PRISIONEIRO DA MORTE

por João Pires Neto

"Sonhe como se você fosse viver para sempre. Viva como se você fosse morrer hoje."

Após ser atropelado por um trem, o jovem jogador de Hockey Ian Stone desperta numa nova vida, trabalhando num escritório. Como num pesadelo, estranhos acontecimentos levam Ian a uma nova morte. Outra realidade, outra morte. Amaldiçoado a falecer e acordar sempre numa realidade diferente, Ian Stone terá que decifrar seu passado e descobrir quem realmente é. Somente assim poderá entender a maldição que o impede de morrer.

Prisioneiro da Morte” foi exibido originalmente na segunda edição do festival 8 Films to Die For: After Dark Horror Fest, em novembro 2007. O festival exibe anualmente 8 produções de horror independentes cujos orçamentos raramente ultrapassam os U$ 3 milhões. “Prisioneiro da Morte”, que é uma exceção à regra e custou quase U$ 10 milhões, foi um dos destaques da exibição (veja lista completa e trailers dos filmes exibidos no site oficial da mostra).

A trama conta a história de Ian Stone, um jovem que morre e desperta em outra vida. Morre de novo e lá está ele em outra realidade. E por aí vai: Ian passa de jogador de hóquei a funcionário workaholic, a motorista de táxi, a desempregado, a junkie maltrapilho. No entanto Ian carrega poucas, mas perigosas lembranças de suas vidas anteriores.

Explicando melhor, em forma de SPOILERS: a trama, na verdade, é sobre uma raça de demônios chamada Harvesters, que se alimenta do medo das pessoas.
Uma destas criaturas “evoluiu” e passou a matar não apenas os humanos, mas também os da sua espécie. Algumas destas entidades malignas então se uniram, e apesar de não conseguirem destruí-lo, apagaram sua mente e o condenaram a viver como um humano comum. Este é na verdade Ian Stone, um demônio renegado, que descobriu outra forma de se alimentar, que não seja o medo. É neste ponto que a originalidade de “Prisioneiro da Morte” vai por água abaixo (alguém notou alguma semelhança com a animação da Pixar “Monstros S/A”?).

O roteiro escrito por Brendan Hood (o mesmo de “Habitantes da Escuridão”) é uma salada que mistura o já citado “Monstros S/A” com elementos de filmes como “Premonição” (a morte implacável), “Matrix” e “Cidade das Sombras” (a manipulação da realidade) e “Efeito Borboleta” (confusão temporal). Tantas referências tornam o filme pouco original, frustrando as expectativas dos ótimos (e deliciosamente confusos) minutos iniciais.

O lendário especialista em maquiagem Stan Winston é um dos seis produtores de “Prisioneiro da Morte”. Winston foi o responsável pela maquiagem de filmes como “O Exterminador do Futuro”, “Entrevista com Vampiro” e “Edward Mãos de Tesoura”. Numa jogada de marketing, o próprio DVD americano é vendido com o título “Sam Winston’s The Deaths of Ian Stone”, ainda que sua participação no filme não tenha tanto peso, a não ser pelos bons efeitos visuais criados por sua equipe, que garantem a qualidade técnica do filme (as criaturas são muito bem feitas, apesar de lembrarem bastante o monstro de fumaça “Lostzilla”).



Prisioneiro da Morte” foi rodado em Londres, na Inglaterra e dirigido pelo cineasta italiano Dario Pina, um publicitário internacionalmente reconhecido. A sua direção é convencional, mas segura.

O jovem e limitado elenco, que é encabeçado pelo americano Mike Vogel (de “O Massacre da Serra Elétrica” e “Cloverfield – O Monstro”), traz ainda a bela atriz inglesa Jaime Murray (a amante psicótica de “Dexter”, na segunda temporada da série).



Vale ressaltar o figurino desnecessário usado pelos demônios nas seqüências finais. Roupas emborrachadas (vermelhas e pretas) e óculos que remetem a “Matrix” e ao visual dos cenobitas criados por Clive Barker em “Hellraiser”.

Apesar de o personagem Ian Stone ser assassinado todos os dias por demônios cujos braços transformam-se em armas mortais, falta sangue e violência em “Prisioneiro da Morte”. Em determinados momentos, parece que estamos assistindo a uma ficção científica no estilo “Arquivo X” e não a um filme de horror.

O filme está sendo lançado em DVD no Brasil pela Imagem Filmes. A edição magrinha, conforme informação da própria distribuidora, trará apenas trailers de futuros lançamentos. É possível encontrar em sites especializados um box com os 8 filmes do festival After Dark Horror Fest de 2007, contendo além de “Prisioneiro da Morte”, “Borderland”, “Unearthed”, “Toth and Nail”, “Crazy Eights”, “Nightmare Man”, “Lake Dead” e “Mulberry Street”.



Como de praxe faltou bom senso na escolha do título nacional. Qual o problema com “As Mortes de Ian Stone” (tradução literal do título em inglês)? Não seria um título muito mais intrigante que algo batido como “Prisioneiro da Morte”?

Enfim, mesmo sem sangue e sem criatividade, sem nada de inovador na trama ou na linguagem, talvez pela qualidade técnica “Prisioneiro da Morte” possa agradar aos menos exigentes. Lembre-se, aos menos exigentes.

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PRISIONEIRO DA MORTE (The Deaths of Ian Stone, EUA, 2007).
Direção: Dario Piana.
Roteiro: Brendan Hood.
Produção: Steve Christian, Brian J. Gilbert, Brendan Hood, Ralph Kamp, Paul Ritchie e Stan Winston.
Fotografia: Stefano Morcaldo.
Música: Elia Cmiral.
Edição: Celia Haining.

Elenco: Mike Vogel (Ian Stone), Christina Cole (Jenny), Jaime Murray (Medea) e Michael Feast (Gray).




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