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Estando à porta de seu trigésimo aniversário e as vésperas do lançamento do remake, 'A Profecia' original, que fez milhares de fãs no mundo todo, é mais do que a história do jovem anticristo, mas é a história de como um filme de terror pode ser surpreendente e resistir a força do tempo, mantendo-se intrigante e assustador a cada vez que é assistido. E é fato que apesar de ter sido considerado um filme maldito (Mais detalhes abaixo) é um filme tecnicamente esplendoroso não somente pelo roteiro simples e eficaz, nem pela trilha sonora impecável ou pela direção e interpretação inspirada, mas principalmente porque é uma história que poderia realmente acontecer (se já não está acontecendo). |
O filme é considerado por muitos um "rival" de ‘O Exorcista' como o melhor filme de terror dos anos 70, mas eu sinceramente acho que se trata uma comparação injusta. Seria mais ou menos como comparar um goleiro e um atacante como melhores jogadores de futebol - são ambos excelentes filmes e embora sejam parecidos na temática "possessão demoníaca", estão em contextos completamente diferentes, 'O Exorcista' é muito mais gráfico e chocante visualmente enquanto 'A Profecia' é muito mais sugestivo e interpretativo. Minha opinião pessoal? Não digo..hehehe..

Então, se você nunca assistiu (o que eu acho um pecado), aqui vai uma grande oportunidade de conhecer mais um pouco deste grande clássico do cinema de horror, se você já assistiu, não perca tempo e assista de novo antes de conferir o remake.
A história simples, com direção de Richard Donner (
‘Superman’,
’Os Goonies’, a série
‘Máquina Mortífera’) e roteiro de David Seltzer (‘
A Semente do Diabo’), começa no 6º dia do 6º mês as 06:00 em Roma, com Robert Thorn (Gregory Peck) que está preocupado com a morte da criança que sua esposa Katherine Thorn (Lee Remick) estava concebendo. Robert vai ao encontro do padre Spiletto (Martin Benson) que sugere a adoção de um garoto recém nascido cuja mãe havia morrido durante o parto, Robert aceita e o leva para os braços de Katherine, que acredita estar com seu filho legítimo, a quem dá o nome de Damien (Harvey Stephens).


Passados alguns anos, Robert é promovido a embaixador da Grã Bretanha e se muda com sua família para a Inglaterra, tudo está muito bem, a família está feliz em seu novo lar, até que no quinto aniversário do garoto um acontecimento chocante acontece: a babá (Holly Palance) vê um cão rottweiler e em seguida, declarando amor pelo garoto, se joga do telhado com uma corda no pescoço ao olhar perplexo de todos, enquanto tudo é registrado pela câmera do fotógrafo Keith Jennings (David Warner).
No dia seguinte, em meio ao assédio dos jornalistas devido ao suicídio, Robert recebe a visita do padre Brennan (Patrick Troughton) que afirma ter presenciado o nascimento de Damien e que insiste que Robert faça a comunhão com Cristo para destruir o filho do diabo. Robert expulsa o padre, que ao sair é fotografado por Jennings - na fotografia, percebe-se uma estranha imperfeição na imagem.
Mais tarde aparece na casa dos Thorn a Sra. Baylock (Billie Whitelaw), que se apresenta como a nova governanta. A princípio receosos com a repentina aparição da mulher, logo Baylock vai ganhando a confiança dos Thorn e se revelará como a protetora do anticristo.


Katherine vai com Robert a um casamento em uma igreja e leva Damien, mesmo sob protestos de Baylock, porém ao estacionar o carro Damien ataca sua mãe, aumentando a desconfiança de Robert de que há algo errado com seu filho. Esta cena em particular tem um ponto forte na trilha sonora de Jerry Goldsmith aumentando a tensão conforme o carro se aproxima da igreja, claramente influenciado por John Williams e sua famosa trilha para o filme '
Tubarão'.
Mas coisas estranhas continuam acontecendo: o rottweiler que fica de guarda na porta do quarto de Damien, com o consenso da Sra. Baylock; e durante um passeio ao zoológico onde alguns animais fogem e outros que se enfurecem com a presença de Damien (a cena ficou muito boa porque o pânico que Lee Remick passa no carro é real!). Até que no outro dia Robert é procurado mais uma vez pelo padre Brennan solicitando um encontro que valeria a vida de sua esposa e o padre é fotografado por Jennings novamente.


Robert comparece ao encontro e é ordenado pelo padre que encontre Bugenhagen na cidade de Megiddo e mate Damien antes que ele mate sua esposa, pois estaria grávida e com isto teria um herdeiro legítimo. Robert não dá ouvidos e o padre Brennan morre atravessado por uma lança após um vento muito forte em circunstancias misteriosas.
Katherine confirma sua gravidez e embora seu psiquiatra recomenda o aborto, devido a problemas mentais de Katherine, que também desconfia que Damien é o demônio, Robert vai contra o que foi profetizado e retorna para casa, entretanto um
"acidente" quase custa a vida de sua esposa. Tecnicamente muito bem editado e filmado, esta cena deu um trabalhão para Richard Donner: o chão na verdade é uma parede e Lee Remick é
"jogada" contra ela, a grua faz um movimento horizontal e pimba, temos uma perfeita
"queda", sem dubles e com pouquíssimos recursos.
Keith Jennings entra em contato e mostra as fotos a Robert, e o revela que as supostas imperfeições nas fotografias da babá e do padre condizem exatamente com a forma que elas morreram. Jennings se preocupa em mostrar para Robert, pois uma foto que acidentalmente tirou contra o espelho revela também uma imperfeição. Agora Jennings e Richard vão atrás da verdade sobre a origem de Damien e após uma sucessão de revelações e eventos bizarros, incluindo as famosas cenas da decapitação e a do cemitério, Richard fica entre o dilema entre estar matando uma criança ou matando o demônio. E não conto mais nada, se quiser saber o resto corra para a locadora.


Em primeiro lugar, todo o horror que este filme passa vem em grande parte das interpretações, do drama da família Thorn ao ver seu mundo desmoronar com a certeza que estão cuidando do demônio, da fúria da protetora do diabo, da preocupação do fotógrafo em ter seu destino profetizado, da angústia do padre em se libertar do pecado de ter ajudado a trazer o anticristo ao mundo e tudo isso amarrado com uma direção incrível de Richard Donner abusando dos closes nos olhos dos atores, mas de maneira oportuna, uma edição excelente de Stuart Baird e uma fotografia primordial de Gilbert Taylor.
A trilha sonora de Jerry Goldsmith é um espetáculo a parte, a sinistra música
"Ave Satani" que foi indicada ao oscar de canção original e a trilha incidental, que rendeu o primeiro oscar de Goldsmith, é a cereja do bolo, sem ela o filme poderia ter facilmente descambado para um dramalhão esquisito.
Falando em orçamento o filme inteiro custou, segundo Richard Donner, 2,22 milhões de dólares, embora o IMDB informe 2,8 milhões, mas tanto faz afinal trata-se de um orçamento irrisório nos dias de hoje e só com divulgação, o estúdio gastou mais que o dobro disto. E com tanto alarde o filme, lançado à 27 de junho de 1976 foi um sucesso de bilheteria, arrecadando no final de semana de estréia 4,2 milhões de dólares, fechando o caixa com 60 milhões em bilheteria só nos Estados Unidos, uma das maiores nos anos 70.


Concluindo, '
A Profecia' foi a cabal mostra que não é necessário tentar chocar as pessoas com sangue em profusão ou efeitos especiais baratos para amedrontar, basta se ter uma boa história e contá-la da maneira correta. A saga de Damien continuou em '
Damien: A Profecia 2' de 1978 e finalizou em '
A Profecia 3: O Confronto Final' de 1981, até tentaram ressuscitar o capeta em '
A Profecia 4, O Despertar' de 1991, porém sem sucesso. Agora é aguardar o remake (e confesso que estou com o pé atrás, muuuito atrás) e ver se o novo Damien é tão assustador como o velho. Quem viver, verá...
Um Filme Maldito?
Uma das razões pela qual '
A Profecia' ficou conhecido, o que até ajudou na publicidade do filme, são os sucessivos incidentes envolvendo os atores e a equipe técnica da película durante a produção e filmagens, e embora os envolvidos afirmarem que não passam de macabras coincidências, muitas pessoas acreditam que o filme é maldito. Maldição ou coincidência? Tirem suas próprias conclusões:


- Os aviões que levavam o roteirista David Seltzer e Gregory Peck de Los Angeles para a Inglaterra foram atingidos por raios, detalhe que eles estavam em aviões separados;
- O hotel onde estava o diretor Richard Donner foi bombardeado pelo grupo extremista IRA;
- Saindo do carro do produtor Harvey Bernhard indo para casa, Richard Donner quase foi prensado violentamente por um outro veículo;
- Gregory Peck cancelou um vôo para Israel e o avião que ele tomaria caiu, matando todos a bordo;
- No primeiro dia de filmagem, os principais integrantes da equipe sobreviveram a um grave acidente de carro;
- Richard Donner filmou uma seqüência no zoológico com leões, que não foi para a edição final, no dia que a equipe saiu da jaula dos leões para filmar com os babuínos, dois leões sairam de suas jaulas e mataram um guarda dentro de uma cabine;
- Na cena do cemitério, o dublê do ator David Warner foi ferido por um dos Rottweilers e levou 14 pontos na perna;
- Durante a pós-produção, John Richardson, artista responsável pelos efeitos especiais, se machucou e sua namorada foi decapitada em um acidente de carro nos sets de
'Uma Ponte Longe Demais' de 1977.

Sobre o elenco:
'
A Profecia' é um filme fortemente calçado na qualidade de seu elenco, que passa uma veracidade impressionante para o resultado final e portanto nada mais justo do que conhecer um pouco do trabalho destes profissionais e suas principais contribuições para a sétima arte:
Gregory Peck (Robert Thorn) - O grande ator Gregory Peck (grande mesmo, tinha 1.91m) mais conhecido por seus papéis em romances e dramas trabalhou com
Alfred Hitchcock em '
Spellbound' de 1945 e
'The Paradine Case' de 1947, protagonizou o filme '
Circulo do Medo' original em 1962 e participou da refilmagem '
Cabo do Medo' de Martin Scorcese em 1991, também fez o papel do maligno Dr. Josef Mengele no filme
'Os Meninos do Brasil'. Faleceu em 2003 com 87 anos de causas naturais, durante sua carreira foi indicado a muitos premios por seus papéis, entre eles 5 oscares de melhor ator onde ganhou em 1963 pelo filme
'O Sol é para Todos' (as outras indicações foram por
'As Chaves do Reino' em 1944,
'Virtude Selvagem' em 1947, no ano seguinte por
'A Luz é para Todos' e
'Almas em Chamas' em 1950).
Lee Remick (Katherine Thorn) - Trabalhou também mais em papéis dramáticos, participou do clássico filme-de-tribunal
'Anatomia de um Crime' em 1959 e foi indicada ao oscar de melhor atriz em 1962 pelo filme
'Vício Maldito' onde contracenou com Jack Lemmon, também trabalhou com Charles Bronson no filme
'O Telefone'. Infelizmente morreu de câncer no rim e fígado em 1991, apenas alguns meses depois de receber sua estrela na calçada da fama em Hollywood.
David Warner (Keith Jennings) - Nascido em 1941 e ainda atuante no cinema, o
"pau pra toda obra" Jennings participou de mais 150 papéis seja como ator, dublador de desenhos ou até em video games. Entre os destaques, participou de '
Star Trek V' e '
VI' e o papel de Dr. Wrenn em '
A Beira da Loucura’. Mais recentemente fez o papel de Sandar na versão de 2001 de '
Planeta dos Macacos'. Também tem personagens em
'Tron', '
Trilogia do Terror', '
A Companhia dos Lobos', '
O Sorveteiro', '
Necronomicon', '
Pânico 2', dos seriados
'Twin Peaks' e
'Contos da Cripta', e por aí vai...
Billie Whitelaw (Sra. Baylock) - Billie Whitelaw nasceu em 1931 estreou nas telonas em 1953 e desde então fez vários filmes, sendo a maioria como mulheres decididas e de força, fez o papel de Hetty Porter em '
Frenesi' do mestre Hitcocock e '
A Carne e o Diabo' com
Peter Cushing, além de
'Contos Proibidos Do Marquês De Sade' com Geoffrey Rush. Estará no filme
'Stardust' baseado nos quadrinhos de Neil Gaiman, além da continuação de
'O Cristal Encantado' ambos previstos para 2007.
Patrick Troughton (padre Brennan) - Mais conhecido pela sua atuação no seriado
'Doctor Who' de 1966 a 1969, Patrick Troughton participou da adaptação de 1963 de '
Jasão e o Velo de Ouro', '
O Conde Drácula' de 1970, '
Simbad e o Olho do Tigre' em 1977. Nacido em 1920, morreu em 1987 vitima de um ataque cardíaco.
Holly Palance (Holly) - Bem, na realidade ela não obteve muito sucesso comercial, mas serve como curiosidade. Seus pais são Jack Palance e Virginia Baker e chegou a fazer testes de cena com Christopher Reeve para o papel de Lois Lane em
‘Superman’ e
‘Superman II’, porém...
Harvey Stephens (Damien) - Esse aí é quase um sumido, depois de '
A Profecia' original não teve nenhum papel de destaque no cinema e também não quis saber das telonas depois de adulto, hoje vive em Kent na Inglaterra, trabalha como corretor de imóveis, é casado e tem um filho (e o nome não é Damien, se querem saber), mas anunciou que fará uma pequena ponta no remake de '
A Profecia'.
Mais curiosidades (um pouco menos macabras):
- Charlton Heston, Roy Schieder e William Holden recusaram o papel principal de '
A Profecia'. Gregory Peck, que não trabalhava já há 5 anos, foi escalado. No entanto, na continuação Holden aceitou fazer parte do elenco;


- Harvey Stephens teve de pintar seus louros cabelos de preto e usar lentes de contato, a pedido de Richard Donner, para dar um ar mais sinistro para Damien;
- Foi oferecida a cadeira de diretor para Mike Hodges, mas recusou. Entretanto, chegou a dirigir a continuação por três semanas antes de ser demitido por "
diferenças criativas";


- As falas sobre o
"Mar Eterno" citadas pelo padre Brennan não existem na bíblia, sendo criadas exclusivamente para o filme;
- Para fazer os babuínos atacarem o carro no zoológico, um funcionário do zoológico ficou sentado no banco de trás com o líder do grupo. Isto fez os macacos do lado de fora ficarem furiosos;
- Na cena em que um aquário cai no chão, sardinhas mortas pintadas de laranja foram usadas no lugar de peixes dourados de verdade. O diretor Richard Donner se recusou a matar os peixes somente para fazer o filme;
- Para a tomada final de
A Profecia, Richard Donner utilizou psicologia reversa no garoto Harvey Stephens, dizendo para ele:
“Não ouse sorrir. Se você sorrir, eu não serei seu amigo”. Naturalmente, Stephens tentou dar risada, mas apenas sorriu diretamente para a câmera;


- Durante as sessões de pré-estréia, ocorridas em 6 de junho de 1976, os funcionários dos cinemas foram instruídos a pregarem na saída cartazes especialmente produzidos para aquele dia. Os pôsteres traziam escrito:
“Hoje é o dia 6, do mês 6, de 1976”, para ressaltar o
“666” como o número do demônio e assustar ainda mais os espectadores quando eles deixassem a sala de exibição;
- De acordo com uma biografia de Gregory Peck, o ator foi escalado somente depois de aceitar uma grande redução em seu salário. Em compensação, lhe foi garantido receber 10% da bilheteria do filme. Como a produção arrecadou mais de U$ 60 milhões, somente nos Estados Unidos, a performance de Peck se tornou a mais bem paga de sua carreira;
- De acordo com o diretor Richard Donner, ele convenceu o diretor de fotografia Gilbert Taylor a abandonar a aposentadoria somente para participar de
A Profecia;

- Um erro geográfico: Keith Jennings diz que Megiddo fica a 60 milhas a sul de Jerusalem. Quando na realidade, fica ao norte de Jerusalem;
-
ATENÇÃO SPOILER: Na cena da morte de Jennings, originalmente a placa de vidro deveria cair na vertical sobre a cabeça dele, porém o responsável pelos efeitos especiais John Richardson não conseguia fazê-lo e o vidro sempre pendia para a horizontal como uma folha, então Richardson sugeriu que o vidro saísse da traseira de uma caminhonete.
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ATENÇÃO SPOILER: Próximo ao final do filme, quando Gregory Peck está com o garoto Harvey Stephens no carro, dentro da garagem, cenas do cachorro demoníaco e a Sra. Blaylock (Billie Whitelaw) atacando mais uma vez foram filmadas, mas acabaram cortadas. Originalmente, Gregory Peck a atropelava com o carro duas vezes. Richard Donner diz que cortou a cena porque ela parecia não terminar nunca;
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ATENÇÃO SPOILER: No final original de
A Profecia, existiam três caixões no funeral, sugerindo que Damien havia morrido. Richard Donner alterou isto no último minuto e a equipe retornou ao cemitério para refilmar a cena apenas com dois caixões.
Gabriel Paixão
A PROFECIA - O ETERNO FILHO DO DEMÔNIO
Orivaldo Leme Biagi
"Aquele que tem entendimento
Calcule o número da besta,
Pois é número de homem.
Ora, esse número é Seiscentos e Sessenta e Seis."
Livro do Apocalipse
Gregory Peck é um dos mais famosos atores de história do cinema, tendo protagonizado várias obras-primas dramáticas e românticas durante sua vida. Mas, curiosamente, foi o universo do terror, que ele nunca havia trabalhado, que lhe deu o seu maior sucesso:
A Profecia (The Omem) tornou-se um clássico do terror e uma das maiores bilheterias da década de 70, perdendo, dentro do gênero de terror, para seu
"antecessor" demoníaco -
O Exorcista (The Exorcist, 1973).

O filme tinha tudo para dar errado: Richard Donner era um diretor que inspirava pouca confiança no
"sistema" de grandes estúdios de Hollywood; David Seltzer, autor da história, não escondia que a tinha escrito apenas para ganhar dinheiro; o papel de embaixador norte-americano na Inglaterra era para ser interpretado por Charlton Helston que, poucos dias antes das filmagens serem iniciadas, foi vítima de uma doença e não pode fazê-lo, sendo substituído às pressas por Peck; a desconfiança da crítica sobre os prováveis resultados da presença de Gregory Peck e Lee Remick num filme de terror; na estréia, a mesma crítica subestimou o filme por considerá-lo uma mera cópia de
O Exorcista, talvez a maior injustiça feita pela crítica a um filme -
A Profecia é uma obra única, sólida e sem comparações.
Mas nada disso impediu seu enorme êxito de bilheteria. Muitos fatores contribuíram a favor do filme. Apesar do apelo imprimido por Seltzer na história (ou talvez mesmo por isso), o roteiro absolutamente bem construído, seco e preciso, dando a impressão de que a ausência ou a inclusão de uma vírgula estragaria todo o conjunto. A história também é simples e perfeita: filho morto do embaixador norte-americano na Itália é substituído por outra criança e, anos depois, o já embaixador na Inglaterra começa a desconfiar, depois de uma série de incidentes pouco explicáveis logicamente, da verdadeira identidade da criança. Enquanto o embaixador procura descobrir quem (ou o que) é a criança, uma série de acontecimentos fantásticos (inclusive várias e fantásticas mortes) vão rodando sua caçada, até ele chegar à conclusão de que aquela criança era o filho do demônio - e que deveria ser morta.

A direção de Donner foi outro trunfo para o sucesso do filme, pois ele conseguiu retratar na medida certa como a pacata vida familiar dos Thorns vai sendo envolvida no terror, com seus valores e crenças sendo destruídos, um a um, pela criança - mesmo ela não tendo consciência de seu papel nesta destruição. O sucesso avassalador deste filme fez com que o diretor passasse a ser requisitado para dar credibilidade para histórias fantásticas (entre várias delas, destacamos o
"encantador" filme
Os Gonnies e a série
Máquina Mortífera - esta série de filmes, mesmo não podendo ser classificada como integrante do "universo fantástico", não deixa de ser bastante "fantástica" e irrealista a maior parte das vezes, mesmo apresentando belíssimos momentos de ação).

O número de seqüências antológicas é enorme, mas podemos destacar: o suicídio da primeira babá na festa de aniversário de Damien, enforcando-se na varanda sob o olhar perplexo do menino - e de todos os convidados; a morte do padre que tentou avisar o embaixador da real natureza do seu filho, morte esta que começa com um vento forte e termina com a queda do ferro da cruz de uma igreja, imolando-o; os animais agindo selvagem e histericamente perante a presença de Damien; o menino brincando de velocípede, pedalando cada vez mais forte e de maneira circular, até ir em direção à sua mãe (ou melhor, à mulher que lhe deram como mãe, numa interpretação sensacional de Lee Remick, misturando fragilidade e medo, inclusive no olhar) para derrubá-la; a morte da mulher do embaixador no hospital sob o olhar satânico da nova babá, uma discípula do demônio enviada para proteger Damien; a ataque dos cães contra o embaixador e o repórter fotográfico, Jennings, no cemitério italiano onde é descoberta a real natureza de Damien; a decapitação de Jennings por um grande pedaço de vidro que cai
"acidentalmente" de um caminhão; a chegada de Thorn em sua casa e seu confronto com o cão que protege Damien, sua babá e com o próprio Damien, já numa igreja, quando o pai vai matar o corpo da criança (com um dos punhais entregue a ele na cidade de Meggido por Bugenhagem, um exorcista) e, neste mesmo instante, a polícia atira. Em 1976 a cena final perguntando quem teria sobrevivido na igreja provocou suspense, mas, com as continuações, ficou claro quem sobreviveu.

Méritos para a excepcional fotografia, carregada de luz e sombras (principalmente na cena do cemitério), a cargo de Gil Taylor, e para a música, conduzida por Jerry Goldsmith, misturando o estilo sacro, carregado de corais cristãos, com terror, num efeito aterrador que deu a Goldsmith o Oscar de melhor trilha sonora. E, entre as principais razões do sucesso do filme, a escolha do menino Harvey Stevens para ser Damien foi decisiva: com seus cabelos de tons avermelhados e sua expressão facial angelical, sua figura doce deu força e sentido para representar dignamente o filho do demônio, pois podemos ver, no menino Damien, uma figura infantil tão forte quanto as das típicas representações ocidentais da imagem menino Jesus. A imagem doce e, ao mesmo tempo, apavorante de Stevens (pois nós, os espectadores, sabemos de quem se trata) criou um contraponto perfeito e direto entre a imagem de Cristo e a do Anti-Cristo.
Mas o show mesmo foi de Gregory Peck, perfeito como embaixador Thorn. Talvez ele não seja o melhor ator da história do cinema, mas seu carisma foi forte o suficiente para dar consistência ao atormentado embaixador e ajudou a criar um dos melhores filmes de terror de todos os tempos.
Artigo escrito e pesquisado por Orivaldo Leme Biagi, tendo sido publicado originalmente no fanzine "Juvenatrix", editado por Renato Rosatti.
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A PROFECIA (The Omen, EUA/Inglaterra, 1976). 20th Century Fox, 111 minutos
Direção: Richard Donner
Roteiro: David Seltzer
Produção: Harvey Bernhard
Produção Executiva: Mace Neufeld
Fotografia: Gilbert Taylor Música: Jerry Goldsmith
Edição: Stuart Baird Direção de Arte: Carmen Dillor
Desenho de Produção: Claude Hudson
Maquiagem: Stuart Freeborn
Efeitos Especiais: John Richardson; George Gibbs; Roy Field
Elenco: Gregory Peck (Robert Thorn); Lee Remick (Katherine Thorn); David Warner (Keith Jennings); Billie Whitelaw (Sra. Baylock); Harvey Stephens (Damien Thorn); Patrick Troughton (padre Brennan); Martin Benson (padre Spiletto); Anthony Nicholls (Dr. Becker); Robert Rietty; Tommy Duggan; John Stride; Holly Palance; Roy Boyd; Freda Dowie; Sheila Raynor; Robert MacLeod; Bruce Boa; Don Fellows; Patrick McAlinney; Dawn Perllman; Nancy Mannigham; Miki Iveria
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