Q - THE WINGED SERPENT

por Felipe M.Guerra

A maior ameaça aérea a Nova York antes de Bin Laden!

Vinte anos antes dos lunáticos liderados por Osama Bin Laden atirarem dois aviões comerciais cheios de passageiros inocentes nas torres gêmeas do World Trade Center, uma outra terrível e mortal ameaça aérea já pairava sobre os céus de Nova York. Como se não bastassem todos os problemas que os nova-iorquinos tinham em terra, no ano de 1982 eles ainda precisavam ficar de olho no horror que vinha do ar, pelo menos no cinema. Foi neste ano que o roteirista e diretor Larry Cohen concebeu uma pequena pérola do cinema de baixo orçamento: Q - THE WINGED SERPENT, a divertida história de uma serpente voadora pré-histórica que sobrevoava a metrópole para devorar seus habitantes!!!

Calma aí... Um monstro voador que devora nova-iorquinos? Pois é, realmente podemos dizer que Nova York é uma espécie de imã para desgraças diversas: por lá já passaram visitantes ilustres, do maníaco Jason Voorhees ao lagarto atômico oriental Godzilla, além de
todo tipo de catástrofes climáticas graficamente mostradas pelo cinema, da devastação por meteoros em ARMAGEDDON à inundação por uma onda gigante em IMPACTO PROFUNDO e O DIA DEPOIS DE AMANHÃ. Mas quem um dia iria imaginar uma serpente voadora em stop-motion, na verdade a reencarnação de um deus asteca (!!!), pairando pelos céus da Big Apple? Só mesmo o desvairado Larry Cohen! E, acredite se quiser, todo o conceito do filme surgiu quando o cara olhou para o topo do Chrysler Building, um dos mais famosos edifícios nova-iorquinhos, e pensou com seus botões: "Mas que belo lugar para um ninho...". Pronto: assim nasceu Q - THE WINGED SERPENT.



Um dos mais criativos autores e cineastas dos anos 70 e 80, Lawrence (Larry) Cohen nunca teve o devido reconhecimento na sua pátria-mãe, e no Brasil é praticamente desconhecido. Ele começou investindo no cinema blacksploitation, com filmes como BONE (1972, estrelado por Yaphet Kotto) e a dobradinha O CHEFÃO DE NOVA YORK/INFERNO NO HARLEM (ambos de 1973 e estrelados por Fred "Topa Tudo" Williamson). Foi em 1974 que Cohen entrou para os anais do cinema fantástico com IT'S ALIVE (no Brasil, NASCE UM MONSTRO). E, a partir daí, centralizou sua carreira em filmes de horror ou suspense, de onde saíram vários clássicos e cult movies, de FOI DEUS QUE MANDOU (1976) e A COISA (1985) até o divertido A AMBULÂNCIA (1990).

Além de cineasta, também é um roteirista de mão cheia. Foi ele quem assinou a trilogia MANIAC COP, dirigida por William Lustig, e recentemente o roteiro de três produções badaladas: POR UM FIO (2002, dirigido por Joel Schumacher), CELULAR (2004, de David R. Ellis) e CAPTIVITY (2007, de Roland Joffé). Infelizmente, como eu escrevi no parágrafo anterior, Larry Cohen continua esperando o devido reconhecimento. Seus filmes, normalmente divertidíssimos, custaram uma merreca, mas visualmente parecem grandes produções (e com atores de verdade, não cabeças-de-bagre que não sabem atuar). Nos últimos anos, o máximo que ele ganhou de destaque, além dos roteiros vendidos para os figurões de Hollywood, foi a oportunidade de dirigir um episódio da série MESTRES DO HORROR ("Estrada da Morte", da primeira temporada).



No hoje distante ano de 1982, Cohen vinha do sucesso de uma comédia de horror de baixíssimo orçamento sobre um lobisomem adolescente (FULL MOON HIGH, 1981, inédita no Brasil e plagiada alguns anos depois em TEEN WOLF - O GAROTO DO FUTURO, aquela tralha com Michael J. Fox). Também havia feito um policial produzido para a TV (SEE CHINA AND DIE, igualmente inédito por aqui). Foi, então, contratado para dirigir um filme policial de vingança chamado EU SOU A LEI (I, THE JURY, 1982). Além de escrever o roteiro, ainda ajudou a escolher o elenco, encabeçado por Armand Assante, Paul Sorvino e Laurene Landon. Após uma semana de trabalho, entretanto, os produtores puxaram o tapete do cineasta, que foi substituído por Richard T. Heffron. Só para se vingar, Cohen saiu do set já pensando num filme de monstro, que viria a ser justamente Q - THE WINGED SERPENT.

EU SOU A LEI e Q - THE WINGED SERPENT foram rodados ao mesmo tempo por suas respectivas equipes e, ironicamente, estrearam nos cinemas americanos no mesmo dia, seis meses depois. O primeiro tomou uma lavada nas bilheterias e acabou esquecido nas poeiras do tempo (deu origem ao seriado MIKE HAMMER, que pouca gente deve lembrar). Já Q - THE WINGED SERPENT virou um clássico cult e se pagou umas 10 vezes, já que custou a mixaria de US$ 1.200.000. E somente Larry Cohen para fazer um filme de monstro numa grande metrópole, com um elenco de caras conhecidas, gastando apenas um milhão de dólares no processo! Como vingança, a produção-chulé faturou o triplo de EU SOU A LEI - que teve um orçamento de 7 milhões de dólares, só para você comparar o tamanho da sova...



Q - THE WINGED SERPENT começa com várias cenas aéreas da Big Apple, até que a câmera se aproxima do sujeito que trabalha lavando as janelas no topo do Empire State Building, pendurado numa cadeirinha pelo lado de fora do prédio. Acreditando que lavadores de janelas são o máximo de sensualidade, ele flerta com a secretária do escritório que fica do lado de dentro da janela, até que algo vem do céu (o espectador não vê o que é) e lhe decepa a cabeça num piscar de olhos! A polícia chega e faz uma brilhante constatação: "Talvez a cabeça dele tenha se soltado e caído" (hahahaha, um mínimo de bom humor é necessário para ver este filme). E o pepino, claro, sobra para a dupla de policiais durões do departamento. Um deles é o detetive Shepard (David Carradine, o Bill de KILL BILL); o outro é o sargento negrão e valentão Powell (Richard Roundtree, celebrizado na série blacksploitation SHAFT). Sim, é a clássica dobradinha preto-branco vista à exaustão no cinema posteriormente...

Logo depois, somos apresentados ao terceiro personagem importante do filme, e talvez seu "herói": um ex-drogado e ladrão de quinta categoria chamado Jimmy Quinn (Michael Moriarty, amigão de Cohen e um dos atores mais exagerados da história, talvez perdendo apenas para Eric Roberts e James Woods). O marginal detesta trabalhar e, apesar dos protestos da namorada Joan (Candy Clark, de A BOLHA ASSASSINA), aceita a proposta de uma dupla de criminosos da pesada para dirigir o veículo durante o assalto que eles irão fazer a uma joalheria. A conversa entre os bandidos, durante o café da manhã numa lanchonete, supostamente teria inspirado Quentin Tarantino a fazer cena semelhante no início de seu filme de estréia, CÃES DE ALUGUEL (que também trata do assalto a uma joalheira, por coincidência).



Enquanto o roubo está sendo planejado, mais dois acontecimentos bizarros sacodem a metrópole. Primeiro, um cadáver sem pele é encontrado pela polícia na cama de um hotel. "Foi descascado como uma laranja", comenta alguém. Os policiais acreditam que um psicopata possa ter caprichosamente arrancado a pele do sujeito com uma faca (e neste momento entram takes bem violentos "reconstituindo" o crime, e mostrando o couro da vítima sendo arrancado à faca). Depois, uma garota tomando banho de sol no topo de um edifício, com os peitos de fora para garantir a dose de nudez gratuita que produções como esta necessitam, é agarrada por um monstro que vem do céu. Enquanto ela é devorada em pleno vôo, começa a literalmente chover sangue nos pedestres na rua, que pensam se tratar do fim do mundo!

Alheio a toda essa balbúrdia está o atrapalhado Quinn, em meio ao assalto à joalheria. Ele não é o que se pode chamar de um criminoso esperto. Cagão e atrapalhado, foge da joalheria (chamada "Neil Diamonds", numa homenagem ao músico Neil Diamond) levando seu revólver e vários milhões de dólares em diamantes. Só que correr a pé pelo meio da rua de uma grande cidade não é uma boa idéia: Quinn é atropelado, perde os diamantes e é obrigado a se refugiar na torre do Chrysler Building quando percebe que está sendo perseguido pela polícia. Para despistar o guarda de segurança do local, ele sobe até o topo da torre e, para sua surpresa, encontra por lá um ninho gigante, com um ovo descomunal no seu interior e o esqueleto carcomido da mulher que tomava banho de sol na cena anterior. Espertamente, Quinn foge correndo do local.



Para a sorte do larápio, o monstro não estava em seu ninho naquele momento. Na verdade, a criatura estava ocupada abocanhando um operário que trabalhava no alto de uma construção (pedaços do cadáver devorado caem sobre pedestres na rua, numa bela cena). Dessa vez, pela primeira vez no filme inteiro, uma sombra alada é vista refletida nos arranha-céus, quando o espectador finalmente tem uma pequena noção de como se parece a criatura que está aterrorizando Nova York.

Paralelamente, Shepard está fazendo suas próprias descobertas: numa visita a um museu de história natural, ele escuta as explicações do curador sobre os antigos sacerdotes astecas e seu hábito de fazer sacrifícios humanos arrancando a pele das vítimas, em honra a um deus alado chamado Quetzlcoatl. Como é um nome difícil de digitar, vamos usar o apelido "Q". Acredite ou não, tal criatura não é uma invenção saída da cabeça de Cohen: realmente existe um deus asteca chamado Quetzlcoatl, embora não seja uma serpente voadora, mas sim uma serpente com penas, como um pássaro, porém sem asas. Você pode pesquisar mais sobre isso no Google.



Após ler alguns livros sobre a cultura asteca e encontrar mais cadáveres que parece ter sido sacrificados, Shepard, um detetive nova-iorquino do século 20, chega a uma brilhante conclusão: existe um culto milenar asteca fazendo sacrifícios humanos na sua cidade para tentar despertar uma divindade em forma de serpente voadora! E o sujeito não só chega a esta conclusão, como ainda é macho o suficiente para escrevê-la num relatório ao seu superior, o comissário McConnell (Malachy McCourt). Nem precisa dizer que seu parceiro Powell, acostumado com a malandragem das ruas, acha que é tudo maluquice e coisa de marginais humanos, não de deuses de uma civilização extinta há séculos. "Eu não confio naquele curador do museu e sua turma", brada Powell. "Para mim, são um bando de freaks. E um desses freaks deve estar por aí fatiando pessoas!!!"



Quando outro funcionário da construção civil é morto por uma criatura alada, a história ganha os jornais: "Fato ou bobagem: um pássaro gigante está atacando a cidade?", questiona a manchete. Tudo bem que é meio ridículo o fato de ninguém, nem mesmo um turista, conseguir tirar uma bela foto da gigantesca serpente voadora quando ela sobrevoa os céus de Big Apple para atacar suas vítimas, mas o roteiro tenta contornar este furo com a explicação de que o monstro voa sempre próximo ao sol para ficar "invisível"... E para a polícia, claro, tudo não passa de um caso agudo de histeria coletiva. Afinal, esse é um típico filme de terror.

Mas você ainda lembra de Quinn e dos diamantes desaparecidos? Pois é, seus parceiros no assalto também não esqueceram. Eles vão até a casa de Quinn, enchem-no de porrada e, claro, não acreditam na história (real) de que ele teria sido burro o suficiente para perder os diamantes na fuga. Sabendo que vai morrer de qualquer jeito, o atrapalhado ladrão se lembra do ninho no topo do Chrysler Building e consegue convencer os dois marginais de que escondeu lá as pedras furtadas. Chegando até o ninho, os dois valentões são rapidamente devorados pelo monstro, enquanto Quinn, todo alegre, grita: "Eat them! Eat them!!!". hahahaha



Até então, tudo que vimos da nossa serpente voadora foram curtos takes mostrando closes da criatura. Somente aos 45 minutos de filme há uma cena em que é possível ver o monstro por inteiro, quando Q dá um rasante no terraço de um prédio e agarra um mané que estava tomando banho de piscina, diante dos olhares estupefatos de um montão de garotas de biquíni. A cena em stop-motion do sujeito sendo carregado pelo monstro é um daqueles momentos mágicos do cinema classe B, que jamais podem ser recriados hoje em dia com a computação gráfica sem graça...

Neste ínterim, Quinn é preso pelo assalto à joalheria e resolve se safar com astúcia: ele escuta os policiais comentando sobre os ataques de um suposto monstro voador e diz que pode levá-los até o ninho da criatura. Suas condições: 1 milhão de dólares e perdão pelos seus crimes até o fim da vida, "como fizeram com Richard Nixon", justifica. Ah sim: e nada de cobrar imposto sobre o 1 milhão de dólares. "Eu nunca paguei impostos na vida e não vai ser agora!", reclama. Espertinho, percebendo o desespero dos homens da lei, ele ainda pede os direitos sobre todas as fotografias do ninho e do que restar do monstro! Segue-se um diálogo brilhante, quando Powell pega Quinn pelo cangote e o acusa: "Um homem morreu ontem, e você podia ter evitado isso. Como se sente?". Sem pensar duas vezes, com um sorrisinho malicioso no rosto, o marginal responde: "Me sinto um herói, pois posso evitar a morte de outra pessoa amanhã e depois de amanhã". hahahahaha. Quinn, definitivamente, é um anti-herói à altura dos personagens de John Carpenter. Imagine Kurt Russell no papel...



E eis que o comissário convence o prefeito a dar tudo que o bandido pede. Quinn então revela a localização do ninho e a polícia mobiliza um batalhão de soldados com metralhadoras e armas de grosso calibre para destruir o monstro. É muito engraçado quando você vê policiais "modernos" subindo até o topo do Chrysler Building para dar cabo de um monstro gigante. E não tem como segurar o riso na cena em que Shepard, encarnando o típico herói machão e armado até os dentes desse tipo de filme, metralha o ovo gigante no interior do ninho e grita: "Fritem um montão de bacon que vamos ter este ovo para o café da manhã!". hahahahahaha. Nem precisa dizer que logo vai aparece a "mamãe" para dar o troco e render mais um montão de cenas impagáveis em stop-motion baratíssimo.



Um deus asteca em forma de serpente voadora atacando nova-iorquinos em pleno ano de 1982? Definitivamente, Q - THE WINGED SERPENT não é um filme para ser levado a sério, e qualquer diretor cabeça-de-bagre, que não Larry Cohen, provavelmente faria um fiasco com este mesmo argumento (basta lembrar daquelas produções idiotas com cobras gigantes ou exércitos de ratos atacando grandes cidades, e que pecam justamente por se levarem a sério demais). Inspiradíssimo, Cohen faz aqui um de seus melhores trabalhos, deixando o monstro voador em segundo plano até o ato final, preferindo concentrar-se nas relações entre os três interessantes personagens principais (Quinn, Shepard e Powell), e em como suas vidas de cidadãos modernos são afetadas por um monstro pré-histórico. "É um filme de monstro onde os personagens são mais interessantes do que o próprio monstro. Na maioria dos filmes do gênero, os personagens são apenas bonecos de cartolina", disse o diretor-roteirista, numa entrevista.

Os efeitos tosquíssimos, criados por Peter Kuran e Dave Allen (este último, falecido em 1999, foi quem deu vida aos bonequinhos da série PUPPET MASTER), só fazem a brincadeira ficar ainda mais divertida, pois o montro Q nunca interage decentemente com os atores de carne e osso (repare nas cenas em que ele agarra suas vítimas). Todo ataque da criatura é um festival de gargalhadas, principalmente na conclusão, quando Q enfrenta o batalhão de policiais no topo do Chrysler Building, devorando alguns, empurrando outros para a morte e voando ao redor do arranha-céu numa época em que ninguém falava de computação gráfica. Dentro de suas limitações, o stop-motion de Q tem um ar nostálgico, lembrando os efeitos criados por Ray Harryhausen nos filmes dos anos 60 e 70, tipo SINBAD e JASÃO E O VELO DE OURO.



Cohen sempre disse, em entrevistas, que seus filmes são pura comédia e humor negro, mesmo o suspense NASCE UM MONSTRO (que teve duas seqüências pra lá de trash). Garantiu, também, que sempre lamentou o fato de alguns críticos e espectadores levarem suas produções muito a sério, como aconteceu com o já citado NASCE UM MONSTRO e com FOI DEUS QUEM MANDOU. O espírito humorado e brincalhão do cineasta tem seu ponto alto em Q - THE WINGED SERPENT, um filme que é uma piada assumida e nunca tenta ser pretensioso ou maior do que realmente é - Cohen repetiria a dose três anos depois, com A COISA, outra obra que muita gente não gosta porque tenta encarar como terror sério, e não como sátira.

Porém, mesmo contando uma piada, Cohen consegue colocar toques de crítica social e interessantes questionamentos religiosos, dois detalhes que permeiam sua obra desde NASCE UM MONSTRO. Os diálogos envolvendo religião são o ponto alto e dão um nível inteligente ao que poderia passar como filme trash em mãos menos hábeis. Os supostos "heróis" da trama, por exemplo, são um retrato da intolerância em relação a outras culturas. Quando Shepard escreve no seu relatório que o monstro que vem atacando Nova York é um deus asteca, o comissário pede que ele omita esta informação. E justifica: "É mais fácil para mim pensar que estamos matando um pássaro gigante, e não a reencarnação de um deus asteca!".



Um antropólogo também faz, a Shepard, um comentário brilhante: "O que é o nosso Deus além de uma força invisível que tememos? Por séculos nós tentamos lhe dar uma imagem humana, um Deus com mãos, lábios, olhos... Talvez seja somente nossa própria vaidade!". Em outras palavras: Deus, no fim das contas, pode muito bem ser uma horrível e sanguinária serpente voadora devoradora de nova-iorquinos, como Q! hehehehe. Representando o papel do espectador na trama, o sargento Powell é a típica voz da descrença, pois não consegue assimilar o fato de estarem combatendo um monstro voador em pleno século 20. Obviamente, vai acabar mal...



Talvez Q - THE WINGED SERPENT não fosse tão engraçado caso o elenco não tivesse atores "sérios", que dão credibilidade a uma história normalmente impossível de engolir. É muito divertido, por exemplo, ver David Carradine contracenando com o stop-motion tosco da criatura voadora. Esqueça o fato de o ator ter caído em desgraça nos anos 80 e 90, quando participava de todo tipo de bomba até ser resgatado por Tarantino em KILL BILL. Na época em que o filme de Cohen foi realizado, Carradine era um ator famoso e de respeito, popular principalmente pelo seu papel no bem-sucedido seriado KUNG-FU. A participação do então astro nesta película tosca e barata é curiosa: ele e o diretor se conheceram no exército, quando eram jovens, e viraram grandes amigos. Carradine estava participando do Festival de Cannes quando Cohen ligou para ele oferecendo o papel principal do filme. A amizade falou mais alto: sem nem ao menos ler o roteiro, com uma breve idéia da história, o ator pegou o primeiro avião de volta para os Estados Unidos para participar do projeto.

Como nem tudo são flores, a relação entre os dois deteriorou-se após este trabalho. Logo depois, Cohen iniciou as filmagens de um roteiro seu chamado THE HEAVY, que seria estrelado por David no papel de um homem sem documentos que é confundido com um perigoso bandido foragido. Eles chegaram a filmar durante três dias, mas o ator virou "estrelinha" de uma hora para outra e começou a quebrar o pau com o diretor. A convivência era tão difícil que Cohen preferiu cancelar o projeto, perdendo alguns milhões de dólares na brincadeira e encerrando uma amizade de longos anos. Somente tempos depois Carradine escreveu para o cineasta pedindo desculpas pelo que aconteceu, mas ambos nunca mais trabalharam juntos.



O mesmo não aconteceu com Michael Moriarty, que participou de vários filmes posteriores do diretor e continua um grande amigo deste. Depois de Q, Moriarty estrelou A COISA, IT'S ALIVE 3 (1987) e O RETORNO A SALEM´S LOT (1987), todos dirigidos por Cohen, e até o episódio que este fez para a série MESTRES DO HORROR. O curioso é que Moriarty é um péssimo ator, e só funciona nos filmes de Larry Cohen. Isso porque o sujeito exagera tanto na interpretação que se torna engraçadíssimo. Seu Jimmy Quinn, por exemplo, é caricatural, principalmente na cena em que toca exageradamente, ao piano, uma composição do próprio ator Moriarty, chamada "Evil Dream". Tente segurar as gargalhadas... hahahaha

Por sua vez, uma das maiores mágoas de Cohen é com o fato de GODZILLA, a superprodução dirigida por Roland Emerich em 1998, copiar descaradamente várias idéias de Q - THE WINGED SERPENT. Com a palavra, o próprio cineasta: "Eles roubaram a nossa idéia de um monstro que põe seus ovos em Nova York, inclusive o conceito do repórter que sabe onde está o ninho e usa este conhecimento para alavancar a própria carreira, como uma cópia do personagem de Michael Moriarty. E a última cena de GODZILLA foi roubada fotograma por fotograma do meu filme! Não é assombroso quando uma superprodução de 100 milhões de dólares copia um filme de 1 milhão de dólares só porque seus autores não têm originalidade para inventar suas próprias idéias?". Realmente, é algo a se pensar...



Mas Cohen vai mais além: "Para mim, é um grande prazer fazer algo com nada, ter um baixo orçamento e mesmo assim ser capaz de produzir algo fora do comum. Quando te dão todo o dinheiro do mundo e toda a ajuda técnica, você pode sentar-se e deixar que todos façam o filme em seu lugar, pode dar um montão de dinheiro para a ILM fazer seus efeitos, e eles devolvem o filme pronto. Mas, na verdade, você não fez o filme. Nas minhas produções, tudo que aparece na tela fui eu que fiz. Talvez elas pudessem ser melhores se alguém com mais talento fizesse as cenas mais complicadas, ou se eu pudesse ter efeitos especiais caríssimos. Mas esta não é minha forma de trabalhar. Quero fazer tudo por conta própria. Se vou pintar um quadro, não quero chamar um especialista em pintar árvores para pintar uma árvore na minha tela, ou um especialista em pintar nuvens para fazer as nuvens. Não, quero fazer cada traço do meu quadro!".

Q - THE WNGED SERPENT até hoje pode ser considerado um bom filme de monstro, mesmo com seus efeitos especiais jurássicos (ou principalmente por causa deles). O diretor mandou bem ao situar a história numa grande cidade, como Nova York, incluindo belíssimas cenas aéreas da metrópole para indicar o "ponto de vista" de Q (numa delas, a criatura passa rente ao Wold Trade Center e é inevitável pensar nos aviões do Osama...). Muito provavelmente, o filme perderia boa parte da graça se fosse situado numa cidade menor ou menos conhecida.

É óbvio que uma produção classe B com um ponto de partida tão absurdo é praticamente impossível de analisar seriamente (a não ser que você seja o trouxa do Rubens Edwald Filho...). Mas tem um detalhe que me incomodou ao final do filme: o roteiro nunca deixa claro o quê, afinal, é o maldito Q. Será mesmo a reencarnação de um milenar deus asteca, ressuscitada por um moderno culto de fanáticos e seus sacrifícios humanos (e, neste caso, como é que um "deus" consegue ser abatido tão facilmente com simples balas?)? Será um dinossauro ou alguma outra espécie extinta, cujo ovo ainda andava zanzando por aí e chocou coincidentemente naquele momento? Ou, ainda, será uma criatura mutante, à la Godzilla?

É claro que eu ainda prefiro a explicação de que Q, realmente, era o tal deus asteca, o que dá um sentido totalmente diferente ao filme - e à ação dos heróis, que, por mais bem-intencionados que sejam, estão destruindo um "deus", não um "monstro" (o que, talvez, possamos considerar um grande exemplo de intolerância religiosa!).



Agora, se o mundo fosse um lugar justo, no lugar de uma bobagem como a versão americana de GODZILLA teríamos Q 2 - RETURN OF THE WINGED SERPENT. Numa entrevista, Cohen confessou que sempre quis continuar a história, até porque o final aberto deixava margem para uma seqüência. "Infelizmente, os direitos da história não pertencem a mim", lamenta o cineasta. "Se pertencessem, eu faria a Parte 2 agora mesmo. Porém não possuo nenhum direito sobre o filme, nem de distribuição. É errado pensar que os diretores possuem os direitos dos filmes que fazem, pois quando um estúdio investe dinheiro na produção de uma obra, geralmente é ele que fica com os direitos".

Q - THE WINGED SERPENT é um dos melhores filmes de Larry Cohen. Um horror classe B mais ambicioso, e que certamente parece mais caro que uma produção de míseros US$ 1.200.000. É uma pena que hoje em dia não se façam mais filmes assim, que você vê com um sorriso de satisfação, sem levar muito a sério, e se diverte. E hoje em dia, infelizmente, o "terror aéreo" que assola Nova York é outro, e é mais real e assustador. O pobre Quetzlcoatl, com sua meia dúzia de vítimas, não pode fazer frente aos fanáticos religiosos do mundo real...

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Q - THE WINGED SERPENT (Q, EUA, 1982). Duração: 093 minutos
Direção: Larry Cohen
Roteiro: Larry Cohen
Produção: Larry Cohen
Produção Executiva: Samuel Z. Arkoff; Dick Di Bona; Peter Sabiston; Don Sandburg
Fotografia: Robert Levi; Fred Murphy Música: Robert O. Ragland
Maquiagem: Dennis Eger; Steve Neill; Rick Stratton
Efeitos Visuais: Dave Allen; Peter Kuran
Edição: Armond Lebowitz
Elenco: Michael Moriarty (Jimmy Quinn); Candy Clark (Joan); David Carradine (Detetive Shepard); Richard Roundtree (Sargento Powell); James Dixon (Tenente Murray); Malachy McCourt (McConnell); Fred J. Scollay (Capitão Fletcher); Peter Hock (Detetive Clifford); Ron Cey (Detetive Hoberman); Mary Louise Weller (Sra.Pauley); Bruce Carradine (vítima); John Capodice (Doyle, um gangster); Tony Page (Webb); Larkin Ford (Curador do Museu); Larry Pine (Professor); Shelly Desai (Kahea)




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