O PLANETA DOS VAMPIROS
por João Pires Neto
"Serão do futuro ou do passado, esses "seres" que dominam este planeta demoníaco?”
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“O Planeta dos Vampiros” é uma deliciosa e insólita mistura entre sci-fi e horror dirigida pelo mestre italiano Mario Bava. Na trama, as espaçonaves Argos e Galliot investigam um estranho sinal vindo do planeta Ura. Quando próximas de sua órbita, de forma inexplicável, as duas naves são atraídas e forçadas a pousar. Durante a “aterrissagem”, toda a tripulação da Argus perde os sentidos. Quando recobram a consciência, estão todos ensandecidos e lutando entre si. Uma vez que a ordem é restabelecida, o comandante da espaçonave tenta entender os acontecimentos, para que possa, em seguida, formar uma equipe e ir de encontro aos sobreviventes da Galliot. Mas o destino foi ainda mais trágico com os astronautas da Galliot, que acabam matando-se uns aos outros num ataque de loucura idêntica ao ocorrido na primeira espaçonave. Após encontrarem a Galliot e enterrarem seus amigos, os tripulantes da Argus descobrem da pior forma possível que, apesar de aparentemente deserto, o planeta é terrivelmente hostil. |
Precursor e inspirador de clássicos futuros como “Alien – O Oitavo Passageiro”, de Ridley Scott (dizem até que Dan O’Bannon teria misturado o roteiro do longa de Bava com o roteiro do filme “Planet of Blood/Queen of Blood”, de Curtis Harrington, na composição da trama de “Alien”), “O Planeta dos Vampiros” ainda permanece inédito em DVD no Brasil, embora já tenha sido lançado (em versão digital restaurada) no exterior pela MGM. Quem tiver curiosidade e paciência pode procurar nos “sebos” a versão em VHS lançada LK-TEL vídeo nos idos anos 80.
É difícil analisar ou mesmo imaginar como foi a recepção do filme na época de seu lançamento nos cinemas, na metade da década de 60. Mas revendo o filme nos dias atuais, a sensação que temos é ao mesmo tempo nostálgica e mágica. Há quase 50 anos, sem o auxílio de efeitos especiais gerados por computador ou a tecnologia esbanjada pelo, na maioria “fútil”, cinema contemporâneo, o que restava aos realizadores da época era a criatividade e a ousadia, o que, diga-se de passagem, aproximava muito mais o cinema da arte.
Filho do escultor e cineasta Eugenio Bava, Mario dirigiu um total de 24 longas-metragens durante sua carreira (Bava faleceu em 1980). Já possuía, na época do lançamento de “Planeta dos Vampiros”, pelo menos quatro grandes filmes na bagagem de diretor: “I Vampiri” (1956), “A Máscara do Demônio” (La Maschera del demonio, 1960), “Hércules no Centro da Terra” (Ercole al Centro Della Terra, 1961) e “Black Sabbath: As Três Máscaras do Terror” (I Tre volti della paura, 1963).
O ritmo cadenciado, característico ao cinema da época, deve assustar um pouco o público acostumado as ações frenéticas do cinema atual, mas é compensado pelo roteiro cheio de mistérios, que explora muito bem todas as questões propostas pela trama.  | |
Assim como em “Hércules no Centro da Terra”, Bava e sua equipe desenvolvem um visual totalmente psicodélico, com cenários carregados de vermelho e roxo envoltos em nevoa constante. O uniforme dos astronautas de couro preto colados ao corpo, os computadores repletos de lâmpadas coloridas só fazem completar o ambiente “lisérgico” proposto pelo diretor.
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O elenco, encabeçado por Barry Andrews interpretando Mark Markary, o capitão da espaçonave Argus, conta ainda com a brasileira Norma Bengell (isso mesmo, a mesma Norma Bengell que dirigiu o polêmico “O Guarani” e que protagonizou a primeira cena de nu frontal do cinema brasileiro ao lado de Daniel Filho e Jece Valadão). Vale ressaltar ainda, que quando interpretou a astronauta Sanya, a atriz carioca tinha apenas 30 anos e estava no auge de sua beleza. Se o elenco não esbanja talento, também não chega a comprometer. Aliás, toda a limitação técnica e de orçamento, fato característico do chamado cinema B, é superada pelo empenho da equipe de Bava, que aproveitou ainda diversos cenários que eram sobras de épicos italianos rodados nos míticos estúdios Cinecittá de Roma (local onde foram filmados “Ben Hur” (1958), “Quo Vadis” (1949) e “A Doce Vida” (1960), de Fellini, entre outros grandes clássicos). |
O desfecho é outro grande destaque de “O Planeta dos Vampiros”. Um dos finais mais pessimistas e sombrios da história da ficção científica. Enfim, um grande filme, conduzido brilhantemente por um dos maiores diretores italianos do gênero fantástico que, embora datado visualmente por uma atmosfera caricata de filme B, é diversão garantida para os mais curiosos e saudosistas.

Quando a Ficção Científica e o Horror se encontram
Embora gêneros distintos, a ficção científica e o horror apresentam diversos traços em comum, como explorar o desconhecido, as possibilidades e o imaginário humano. Enquanto a ficção trabalha a ciência, o horror trabalha o medo e o psicológico do ser humano e tanto no cinema quanto na literatura a fusão destes dois gêneros sempre rendeu obras interessantes das quais muitas se tornaram clássicos.
Os dois maiores exemplares atuais da junção entre sci-fi e o terror são as cine-séries “ Alien” e “ Predador”, que juntas somam seis longas: " Alien, o Oitavo Passageiro” (1979), " Aliens, o Resgate” (1986), " Alien 3" (1992), " Alien, a Ressurreição" (1997), “ O Predador” (1987) e “ O Predador 2: A Caçada Continua” (1990); dois cross-overs: “ Alien vs Predador” (2004) e “ Alien vs Predador 2” (previsto para 2007). Outra série contemporânea de relativo sucesso é “ A Experiência” (1995). Protagonizado pela bela Natasha Henstridge, a trama do longa, que rendeu ainda duas seqüências: “ A Experiência 2 - A Mutação” (1998) e “ A Experiência 3” (2004), narra a trajetória e a perseguição a um ser híbrido alienígena que escapa de um laboratório e deseja proliferar sua espécie, consequentemente eliminando a raça humana.  
Mas foi entre a década de 50 e 70 que o cinema chamado B se alimentou da fórmula e consagrou diversos clássicos como: “ Vampiro de Almas” (1956), de Don Siegel, onde os seres humanos são substituídos por aliens saídos de vagens gigantes; “ O Monstro do Ártico” (The Thing from Another World, 1951), de Howard Hawks, refilmado por John Carpenter trinta anos depois como “ Enigma de Outro Mundo”; “ A Mosca da Cabeça Branca” (The Fly, 1958), onde um cientista inventa uma máquina de teletransporte, mas ao testá-la um inseto entra na câmara, fazendo com que ele sofra transformações o transformando num terrível mutante (refilmado por David Cronemberg em 1986). Além de divertidas, são obras de valor histórico, pois grande parte foram refilmadas ou influenciaram diretamente produções mais modernas, mas que infelizmente, ainda aguardam a boa vontade das distribuidoras para que sejam disponibilizadas no mercado brasileiro.

João Pires Neto
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PLANETA DOS VAMPIROS (Terrore nello spazio, Itália/Espanha, 1965)
Direção: Mario Bava.
Roteiro: Mario Bava, Alberto Bevilacqua e Callisto Cosulich.
Produção: Fulvio Lucisano, Samuel Z. Arkoff, James H. Nicholson.
Edição: Romana Fortini e Antonio Gimeno.
Desenho de Produção: Ryu Seong-hie.
Fotografia: Antonio Rinaldi.
Música: Gino Marinuzzi Jr..
Elenco: Barry Sullivan (Capitão Mark Markary), Norma Bengell (Sanya), Ángel Aranda (Wess), Evi Marandi (Tiona), Stelio Candelli (Brad), Franco Andrei (Bert), Fernando Villena (Dr. Karan), Mario Morales (Eldon), Ivan Rassimov (Carter), Federico Boido (Keir) e Alberto Cevenini (Toby Markary).
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