 |
Quando passo algum tempo refletindo sobre Ed Wood, invariavelmente tenho a pergunta: De que são feitos os clássicos? Pegando exemplos aleatórios, o que CIDADÃO KANE, A NOITE DOS MORTOS VIVOS e PSICOSE têm em comum e que os fazem ser cultuados até hoje? Sem querer me estender demais no meu ponto de vista, pelo menos uma coisa os filmes precisam ter para serem considerados clássicos: devem ser atemporais, ou seja, transmitir sua mensagem e causar o mesmo impacto no espectador na época de lançamento e novamente cinqüenta anos depois.
Assim, os filmes de Edward D. Wood Jr. são clássicos por serem atemporais, mas o baixo orçamento e a falta de habilidade do diretor fazem suas obras serem taxadas e jogadas com toda a força - justamente, cabe dizer - nas prateleiras dos filmes Trash.
E o que dizer sobre o principal filme de sua fugaz carreira? Como podemos |
classificar o mestre de todos os sortilégios, a referência suprema quando se trata das maiores bagaceiras registradas em celulóide?
Pois bem, comemorando 50 anos de produção em 2008, a nona tentativa de invasão pelos alienígenas ao nosso planeta está prestes a ser dissecada em detalhes que só a autopsia de Roswell conseguiu ser tão completa. Vocês estão interessados no desconhecido... No misterioso... É por isso que estão aqui. Nós lhe daremos todas as evidências daquele dia fatídico... Meus amigos, não podemos esconder mais estes segredos. Deixem-nos punir os culpados e recompensar os inocentes. Podem seus corações permanecer firmes aos fatos chocantes sobre PLAN 9 FROM OUTER SPACE?

Parte I - Antes - Planejando o Plano Nove
"Can your hearts stand the shocking facts about grave robbers from outer space?"
"Um louco genial ou simplesmente louco?" esta é a comparação mais recorrente quando se fala no diretor
Edward D. Wood Jr. - e a esta altura muitos de vocês já conhecem a fama de
"incompetente" e
"incapaz" que carrega seu nome em todas as produções que realizou. Porém é de se admirar que um profissional que produzia filmes B com tão pouca expressão nos anos 50 tenha sido tão esculachado e ignorado em seu tempo, acumulando o ódio dos críticos e sendo ridicularizado pelo público.
Naqueles tempos, Wood representava uma versão do
"sonho americano" à sua maneira. Vindo de uma família pobre se mudou para Hollywood em 1947, quando o futuro diretor fundou com o parceiro Crawford Thomas uma produtora de filmes comerciais para a televisão devidamente nomeada
Wood-Thomas Productions, em um pequeno prédio localizado no número 4477 da Hollywood Boulevard.


Levaria quase uma década depois para que Wood realizasse seu
"Magnum Opus" e em 1957 já havia estabelecido sua dúbia reputação através de seus trabalhos anteriores já lançados e na companhia do então decadente mestre do horror
Bela Lugosi, de quem Wood tinha admiração e frequentemente quando criança assistia a seus filmes no cinema, em especial sua interpretação em
DRACULA e
CHANDU THE MAGICIAN.
Só para fazer uma retrospectiva, o western
CROSSROADS OF LAREDO, seu primeiro filme, não foi finalizado porque estourou o ínfimo orçamento e ficou perdido por muitas décadas, mas já possuía muitas características de seus próximos filmes como o uso de papelão como elemento de set e um bocado de comédia involuntária.
No começo dos anos 50, um
"inempregável" Bela Lugosi, por conta das mudanças drásticas na indústria do cinema, encontrou-se com Wood e desta união saiu
I CHANGED MY SEX ou
GLEN OR GLENDA?, seu debut oficial e sua obra mais particular, por se basear na vida privada do próprio diretor.


Todavia
GLEN OR GLENDA? era excessivamente experimental para o público
"normal" que não comprava a idéia de um homem se vestindo de mulher repleto de cenas e diálogos alucinógenos - pelo menos o bizarro uso de Lugosi dava um certo respeito para Wood. Em seguida o diretor rodou o policialesco
JAIL BAIT com o futuro Hercules Steve Reeves em sua estreia no cinema.
BRIDE OF THE MONSTER foi o próximo - e cá entre nós, ruim por ruim acho que
BRIDE... é muito pior que
PLANO 9... - e a esta altura a saúde de Lugosi já dava sinais de que estava excessivamente debilitada para que o ator pudesse prosseguir trabalhando. Diz-se até que durante as filmagens de
BRIDE... Lugosi precisava ser levado em casa para tomar injeções de morfina e voltava ao set para continuar suas participações.


Pouco tempo depois, a situação de Lugosi com as drogas piora e outro recorrente de Wood, o ex-lutador de luta-livre Tor Johnson, precisou intervir e salvar o eterno Drácula de si mesmo: durante a promoção do filme
BLACK SLEEP, do diretor Reginald Le Borg, Lugosi adquiriu um impulso violento de se jogar de janelas, sendo impedido muitas vezes por Tor. Em Abril de 1955, Lugosi admite que está doente e depressivo, declara abertamente para a imprensa que se considera um usuário e se interna voluntariamente em uma clinica de reabilitação, voltando algum tempo depois com uma saúde muito melhor.
No meio tempo Wood se sentia frustrado, sofrendo por não ter uma distribuição em grande escala, alguma produção que o fizesse alçar vôos na carreira ou mesmo emplacar algum projeto nas grandes produtoras de Hollywood. De forma que o diretor, por amor ao cinema e acreditando que poderia realizar algo significativo em seu ofício, correu atrás para realizar uma suposta película chamada
"Tomb of the Vampire" (outras fontes dizem que o título seria
"The Ghoul on the Moon").


No início de 1956 Ed Wood conseguiu algum dinheiro de um investidor para realizar o filme, porém os 900 dólares foram suficientes apenas para rodar um dia de filmagem sem som de Lugosi usando sua capa de Dracula sem nenhuma história particular para contar. Isto já era considerado impressionante por si só, pois cineastas da época afirmaram que com este dinheiro não daria nem para alugar as roupas dos figurantes. As locações utilizadas foram um cemitério nos arredores de Hollywood e a frente da casa de Tor Johnson na época. Mal sabia Wood que o resultado seria a base para o filme mais infame do diretor.
Porém uma tragédia se abateu sobre o futuro projeto, quando, em 16 de agosto de 1966,
Bela Lugosi morre por causa de um ataque cardíaco. Wood ficou chocado e sem saber como prosseguiria sem o velho amigo e
"galinha dos ovos de ouro". Buscando por uma inspiração, o diretor teve uma idéia maluca: iria fazer o filme com Lugosi, a despeito do fato de que sua principal estrela não estava mais entre os vivos.


O
"detalhe" de que Lugosi não poderia estrelar uma película estando falecido foi resolvido com a utilização de seu quiroprático chamado
Thomas Robert Manson, bem mais alto do que o ator e cuja única semelhança eram seus cabelos grisalhos e as orelhas, forçando o médico a aparecer na tela com o rosto todo coberto. Manson apareceria de
"cara limpa" no derradeiro filme de horror de Wood,
NIGHT OF THE GHOULS. Então começava a elaboração do roteiro.
Logo que teve o
"estalo", Wood passou a inventar a história e a escrever como um louco. Amigos do diretor usaram a palavra
"elétrico" para descrevê-lo enquanto redigia o que futuramente iria se tornar
PLAN 9 FROM OUTER SPACE, no tempo que ainda era chamado de
GRAVE ROBBERS FROM OUTER SPACE. Possivelmente inspirado nas antigas revistas de ficção científica e de notícias sobre aparições de discos voadores, o script sobre uma raça de alienígenas que querem tomar o mundo usando um exercito de mortos reanimados foi finalizado em menos de duas semanas.


Todavia ainda existia mais uma barreira a transpor: encontrar financiadores que entrassem no barco que Wood estava construindo depois de todos os seus repetidos fracassos, porque os contatos habituais haviam rendido apenas algumas poucas centenas de dólares que mal dariam para realizar um simples comercial. Foi quando se encontrou com
J. Edward Reynolds, que gerenciava o complexo de apartamentos em que Wood morava, e acabou se tornando o principal investidor dos cerca de 60 mil dólares que o filme custou. Reynolds se demonstrou empolgado por participar na última produção
"estrelada" por
Bela Lugosi e também acabou fazendo uma ponta em
PLAN 9 como um dos coveiros.
As filmagens foram escaladas em cinco dias em estúdio - leia-se um minúsculo estúdio de som localizado num beco entre um hotel e um clube de strip em Santa Monica - e outros dois dias para as tomadas externas. Nesta altura o título foi alterado para o definitivo
PLAN 9 FROM OUTER SPACE, pois os membros da igreja batista (incluindo Reynolds) que também eram produtores achavam que o termo
"Ladrões de Túmulo" era um sacrilégio, além disto, por imposição deles, Ed Wood e boa parte do elenco precisou ser batizada antes de eles cederem o dinheiro para o filme, o que foi acatado pela equipe por força das circunstâncias. Curiosamente, Tor Johnson se converteu após este evento.


Todos os sets - incluindo o avião, a casa do protagonista e o cemitério - foram construídos dentro do
Quality Studios, como era chamado o prédio, e que era bastante usado por diretores nos anos 40 e 50 que precisavam de um lugar barato para rodar seus filmes. Trazendo para o projeto figurinhas de Wood como Tor Johnson, Paul Marco e Conrad Brooks somado com as novas aquisições como o astrólogo da televisão Criswell (nome verdadeiro: Charles Criswell King), o futuro veterano Gregory Walcott e a falida apresentadora de um programa de horror Maila Nurmi, caracterizada como Vampira. Com todos comprometidos em realizar um filme realmente bom, um blockbuster (ao menos na cabeça do diretor), nascia
PLAN 9 FROM OUTER SPACE.
Parte II - Durante - Os Discos Voadores Voam Sobre Hollywood
"You realize there is a government directive stating that there is no such a thing as a flying saucer?" 

Uma obra prima do exploitation sci-fi, um triunfo da vontade sobre a capacidade ou o ingrato título de pior filme de todos os tempos? Chame do que quiser, contudo não se pode negar que
PLAN 9 FROM OUTER SPACE se tornou um dos maiores cult movies existentes e ainda hoje sua notoriedade serve de referência e influência para muitos cineastas - ao expor o baixo orçamento em favor do entretenimento ou especialmente no quesito do que não fazer. Para dar um exemplo, diretores do calibre de
Joe Dante e
Sam Raimi são fãs declarados da película. Contudo, o que raios este longa-metragem possui de tão atraente que mantém a chama acesa ainda hoje? É o que vamos descobrir daqui a pouco.
Para quem não conhece a história,
PLAN 9 começa com a
"predição" de Criswell (que voltaria em
NIGHT OF THE GHOULS). A abertura é um show a parte que é perfeito aqui, mas que você jamais imaginaria ver em outro filme: o vidente com cabelo engraçado olha fixamente para a câmera e solta um monólogo genial, repleto de linhas hilárias (
"Future events such as these will affect you in the future") narradas como se o homem fosse entrar em colapso a qualquer momento. Ouçam o homem! Ladrões de túmulos do espaço sideral estão chegando! hehehe...


Após este prefácio entram os créditos iniciais e Criswell passa a ser narrador. Neste momento entra a última participação de
Bela Lugosi no cinema e o contexto em que as cenas são usadas é no mínimo absurdo. A esposa do personagem sem nome de Lugosi - que será chamado de
"Ghoul Man" daqui pra frente - morre por algum motivo ignorado e um grupo se reúne para o funeral (de manhã bem cedo).
Após o acontecido, a tripulação de um avião avista um disco voador que em seguida paira sobre o cemitério onde dois coveiros estão enterrando a esposa de
"Ghoul Man". Contestando o que acabaram de ver alegando que estão velhos, eles são surpreendidos e atacados pelo cadáver ressurreto da mulher (Maila Nurmi, falecida no dia 10 de janeiro de 2008) - a qual chamaremos de
Vampira. Enquanto isso, a dor do personagem de Lugosi é tão grande que se transforma em desatenção, Ghoul Man atravessa a rua e é morto atropelado.


A despeito de a esposa ser enterrada no solo, o velho é sepultado numa cripta – bem minúscula por sinal. Os parentes que comparecem ao sepultamento avistam os corpos dos coveiros e chamam a polícia. O inspetor Daniel Clay (Tor Johnson, que na época precisava de um professor de dicção imediatamente) chega ao local que já está repleto de outros oficiais, entre eles o tenente John Harper (Duke Moore) e os patrulheiros Kelton (Paul Marco), Jamie (Conrad Brooks que conseguiu papel num filme pior,
THE BEAST OF YUCCA FLATS com Tor Johnson) e Larry (Carl Anthony). Clay pega uma lanterna e vasculha o cemitério em busca de indícios enquanto os demais ficam mais próximos aos coveiros.
O casal formado por Paula Trent (Mona McKinnon) e Jeff Trent (Gregory Walcott,
A CASA DO ESPANTO 2 e
TEXAS LADY) - não coincidente o piloto do avião que avistou o disco voador pela primeira vez - mora perto do cemitério e Paula fica nervosa com a movimentação. Jeff está mais assustado com o que viu no começo do filme e com a reação do governo que exigiu silêncio do piloto para manter o acontecido em segredo.


Outro OVNI faz um rasante e tanto os Trent quanto os policiais são jogados ao chão com o vento poderoso. O disco voador então pousa no cemitério e Clay vai investigar, mas mal sabe ele que Ghoul Man (agora Thomas Robert Manson) voltou dos mortos e o segue até que o investigador se encontre cercado entre ele e Vampira. As balas do revólver não fazem efeito e Clay é assassinado pelos dois zumbis, o que resulta em mais um funeral, o terceiro no mesmo dia.
Agora aparecem mais três discos voadores que passam em locais movimentados dos Estados Unidos, especialmente Hollywood, o que de alguma maneira me fez lembrar bastante a abertura da finada TV Manchete, pois eles passam pelas sedes das TV's estadunidenses ABC, CBS e NBC. A aparição é notícia nos jornais e uma mulher liga para a polícia. Através da colagem porca de filmes de arquivo que fariam
Bruno Mattei corar, o exercito representado pelo tenente Tom Edwards (O astro de westerns dos anos 30 e 40, Tom Keene) arquiteta uma represália com mísseis e foguetes.


Sem sucesso no ataque as pequenas naves desaparecem e retornam para a nave mãe. É quando vemos pela primeira vez os
"alienígenas" e uma surpresa: eles são iguais a nós (!), apenas vestidos com roupas estranhas.
Cabe aqui uma explicação: quando ficou sabendo que a produção envolveria aliens ameaçadores, o encarregado dos efeitos Harry Thomas foi escalado pare criar a aparência dos antagonistas. Thomas chegou a mostrar uma versão teste para Ed Wood, que se tratava de um rosto humanóide com olhos gigantescos e a boca redonda, todavia naquela oportunidade o diretor não comprou a idéia e disse que
"não havia tempo ou dinheiro suficiente", assim ao invés de uma maquiagem ridícula não teve maquiagem alguma e Thomas pediu que o diretor tirasse seu nome dos créditos.


Voltando ao filme, o
"chefe" dos aliens (John Breckinridge) recebe o casal Eros (o impagável Dudley Manlove) e Tanna (Joanna Lee,
THE BRAIN EATERS), que diz o que se trata o
"Plano 9": reanimar os mortos para criar um exercito e matar os vivos – e me pego pensando que se o nono é um plano tão bobo quanto esse, quais eram os outros oito que não deram certo. Na Terra, Daniel Clay se torna o terceiro cadáver assassino e apesar da matemática conspirar contra os alienígenas - três zumbis letárgicos contra alguns bilhões de habitantes terráqueos - os moradores das proximidades do cemitério ficarão absurdamente apavorados.
Enquanto Jeff vai realizar mais um trabalho, Ghoul Man invade a casa dos Trent e persegue Paula pelo cemitério. Pra mim, esta seqüência é a mais legal e caótica de todo o filme: Paula corre passando pelo mesmo cenário várias vezes indo e voltando, uma
"mini-cova" é mostrada pulsando (antecedendo o ressurgimento de Daniel Clay), costurada com cenas desconexas de Tor, Vampira e Lugosi. A mulher desesperada chega até a beira da estrada onde é encontrada por um conhecido que está convenientemente passando de carro. A polícia volta ao local, descobrindo que o túmulo de Clay foi violado e os zumbis se recolhem na nave pousada dos alienígenas.


No pentágono, o alto escalão quer explicações sobre o ataque contra os OVNIs e o general Roberts (o veteraníssimo Lyle Talbot com quase 300 créditos como ator na TV e no cinema) conversa com seu subordinado Edwards, explicando que os alienígenas enviaram uma comunicação. Nela, Eros explica que os humanos desenvolveram armas cada vez mais poderosas e que agora colocam o universo todo em risco e estão dispostos a destruir nosso planeta por isso - sem querer comparar, contudo imagino que qualquer semelhança com
O DIA EM QUE A TERRA PAROU lançado muitos anos antes não seja mera coincidência. Assim, Roberts manda o tenente para o cemitério também.
O
"Plano 9" parece não ter agradado ao chefe que aparenta eterna insatisfação e demanda resultados, então Eros passa a executar o
"plano 9B": usar um raio desintegrador em Ghoul Man na presença dos humanos que negam sua existência com o intuito de ganhar tempo enquanto recrutam mais zumbis. Agora o oficial do exercito, os policiais e os Trents partem em uma cruzada para impedir que os alienígenas, sejam lá de qual planeta, destruam a Terra.

[ATENÇÃO: SE VOCÊ NÃO QUER SABER COMO O FILME TERMINA, PULE OS PRÓXIMOS DOIS PARÁGRAFOS] O grupo formado por Jeff, Edwards e Harper descobre a nave no meio do cemitério e, por algum motivo ignorado, Eros deixa-os entrar. Dentro da nave, começa uma série de pérolas de diálogos e comparações sobre os motivos pelos quais os extraterrestres quererem tanto exterminar os humanos: nós estávamos prestes a descobrir um novo tipo de arma, chamada de solarmanite, capaz de fazer a luz solar explodir(!) e dizimando todo o universo através de uma reação em cadeia. Eros também mostra que Clay capturou a esposa de Jeff como garantia para que seja ouvido.
Jeff fica tão puto que briga com Eros e derruba parte da
"aparelhagem" no chão... Com mil diabos, na confusão até Eros joga pedaços da nave em Jeff! Tanna tenta decolar o OVNI, contudo a nave se incendeia, os humanos fogem e o disco voador explode no ar. Viva! A humanidade está livre para destruir o Sol e reduzir o universo em cinzas!


Por onde começar? Toda a produção é pobre. Dos figurinos ao roteiro repleto de buracos, nada escapa a um olho mais clínico. Os diálogos são uma ofensa ao bom gosto e a coerência, Wood nitidamente escrevia sem pensar que pessoas normais jamais diriam tais coisas e não raramente o que é dito até contradiz eventos mostrados no filme. Destacar uma única fala é ser injusto com as demais, porém linhas infantis como quando Eros profere sua indignação com os humanos através da frase
"You see? You see? You're stupid minds! Stupid! Stupid!" ficam gravadas no inconsciente coletivo de muita gente.
Até a coerência na ordem dos eventos é comprometedora. Para dar um exemplo, em certo ponto da produção, as imagens de arquivo de Lugosi ficam entrecortadas com as cenas do cemitério, que não fazem sentido por dois motivos. Primeiro, Lugosi está nitidamente em um campo aberto enquanto o quiroprático de Wood está num cenário totalmente diferente e mais importante, Lugosi gravou de DIA e a ambientação do cemitério é a NOITE! Estas alternâncias entre dia e noite ocorrem nove vezes só nesta cena! Erros como este em
PLAN 9 são extremamente corriqueiros - confiram mais abaixo uma pequena lista de outros 25 detalhes grosseiros que vocês não podem perder!.


Os efeitos especiais na verdade deveriam se chamar
"efeitos simbólicos" para ser mais correto. Ficaria mais decente se Wood colocasse uma tarjeta debaixo de cada disco voador e escrevesse
"imagine que isto é um OVNI". A propósito, muito se discutiu sobre o que seriam os discos voadores: embalagens de pizza pintadas? Calotas de carro? Tampas de latas de lixo? A realidade é mais simples, um brinquedo de criança que era vendido na época e que era suspenso por fios. E claro, não seria
"Ed Wood" se não desse para ver o fio que segura os modelos em algumas cenas, no entanto, o charme tosco dos efeitos ainda chuta a bunda de muito CGI por aí.
Uma das curiosidades sobre a produção é o fato de que o
"personagem" de Lugosi não ter nome e andar de capa o tempo todo apesar de nunca ser explicitado de que poderia se tratar de um vampiro. No roteiro escrito por Ed, o personagem era descrito como
"o personagem Dracula", o que confundiu até os protagonistas da produção, afinal é um filme sobre mortos-vivos tecnicamente. O que me admira é que apesar do lapso permanente de talento de Wood como diretor e roteirista, ele conseguiu realizar um filme que pode ser acusado de qualquer coisa, menos de ser arrastado.


O valor da diversão é baixo se levarmos a sério, contudo é irresistível se entrarmos no ritmo cômico pra valer. O uso de nomes conhecidos do público no elenco apenas aumenta mais o entretenimento. Existem contrastes gigantescos nas interpretações, pois enquanto alguns exageram demais na composição dos personagens outros são bem contidos, diria até constrangidos. Penso que o diretor não tenha feito qualquer esforço na tentativa de unificar o trabalho do elenco, o que é bom pra nós, amantes do bom trash.
Creio que a principal falha do filme é ele tentar ser mais ambicioso que o orçamento permitiu e no final
PLAN 9 FROM OUTER SPACE se tornou uma experiência única que fará você rir com vontade e voltar a fita muitas e muitas vezes para pegar aquele detalhe no canto do cenário ou procurar aquele errinho. Como costumam dizer,
"Não importa a que horas você assiste PLAN 9, sempre vai parecer que são três da manhã".
Parte III - Depois - Da Queda ao Fenômeno
"Well, why do I always have to get hooked up with these spook details? Monsters, graves, bodies. Oh, all right."
Apesar dos pesares, o filme foi finalizado e agora o problema era ganhar algum dinheiro com ele.
PLAN 9 FROM OUTER SPACE teve sua premiere no
Carlton Theatre, com um Ed Wood radiante e contemplando seu momento de glória. Durante a projeção foi solicitado a Vampira atravessar a tela no meio do filme para causar algum impacto sobre os espectadores. Quando ela fez, viu a maior parte do público vaiando e jogando seus copos de refrigerante no cinema fazendo um barulho imenso, achando que era um engraçado efeito 3D. Há controvérsias com relação a data do evento no Carlton, pois algumas fontes afirmam que foi em março de 1957, outras que já foi com a produção finalizada em 1958.


Apesar das pobres avaliações nas exibições teste - tal qual a do Carlton - Wood estava confiante e entregou as latas com a película para Edward Reynolds conseguir distribuição, o que não seria uma tarefa fácil. Reynolds procurou as grandes distribuidoras em Nova York - inclusive a
Paramount e
MGM - por três semanas sem sucesso o que gerou algumas dificuldades financeiras para o produtor.
Conseguiu abrigo apenas na pequena
Distributors Corporation of America Inc. (ou simplesmente DCA) com uma condição: Reynolds teria que arcar com os custos de impressão das películas de lançamento e também do material promocional. Foram fabricadas uma quantidade entre 10 e 20 cópias em 35 mm - que hoje são disputadas a tapa pelos colecionadores - e apenas em julho de 1959 o lançamento oficial foi realizado. A maioria das cópias eram oferecidas em uma sessão dupla com o thriller
TIME LOCK com a ponta de um jovem e desconhecido Sean Connery.


Por recusa dos donos dos estabelecimentos, o longa-metragem não conseguiu passar nos grandes cinemas das metrópoles e suas cópias ficaram restritas aos drive-ins e às pequenas salas do subúrbio. Isto naufragou com qualquer esperança - se havia alguma - de que a produção fosse um sucesso comercial, ou que mesmo pagasse seu irrisório custo.
A carreira de Ed Wood declinou no começo dos anos 60 por causa do fracasso crítico e comercial de
PLAN 9 e de seu canto do cisne com
NIGHT OF THE GHOULS e
THE SINISTER URGE, se agravando nos anos 70 com a popularização da televisão. Os últimos anos do diretor foram de pobreza, amargura e alcoolismo. Wood faleceu desconhecido e suas cinzas terminaram jogadas ao mar pela esposa.
Irônico que apesar da televisão ter sido um veículo que ajudou a afundar o diretor, foi ela mesma quem começou a redescobrir Ed Wood. Em 1961,
PLAN 9 FROM OUTER SPACE estreou em um canal de TV de Los Angeles. Nos primórdios, as emissoras sempre preferiram exibir este tipo de filme, pois eram de baixo custo de aquisição para exibição.


Com o início das revistas especializadas no cinema de terror, os jovens fãs que se formavam adoraram seu estilo divertido e começaram a buscar saber mais sobre o filme e seu diretor por eles mesmos, era a transformação do
"trash" para
"cult".
No final dos anos 70 houve uma explosão de pessoas comuns e críticos de cinema varrendo filmes antigos para encontrar defeitos crassos e assim subvertendo seu valor para torná-los cômicos - a expressão
"tão ruim que é bom" estava de volta.
Nesta toada, dois destes críticos de cinema, os irmãos Harry e Michael Medved, lançaram o influente livro
"Golden Turkey Awards" onde os leitores de seu livro anterior,
"The 50 Worst Films of All Time", votariam nos piores de todos os tempos. Mesmo contrariando as opiniões dos autores, através desta publicação que
PLAN 9 foi considerado pela primeira vez como o pior filme e Ed Wood como o pior diretor da história. Concordando ou não, esta indicação teve um efeito imediato, o culto que era
"underground" passou a ser
"aboveground" e o número de seguidores cresceu exponencialmente.


Professores de artes utilizavam a película como instrumento de estudo demonstrando uma forma de como NÃO se fazer cinema, as pessoas assistiam com o único intuito de procurar erros; e listá-los passou a ser uma das coisas mais divertidas para se fazer com os amigos. Tornou-se uma parte da cultura popular, sendo referenciado em outras produções para o cinema - de
A NOITE DOS ARREPIOS até
HALLOWEEN H20 - e também televisão (em um episódio do seriado
ARQUIVO X, Fox Mulder afirmou ter assistido
PLAN 9 FROM OUTER SPACE nada menos que 42 vezes).
No começo dos anos 90 a editora
Eternity Comics< lançou uma minissérie em quadrinhos intitulada
"Plan 9 from Outer Space: Thirty Years Later!", que serve como sequência não oficial para o filme. Em 1997, David G. Smith compôs e escreveu a música para a peça
"Plan 9 from Outer Space: The Musical". Em 2006 a distribuidora
Legend Films soltou nos Estados Unidos a primeira versão colorizada do filme com algumas alterações nos gráficos e no mesmo ano uma versão não oficial em teatro estreou no
"Toronto Fringe Festival" no Canadá. A peça chamada de
"Plan LIVE from Outer Space" possui no cast famosos comediantes canadenses e ganhou em 2007 um prêmio do
Canadian Comedy Award.
Além disto, existe um remake em andamento nas mãos do diretor John Johnson (
A Chave Mestra). Contudo ainda é uma incógnita se o tom da refilmagem girará em torno do filme que Ed Wood idealizou ou do filme que o diretor entregou para o público, ou seja, um genuíno sci-fi cinquentista ou uma comédia de erros. De qualquer maneira poderemos conferir a visão de Johnson quando a produção for lançada no cabalístico e apropriado dia
09 de Setembro de 2009 (09/09/09).

Assim, esta popularidade e este rebanho tão grande de fãs confirmam apenas uma coisa: a obra suprema de Ed Wood conseguiu o que muitos não chegaram nem perto, envelheceu com suas
"qualidades" intactas sem ficar datado. Também não deixa de ser irônico dizer que os defeitos que foram tão castigados na época de lançamento sejam os mesmos que tornam
PLAN 9 tão inesquecível.
O que me faz pensar se podemos retirar alguma lição vendo o trabalho de Ed Wood. Não apenas falando desta produção, mas o simples fato de que o diretor tenha feito tantos filmes com tão poucos recursos, com tão pouco talento no ofício e contra todas as perspectivas já é um grande modelo para os jovens cineastas independentes seguirem. Portanto
PLAN 9 FROM OUTER SPACE não é apenas
"o" clássico B, é também um documento histórico da força de vontade de um homem para superar desafios.
PLANO 9 foi lançado no Brasil em VHS há muito tempo, porém está disponível em um DVD caríssimo da distribuidora
Continental que ainda contém o documentário
“Flying Saucers Over Hollywood: The Plan 9 Companion” repleto de entrevistas com os atores e curiosidades.
Parte IV - 25 Erros para Procurar em Plan 9
"I'll tell you one thing: if a little green man pops out at me, I'm shooting first and asking questions later."
São dezenas de centenas de erros possíveis de encontrar em
PLAN 9 FROM OUTER SPACE, porém para o seu deleite, escolhemos os 25 que são gritantes detalhes para tornar a experiência ainda mais divertida.
1) Por que Criswell diz que o filme conta eventos futuros se na próxima sentença ele diz que vai mostrar o que
"aconteceu naquele dia";
2) O cockpit do avião de Jeff Trent é nitidamente feito de papelão, contudo o mais impressionante é que o que separa o cockpit do resto do
"avião" é uma cortininha;
3) Ah, sim, o rádio do co-piloto parece o microfone do Silvio Santos;
4) Ainda na primeira cena no cockpit, quando a luz do OVNI passa na frente do piloto, se pode ver a sombra do microfone;
5) Na cena em que Criswell anuncia a morte de Ghoul Man, a imagem congela e ouvimos o som do atropelamento, porém é possível ver a sombra de
Bela Lugosi ainda no chão;
6) A janela da casa dos Trent possui no máximo 1 metro de altura do chão;
7) É visível que os corpos dos coveiros quando os policiais estão investigando são bonecos muito mal vestidos;
8) Quando o disco voador passa pela primeira vez pelo cemitério, um dos homens que carrega a maca com o coveiro morto bate o pé em uma das cruzes que marcam as covas. Ela balança para trás e para frente confirmando que são todas de papelão;
9) Nas cenas em que os discos voadores sobrevoam Hollywood, ninguém está assustado ou impressionado, parece até que estão vendo uma revoada de pássaros nos céus;
10) O pano de fundo em que Tom Edwards está quando aparece pela primeira vez é especialmente ridículo, pois seu semblante faz
"sombra" no
“horizonte” onde deveria ser uma tomada externa;
11) O uniforme do coronel Tom Edwards não tem informação de patente;
12) As armas do exercito mostradas nas filmagens de arquivo e que deveriam ser utilizadas no ataque aos alienígenas são armas para alvos terrestres que não alcançariam um aeroplano;
13) Além de cortinas e condições atmosféricas na nave mãe, os alienígenas falam inglês fluente até entre eles (o que Ed Wood pensa que está dirigindo, Star Trek? hehehe...);
14) Quando encontra o corpo do inspetor Clay, o tenente Harper aponta sua arma para si mesmo, inclusive chega a se coçar com ela. Segundo seu interprete, Duke Moore, isso foi feito de propósito para ver se Wood atentava para este
"detalhe". Como podem perceber isto não aconteceu;
15) Se mataram os coveiros no começo do filme, quem enterrou Clay?;
16) No primeiro tropeço de Paula Trent enquanto ela é perseguida por Ghoul Man é perceptível que o gramado todo se move, o que confirma que o
"chão" é feito por cobertores;
17) A
"miniatura" da cova do inspetor Clay na cena de perseguição é completamente fora de proporção das demais do cemitério;
18) Mais uma na cena da perseguição: em uma das tomadas em que Paula corre em direção à câmera, há uma lápide caída ao fundo. Nela dá para ver o suporte de madeira que a mantém em pé;
19) Quando Vampira e Clay zumbificados entram na nave, Eros pede para que Tanna desligue um botão para paralisar os mortos-vivos. Os dois realmente
"desligam", porém Ghoul Man continua andando até entrar na nave;
20) Nas tomadas internas no pentágono, há um mapa dos Estados Unidos na parede. O mapa pertencia a empresa de trens
Santa Fé Railway e seu logotipo é visível em algumas cenas;
21) Na cena em que Ghoul Man ataca os Trent na presença do Coronel Edwards, sua capa se desamarra e escorrega, sendo resgatada pouco antes de cair sobre os ombros;

22) Eu não estou bem certo, mas ao ver estes dois elementos de cena, cheguei a conclusão que a Terra já usava tecnologia alienígena faz tempo... Isso anos antes de MIB;
23) Por algum motivo, balas não derrubam os zumbis, mas pauladas na cabeça sim;
24) Para uma civilização dita tão bem desenvolvida, é no mínimo estranho que os alienígenas não carreguem um extintor na nave;
25) O esqueleto do inspetor Clay no final do filme é incompatível com sua composição física quando
"vivo";
Parte V - Curiosidades
- Quando lançado pela primeira vez em VHS nos Estados Unidos, o encarte destacava o filme com os dizeres
"quase estrelando Bela Lugosi";
- A cicatriz usada no ator Tor Johnson precisava ser movida todo dia, pois o material causava irritação na pele do rosto do ator;
- A
"lente de contato" usada por Tor Johnson era uma película retirada de ovos de galinha;
- Os carros de polícia e uniformes utilizados no filme só foram possíveis porque o filho de Tor Johnson, Karl, era um oficial no departamento de polícia de San Fernando na época;
- De acordo com Maila Nurmi, por motivos orçamentários ela se caracterizava como Vampira em casa e pegava um ônibus até o
Quality Studios. Isto causava espanto na maioria dos passageiros;
- Gregory Walcott só entrou no filme porque freqüentava a mesma igreja batista do produtor executivo J. Edward Reynolds;
- A personagem interpretada por Maila Nurmi deveria ter falas, porém por achá-las ridículas, a atriz pediu para que Wood as retirasse das filmagens e assim foi feito;
Para comentar o artigo e entrar em contato com Gabriel Paixão:
 |
PLANO 9 DO ESPAÇO SIDERAL (Plan 9 From Outer Space, EUA, 1958). Duração: 79 minutos
Direção: Edward D. Wood Jr.
Roteiro: Edward D. Wood Jr.
Produção: Edward D. Wood Jr.
Produção Executiva: J. Edward Reynolds
Fotografia: William C. Thompson
Maquiagem: Tom Bartholemew; Harry Thomas
Efeitos Especiais: Charles Duncan
Edição: Edward D. Wood Jr.
Elenco: Gregory Walcott (Jeff Trent); Mona McKinnon (Paula Trent); Duke Moore (Tenente John Harper); Tom Keene (Coronel Tom Edwards); Carl Anthony (Patrulheiro Larry); Paul Marco (Patrulheiro Kelton); Tor Johnson (Inspetor Dan Clay); Dudley Manlove (Eros); Joanna Lee (Tanna); John Breckinridge (Chefe dos Alienígenas); Lyle Talbot (General Roberts); David De Mering (Danny); Norma McCarty (Edith); Conrad Brooks (Patrulheiro Jamie); Maila Nurmi (Vampira); Bela Lugosi/Thomas Robert Manson (Ghoul Man); Criswell (Narrador)
|