 |
Numa daquelas ironias que volta-e-meia acontecem no mundo do cinema, o cineasta americano Wes Craven revolucionou o gênero horror em 1984, com seu clássico moderno A HORA DO PESADELO, dando origem a um dos mais famosos vilões da nova geração (Freddy Krueger), e imediatamente no ano seguinte (1985) dirigiu uma bomba monumental, um retrocesso na sua carreira e no próprio gênero, uma continuação maldita e ingrata de um dos clássicos da sua primeira fase como cineasta, QUADRILHA DE SÁDICOS, lançado em 1977. A seqüência, batizada “criativamente” de QUADRILHA DE SÁDICOS 2, é presença garantida em qualquer coletânea das piores continuações da história, e uma amostra de como até um cineasta visualmente criativo, como Craven, pode cair nas armadilhas do dinheiro fácil. |
Sim, porque o próprio Wes Craven declarou que fez
QUADRILHA DE SÁDICOS 2 apenas para faturar um cheque com alguns milhares de dólares, e que se lhe oferecessem um roteiro chamado
“Godzilla em Paris” no mesmo ano ele filmaria sem pensar duas vezes. Um cara de princípios este Craven, não é mesmo?
Muitos consideram Wes Craven um dos grandes diretores dos anos 70/80. Eu já não sou assim tão generoso: embora tenha seus momentos, o conjunto da obra de Craven é formado mais por obras medíocres ou insatisfatórias do que por grandes filmes. Chega a ser incrível: ele consegue ser revolucionário para o gênero às vezes (como em
LAST HOUSE ON THE LEFT,
QUADRILHA DE SÁDICOS,
A HORA DO PESADELO,
A MALDIÇÃO DOS MORTOS-VIVOS e, vá lá, o primeiro
PÂNICO), e extremamente convencional na maior parte do tempo (
SHOCKER,
SWAMP THING,
A MALDIÇÃO DE SAMANTHA,
VÔO NOTURNO,
AMALDIÇOADOS...). Os detratores do trabalho do cineasta terão em
QUADRILHA DE SÁDICOS 2 um excelente argumento para continuar pensando que Wes Craven é um nome superestimado. Aliás, o pessoal
"da antiga" certamente vai lembrar que, no final dos anos 80, a Globo exibiu os dois
QUADRILHA..., a
Parte 1 e a
Parte 2, com o intervalo de apenas uma semana, ambos no Supercine (na época, um programa nobre que realmente exibia bons filmes, não estas porcarias feitas para a TV, como hoje). Enquanto o primeiro chegou também às nossas locadoras (até agora, só em formato VHS),
QUADRILHA DE SÁDICOS 2 não teve a mesma sorte e permanece inédito no país - mas ninguém parece sentir muita falta. hehehehe


Com roteiro do próprio diretor, e produção do mesmo Peter Locke responsável pelo original,
QUADRILHA DE SÁDICOS 2 é um filme dirigido sem qualquer vontade, criatividade ou ousadia. Custou muito mais que o original (cerca de US$ 1 milhão) e, em comparação, vale muito, muito menos. O roteiro segue a
“cartilha para seqüências desnecessárias” de cabo a rabo: traz de volta alguns personagens sobreviventes do original (mesmo um que tinha morrido no original!), utiliza cenas do primeiro em flashback, ressuscita os vilões sem explicar o que eles fizeram no tempo que separa um filme do outro, etc etc, sempre deixando no ar a sensação de que estamos vendo uma produção sem a menor necessidade de existir - até porque é bem diferente da proposta do original, e o original já terminava de maneira bastante satisfatória, sem deixar gancho para uma seqüência. E Craven erra a mão mesmo quando segue fielmente os passos da cartilha anteriormente citada. Ele traz de volta alguns sobreviventes do primeiro filme, mas raramente os coloca fazendo parte da trama principal (!!!), preferindo criar um novo e descartável grupo de personagens - que está lá apenas para morrer. Ele utiliza cenas do original em flashback, mas o faz de maneira insuportavelmente amadora e repetitiva. Talvez consciente de que o original é muito superior a esta bombástica
Parte 2, Craven simplesmente foi colocando uma seqüência infinita de cenas de
QUADRILHA DE SÁDICOS (que acabam sendo a melhor coisa da seqüência! hehehe) como se os personagens estivessem se lembrando dos traumas que viveram no passado. E, em determinado momento, no que já se transformou num verdadeiro
"momento trash clássico", até o cachorro da família do filme original tem um flashback!!! Vê se tem cabimento!


A trama de
QUADRILHA DE SÁDICOS 2 situa-se oito anos após os eventos da primeira parte. Para quem não lembra, o primeiro
QUADRILHA DE SÁDICOS mostrava como a família Carter, uma típica família americana, se perdia no deserto de Mojave, com seus integrantes sendo perseguidos, caçados e mortos por uma família de canibais mutantes que vivia nas colinas. No final, os Carter sobreviventes davam o troco e dizimavam os canibais, ajudados por uma dissidente dos vilões, a
“boazinha” Ruby (Janus Blythe). Se você não lembra do original, não se preocupe: esta seqüência inicia com um letreiro chupado do clássico
O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, onde um narrador com voz tétrica anuncia que
"a história foi baseada em fatos reais" (quaquaqua), e faz um breve resumo da trama do primeiro filme. O texto finaliza assim:
"E os que sobreviveram jamais poderão esquecer que naquele deserto desconhecido, longe das cidades e estradas, as colinas ainda têm olhos...", numa citação ao título original da película.


Quando a
Parte 2 realmente inicia, vemos Bobby Carter (Robert Houston), o caçula da família, contando sua história para um psiquiatra (David Nichols); neste momento, entra o primeiro de uma série de flashbacks com cenas do filme original - mostrando como Bobby e sua irmã Brenda mataram Júpiter, o patriarca do clã de vilões. Depois, Bobby explica que faz parte de um grupo de motociclistas que vai disputar uma corrida no deserto (claro...), onde os pilotos querem testar um novo combustível desenvolvido pelo próprio Bobby, o
“Super Formula” (ai, ai...). Entretanto, a simples menção da palavra
“deserto” fez com que Bobby remoesse seus traumas e medos mais profundos. Como todo psiquiatra de produção classe B, o doutor convence o rapaz de que o pesadelo já terminou, que os psicopatas estão mortos e que não há problema algum em ir ao deserto, que ele deve combater seus conflitos internos e traumas, enfim, aquela baboseira de sempre.
"O que mais é preciso para convencê-lo? Eles estão todos mortos. O bicho-papão está morto!", diz o psiquiatra. Sim, claro!
Vale ressaltar que Brenda, a irmã de Bobby vista no flashback (e interpretada por Susan Lanier lá em 1977), simplesmente desapareceu da trama, assim como seu cunhado Doug e a bebê Katy (os outros sobreviventes do original), sem que qualquer menção ou explicação razoável seja feita pelo roteiro. É que a história prefere apresentar o tal novo grupo de personagens - desta vez, adolescentes bobalhões, no estilo
SEXTA-FEIRA 13. Eles fazem parte do grupo de motociclistas e mecânicos comandado por Bobby. Primeiro, numa tentativa de suspense ridiculamente amadora, o filme nos apresenta Roy (Kevin Spirtas, que apareceu na série podreira
SUBSPECIES). Pois Roy, usando uma máscara monstruosa, escala a janela do quarto da namorada Cass (a gatinha Tamara Stafford) para dar-lhe um susto. O detalhe, conforme ficamos sabendo em poucos segundos, é que Cass é CEGA! Então por que motivo, razão e circunstância Roy estava tentando dar um susto na moça usando uma máscara monstruosa que ELA NÃO PODERIA ENXERGAR???? Grrrrrrrrrr!


Uma cena de sexo off-screen depois, e o roteiro rapidamente apresenta os outros integrantes da equipe, um grupo de jovens tão imbecil e descartável que nem valeria a pena citá-los, mas vamos lá: temos Harry (Peter Frechette), o piadista do grupo, sempre pregando peças nos demais (um clichê surgido com o personagem Ned, do primeiro
SEXTA-FEIRA 13); sua namorada Jane (Colleen Riley); o casal negro Foster (Willard Pugh, que fez o prefeito em
ROBOCOP 2) e Sue (Penny Johnson, recentemente vista no seriado
24 HORAS), além do piloto metido a hippie chamado Hulk (John Laughlin). Também integram a equipe a namorada de Bobby, Rachel (Janus Blythe), e até o cachorro pastor-alemão sobrevivente do original, Beast (que, pela idade canina, oito anos depois, deveria ser um caco-velho de cão, mas continua em plena forma física, força e voracidade). Não é preciso ser muito observador para perceber que Rachel é muito parecida com Ruby, a única sobrevivente da família canibal no primeiro filme - até porque a personagem é interpretada pela mesma atriz. E embora o roteiro subestime a inteligência do espectador, fazendo com que esta revelação seja uma espécie de
“surpresa” apresentada mais adiante na trama, Rachel e Ruby são exatamente a mesma pessoa. Aparentemente, os Carter sobreviventes resolveram levar a moça para a civilização, e Bobby começou a namorar com ela tão logo Ruby/Rachel esqueceu certos hábitos do passado - tipo comer carne humana. hehehehe


Preguiçoso que só ele, o roteiro logo arruma uma forma de sacar Bobby fora da trama principal - chorando e amedrontado, ele tem mais alguns flashbacks do original (desta vez, do ataque dos canibais ao trailer da sua família) e se recusa a ir para o deserto com receio de enfrentar seus traumas. E cabe a Rachel escoltar o grupo na viagem. Aí entra um outro furo do roteiro vergonhoso de Craven: enquanto os outros personagens acham que a história da família de canibais do deserto é uma lenda urbana, tudo bem; mas, caramba, Rachel/Ruby sabe, com certeza absoluta, que a história é real, já que era uma integrante da família!!! E sabendo que o clã existiu mesmo, por que Rachel/Ruby guiaria um novo grupo ao local, sabendo que eles poderiam correr perigo de vida??? Grrrrrrrr! Como não adianta esperar muita lógica da trama, logo o grupo está todo num velho ônibus escolar a caminho do local da corrida. Só que, em mais uma prova da
“extrema inteligência” do roteiro, eles descobrem que estão uma hora atrasados para o evento - por causa do
“horário de verão” dos gringos, que por lá tem outro nome (
“Daylight Savings” ou algo do gênero). Assim, para chegar a tempo no local da corrida, a única solução - claro... - é cortar caminho pelo meio do deserto, deixando a rodovia para trás. Inteligente, não? No caminho, um deles ainda comenta a suposta lenda urbana envolvendo o local:
"Vocês já ouviram aquela história da família que vivia na área militar e comia todos que passavam por lá?". Neste momento, Rachel dorme e tem um flashback de quando era Ruby, a filha caçula do clã canibal... Sim, mais um flashback!


Mal o ônibus começa a transitar pela estradinha secundária, uma pedra convenientemente atinge o tanque de combustível, abrindo um rombo que inicia um vazamento de gasolina. Este contratempo obriga o grupo a parar e pensar em uma solução, já que não terão combustível para chegar à
"civilização". Embora tenham litros e litros do
“Super Formula” criado por Bobby no bagageiro, eles não podem encher o tanque do ônibus pois o veículo supostamente
“não agüentaria o tranco”, mas o roteiro não se preocupa em explicar a razão - e, pior, as motos suportam perfeitamente o combustível! A solução encontrada pelos baiacus é dirigir até uma velha mina abandonada para discutir o caso, onde Harry, o brincalhão da turma, prefere ficar dando sustos gratuitos em todo mundo (mais assustador que suas brincadeiras, só mesmo o horrendo óculos estilo
"Ambervision" que ele usa). E é na velha mina que Rachel/Ruby tem seu primeiro encontro com um integrante de sua família original, o feioso Pluto (novamente interpretado pelo deformado Michael Berryman). Nesse ponto, você pára e pensa:
“Calma lá! Beast matou Pluto no primeiro filme, rasgando sua garganta!”. E foi isso mesmo. Mas, como eu escrevi anteriormente, o roteiro desta seqüência não se preocupa muito com a lógica: usando cenas do original em flashback, reeditadas de maneira conveniente, tenta mostrar que Pluto não foi morto por Beast, e sim salvo na última hora por Júpiter!!! Grrrrrrrrr! E então Pluto ameaça Rachel/Ruby, mas é agredido, consegue escapar e, acredite se quiser, rouba uma das motos e sai pilotando velozmente pelo deserto!!! Sim, é isso mesmo: Pluto, um canibal que nasceu e cresceu nas colinas do deserto sem qualquer contato com a civilização, consegue, de uma hora para a outra, pilotar uma veloz motocicleta que nem motoristas com certa prática conseguem!!!!! Grrrrrrrr!


Pior mesmo é que o restante do grupo trata aquele invasor sem o menor sinal de preocupação. Roy e Harry simplesmente saltam em suas motos e começam a perseguir Pluto pelo deserto, ignorando o perigo que correm. O psicopata é alcançado, toma uma sova de Roy e só não é morto porque o
“herói” do filme é mesmo muito burro; enquanto isso, Harry cai numa armadilha preparada por um personagem misterioso e morre esmagado por um enorme bloco de pedra. Epa!
“Personagem misterioso”? É isso mesmo! Acredite se quiser, mas nesta seqüência temos a aparição de um novo integrante da família de canibais, um grandalhão com uma testa enorme chamado Reaper (John Bloom, morto em 1999), e que vem a ser (ai, ai, ai...) IRMÃO MAIS VELHO do Júpiter do primeiro filme (logo, tio de Pluto e de Rachel/Ruby). Além de a família não fazer qualquer citação ao tal Reaper no original, tem uma outra pegadinha: quando o velho Fred conta sua triste história a Big Bob Carter, no começo de
QUADRILHA DE SÁDICOS (lembra?), ele diz que sua esposa não teve nenhum outro filho deformado antes ou depois de Júpiter. Então de onde diabos o Reaper nasceu? Será que foi trazido pela cegonha??? Grrrrrrrr!


Anoitece e Roy e Harry não retornam à velha mina - Harry porque foi morto, e Roy porque foi desacordado por Reaper. E o restante do grupo nem se preocupa com o fato! Quer dizer: foi comprovado que existem psicopatas canibais morando nas colinas; um deles tentou matar Rachel/Ruby e ainda roubou uma moto do grupo; não há como sair dali e nem armas para eles se defenderem. E, mesmo assim, os jovens continuam levando tudo na brincadeira, caminhando sozinhos de um lado para o outro, no escuro, saindo para transar e até para tomar banho! Quer dizer, você está no meio do nada, cercado por canibais psicopatas assassinos, e se preocupa com a higiene corporal??? Tsc, tsc, tsc... É neste momento que Rachel confessa ao grupo que, na verdade, chama-se Ruby e é uma ex-integrante da família de canibais, Porém, surpreendentemente, ninguém acredita na sua história; na verdade, acham que ela está usando drogas!!! E isso que momentos antes todos viram Pluto circulando pelo local, o que em tese comprovaria a história de Rachel/Ruby... Grrrrrrrrrr!


A partir de então, seguindo a lógica tradicional dos slasher movies, sempre que os jovens se separam para fazer coisas cretinas (apesar da recomendação
"Vamos ficar todos juntos"), Reaper ou Pluto aparecem para acabar violentamente com eles, no melhor estilo
SEXTA-FEIRA 13 - incluindo gargantas cortadas com facão e machadadas na cabeça. Claro que até lá rolam umas cenas gratuitas de sexo e nudez, com o casalzinho negro mandando ver no ônibus e Jane, namorada do falecido Harry, indo tomar banho de chuveiro - detalhe: ao ar livre, sem qualquer medo ou constrangimento de ser apanhada ou vista por alguém!!!!! Grrrrrrrr! Para sua sorte, Cass - que é a personagem normalmente chamada
"final girl" (porque sobrevive até o fim) nos slasher movies - tem uma espécie de
"sexto sentido", que lhe permite ouvir os passos dos vilões a quilômetros de distância e até mesmo
"sentir" a presença dos canibais nas redondezas. Porque, como todos nós sabemos, os cegos cinematográficos sempre têm os sentidos muito ampliados - neste caso, Cass chega a dar um baile no Demolidor dos quadrinhos, e podia muito bem vestir um colante vermelho e sair combatendo o crime. O problema é que este tal sexto sentido funciona muito bem... MENOS quando o roteiro quer criar cenas precárias de suspense e
"susto gratuito". Num momento, por exemplo, Cass está no interior de um casebre quando Reaper salta por um buraco no telhado... e a ceguinha, com sua audição extremamente sensível, não conseguiu escutar os passos do gigantesco Reaper no zinco do telhado!!!! Grrrrrrrrr! Pelo menos, se serve de consolo, a
"final girl" do filme NÃO é virgem, o que contraria o clichê mais tradicional do gênero - mas não se assanhe porque a gatinha Tamara Stafford, ao contrário de suas colegas de elenco, NÃO mostra seus, hã,
"atributos carnais" em cena...


Com tamanha burrice dos personagens humanos da trama, tanto do lado dos
"heróis" como dos vilões, a criatura mais inteligente do filme acaba sendo o pastor-alemão Beast, que, além de ter um flashback (hahahahaha), ainda demonstra consciência suficiente para lembrar-se de Pluto (mesmo oito anos depois dos eventos do original) e querer vingar-se do canibal. O
"acerto de contas" entre o cão e Pluto é uma daquelas cenas tão cretinas que ficam no limite do trash - tipo, você vê aquilo, porém não consegue acreditar que realmente está acontecendo - o que nos leva a imaginar que, se o cão não estivesse junto, provavelmente todos os jovens seriam mortos com a maior facilidade pelos vilões! Quando o número de humanos diminui rapidamente, graças aos ataques-surpresa dos vilões, sobra para Roy e Cass a tarefa de combater Pluto e Reaper nos escuros túneis da mina abandonada - que, de certa forma, lembra a caverna onde se escondem os canibais de
O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2 (feito no ano seguinte, em 1986), incluindo dezenas de cadáveres e pedaços mutilados de corpos espalhados. Aparentemente, aquele ponto do deserto é visitado por dezenas de pessoas toda semana, para justificar a quantidade de cadáveres despedaçados na mina... hehehehehe
Como o leitor deve ter percebido,
QUADRILHA DE SÁDICOS 2 é muito, mas muito ruim. Daquelas seqüências que, como o anteriormente citado
O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2, e também muitas outras (
O EXORCISTA 2,
PIRANHA 2,
O CEMITÉRIO MALDITO 2...), são uma mancha no currículo de seus realizadores, pervertendo e destruindo um excelente filme original com uma continuação caça-níqueis e sem propósito. No caso de Wes Craven, isso é ainda mais notável pelo fato de ele ser também o diretor do primeiro capítulo; e, portanto, deveria mostrar pelos menos um pouco de respeito com a própria obra. A única forma de encarar
QUADRILHA DE SÁDICOS 2 é como comédia - e, de preferência, esquecendo completamente que estamos vendo uma seqüência de uma excelente produção dos anos 70. Pois no intervalo de oito anos em que Craven dirigiu os dois filmes, ele parece ter desaprendido tudo o que sabia: enquanto o original era violento e tinha um clima de tensão e suspense quase insuportável, esta
Parte 2 não passa do convencional. A falta de história é tamanha que o tempo de duração não chega nem aos 85 minutos. Graças a Deus!!!


Se o diretor colocasse uma máscara de hóckey em Pluto,
QUADRILHA DE SÁDICOS 2 poderia muito bem ser lançado como uma seqüência de
SEXTA-FEIRA 13 - até tem a música muito parecida com a desta franquia, já que o compositor da trilha sonora é o mesmo, Harry Manfredini. Em alguns momentos, quando Manfredini usa seus maneirismos habituais (tipo o
"tchi tchi tchi" na música), o espectador chega a esperar que Jason pule de trás de uma moita para ajudar a matar os personagens bobalhões! Aliás,
QUADRILHA DE SÁDICOS 2 foi uma espécie de treino para alguns participantes de seqüências posteriores da franquia
SEXTA-FEIRA 13: Kane Hodder, que aqui foi apenas um mero dublê, logo se transformaria no
"intérprete" de Jason Voorhees em quatro episódios da série (partes 7, 8, 9 e 10); e Kevin Spirtas, que sobreviveu aos ataques de Pluto e Reaper neste filme, aprendeu o suficiente para escapar também do próprio Jason como mocinho de
SEXTA-FEIRA 13 PARTE 7. Mas, pior ainda do que na série estrelada por Jason, em
QUADRILHA DE SÁDICOS 2 as mortes e supostas
"cenas de suspense" são todas previsíveis. É alguém sair sozinho para você saber que ele já pode ser considerado morto; é alguém abrir um armário para você saber que dali de dentro vai cair algum cadáver; é parecer que tudo acabou para vir aquele tradicional
"último susto"... Se no primeiro, quando a família canibal estava completa, era difícil matar as vítimas no deserto, de uma hora para a outra tudo virou moleza: os vilões são apenas dois, só que onipresentes, estão em todos os lugares ao mesmo tempo, sendo capazes de matar um personagem lá longe, nas colinas, e no minuto seguinte fazerem barulho do lado de fora da casa onde os outros estão escondidos. Ou então ficarem horas debaixo de um ônibus só para agarrar a perna de um desavisado que deu o azar de passar por ali bem naquele momento!!! Sentiu o drama?


Enfim, esta é uma produção extremamente convencional, onde nem mesmo o trabalho de Craven como diretor de cenas de horror se salva. Todas as cenas de violência já foram vistas antes - e melhor - em slashers tipo as séries
SEXTA-FEIRA 13 e
HALLOWEEN, sem contar suas infinitas imitações. E, afora uma garganta cortada que jorra sangue, quase todas as mortes são off-screen, apenas vemos os cadáveres caindo do teto ou de dentro de armários nas cenas posteriores. Piorando ainda mais o conjunto da obra, Craven, neste filme, utiliza de maneira insuportável aquela sua velha obsessão por armadilhas caseiras. Lembra que em
LAST HOUSE ON THE LEFT o médico fazia armadilhas para pegar os assassinos da filha? Que no
QUADRILHA DE SÁDICOS original os Carter faziam uma armadilha para pegar Júpiter? E que até em
A HORA DO PESADELO Nancy preparava algumas armadilhas contra Freddy Krueger??? Pois neste
QUADRILHA DE SÁDICOS 2 Craven abusa tanto do recurso que começo a achar que o homem tem alguma tara ou fantasia sexual por armadilhas (será que ele se excita ao cair em armadilhas?). Tanto vilões quanto heróis passam o tempo inteiro fazendo armadilhas para pegar uns aos outros. Eu não duvido que Chris Columbus tenha se inspirado em
QUADRILHA DE SÁDICOS 2 ao dirigir
ESQUECERAM DE MIM... Se bem que a tática, em certos momentos, lembra mais os velhos desenhos do Papa-Léguas (Reaper e Pluto devem ser grandes clientes das Indústrias Acme, pois simplesmente encheram o deserto de armadilhas!). Pior: com toda aquela imensidão de areia e colinas para perambular, os personagens sempre conseguem pisar BEM NO LOCAL em que os vilões colocaram as armadilhas!!!!! Grrrrrr!
Se é extremamente ruim no seu desenvolvimento,
QUADRILHA DE SÁDICOS 2 consegue ser ainda pior na conclusão, onde um dos personagens centrais (Rachel/Ruby) é simplesmente
"esquecido" sem que o roteiro se preocupe em explicar se ela está viva ou morta. Em sua última aparição em cena, a garota cai, bate com a cabeça em uma pedra e apaga (desmaiou? morreu?). E, a partir de então, desaparece da trama sem que seu nome seja novamente citado. Na novelização do roteiro, lançada como livro nos EUA, descobrimos que Rachel/Ruby morre empalada ao cair num poço cheio de estacas de madeira (sim, mais uma armadilha dos canibais...). Como tal cena não existe no filme (se é que foi filmada...), o roteiro simplesmente deixa nas mãos do espectador decidir se Rachel/Ruby morreu ou se vai acordar a qualquer momento e sair vivinha para continuar sua vida ao lado de Bobby e, agora sim, nunca mais voltar ao deserto. Considerando a importância da personagem (que inclusive veio do filme original), é surpreendente o descaso desta continuação com o seu destino... E olhe que este é só mais um dos muitos problemas de
QUADRILHA DE SÁDICOS 2!


A quantidade de furos no roteiro é imensa. Por exemplo: o que Pluto e Reaper ficaram fazendo no deserto nos oito anos que separam
QUADRILHA DE SÁDICOS da sua
Parte 2? É inadmissível que, após o retorno dos Carter à civilização, no final do original, policiais ou mesmo militares não tenham revirado aquela parte do deserto em busca dos criminosos. E mais: o que aconteceu com a matriarca da família, que sobreviveu à Parte 1, mas cuja existência nem ao menos é mencionada neste segundo filme? E o que o próprio Bobby Carter ficou fazendo nestes oito anos entre o original e a seqüência? Quando o filme começa, ele é mostrado como um rapaz traumatizado que conta sua história a um psiquiatra. Como parece estar contando a história do seu trauma pela primeira vez, será que Bobby esperou OITO ANOS para ir ao psiquiatra? Ou estará contando a mesma história pela milésima vez ao pobre especialista? Argh! O roteiro simplesmente não tem lógica!!! Os personagens passam o tempo inteiro realizando atos que jamais fariam na vida real, como na cena em que Foster, logo após transar com Sue, vai espiar Jane tomando banho (!!!). Pois o taradão é apanhado no flagra por Sue, a mocinha sai correndo pelo deserto (alheia ao perigo, obviamente), e Foster começa a persegui-la... DE ÔNIBUS!!! hahahahahaha. E por falar em ônibus: por que é que os personagens simplesmente não pegam suas motos e fogem dali quando descobrem que o ônibus está imprestável e há canibais na região? Hmmmmm...

Até entendo o fato de Wes Craven escrever e dirigir um filme somente pelo dinheiro... mas será que não poderia fazer algo com um pouquinho mais de vontade e empenho, pelo menos? O que parece é que todos os acertos de Craven em
QUADRILHA DE SÁDICOS foram um mero acidente, pois ele não repete nada daqueles acertos aqui nesta seqüência. Todo aquele interessantíssimo contexto de
"família boa" contra
"família malvada", e a necessidade das vítimas descerem ao nível dos seus agressores em defesa própria, desapareceu completamente da seqüência, que transformou-se em um slasher movie igual a muitos outros feitos no período. E ruim, ainda por cima. Se nos EUA, pátria em que foi produzido,
QUADRILHA DE SÁDICOS 2 já foi devidamente defenestrado (recentemente ganhou uma reedição em DVD pobre, com imagem ruim, por uma distribuidora furreca), nós, brasileiros, podemos esquecer qualquer possibilidade de ele sair por aqui tão cedo, já que está esquecido no país há mais de 20 anos. E, agora, só resta torcer para que o cineasta francês Alexandre Aja, que revitalizou (e melhorou) o
QUADRILHA DE SÁDICOS original com um excelente remake que estréia este ano (2006), não caia na burrada de refilmar também
QUADRILHA DE SÁDICOS 2! Certas coisas deveriam permanecer apodrecendo no deserto...
"PARTES 2" QUE NÃO DEVERIAM EXISTIR
Dizem os produtores de Hollywood que, se um filme faz sucesso, a continuação é inevitável, mesmo que não existem idéias boas para continuar (o que vale é faturar na bilheteria). Algumas raríssimas seqüências conseguem ser superiores ao original, e outras até se mantêm numa média aceitável, já que normalmente o nível cai mesmo a partir da Parte 3 em diante. Porém, há também aqueles casos em que a nefasta Parte 2 é tão ruim, tão dispensável, tão imbecil, que não faria a menor falta caso simplesmente não tivesse sido feita.
QUADRILHA DE SÁDICOS 2 é uma delas, mas há milhares de exemplos. Para não estender muito o artigo, segue uma seleção de oito casos lendários de
"Partes 2" que não deveriam ter sido feitas, e que apenas envergonham aqueles filmes originais que supostamente
"continuam".
 |
- O EXORCISTA 2: O HEREGE (The Exorcist 2: The Heretic, 1977, EUA)
Direção: John Boorman
A seqüência de um dos maiores e mais famosos clássicos do horror foi um festival de problemas: o diretor Boorman contraiu uma infecção respiratória rara e gravíssima, obrigando os produtores a cancelarem as filmagens por várias semanas. Depois de voltar ao trabalho, talvez sentindo a bomba que tinha em mãos, Boorman quis pular fora, mas foi obrigado a concluir o filme para não ser processado pelos produtores. E assim o fez, de má vontade, brigando com os atores e tendo de conviver com as crises de alcoolismo de Richard Burton e Linda Blair (que fizeram a maior parte das cenas de porre!). Na noite da estréia, o público se dividiu: uns riam, outros jogavam coisas na tela. Isso obrigou o estúdio (Warner, que torrou muita grana na película) a retirarem a produção de cartaz não uma, mas duas vezes para refilmagens, cortes e novas edições. Ficou do jeito que ficou: uma bomba catastrófica, enigmática, confusa, sem objetivo, onde pouco ou nada se salva. Com o perdão do trocadilho, um filme ruim como o diabo gosta! |
 |
- O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2 (The Texas Chainsaw Massacre Part 2, 1986, EUA)
Direção: Tobe Hooper
Depois de bater a cabeça e perder 80% da capacidade de raciocínio e coordenação, o diretor Tobe Hooper pegou os personagens que criou no clássico O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, de 1974, e os jogou numa comédia de humor negro repleta de efeitos sangrentos de Tom Savini (ironicamente, quase todos foram cortados na edição final), baboseiras, personagens medíocres e um Dennis Hooper pra lá de alucinado no papel de um texas ranger vingador usando motosserras ao invés de pistolas! É inegável que filme até tem certo charme, no seu clima de loucura e delírio... Mas a gritaria, a falta de propósito, o excesso de caricatura e o exagero geral fazem dele sério candidato a maior decepção da história do horror moderno - ainda mais para quem é apaixonado justamente pelo clima sério e "documental" do primeiro. |
 |
- A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS 2 (Return of the Living Dead Parte 2, 1988, EUA)
Direção: Ken Wiederhorn
Outra seqüência frustrante: enquanto o original é uma mistura perfeita de comédia e horror, esta seqüência, que mais parece refilmagem (pois nem ao menos respeita os acontecimentos do final da primeira parte), é apenas uma comédia sem graça, com personagens imbecis e pouquíssima violência. Pior: além de acrescentar moleques pentelhos à trama, para garantir um tom mais infanto-juvenil, o filme chega ao cúmulo de resgatar dois atores do original (Thom Mathews e James Karen), em papéis diferentes, e repetindo alguns dos mesmos diálogos do original (!!!). Nem parece que o diretor Wiederhorn já tinha feito um filme de zumbis bonzinho nos anos 70, o esquecido SHOCK WAVES. |
 |
- CUBO 2: HIPERCUBO (Cube 2: Hypercube, 2002, EUA)
Direção: Andrzej Sekula
Um grande exemplo de como uma excelente idéia desenvolvida no cinema independente pode se transformar em um blockbuster "sem alma" quando o dinheiro fala mais alto. Enquanto o original era um estudo do comportamento humano (e coisas como "efeitos especiais" não importavam), este segundo capítulo prefere avacalhar, apelando para personagens ridículos, que caminham pelo novo cubo sem nem ao menos demonstrar preocupação; diálogos ridículos; efeitos especiais feitos por computador, e uma historinha das mais chinfrins, que tenta explicar - sem conseguir - a origem do cubo, um dos mistérios deixados no ar ao final do primeiro filme. Só que não precisava explicar nada; e, ao deixar mais dúvidas do que respostas ao final, CUBO 2 parece um episódio ruim de ARQUIVO X. E sem a Scully para enfeitar a tela. |
 |
- HENRY: PORTRAIT OF A SERIAL KILLER 2 - MASK OF SANITY (idem, 1998, EUA)
Direção: Chuck Parello
Pergunta: por que dar seqüência a um dos melhores filmes sobre serial killers da história do cinema? Outra pergunta: será que os produtores realmente achavam que tinham algo a acrescentar ao original dirigido por John McNaughton? Sem qualquer participação dos envolvidos no primeiro (que é de 1986), esta seqüência ridícula, feita 12 anos depois (!!!), dá mais destaque para a violência gráfica dos crimes do serial killer Henry Lee Lucas (um personagem verídico). A interpretação soberba de Michael Rooker no original é trocada pela apatia de Neil Giuntoli (quem?), que transforma Henry em um psicopata como outro qualquer. Inédito no Brasil - e espera-se que permaneça assim... |
 |
- O CEMITÉRIO MALDITO 2 (Pet Sematary 2, 1992, EUA)
Direção: Mary Lambert
Se o primeiro filme (uma das melhores adaptações de obra de Stephen King, com roteiro do próprio) tinha ido bem nas críticas e bilheterias, por que não continuar? Porque não, ora bolas! Esta seqüência totalmente desnecessária não tem nada a ver com a obra de King (além de meia dúzia de referências verbais aos personagens do original), e ainda abusa da violência e da escatologia ao invés de tentar optar por um clima de medo e tensão. Infelizmente para os produtores, a visão de coelhos com a pele arrancada, cachorros baleados, pessoas atacadas com furadeira e outras barbaridades não influencia em nada: o primeiro é muito melhor, e o segundo é completamente descartável. Como Mary Lambert também dirigiu o original, aí está a prova de que o diferencial do primeiro foi o roteiro de King, e não a direção... |
 |
- OS PÁSSAROS 2: O ATAQUE FINAL (The Birds 2: Land's End, 1994, EUA)
Direção: Alan Smithee (Rick Rosenthal)
Tudo bem que é uma produção barata feita para a TV, mas isso não justifica a cagada: como é que alguém em sã consciência tenta "continuar" uma das maiores obras-primas do cinema de horror? Ainda mais quando o original, de Alfred Hitchcock, já tinha um final aberto fabuloso? Pior: a seqüência é lançada quase 30 anos depois do original!!! Deu no que deu: com vergonha de si mesmo, o diretor Rick Rosenthal (que já fez algumas outras bombas, incluindo o novo HALLOWEEN: RESSURREIÇÃO) preferiu tirar seu nome dos créditos, assinando com o pseudônimo "Alan Smithee". Todo mundo que apareceu em cena queimou o filme, inclusive o candidato a galã Brad Johnson - que tinha trabalhado com Steven Spielberg em ALÉM DA ETERNIDADE e afundou sua carreira com o mico! Coitadinha da Tippi Hedren, estrela do original, que topou fazer uma ponta nesta seqüência já velha e acabada - e, aparentemente, também caduca, para aceitar tal queimação! |
 |
- C.H.U.D. 2 (C.H.U.D. 2 - Bud, The Chud, 1989, EUA)
Direção: David Irving
O primeiro filme - que no Brasil se chama C.H.U.D.: A CIDADE DAS SOMBRAS - é um interessante e obscuro horror classe B sobre mendigos transformados em humanóides canibais. Fez certo sucesso nos EUA, o que justificou esta seqüência sem qualquer relação - e sem pé nem cabeça, também. O que parece é que o diretor David Irving simplesmente pegou um roteiro qualquer e botou o nome C.H.U.D. 2 apenas para chamar a atenção de quem tinha visto o original. Nada de mendigos humanóides canibais aqui, apenas um soldado-zumbi, fruto de um projeto secreto do governo, que escapa do laboratório e se envolve em várias encrencas. Quem espera canibalismo ou horror vai quebrar a cara, pois se trata de palhaçada geral, num "terrir" com bons atores (Robert Vaughn, Gerrit Graham) pagando mico à toa. Não foi lançado no Brasil, mas passa direito na TV por assinatura (só não perca seu tempo assistindo!). |
Felipe M.Guerra
 |
QUADRILHA DE SÁDICOS 2 (The Hills Have Eyes 2, EUA/Inglaterra 1985). 86 minutos
Direção: Wes Craven
Roteiro: Wes Craven
Produção: Peter Locke
Música: Harry Manfredini
Fotografia: David Lewis
Edição: Richard Bracken
Maquiagem: Ken Horn; Ramona Joy
Figurino: Taryn De Chellis
Desenho de Produção: Dominick Bruno
Elenco: Tamara Stafford (Cass); Kevin Spirtas (Roy); John Bloom (The Reaper); Colleen Riley (Jane); Michael Berryman (Pluto); Penny Johnson (Sue); Janus Blythe (Rachel/Ruby); John Laughlin (Hulk); Willard E. Pugh (Foster); Peter Frechette (Harry); Robert Houston (Bobby); David Nichols (o psiquiatra); Edith Fellows (Mrs. Wilson); Lance Gordon (Mars); Susan Lanier (Brenda); Brenda Marinoff (Katy); Martin Speer (Doug); Virginia Vincent (Ethel); James Whitworth (Jupiter)
|