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E lá vamos nós pela milésima vez nos deparar com um filme sobre animais gigantes que saem matando todo mundo. Só que em "Primitivo” temos o atenuante de que o filme é baseado em fatos reais. Grande coisa, não é!? Não é a primeira vez e nem será a última que produtores exploram essas idéias de monstros assustadores e as colocam num roteiro, aumentando o poder das bestas mil vezes, tornando-as verdadeiras máquinas indestrutíveis. E – infelizmente, meus amigos – é exatamente isso o que ocorre nessa produção fraquinha. O filme se passa no Burundi - África - um dos países mais pobres de todo o mundo, onde uma guerra-civil foi instalada e por lá permaneceu por muitos anos. A guerra foi provocada por um confronto entre as etnias Hutu e Tutsi e deixou quase 60% da população local com algum tipo de transtorno mental. Isso de acordo com o ÚNICO psiquiatra do país. A guerra-civil foi tão avassaladora que causou duzentas mil mortes naquele país e em apenas DOIS meses. E adivinhem onde eram jogados os cadáveres daqueles que pereceram à guerra!? Eu respondo: num lago chamado “Tanganyika”, que fica no delta do rio “Rusizi”. Ocorreu |
que vários crocodilos – ilustres moradores do rio – se banquetearam com os corpos e um em especial comeu mais do que devia (que guloso!) e cresceu de maneira colossal. Foi isso o que aconteceu: o genocídio criou o monstro!
Esse crocodilo, batizado pelo povo da região de “Gustave”, passou a caçar nas praias de Bujumbara, a capital do Burundi, chegando a matar mais de trezentas pessoas por aquelas bandas. Cruzes; esse animal é um verdadeiro monstro! Pode até ser, mas o problema do filme é que a dupla de roteiristas foi com muita sede ao pote e se açodou em criar não apenas um crocodilo super-desenvolvido, mas sim um “Tiranossauro Rex” quadrúpede! Gustave (o do filme) só faltou voar! E olhem que esse nem é o pior defeito de “Primitivo”! O diretor Michael Katleman peca pelo excesso de lentidão na condução do longa, o que o torna muito sonolento. E o roteiro de John Brancato e Michael Ferris contém algumas subtramas totalmente desnecessárias. Pra vocês terem uma idéia, Gustave só aparece de verdade depois de longos e enfadonhos quarenta e cinco minutos. E não! Se vocês pensaram que quando ele finalmente surge, o filme fica bacana, a resposta é não! O animal é todo desenvolvido em CGI (novidade...), que não é dos piores, mas mais uma vez o roteiro se perde, mostrando mais da guerra do que o que o título se propõe a mostrar: Gustave causando medo! E o roteiro ainda tenta, inutilmente, acrescentar aquela tão batida surpresinha final, tentando fazer com que nós descubramos quem é o tal do “Little Gustave”, um líder que também causa terror na região.


É curioso como a equipe do filme realmente acredita que brindou o público com um ótimo trabalho! Um deles (não lembro qual e não faço a menor questão de lembrar) disse que sempre foi fã de filmes de horror e que realizou seu sonho ao filmar este! Convenhamos, “
Primitivo” está mais para um horror de filme do que para um filme de horror...
A premissa é a seguinte: depois que Gustave causa pânico e uma famosa repórter é devorada por ele, uma equipe é mandada até o Burundi para averiguar (inovador, não!?). Essa equipe é composta por Tim (Dominic Purcell, do seriado
“Prision Break”), Steven (Orlando Jones, da bomba
“Evolução”), e a gatinha Aviva (Brooke Langton, de
“Virando o Jogo”). Unem-se a eles lá na África Mathew (Gideon Emery), que está mais preocupado com o contexto histórico dos crocodilos do que com os humanos, e Krieg (o veterano Jürgen Prochnow, que um dia teve a infeliz idéia de aceitar participar de “
House of The Dead”). O elenco não compromete em nada o filme, o problema está mesmo é no roteiro assoberbado demais. Dá pra contar nos dedos as boas seqüências: uma é bem no final do filme (claro, o crocodilo só aparece bem no fim) e por isso não posso contar; tem também uma com o nativo Jojo (Gabriel Malema) caindo dentro da jaula projetada para capturar Gustave, deixando o moleque à mercê da criatura. A outra boa seqüência envolve Steven e o crocodilo, mas eu vou falar dela mais adiante, comentando um absurdo que ocorre em tal seqüência.


Mais uma vez eu digo que o roteiro se preocupa demais em mostrar os conflitos inerentes à guerra e deixa de lado o que deveria ser o foco principal: Gustave!. Enquanto vemos homens dizimando uma família inteira sob a ótica de Steven (que filma tudo e quase se ferra) e os inúteis diálogos entre Steven e Tim, Mathew e Krieg, o crocodilo mal aparece. Eu cheguei a pensar, quando faltavam vinte minutos pra acabar a chatice, que Gustave seria abandonado e o foco seria a morte do restante do grupo pelas mãos do cruel
“Little Gustave”. Não me enganei muito, pois o monstro apareceu, sim, mas foi muito rápido e não criou nenhum clima de suspense. No fim do filme eu estava mais preocupado com a sobrevivência do cachorrinho
“Wiley” do que com o que ocorreria com aqueles americanos xaropes.
Agora voltando àquela cena que eu disse que comentaria: Steven está separado do restante do grupo e vê Gustave bem na sua frente, no pântano. O cara bate em disparada e o crocodilo avança em sua direção. Steven já dá como certa a sua morte, mas o réptil fica com a cabeça presa entre duas árvores – mais clichê, impossível... Ao invés de dar no pé o quanto antes, Steven resolve provocar a criatura, mostrando a língua, estirando o dedo, debochando (tsc, tsc!). Depois de quase um minuto flanando, ele finalmente decide fugir, deixando sua inseparável câmera a filmar Gustave dilacerar os troncos como se fossem de papel. Steven, mesmo tendo dado uma de imbecil, já está longe da fera uns duzentos metros, mas mesmo assim o crocodilo começa a correr feito um campeão olímpico dos 100 metros rasos, praticamente voando sobre a vegetação, diminuindo a cada segundo a distância entre os dois. Não demora nada e Gustave já está prestes a abocanhar o pobre Steven. Não vou dizer se ele consegue seu intento, já que algumas pessoas (bem poucas, eu arriscaria) vão querer acompanhar o desfecho dessa
“emocionante” perseguição entre a
“Ferrari” Gustave e a
“Minardi” Steven. Vocês repararam que há algo de muito errado nisso tudo, né!? Como que um crocodilo de quase oito metros, pesado do jeito que é, que come tudo o que passa pela frente – precisa de digestão – pode correr tão rápido assim???? Um animal com hábitos predominantemente aquáticos, que se move com aquelas patinhas frágeis e pequenas corre mais do que um ser humano em terra firme??? A menos que ele tivesse sofrido uma mutação genética e misturado suas células com as de um Guepardo... Bingo!!! Deve ser isso e o filme não tratou de explicar.


O visual do crocodilo não ficou dos piores, mas também não foi nada de excepcional. Pra piorar, até as mortes são filmadas com CGI, mostrando que a equipe nunca foi e nem nunca será apaixonada por filmes de terror. Porque mostrar sangue em CGI é o cúmulo! Nem vou criticar tanto eles, porque são pessoas despreparadas e limitadas, e certamente deve ser bem mais fácil criar os efeitos no computador do que investir numa boa equipe de maquiagem e compensar a falta de ação do filme com mortes recheadas de gore. Isso certamente salvaria o longa de ser totalmente dispensável.


Se vocês acham que eu falei mais sobre a falta de preparo do diretor e dos roteiristas, e da guerra-civil no Burundi, do que sobre o filme propriamente dito, podem parar de me xingar, porque não há quase nada sobre o que se falar. O filme é lento, cansativo, tem pouca ação, não tem mulher nua e o crocodilo é mero coadjuvante. No entanto, se vocês quiserem arriscar...

Daniel Deschamps
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PRIMITIVO (Primeval, EUA, 2007). Buena Vista Pictures
Direção: Michael Katleman
Roteiro: John Brancato e Michael Ferris
Produção: Gavin Polone
Fotografia: Edward J. Pei
Música: John Frizzell
Edição: Gabriel Wrye
Direção de Arte: Fred Du Preez
Efeitos Especiais: Luma Pictures/ Encore Visual Effects/ Gentle Giant Studios Inc.
Elenco: Dominic Purcell (Tim Manfrey); Brooke Langton (Aviva Masters); Jürgen Prochnow (Jacob Krieg); Gideon Emery (Mathew Collins); Gabriel Malema (Jojo); Linda Mpondo (Dente de Ouro); Lehlohonolo Makoko (Benapole); Dumisani Mbebe (Harry); Eddy Bekombo (Ato); Chris April (Capitão); Ernest Ndhlovu (Shaman); Erika Wassels (Dra. Cathy Andrews); Lika Van Den Bergh (Rachel); Patrick Lyster (Roger Sharpe); Andrew Whaley (Senador Porter)
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