor da história original. Hoje, seu nome é quase que mais importante que o do astro principal, sendo geralmente destacado em letras garrafais: “Baseado em história de Philip K. Dick”...). Mas a verdade é que, para um autor que em vida jamais viu seus trabalhos sendo tratados com a seriedade que mereciam (exceto o romance “O Homem do Castelo Alto”, ganhador do prêmio Hugo de 1963), a desenfreada procura de textos de sua autoria se destaca como uma daquelas reviravoltas alucinantes e inesperadas que o próprio Dick gostava de imaginar.

“Paycheck” é uma história interessante e ousada, mas não uma grande história; Dick tem contos muito melhores e mais bem elaborados e é discutível o método utilizado pelo cinema para a escolha de adaptação de seus escritos, mas isso não vem ao caso. É um conto ágil e fluente, com um fluxo de ação de tirar o fôlego, mas é fácil perceber a pressa com que foi escrito, como se o autor o tivesse mandado a um editor tão logo a última lauda ficasse pronta, sem muito recalque ou polimento; as frases são curtas e os diálogos, rápidos; os personagens são levemente delineados e a trama - bem inteligente, por sinal - parece ter sido desenvolvida tendo em mente uma possível adaptação para o cinema, ou para os quadrinhos, dada a sua economia de caracteres e sua agilidade, como se algo mais que um roteiro - o que não foi o caso, obviamente. No entanto, ele tem personalidade.

Na história, Jennings é um renomado mecânico eletrônico contratado por uma misteriosa empresa - a Empreiteira Rethrick - para um serviço secreto que durará dois anos, ao término dos quais ele terá sua memória apagada, a fim de manter em total segredo o serviço que ele prestou. Em compensação, ele receberá, pelo serviço, a extraordinária soma de cinqüenta mil créditos. Rotina. O problema é que, ao se dirigir ao escritório da empresa para arrebanhar a soma, ele descobre que seu polpudo pagamento foi substituído por um saquinho de pano cheio de miudezas. Indignado, ele reclama, mas é forçado a aceitar esse pagamento estranho visto ter sido ele mesmo quem assim o desejou, pouco antes de ter sua memória subtraída, como consta de sua assinatura ao final do contrato. As miudezas são: uma chave codificadora, um canhoto de passagem aérea, um recibo de depósito, um pedaço de pano verde, um rolinho de arame fino, metade de uma ficha de pôquer e uma passagem de ônibus. Ao sair do escritório da empresa ele é abordado pela Polícia de Segurança, que quer detalhes de seu relacionamento com a Empreiteira Rethrick - detalhes que ele está longe de “lembrar”, é claro. Percebe que está em apuros, mas então descobre, afortunadamente, que aquelas bugigangas todas, na sacolinha de pano, são muito mais do que apenas bugigangas de sacolinha de pano: são seu passaporte para a segurança e para um futuro promissor. De alguma maneira, antes de ter sua memória apagada, ele sabia de antemão o que ia lhe acontecer no futuro e por isso tomou as devidas providências para ter sempre à mão o que precisaria para contornar os problemas que já conhecia e que teria de enfrentar. “Um bolso cheio de milagres, de alguém que conhecia o futuro!”. É então que começa a suspeitar do serviço ultra-secreto que realizava enquanto funcionário da Empreiteira Rethrick...



É uma espécie de história sobre viagem no tempo, um tema não muito explorado na ficção dickiana, mas aqui abordado de uma maneira peculiar e original: não há propriamente uma viagem no tempo, mas é como se houvesse, pois o personagem, durante seu trabalho secreto na empresa, não só tem acesso a uma “sonda temporal”, como é um dos principais técnicos responsáveis pela sua manutenção e ajustes. E assim, mais do que ninguém, ele está apto a saber o que terá pela frente em relação ao futuro, principalmente, de si próprio. Quem, um dia, tiver uma chance dessas e não utiliza-la para lhe arrumar um futuro promissor, ou deve ser um idiota completo ou deve ter uma imaginação muito limitada. E é isso que Dick explora em seu plot delicioso, um veículo que, além de tudo, ainda é cheio de sub-tramas políticas mordazes. Se não bastassem as mazelas de seus próprios problemas pessoais, o personagem ainda se vê jogado entre os interesses impiedosos de duas forças maiores: o poderio político e o comercial, num futuro autoritário, aparentemente ditatorial, onde há uma Polícia de Segurança - assim mesmo, com ênfase nas iniciais maiúsculas - que detêm poder quase ilimitado (como nos velhos tempos do nazismo, fascismo e stalinismo) - e numa sociedade onde até crianças são ensinadas a delatar.

E, quem diria, John Woo, o mestre da ação e da pancadaria, levando isso para as telas!

O filme surgiu em meados de 2003 e é basicamente fiel ao conto original, embora dilua esse plot de conspirações políticas em detrimento de uma temática mais atualizada, mais de acordo com o cinemão hollywoodiano do século XXI, preocupado essencialmente não em especulações crítico-filosóficas, mas em rendimento certo e sem maiores compromissos.

Agora Mike Jennings (Ben Affleck) é um sofisticado engenheiro high-tech contratado vez ou outra por grandes companhias para roubar tecnologias de computação alheias e aperfeiçoa-las a seu modo, seguindo uma filosofia que o próprio personagem não tem qualquer remorso em expor, em alguma parte da trama: “Às vezes é mais fácil pegar o que já existe”. Geralmente é um trabalho que envolve tempo, às vezes se estendendo por anos, sendo que no final desse tempo de serviço prestado ele tem sua memória apagada por questões de segurança, tanto para si mesmo como - principalmente - para a empresa que o contratou. A tarefa de lhe limpar a memória ele confia sempre a seu amigo Shorty (Paul Giamatti). Num belo dia ele se vê num dilema: aceitar ou não a oferta de uma nova proposta, que consumirá três longos anos de sua vida em memórias, mas que o deixará noventa e dois milhões de dólares mais rico, tudo em ações que se auto-duplicam? Ele topa, e então é contratado pela Allcom, gigante da alta tecnologia comandada por James Rethrick (Aaron Eckarth), ambicioso empresário que desenvolve um projeto científico ultra-secreto. Tudo muito bom, até que ao final desses três anos ele se dirige ao banco para sacar seu polpudo pagamento e descobre, espantado, que preferiu trocar, antes de ter a memória apagada, noventa e dois milhões de dólares por um envelope de papel cheio de miudezas - vinte, dessa vez: um maço de cigarros, um par de óculos escuros bizarros, um tubinho de plástico cheio de bolinhas de metal, chave de contato para uma BMW, e um punhado de outras iguarias obscuras. Sem ter mesmo qualquer chance de reclamar, é capturado pelo FBI e levado para um interrogatório misterioso, do qual ele não faz qualquer idéia. Percebe que está em apuros, mas então descobre, afortunadamente, que aquelas bugigangas todas, no envelope de papel, são muito mais do que apenas bugigangas de envelopes de papel: são seu passaporte para a segurança e para um futuro promissor, coisas que, para ele em específico, nem mesmo noventa e dois milhões de dólares seriam capaz de proporcionar. A vantagem, agora, é poder contar, também, com a ajuda de seu fiel amigo Shorty e de Rachel (Uma Thurman), companheira de trabalho na Allcom e com quem havia convivido em intimidade nos três últimos anos.

Assim como no conto, o personagem se vê preso entre as hostilidades de duas forças maiores: o poderio econômico (representado pelas grandes corporações, diante das quais até mesmo o governo não pode fazer muita coisa) e o político (representado por um governo com sua própria noção de moralidade); Jennings descobre que não passou de um “lavador de roupa suja” nessa história toda, uma marionete impotente e com a imensa desvantagem de que, ao final de tudo, não poderá dar a mínima informação capaz de inocenta-lo; de que foi apenas usado por Rethrick para trabalhar num projeto secreto roubado do governo. Bem, isso se não fosse o fato de esse projeto secreto roubado do governo ser uma lente intensificada por laser, potente o suficiente para bisbilhotar a curvatura do universo, partindo de sua fonte de origem até chegar à sua fonte de origem novamente - trocando em miúdos, uma “sonda temporal”, capaz de ver o futuro. E isso bastava, Jennings de alguma forma sabia, para não só de leva-lo em segurança a um futuro já previamente conhecido como também dar uma prévia do que seria o futuro do mundo caso não houvesse a sua intervenção. E seria um futuro assustador.



Embora esticado e remodelado a maneira clichê do cinema contemporâneo, com direito a um casal de pombinhos apaixonados (mas dessa vez preso em circunstâncias extraordinárias), ao invés de uma Polícia de Segurança estilo Gestapo, o roteiro de Dean Georgaris não toma muitas liberdades em relação ao texto original, mas se encaixa perfeitamente ao estilo truncado e cheio de correria de John Woo; menos pretensioso que Spielberg, Woo manipula a história de maneira calculada e direta, refazendo de maneira essencialmente correta o que era um dos pontos fortes da ficção de Dick: criar um ambiente controverso e curioso, repleto de intrigas paralelas e interligadas, mas ao mesmo tempo dar ênfase total aos problemas centrais de seu personagem. Ao contrário de muitos outros autores de ficção científica, para Dick a razão de ser de suas histórias era o conflito interior que atingia seu personagem principal (talvez um reflexo dos inúmeros problemas interiores que atingiam ao próprio autor), e o filme parece captar essa faceta, ao menos em parte; o que o torna, em síntese, uma boa adaptação, levando-se em conta a “inexperiência” do diretor com a ficção científica.

Numa entrevista, disse John Woo: “Eu realmente amei Blade Runner. Visualmente, foi fantástico, e foi o único filme de ficção científica que me levou às lágrimas. Geralmente eu não espero muita coisa em filmes do gênero... talvez um espanto inicial de alguém acostumado com tiros e pancadaria... Exceto Blade Runner, que teve um suspense, em caráter, maravilhoso”. É verdade que John Woo se transformou num hollywoodiano típico, um artífice cuidadoso e principalmente preocupado em dar seu toque pessoal em cada detalhe - e nesse caso pontuando a história, sempre que possível, com o máximo de ação e correria, tiroteios generalizados e longas, cansativas perseguições e batidas de carros, em sua estética particular e plasticamente bem acabada. Mas quem entrar numa sala de cinema para assistir a um de seus filmes esperando encontrar um filme cabeça, uma homenagem ao Blade Runner é, ou muito inocente, ou muito esperançoso - ou ambos (no entanto, no meio dessa correria toda, o diretor encontra espaço para uma homenagem singela ao clássico de Ridley Scott, na cena em que uma pomba branca, símbolo da liberdade, se impõe em meio a tiroteios e pancadarias). Por isso, e baseando-se no postulado um tanto quanto estreito do próprio diretor, ele incumbiu o roteirista Georgaris de desprezar a “tecnologia” padrão do futuro imaginado por Dick e ambientar a história num futuro que, exceto por pequenos detalhes, não é nada além do que estamos acostumados a ver diariamente a nosso redor - ao contrário, portanto, de Minority Report e seu admirável mundo novo. Segundo o diretor, quanto mais próximo de nossa realidade, mais o espectador se identificará com a história e seu personagem. Ben Affleck é um canastrão notório, mas está muito à vontade na pele de Mike Jennings, enquanto Uma Thurman não se esforça para que seu desempenho seja apontado como algo mais do que apenas razoável - parece bastante contida, pra quem se lembra de um clássico da ação como Pulp Fiction - Tempo de Violência (Pulp Fiction, 1997). De tudo por tudo, é uma pena que não exista uma sonda temporal para podermos alterar o futuro (e o passado) e ver o que seria dessa história toda caso a incumbência de levar esse roteiro para o cinema tivesse caído nas mãos de Terry Gilliam...

O PAGAMENTO (Paycheck, Cadaná/EUA, 2003). Duração: 119 minutos
Direção: John Woo
Roteiro: Dean Georgaris, baseado em estória de Philip K. Dick
Produção: Terence Chang; John Davis; Michael Hackett; John Woo
Produção Executiva: Stratton Leopold; David Solomon; David Solomon
Música: Paul Horn; James McKee Smith; John Powell; John Ashton Thomas
Fotografia: Jeffrey L. Kimball; Gregory Lundsgaard
Edição: Christopher Rouse; Kevin Stitt
Desenho de Produção: William Sandell
Figurino: Erica Edell Phillips
Direção de Arte: Sandy Cochrane
Elenco: Ben Affleck (Michael Jennings); Aaron Eckhart (James Rethrick); Uma Thurman (Dr. Rachel Porter); Paul Giamatti (Shorty); Colm Feore (John Wolfe); Joe Morton (Agente Dodge); Michael C. Hall (Agente Klein); Peter Friedman (Gen. Brown); Kathryn Morris (Rita Dunne); Ivana Milicevic (Maya-Rachel); Christopher Kennedy (Stevens)

Enfim...

Que Philip K. Dick foi dono de uma das mais brilhantes e criativas mentes da ficção científica do século XX não resta nenhuma dúvida, e o fato de a cada dia mais e mais obras suas estarem sendo procuradas e cogitadas como possíveis transposições para o cinema só vem a realçar esse fato elementar. Talvez seja irônico dizer, mas parece que o autor que esteve mais próximo da realidade humana em seus reveses mundanos, em suas contradições individuais e em suas neuroses coletivas, tenha sido justamente aquele que é geralmente acusado de criar as obras mais paranóicas e obsessivas no tocante ao mundo que nos cerca; aquele que, em vida, não foi considerado mais que um alienado. O que mais impressiona em sua obra, no entanto, é o volume de complexidade e introspecção que ele consegue transmitir em histórias que, às vezes, não passam de uma dúzia de páginas. Seus contos têm um fluxo constante de ação e desenvolvimento; as histórias começam a todo vapor e simplesmente não há tempo para longas exposições ou cuidadosas delineações de personagens - no entanto, algo salta à vista: esses personagens, de alguma forma insuspeita, conseguem ter personalidade. Não é o caso de você apagar da mente o personagem e se concentrar na idéia - porque, sem o personagem a idéia simplesmente não funcionaria. Talvez tenha sido essa faceta peculiar de seus trabalhos curtos que tenha feito com que, das seis adaptações de suas histórias para o cinema feitas até o momento, cinco provenham de contos.

Certa feita, um crítico americano disse que Philip Dick tinha uma torrente tão forte de idéias que temia não coloca-las a tempo no papel antes que evaporassem de sua cabeça. Daí sua inclinação obsessiva pelo uso de drogas nas longas e intermináveis jornadas criativas que dedicava à sua surrada máquina de escrever. Do álcool às anfetaminas, em certos momentos de sua vida Dick foi uma verdadeira farmácia ambulante, não somente em busca de idéias e inspiração, mas em busca também de uma descoberta interior que ele não cansou de modelar e remodelar em seus inúmeros trabalhos, e nunca ficando verdadeiramente satisfeito com os resultados, até o final de sua vida, em 1982.

E, num autor genial mas obsessivo, o resultado disso tudo não podia ser outro: obras-primas genuínas e trabalhos inúteis e desajeitados se sucederam uns aos outros, desordenadamente. No entanto, e como uma ironia fina que prova sua genialidade, ele vem deixando grandes figurões da ficção científica para trás no que se refere ao cinema. Figurões que, enquanto Dick e sua esposa apertavam o cinto graças às suas brochuras baratas e pouco procuradas, ganhavam milhões em adiantamento de grandes editoras, em livros que logo se tornavam best sellers do gênero. Hoje, o autor é considerado por muitos como o dono do mais importante “conjunto de obra” da ficção científica em todos os tempos.

E mais coisas virão: entre os vários projetos que estão sempre em especulação para uma possível adaptação para o cinema encontram-se os sensacionais romances “O Homem mais Importante do Mundo” (“Time Out of Joint”, de 1959), “Identidade Perdida” (“Flow my Tears, the Policeman Said, de 1974) e “O Homem Duplo” (“A Scanner Darkly”, de 1977), além de contos como “King of the Eyes” (1953), “Adjustament Team” (1954) e “The Golden Man” (1954). Em 1974 o próprio Dick chegou a esboçar um roteiro para o seu clássico romance “Ubik” (1969), publicado em 1985 e até hoje na gaveta de algum estúdio. Sem falar que “Os Três Estigmas de Palmer Eldrich” (“The Three Stigmata of Palmer Eldrich”, 1965), um dos mais densos e espetaculares trabalhos do autor, continua esperando, calma e silenciosamente, até que alguém de visão apurada e visionária caia na real e se de conta daquilo que representa essa obra sensacional.

O que os fãs do grande autor de ficção esperam, no entanto, não é uma enxurrada de novas adaptações cinematográficas de sua obra, pois o cinema, principalmente o cinema americano contemporâneo, está longe de provar qualquer coisa a respeito de qualquer pessoa. Mas o cinema é uma arte fascinante e não há como negar que a expectativa de poder admirar uma obra já anteriormente admirada em uma nova forma, sob uma nova perspectiva, é algo realmente muito forte e muito particular. Não se espera um novo Blade Runner, pois isso é algo que jamais irá acontecer, mas uma vez ou outra, segundo os cálculos da probabilidade, é inevitável que apareça uma pérola maior, que reluza com um brilho todo seu. Afinal, até para o pessimismo deve haver um limite. Mesmo em se tratando de filmes de ficção científica atuais.

Concluído em 20 de fevereiro (domingo) de 2005, às 15:42 horas.


E.R.Corrêa


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