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Em uma época em que a indústria da sétima arte na Itália estava em pleno vapor e valorizava os seus talentos por trás das câmeras, era uma vez um critico de cinema e roteirista que resolveu se aventurar na realização de seus próprios filmes, pois seu pai era um produtor com bastante prestígio naquele país. Este berço não poderia ser mais favorável para que o cultuado Dario Argento se iniciasse na longeva carreira encabeçando seus filmes de mistério - e que estréia!
Como deve ser de conhecimento do leitor, de fato foi o igualmente genial diretor Mario Bava que introduziu ao mundo o Giallo com THE GIRL THAT KNEW TOO MUCH, porém foi com a repercussão no mercado externo, tanto crítica quanto financeira, de "L' Uccello dalle piume di cristallo" ou AS PLUMAS DE CRISTAL |
quando pintou no Brasil há muito tempo em VHS - e devidamente corrigido para O PÁSSARO DAS PLUMAS DE CRISTAL quando lançado em DVD pela distribuidora Aurora - que este gênero ganhou a forma característica e imitadores por toda a terra da bota (e fora dela também). Na opinião deste humilde articulista, O PÁSSARO... não é apenas um dos Giallos mais importantes de todos os tempos, mas também um dos melhores filmes dirigidos e escritos por Dario Argento.
Filmado em apenas seis semanas com um orçamento aproximado de apenas 500 mil dólares, é interessante como o roteiro escrito por Argento causou mais polêmica do que se pode imaginar, pois foi realizado com a vontade de destruir alguns conceitos, ao se colocar contra-clichês sobre assuntos que normalmente existem em histórias de suspense como esta e que consequentemente estão nos filmes da época e em grande parte das produções seguintes. Estas modificações junto com o grande nível de violência para uma película de 1970 enfureceram o produtor executivo Goffredo Lombardo, que achou de péssimo gosto e tentou tirar Dario da jogada, mas não conseguiu e o deixou ainda mais obcecado pelo pequeno debut do futuro mestre italiano.


Durante a primeira apresentação da película finalizada, o diretor não estava presente, mas seu pai e produtor do filme, Salvatore Argento, estava com Goffredo, que se mostrou muito resistente em distribuir um filme o qual declarou se tratar de um suicídio comercial. Porém tudo mudou após Lombardo ver o estado de nervos da secretária de seu escritório que tremia incontrolavelmente. Salvatore pensou que ela poderia estar doente e perguntou o que havia de errado com a mulher e ela lhe respondeu:
"Eu estou bem, mas é este filme horrível que eu assisti, fiquei tão amedrontada...". Hehehe, Lombardo acreditou nela mais do que qualquer outra pessoa e decidiu lançar a produção que se revelou um sucesso tanto dentro quanto fora da Itália (foi líder de bilheteria no fim de semana de estréia nos Estados Unidos, fato poucas vezes alcançado por filmes estrangeiros).


O roteiro gira em torno do escritor americano chamado Sam Dalmas (Tony Musante,
OS VIOLENTOS VÃO PARA O INFERNO), que está vivendo em Roma para buscar inspiração e ganhar um dinheirinho extra publicando um livro sobre pássaros raros. Enquanto está fazendo uma caminhada sozinho na rua durante a noite, Sam passa em frente a uma galeria de arte e um episódio chocante lhe pega pelos olhos: um homem em vestido com uma capa preta, chapéu e luvas está em um embate mortal com uma bela mulher vestida de branco (Eva Renzi,
FUNERAL EM BERLIM).


Sam a vê ser esfaqueada e, na tentativa de alcançar a agonizante mulher, o americano acaba preso entre duas portas corrediças de vidro, forçando-o a ver o homem fugindo, enquanto sua vítima desmaia em uma poça de sangue, clamando por ajuda. Outro pedestre alerta as autoridades que chegam a tempo de resgatá-la com vida.


Ela se chama Monica Ranieri, a esposa do curador da galeria, o estranho Alberto Ranieri (Umberto Raho, que voltou a trabalhar com Argento em
IL GATTO A NOVE CODE). Acreditando que Sam, a única testemunha e possível suspeito, é a chave para solucionar uma seqüência de crimes violentos contra mulheres pela cidade, a policia, representada pelo inspetor Morosini (Enrico Maria Salerno,
NIGHT TRAIN MURDERS), confisca seu passaporte para prevenir que ele saia do país.


Cooperando forçadamente com extensos interrogatórios e revendo a fatídica cena várias vezes entre suas lembranças, Sam se mantém convicto que o que viu (ou o que acha que viu) não adiciona nada para resolver o ataque, todavia logo descobre que sua própria vida e a de sua namorada, a bela modelo Julia (Suzy Kendall, de
SPASMO), está em risco enquanto o vilão prossegue escolhendo suas vítimas em sua série de assassinatos brutais, e acaba percebendo que ele mesmo deverá investigar o mistério, o que o leva ao encontro de uma bizarra pintura que retrata uma garota sendo morta violentamente, além de genuínos momentos de terror, correndo contra o tempo para esclarecer tudo antes que o pior aconteça.


Sem entregar muito para quem estiver interessado, a história, como podem notar, entra naquele jogo de mentes complexo cheio de simbolismos e detalhes que Argento adora fazer, mas sem os elementos sobrenaturais de seus filmes mais famosos, com isto a qualidade do material escrito deve ser enaltecida. Com um excepcional desenvolvimento dos personagens e diálogos bem trabalhados, percebe-se o grande valor que Argento teve em criar um script que fosse ao mesmo tempo fantástico e realista, tornando o
"Pássaro de Cristal" em questão um mero McGuffin para a conclusão do mistério.


Diz-se que o roteiro é baseado em um livro escrito por Fredric Brown, intitulado
The Screaming Mimi, embora Dario prefira não se pronunciar sobre isto. Como não conheço o livro não posso afirmar com propriedade, porém lendo opiniões de quem conhece a obra, é possível afirmar que a ligação é tão tênue que não se pode considerar um plágio, pelo contrário, seria apenas uma chance do autor capitalizar em cima da popularidade do filme. Como curiosidade
The Screaming Mimi foi adaptado para o cinema em 1958.


Não há muito que se descrever sobre Argento na cadeira de diretor: quem assistiu a qualquer um de seus filmes já conhece seu refinado estilo visual e com seu debut não poderia ser diferente, ainda que ele jamais tenha trabalhado neste ofício anteriormente. Um trabalho de câmera impecável, a valorização dos corpos femininos com closes, adiantando os assassinatos para tornar o nível de tensão incrivelmente potente e todo o resto que o coloca como um profissional sem par na indústria do cinema, alçando-o pela crítica ao status de
Hitchcock italiano. (A propósito, dizem que o próprio que
Alfred Hitchcock teria declarado
"aquele camarada italiano está começando a me deixar nervoso" após ter assistido ao filme).


Também vale destacar o impressionante trabalho de fotografia de Vittorio Storaro, vencedor de três
"Oscar" pela fotografia de
APOCALYPSE NOW,
O ÚLTIMO IMPERADOR e
REDS, que ajudou em demasia o diretor a imprimir seu estilo de ângulos, cores e uma escuridão que preenche toda a tela em várias cenas. Cabe dizer que Storaro também estava começando no ramo, sendo este o seu primeiro filme a cores.


O elenco não é composto por figurinhas carimbadas do
Giallo, mas no geral é eclético, bem entrosado e convincente, encabeçado pelo energético e carismático mocinho Tony Musante e com um grande destaque para a atriz Eva Renzi, mas Dario (que também
"interpretou" as mãos do assassino) encontrou dificuldades atrás das câmeras devido a conflitos de idéias com Musante. Argento declarou que Musante queria interferir em seu trabalho, porque não acreditava na visão do diretor iniciante e com um forte temperamento, apesar de estar com um plano fotográfico e inflexível do que queria. Estas diferenças quase ruíram o relacionamento profissional entre os dois ao final das gravações.


E é claro um famoso vizinho da família Argento também teve papel fundamental no sucesso da produção,
O PÁSSARO DAS PLUMAS DE CRISTAL não teria o mesmo impacto se não tivesse a trilha tétrica composta pelo multi-talentoso Ennio Morricone, amigo de Salvatore Argento.


Para começar seus trabalhos com o compositor, Dario levou para o estúdio de Morricone um punhado de discos com músicas que, segundo ele, trouxeram-lhe inspiração, desde óperas clássicas até canções de ninar. Morricone ficou irritadíssimo, pois o músico não aceitava utilizar obras de terceiros como base para suas próprias composições, porém Dario foi esperto e ganhou Morricone aos poucos. O resultado é uma mescla tensa de música contemporânea, flertando com sons infantilizados, fora do comum para os padrões do maestro, porém bem recorrente quando Argento trabalha com o grupo
Goblin.


Nos States,
The Bird with the Crystal Plumage como é conhecido por lá saiu numa incrível edição restaurada em dois discos pela distribuidora
Blue Undergound com tudo o que o fã tem direito, som sourround tanto em inglês quanto em italiano, entrevistas com Argento, Morricone, Storaro e Eva Renzi, entre outros fantásticos extras que fazem a aquisição valer a pena.

O PÁSSARO DAS PLUMAS DE CRISTAL é o primeiro da
"trilogia dos animais" (seguido por
Il Gatto a Nove Code/O Gato de Nove Caudas e
4 Mosche di Velluto Grigio/Quatro Moscas no Veludo Cinza) que inaugurou toda uma série de títulos de
Giallos com nomes de bichos. Escolha um animal e provavelmente ele já foi usado, hehehe... Claro que a influência de
O PÁSSARO... vai além do título, Dario definiu um novo modelo com novos horizontes - confirmando que havia mercado para este tipo de produção - e ainda que tenha se auto-superado em produções posteriores como
PRELUDIO PARA MATAR e
SUSPIRIA,
AS PLUMAS DE CRISTAL é um filme que merece e precisa ser conhecido pelos amantes do bom cinema italiano.


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O PÁSSARO DAS PLUMAS DE CRISTAL (L' Uccello dalle piume di cristallo, Itália, 1970). Duração: 96 minutos
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento
Produção: Salvatore Argento
Produção Executiva: Goffredo Lombardo
Fotografia: Vittorio Storaro
Maquiagem: Giuseppe Ferranti
Direção de Arte: Olivier Afonso
Música: Ennio Morricone
Edição: Franco Fraticelli
Elenco: Tony Musante (Sam Dalmas); Suzy Kendall (Julia); Enrico Maria Salerno (Inspetor Morosini); Eva Renzi (Monica Ranieri); Umberto Raho (Alberto Ranieri); Renato Romano (Professor Carlo Dover); Giuseppe Castellano (Monti); Mario Adorf (Berto Consalvi); Pino Patti (Faiena); Gildo Di Marco (Garullo); Karen Valenti (Tina); Giovanni Di Benedetto (Professor Rinaldi); Reggie Nalder (Needles); Annamaria Spogli (Sandra Roversi)
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