PSICOSE 4 - A REVELAÇÃO
por Filipe Falcão
Produzir uma seqüência para um filme nunca foi tarefa das mais fáceis, pois o
desafio é formado por, além de criar uma “segunda parte” convincente, conseguir
agradar aos fãs do trabalho original e fazer sucesso de crítica e bilheteria.
Claro que, para cada dez trabalhos que ganham um “capítulo dois”, apenas um
consegue fazer sucesso razoável entre a imprensa especializada e principalmente, o
público. Mas algumas destas seqüências são tão ruins, em todos os aspectos, que
quando se termina de assistir ao filme, a vontade que fica é que os produtores,
diretores e até atores envolvidos na produção fossem presos acusados de destruírem
uma obra original. Quer um exemplo disso? Psicose 4 – A Revelação (Psycho IV: The
Beginning, 1990).
Lançado recentemente no Brasil no formato DVD, o último (graças a Deus) filme
envolvendo o assassino Norman Bates é uma verdadeira aula de como se fazer uma
péssima e desnecessária seqüência. História? Fraca. Roteiro? Inexistente. Elenco?
Decadente. Mas antes de falarmos mais profundamente sobre Psicose 4, é preciso
voltar no tempo para o ano de 1960, quando o filme original, dirigido pelo mestre
Alfred Hitchcock foi produzido e lançado.
Considerado um clássico do suspense, Psicose (Psycho) narra as desventuras da
secretária Marion Crane (Janet Leigh), que após roubar 40 mil dólares da firma
onde trabalha, foge da cidade para encontrar o amante. Durante o percurso, a moça
decide passar uma noite no Bates Motel, administrado pelo esquisito Norman Bates
(Anthony Perkins), que mora no local com a sua misteriosa e violenta mãe. Antes de
dormir, Marion acaba sendo assassinada enquanto tomava banho, levando a história
para uma tensa investigação sobre os segredos que habitam no local.
Psicose foi adaptado do romance homônimo de Robert Bloch, custando apenas US$ 800
mil e faturando mais de US$ 40 milhões nas bilheterias. O suspense bem construído
e um roteiro elaborado de forma a prender a atenção do público criaram o tom exato
para agradar a quem assistisse ao filme. A cena do chuveiro entrou para a história
como uma das melhores seqüências já filmadas, levando uma semana para ser
produzida, com duração de 45 segundos, enquanto o restante do filme levou sete
semanas para ser gravado.
Mas bastou Hitchcock morrer, em 1980, para que o impensável acontecesse e uma
primeira seqüência de Psicose fosse produzida. A surpresa foi que Psicose 2
(Psycho 2, 1983), do diretor Richard Franklin, resultou em um bom filme, com uma
história interessante e capaz de prender a atenção sem fugir ou descaracterizar a
trama original. Claro que, quando comparado ao trabalho realizado por Hitchcock,
Psicose 2 definitivamente não é tão bom quanto, mas como seqüência, funciona bem.
A dor de ver a obra original manchada por uma continuação indigna havia passado...
pelo menos, por enquanto.
O ano era 1986 quando o próprio Anthony Perkins, motivado por fazer sua estréia
como diretor, resolveu assumir o comando de um Psicose 3 (Psycho 3) na esperança
de que o raio pudesse cair duas vezes no mesmo lugar e o terceiro filme também
fosse bom. A nova trama envolvendo o psicopata Norman Bates se limitou a mostrar
uma história semelhante as incontáveis produções de suspense dos anos 80, com
pouco enredo e muitas mortes, além de coadjuvantes sem roupas e violência
gratuita. A tentativa de Perkins em continuar o trabalho iniciado por Hitchcock
apenas serviu para dar um ar de trilogia à história e encerrar a série.
Pronto, todos estavam felizes com os três filmes: um clássico, um bom e um
regular, respectivamente, porém não demoraria muito para que uma última produção
fosse feita para ocupar a vaga de péssimo trabalho dentro da franquia. Psicose 4
poderia concorrer, caso feita uma eleição, para o título de pior seqüência das
história dos filmes de terror e suspense. Tudo na produção é ruim, a começar pelo
roteiro, que, não tendo mais o que explorar, resolveu criar uma história que se
passasse antes dos eventos mostrados no primeiro filme. Foi por isso que o
subtítulo original da pré-seqüência foi The Beginning (o começo), enquanto a
tradução para o lançamento no Brasil foi A Revelação.
Para não parecer tão picareta, a história era narrada pelo próprio Anthony
Perkins, que relembra a infância e juventude, quando cometeu os primeiros crimes e
matou a mãe. Psicose 4 foi produzido para TV, tendo sido, posteriormente, lançado
no formato VHS e recentemente, em DVD. Importante lembrar que filmes feitos para
TV não significam trabalhos sem qualidade, como é o caso desta pré-seqüência. A
direção ficou a cargo de Mick Garris, um sujeito que até já fez alguns trabalhos
razoáveis como Criaturas 2 (Critters 2: The Main Course, 1988), Sonâmbulos
(Sleepwalkers, 1992) e a versão para TV de O Iluminado (The Shining, 1997). Já o
roteiro ficou a cargo de Joseph Stefano, que foi o roteirista do Psicose original,
mas que definitivamente trocou os pés pelas mãos nesta seqüência.
A Triste Revelação...
Talvez o pior problema de Psicose 4 seja a sua trama e a forma como ela foi criada
e conduzida. Quem assistiu Psicose 3 se lembra do final, no qual Norman termina
preso pelo assassinato de quatro pessoas. Levando em conta o passado do rapaz,
seria difícil imaginar que o mesmo tivesse novamente como desfrutar uma vida em
liberdade. O mais lógico seria condenar logo o sujeito à cadeira elétrica ou
prisão perpétua. Pois bem, quatro anos se passaram desde a ação mostrada em
Psicose 3 e Norman Bates está livre (!!), casado (!!!) e sua esposa está grávida
(!!!!). A explicação para que o assassino esteja fora das grades é que ele
participou de um programa de reabilitação, no qual o preso é logo colocado em
convício com a sociedade, para que recupere a sanidade. Se esse programa chega ao
Brasil, vai ser um problema... Ah, um detalhe importante deve ser dito sobre a
esposa de Norman: ela trabalha como psicóloga nesta tal instituição que coloca
assassinos em liberdade e foi lá que
a moça conheceu e se apaixonou pelo psicopata. O amor é lindo e neste caso, bizarro.
Enquanto isso, um programa de rádio está realizando um debate sobre matricídios, o
crime no qual um filho mata a própria mãe. Adivinhem que vai ligar para este
programa e contar toda a sua vida? Pois é, o nosso amigo Norman, usando o
pseudônimo de Ed, vai relembrar fatos importantes da sua vida, como a primeira
garota que matou e por aí vai. Claro que cada história vai ser mostrada através
das lembranças de Norman.
O filme segue sem ritmo, intercalando cenas do passado com um atordoado Norman
narrando suas memórias por telefone. Com intenção de criar momentos que pudessem
servir de homenagens ao primeiro filme, a trama é repleta de falas e situações
idênticas as presentes na obra original, mas nem isso ajuda a um bom andamento de
Psicose 4. O filme vai se arrastando sem oferecer nada de interessante para o
telespectador, que acaba sendo a única vítima desta produção. Nem a relação do
jovem Norman com a mãe, ainda viva, resulta em material aproveitável. O elenco
também é o pior de toda a série, começando pelo próprio Anthony Perkins, que
poderia ter encerrado a carreira sem essa mancha, uma vez que ele morreria dois
anos depois deste filme ter sido gravado. Para interpretar a mãe de Norman, foi
escolhida a experiente e bonita atriz Olivia Hussey (It, 1990), que
definitivamente não está em seus melhores dias, pois além de mais parecer uma
mulher com grave crise de TPM ou em princípio
de menopausa, não convence como a tão temida Senhora Bates, que tanto foi imaginada
no primeiro filme.
A locutora que passa a noite conversando com Norman foi vivida por CCH Pouder
(Robocop 3, 1993), que passa o filme fazendo caras e bocas quando o seu
entrevistado diz alguma fala de efeito. Já o improvável papel da esposa de Norman
ficou com Donna Mitchell (A Tempestade do Século, 1997), porém a personagem é tão
sem graça e não faz nada durante o filme inteiro que nem uma atriz de talento como
Michelle Pfeiffer ou Susan Sarandon teria feito de forma diferente. A única
exceção com relação a este elenco foi a participação de Henry Thomas (ET, 1982),
que está longe de ter tido um brilhante desempenho em Psicose 4, mas pelo menos o
coitado se esforçou em interpretar o jovem Norman Bates e durante alguns momentos,
até consegue passar um pouco da loucura e medo que fizeram do personagem um dos
assassinos mais conhecidos do cinema.
Por todos estes pontos apresentados acima, corra quando encontrar este Psicose 4
na sua locadora ou na loja de DVDs. Mas se a sua curiosidade for maior, o risco é
todo seu. Se fosse verdade a expressão de que Alfred Hitchcock se reviraria no
túmulo sabendo o que foi feito com a sua brilhante obra prima, ele deveria ter
ressuscitado para matar cada um dos responsáveis por esta bomba. Isso sim talvez
rendesse um bom filme. Mas um alerta final deve ser dado, pois Psicose 4 teve por
muitos anos o título de pior filme da saga Norman Bates, até que, em 1998, Gus Van
Saint resolveu dirigir um remake do Psicose original e conseguiu um resultado que
pode responder catastrófico. Mas isso, já rende um outro artigo...
Filipe Falcão
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PSICOSE 4 - A REVELAÇÃO (Psycho IV: The Beginning , Estados Unidos, 1990). 96 minutos
Direção: Mick Garris
Roteiro: Joseph Stefano, a partir de personagens criados por Robert Bloch
Produção: Les Mayfield; George Zaloom
Produção Executiva: Hilton A. Green
Fotografia: Rodney Charters
Música: Graeme Revell
Figurino: Marla Denise Schlom; Mary Ellen Winston
Edição: Charles Bornstein Desenhos de Produção: Michael Z. Hanan
Direção de Arte: Mark Zuelzke
Elenco: Anthony Perkins (Norman Bates); Henry Thomas (jovem Norman Bates); CCH Pounder (Fran Ambrose); Warren Frost (Dr. Leo Richmond); Donna Mitchell (Connie Bates); Thomas Schuster (Chet Rudolph); Sharen Camille (Holly); Bobbi Evors (Gloria); John Landis (Mike); Kurt Paul (Raymond Linette); Louis Crume (George Emeric); Cynthia Garris (Ellen Stevens); Doreen Chalmers (Sra. Lane); Alice Hirson; Ryan Finnigan
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