QUATRO DÉCADAS DE GORE
DESMEMBRANDO O CINEMA VIOLENTO


Existe um gênero dentro do universo do terror que, por até mesmo falta de conhecimento, é confundido com cinema de má qualidade. Esse gênero é o “gore”, um termo utilizado para representar filmes onde a escatologia é exagerada, com cenas de sangue em excesso, órgãos expostos e outras nojeiras. Em geral, esse tipo de filme atrai muitas pessoas aos cinemas pelo conteúdo chocante, liberando um certo prazer mórbido, mas muitos os vêem como um cinema liberal, inventivo e com muita qualidade.

Dentro desta violência visual temos um outro termo também muito utilizado: o “splatter”, geralmente ligado a filmes contendo cenas de mutilações, decapitações e muito sangue. Na verdade o termo “splatter” foi definido por John McCarty para falar sobre o clássico do George RomeroZombie – O Despertar dos Mortos” (Dawn of the Dead, 78). “Gore” e “splatter” andam muito bem juntos e muitas vezes é difícil a identificação de um ou outro em um filme.
Não quero confundi-los com termos, portanto irei generalizar os filmes apenas como “gore”, procurando resgatar produções que há muito merecem respeito.

Filmes que, contrariando muitos pensamentos, são arte pura, como os pesadelos filmados por Lucio Fulci ou as cenas apresentadas pelo mestre Dario Argento, que poderiam muito bem estar emolduradas em uma parede de algum museu em Roma.



Falaremos também de grandes mestres que andaram nesta árdua trilha do cinema extremo, diretores italianos, espanhóis, alemães, brasileiros e americanos que sempre bateram de frente com o cinema convencional, às vezes atrás de grana e outras por simplesmente amarem o que fazem.

Aqui vocês não encontrarão muitos clássicos absolutos do cinema do terror, pois a intenção é buscar filmes violentos e repletos de “gore”.

Estava em dúvida de como narrar a história do “gore” dentro do cinema, resolvi não escrever em ordem cronológica, mas sim por temas, assim servirá também de guia para a caça de título valiosos.

PARTE I - O INÍCIO

O BANQUETE DE SANGUE


Filmes violentos sempre existiram, mas o explícito, que define o “gore”, surgiu com um filme japonês chamado “Jigoku” (Hell) feito em 1960 pelo japonês Nobuo Nakagawa. O filme conta a história de dois jovens: Shiro e Tamura. Eles atropelam um bêbado e uma variedade de acontecimentos beirando o irreal começam a acontecer, todos os seus conhecidos morrem e no fim juntam-se no inferno, e diga-se de passagem, uma das mais cruéis e intensas visões do inferno que já assisti. Os dois jovens são levados a vários níveis do inferno e em cada um são torturados de acordo com o que fizeram em seu passado. Neste passeio infernal vemos barbáries como pessoas rastejando como vermes por uma poça de água, outros danados em um lago de sangue e torturas das mais variadas como demônios cerrando um homem ao meio, cabeças decepadas, olhos perfurados e muito mais, fazendo desta pequena obra prima do passado, sendo um pecado mortal não correr atrás e temer para que o inferno realmente não seja tão aterrorizante.



O cinema violento teve sua grande estreia com a junção de dois senhores muito inteligentes e cultos. No fim da década de 50 Herschell Gordon Lewis (mais conhecido como H. G. Lewis), um americano que trabalhava em publicidade para a TV, se juntou com um produtor chamado David F. Friedman e resolveram trabalhar com cinema. Eles acabaram mostrando para o mundo o que é o verdadeiro “gore”. Começaram com filmes de >A HREF="exploitation.html">exploitation, muito comum na época, os chamados “Nudie-Cuties”. Com o tempo foram vendo que precisariam inovar em algo pois exploitation já não chocava mais como antes; o que fizeram então foi misturar o sexo e nudez destes filmes com a violência explícita e deu muito certo. Os dois praticamente revolucionaram o cinema do terror, foram influências para várias gerações de filmes e são lembrados até hoje como pais do “gore”, lançando assim a “trilogia de sangue”.



O primeiro filme nesta linha a ser lançado foi “Banquete de Sangue” (Blood Feast, 63), que muitos consideram o primeiro filme “gore” da história, ignorando o filme de Nakagawa. O filme conta a história de um serial killer que mata mulheres, geralmente em trajes menores, para montar rituais com partes de seus corpos. A fórmula deu certo e o filme fez fama, ganhando até uma refilmagem medíocre e indigna em 89 chamada “Um Jantar Sangrento” (Blood Diner). Em seguida lançaram “Maníacos” (2000 Maniacs!, 64), onde fantasmas rednecks de uma cidade do sul dos EUA aniquilam visitantes de uma forma não muito usual. Para o ano de 2004 produziram uma seqüência chamada “2001 Maniacs” estrelando o versátil ator Robert Englund, mais conhecido por encarnar o serial killer dos sonhos, Freddy Krueger. Para fechar a trilogia com chave de ouro temos o filme “Color Me Blood Red”, que conta a história de um pintor que encontra a tinta certa para pintar seus quadros, um fluído vermelho e viscoso, mas tem um pequeno problema, esse líquido se encontra dentro de corpos humanos, mas o artista não hesitará em matar para consegui-lo.

Depois de “Color Me Blood Red”, Friedman se mudou para a Califórnia separando a dupla. Lewis por sua vez continuou a filmar “Nudie-Cuties” até voltar em 67 ao gênero “gore” com filmes como “Dracula: A Taste of Blood”, “The Gruesome Twosome”, “Devoradoras de Homens” (She-Devils on Wheels) e outros, mas sua verdadeira glória foi no começo dos anos 70 com “The Wizard of Gore” (70). O filme conta a história de uma mágico que escolhe mulheres na plateia para realizar seus truques, que geralmente são horríveis carnificinas em cima do palco, ao fim parece que tudo está normal e que ninguém saiu machucado, mas o que se descobre é que os participantes estão todos mutilados. Um filme que usa e abusa do “gore”, com uma história boba mas com efeitos bons para a época. O próximo grande filme de Lewis foi “The Gore-Gore Girls” (72), sem sombra de dúvidas sua obra mais violenta, a quantidade de mortes explícitas neste filme é surpreendente e todas da maneira mais violenta e repugnante possível. A história é sobre um assassino que anda matando strippers e um detetive que sai atrás do caso, mas isso não passa de pano de fundo para um espetáculo de horror, pois já nos primeiros 20 segundos uma mulher tem seu rosto cortado ao ser arremessada repetidamente em um espelho, e ainda para finalizar tem seu olho cortado com uma lâmina. Mais ou menos aos dez minutos, uma stripper tem sua garganta estraçalhada; por volta dos quarenta minutos, temos a morte mais surpreendente do filme: uma mulher tem sua garganta cortada, seu rosto queimado com um ferro e seus mamilos são cortados com uma tesoura.



Infelizmente, como tudo que é bom acaba logo, e em 1973 Lewis encerrou sua carreira no cinema de horror, não agüentou as dificuldades de fazer filmes independentes e simplesmente abandonou este fantástico mundo por exatos 29 anos, deixando para trás obras que fizeram história. Em 2002, Lewis lançou a seqüência de sua obra-prima, “Blood Feast 2: All Us Can Eat” ou “Blood Feast 2: Buffet of Blood”, com mais nudez, violência e muito gore, mostrando que o velho pai do gore ainda tem bala na agulha para atirar.

Este foi o estopim do cinema extremo, o que veio a seguir foram muitas imitações, lixo completo e algumas pequenas pérolas esquecidas no tempo. Porém, abriu as portas para um gênero novo de filmes de terror, onde tudo era permitido para chocar e ganhar dinheiro, mas nem tudo era oportunismo. Diretores sérios viram estes filmes como uma ótima maneira de passar uma mensagem ou apenas de se criar arte. Deste modo surgiu mais um tema de filmes violentos e cheio de “gore”: os filmes de zumbis canibais.



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Gênesis Ramone


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