Novo clássico do horror moderno assusta através do falso realismo
Se eu tivesse que bolar uma daquelas frasezinhas de efeito para colocar no cartaz de cinema do terror espanhol REC (2007), minha primeira opção seria: "O inferno ao vivo". Uma das novas incursões dentro de um estilo narrativo já um tanto batido (o "cinema-verdade de mentirinha", ou "mockumentary", no estilo A BRUXA DE BLAIR), este é um daqueles filmaços que aparecem de vez em quando levantando polêmica: uns odeiam à morte, outros amam apaixonadamente. O meu caso é o segundo, claro. Tanto que considero REC um dos melhores filmes de horror de 2007 - embora, ironicamente, ele só esteja chegando nos cinemas brasileiros agora, no final de 2008, graças à estréia de um remake norte-americano que foi feito literalmente às pressas, chamado QUARENTENA (e que não passa de uma regravação cena a cena do filme original, mas sem o mesmo impacto).
REC começou a me chamar a atenção desde o primeiro trailer jogado na internet, e que traz uma cena independente, sem nada a ver com a trama do
filme em si: uma câmera sacolejante acompanha dois bombeiros que entram em um prédio e sobem as escadas apressadamente, no que parece o atendimento a uma chamada de emergência. A subida, acompanhada de perto pela câmera, é entrecortada por estatísticas como: "No último ano, os serviços de emergência na Espanha atenderam mais de 23 milhões de chamadas. Os bombeiros de Barcelona realizaram 15.003 operações: 4.171 incêndios, 4.059 resgates, 6.768 ocorrências em geral...". Finalmente, a dupla de bombeiros chega a um corredor escuro, onde se vê apenas o vulto de uma menininha, e, enquanto ela pula para atacá-los diante da câmera que insiste em gravar tudo, entra a frase: "...e 5 casos sem classificação". Uau!
trailer oficial do filme [REC]
Caso você também tenha visto este trailer, saiba que não é propaganda enganosa. Felizmente, o roteiro dos espanhóis Jaume Balagueró, Paco Plaza e Luis Berdejo (Jaume e Paco também assinam a direção) cumpre o que o trailer promete. E ainda consegue ser original para criar um pesadelo moderno que parece uma mistura de A BRUXA DE BLAIR com EXTERMÍNIO (ou, para o pessoal da antiga, O EXÉRCITO DO EXTERMÍNIO, de Romero). Inclusive REC funcionaria perfeitamente como prequel de EXTERMÍNIO, já que mostra, pela lente da câmera de uma equipe de TV, o surgimento de uma misteriosa epidemia que transforma pessoas comuns naquela espécie de zumbis hiperativos vistos no filme de Danny Boyle, que arrancam nacos de carne das suas vítimas, mas não para se alimentar, e sim com a intenção de espalhar a infecção. Até agora confesso que estou na dúvida se os "monstros" de REC podem ou não ser considerados zumbis, já que alguns parecem voltar da morte após levar vários tiros, mas outros não ressuscitam após um simples pescoço quebrado. Mistério...
A verdade é que REC me deixou tão encantado que, apesar de tê-lo visto ainda no ano passado, simplesmente não encontrei palavras para escrever sobre ele aqui na Boca do Inferno. Às vezes parece bem mais simples (e divertido) escrever sobre filmes ruins, rir dos seus defeitos e das suas bobagens, achincalhar diretores incapazes e atores que não sabem o que fazem, criticar roteiros redondinhos e repetitivos. E aí quando aparece algo realmente legal, tipo esta maravilha espanhola, você fica embasbacado, sem palavras, sem saber por onde começar e com medo de se repetir nos elogios ao ponto de soar chato. Mas este é um artigo extremamente necessário: através dele, quero incentivar os leitores a verem REC nos cinemas antes que estréie QUARENTENA, o tal remake norte-americano feito menos de um ano depois do lançamento do original. Porque eu acho ridículo que a falida e nada criativa indústria norte-americana de cinema recicle idéias dos outros tão cedo, ofuscando o sucesso do verdadeiro filme original.
E por que ver este antes de QUARENTENA? Na falta de argumento melhor, vou copiar o que um gringo escreveu sobre HALLOWEEN (o de John Carpenter, não aquele remake-bomba do Rob Zombie): "É uma pena que eu nunca mais terei a mesma experiência de ver HALLOWEEN pela primeira vez". Assim é REC: se você ficar tentado a ver o remake antes, vai saber exatamente o que lhe espera quando, depois, for conferir o original. REC é o tipo de filme cuja primeira vez que se assiste vale por todas as outras - você nunca mais vivenciará a mesma emoção desta experiência cinematográfica. Para quem já viu, uma sessão dele nos cinemas deve ser no mínimo muito divertida, principalmente para ficar acompanhando as reações das pessoas que não conhecem nada das surpresas que vêm pela frente. Sem exageros, REC deve bater qualquer recorde de pulos das poltronas nos cinemas!
O legal é que todo o inferno é mostrado aos olhos do espectador como se fosse real, e como se aquelas imagens que o espectador está assistindo fossem retiradas da fita sem edição gravada pela câmera da tal equipe de TV. Exatamente aquilo que já vimos antes em CANNIBAL HOLOCAUST e A BRUXA DE BLAIR: inúmeras cenas com câmera tremendo, imagem fora de foco, filmagem na mais completa escuridão registrando apenas os sons, etc etc. E, claro, a sensação incômoda e horripilante de que aquilo pode ser real - e eu sei que não é, mas que parece, parece!
Há décadas que o cinema vem tentando emular a sensação de medo e desespero reais. E, antes do cinema, o rádio cumpria este papel: quem nunca ouviu falar daquele lendário episódio em que um jovem Orson Welles espalhou pânico pelos Estados Unidos ao encenar, via rádio, trechos da novela "A Guerra dos Mundos", de H. G. Wells, como se realmente estivesse acontecendo uma invasão alienígena? Se hoje não acreditaríamos num golpe do gênero, o povo ingênuo da época, que acreditava que tudo que ouvia no rádio era verdade, não só acreditou como entrou em pânico com a possibilidade de a Terra realmente estar sendo atacada por marcianos!
Já em relação ao cinema, o clássico CANNIBAL HOLOCAUST, de Ruggero Deodato, conseguiu de tal forma trabalhar com uma atmosfera de realismo que até hoje muita gente pensa que os atores foram realmente devorados por canibais. Mais recentemente, A BRUXA DE BLAIR virou fenômeno graças a uma criativa campanha de marketing, que vendeu o filme como história real, incluindo (falsos) documentários televisivos sobre a (falsa) maldição da bruxa e sobre o (falso) desaparecimento da equipe de cinegrafistas que entrou na floresta atrás dela. A mentira foi tão convincentemente encenada que boa parte do mundo acreditou.
Também surgiram outras tentativas mais ou menos elaboradas, mais ou menos conhecidas, antes ou depois destas citadas: da superprodução CLOVERFIELD a filmes obscuros como CODINOME 84 (onde um cinegrafista acompanha uma violenta missão de soldados na Guerra do Vietnã) e THE LAST BROADCAST (onde documentaristas amadores são atacados pelo Pé-Grande). Mas são raros os que conseguem pegar o espectador pelos cabelos e atirá-lo no meio da tensão e do pesadelo como REC. Inclusive se alguém jogasse pedaços do filme no YouTube, alegando que são reais, creio que boa parte dos internautas iria acreditar.
REC busca um formato de "mockumentary" televisivo, bebendo da mesma fonte de outras bem-sucedidas experiências do gênero. Também não é novidade: em 1998, o falso documentário ALIEN ABDUCTION - INCIDENT IN LAKE COUNTY, exibido na televisão, mostrava cenas supostamente reais de uma família sendo abduzida por um disco voador. As imagens da gravação amadora eram comentadas por especialistas de mentirinha e por ufólogos reais e respeitados, o que acabou dando ainda mais credibilidade às imagens evidentemente falsas.
Antes disso, em 1992, a emissora inglesa BBC fez seus espectadores literalmente se cagarem de medo ao transmitir o programa batizado GHOSTWATCH, no Halloween daquele ano. Supostamente, era uma apresentação ao vivo realizada por verdadeiros jornalistas da emissora (Michael Parkinson, Sarah Greene, Mike Smith e Craig Charles) dentro de uma casa com fama de assombrada. O programa se desenrolava normalmente, incluindo entrevistas com parapsicólogos e as piadinhas e brincadeiras da equipe de jornalistas, mas no final as manifestações sobrenaturais começavam a acontecer no interior da casa, e, antes da câmera encerrar a transmissão, um dos repórteres (Parkinson) era possuído por uma entidade maligna! Você consegue imaginar a reação dos espectadores que assistiam isso ao vivo?
E assim chegamos a REC, que também brinca com essa noção popular de que "se está passando na TV, é verdade". Tanto que os roteiristas tiveram a idéia de fazê-lo após a ampla cobertura televisiva dos atentados de 11 de setembro de 2001. Os diretores Jaume e Paco não são marinheiros de primeira viagem, mas também não servem para veteranos: o primeiro dirigiu diversos filmes espanhóis de horror, entre eles A SÉTIMA VÍTIMA e TERROR EM MERCY FALLS; já Paco é mais conhecido no Brasil pelo sonolento ROMASANTA - A CASA DA BESTA, com Julian Sands.
Sem créditos de abertura, música ou nomes dos atores e da equipe técnica do filme, a história de REC começa com a repórter Angela Vidal (a bonita Manuela Velasco) gravando a vinheta de abertura do programa "Enquanto Você Dorme", de uma pequena emissora de TV de Barcelona, na Espanha. Ela explica, diretamente para a câmera (e para o espectador, claro), que está acompanhando a madrugada num quartel do Corpo de Bombeiros de Barcelona. E, para fazer o espectador engolir a idéia de que tudo é real, a moça erra várias vezes a chamada, pede ao cameraman se sua mão aparece no enquadramento, etc. Tudo para parecer que o filme está mostrando a fita não-editada gravada pelo câmera, e que tudo que virá a seguir será real e sem cortes.
As cenas seguintes, pelos próximos sete minutos, são situações banais e tentativas de entrevistas realizadas pela moça para o seu programa, exibidas, novamente, sem edição. E são tão chatas que a própria Angela parece torcer para que aconteça alguma tragédia que ela e o cameraman, chamado Pablo, possam acompanhar. Ao contrário do remake norte-americano, que coloca um ator no papel do cinegrafista apenas para mostrá-lo se filmando toda hora, em REC o cameraman nunca aparece (apenas seus pés), e ele é "interpretado" pelo próprio operador de câmera, Pablo Rosso (com a voz dublada por Pep Sais).
A tragédia esperada pela equipe de TV não demora para acontecer: aos 7 minutos cravados, o inferno se abate sobre Angela, Pablo e os dois bombeiros que eles resolveram seguir numa "chamada rotineira". Os soldados do fogo são Manu e Alex, interpretados respectivamente por Ferran Terraza e David Vert - e tipos bem menos simpáticos que aqueles mostrados em QUARENTENA. O quarteto chega a um edifício decadente no subúrbio de Barcelona, e Angela, querendo tornar a matéria o mais dinâmica possível, pede que o câmera Pablo registre toda a ação dos bombeiros sem cortes - uma desculpa para que a câmera permaneça mostrando ao espectador tudo que eles irão ver a partir de então.
No prédio já está uma dupla de policiais (Jorge Serrano e Vicente Gil), e os moradores reunidos no saguão (entre eles, Carlos Vicente, María Teresa Ortega, Manuel Bronchud, Akemi Goto, Chen Min Kao, Maria Lanau, Claudia Silva e Carlos Lasarte). Tão desnorteados quanto o espectador, os moradores do prédio ficam falando todos ao mesmo tempo, confundindo os bombeiros e policiais. Logo, o grupo sobe ao primeiro andar para averiguar a ocorrência. Ali fica o apartamento da sra. Conchita Izquierdo (Martha Carbonell), uma idosa que vivia sozinha com vários gatos e que teria gritado feito louca momentos antes, motivando o telefonema dos vizinhos para os bombeiros.
Fiel na sua tática de "cinema-verdade", os diretores Jaume e Paco começam a dar alguns sustos nos seus personagens e no espectador pelo inesperado de acompanhar a tudo "sem cortes": Enquanto Angela grava uma chamada para a câmera diante da porta trancada do apartamento da sra. Izquierdo, por exemplo, os bombeiros arrombam a porta com um golpe de machado, fazendo com que a repórter (e o espectador) leve um susto. Depois, policiais e bombeiros avançam pelo corredor escuro, e a câmera leva o espectador para dentro do acontecimento, seguindo de perto os homens - e provocando mais um susto geral quando Pablo acidentalmente derruba um vaso no corredor, fazendo o maior barulhão!
A velha maluca que vive sozinha no apartamento parece estar desorientada e coberta de sangue. Sem desconfiar de nada, os policiais se aproximam e tentam realizar os procedimentos de primeiros socorros. Mas a resposta da velha é atacar um dos policiais, arrancando um naco do seu pescoço. Alex dá uma gravata na idosa para imobilizá-la, enquanto Manu e o outro policial carregam o homem ferido até o saguão, sempre acompanhados pela câmera aos tropeços comandada por Pablo - em meio à muita gritaria e correria, que captam com perfeição a tensão daquele momento. Prevendo que tem uma grande história nas mãos, Angela ordena ao cameraman: "Continue gravando TUDO! 'Por tu puta madre'".
A partir de então, a câmera praticamente não dá mais "pause" nem "stop", registrando tudo que acontece aos trancos e barrancos. Quando o grupo chega ao saguão do prédio, esperando chamar auxílio médico para o policial ferido e para a senhora que o atacou, descobrem, horrorizados, que o edifício inteiro foi trancafiado e está cercado por militares, numa espécie de quarentena forçada. Para piorar, nem eles nem os moradores recebem qualquer informação sobre o que está acontecendo. Todos começam a gritar com todos, num clima de paranóia e descontrole, enquanto as informações chegam aos poucos - para eles e para o espectador, que a esta altura já faz parte daquele inferno como testemunha ocular.
A primeira pista da tragédia que se anuncia é um aviso feito pelos militares que estão bloqueando as saídas: "As autoridades sanitárias decidiram fechar o prédio por razões de segurança. Estamos trabalhando para que possam sair o mais rápido possível. Necessitamos de sua colaboração. Sigam todas as instruções e permaneçam calmos". Depois, o policial que restou usa o rádio para se comunicar com a delegacia, e descobre que estão todos proibidos de deixar o local. Finalmente, uma mulher com a filha no colo anuncia que o marido acabou de ligar no seu telefone celular dizendo que o quarteirão está trancado, cheio de policiais e ambulâncias, e que não deixam ninguém se aproximar.
Quando a situação já terrível vai ganhando ares de tragédia, o policial estressado quase sai na porrada com Pablo, gritando para que ele desligue a câmera e pare de gravar. Mas é Angela quem defende seu cameraman (e o direito do espectador de continuar assistindo), retrucando: "Não toque na câmera! Nós temos que informar o que está acontecendo aqui!". Neste momento, num daqueles sustos que pega todo mundo de surpresa, Alex, o bombeiro que tinha ficado no apartamento da velha, despenca do primeiro andar, estatelando-se no saguão. A expressão de surpresa dos atores que presenciam o ocorrido é real: nenhum deles havia sido avisado do que aconteceria na cena!
A partir de então, REC desenvolve-se rapidamente e sem dar fôlego para o espectador. Os dois feridos (o policial e o bombeiro) são tratados por um auxiliar de enfermagem que vive no prédio, e seu estado vai piorando tenebrosamente. Angela combina com Pablo para que continue gravando, pois o registro da câmera será a única prova que eles terão do que está acontecendo no interior do edifício. Telefones celulares, rádios e TVs são desativados no local. E chega o comunicado de que os moradores encontram-se em "Protocolo NBC", um procedimento especial reservado para ameaças nucleares, biológicas ou químicas.
A situação fica cada vez mais tensa, as pessoas "normais" começam a brigar entre elas como nos clássicos filmes de zumbis de George A. Romero, e Angela tenta fazer seu trabalho, entrevistando cada morador do prédio para descobrir mais sobre o que está acontecendo. Mas a infecção espalhada pelas mordidas da velha maluca sai do controle, transformando o que parecia uma simples reportagem numa luta pela vida.
Para ter uma idéia do que é ver REC, imagine se os 10 minutos finais de A BRUXA DE BLAIR (os dois jovens correndo com câmeras para cima e para baixo numa casa escura) fossem estendidos para um longa-metragem. Assim é o filme espanhol: 1h15min de pura tensão e medo, sem trilha sonora, edição ou efeitos elaboradores de computador. E sem intervalos para os comerciais, de maneira que o público fica quase sem respirar, principalmente no terceiro ato.
Quem já viu outros filmes recentes no mesmo formato, como CLOVERFIELD e DIÁRIO DOS MORTOS (este dirigido por George Romero) pode até pensar que REC é um plágio descarado. Podia até ser, caso o filme não estivesse já em fase de pós-produção quanto os dois filmes acima citados estavam começando a ser gravados. Isso confundiu os próprios realizadores espanhóis, como o diretor Jaume, que declarou o seguinte em uma entrevista a um site: "Não sabíamos nada sobre DIÁRIO DOS MORTOS ou CLOVERFIELD. Quando estávamos terminando o filme e mixando o som, começamos a receber informações sobre CLOVERFIELD e ficamos realmente chocados, pois não esperávamos que mais alguém estivesse fazendo esse tipo de coisa!".
Mas, pelo menos na minha opinião, REC dá de laço nestes dois filmes recentes, e especialmente em DIÁRIO DOS MORTOS, que, pelo menos para mim, foi uma grande decepção. Achei o filme de Romero frustrante nos quesitos medo e tensão, e, apesar de investir no formato "filmagem amadora", pecou por ser gravado e editado de maneira profissional, sem câmera sacudindo, cenas fora de foco ou reações mais realistas de seus personagens (que também são interpretados por péssimos atores jovens). Claro que muitos saíram em defesa de Romero, dizendo que ele é um diretor bom demais para usar estes vícios de linguagem como câmera tremendo nas cenas de tensão. Ora, mas se a idéia do cineasta era justamente passar essa experiência ao espectador, no mínimo ele deveria tentar apresentar a coisa de maneira realista, como muito bem fizeram os espanhóis.
Além de toda a situação "humanos enfrentando zumbis" tão comum nos filmes de Romero, REC também tem uma pitada da crítica social presente na obra do cineasta norte-americano, como quando um divertido personagem entrevistado por Angela credita a culpa de tudo a uma família chinesa que vive no prédio (só porque eles têm hábitos culturais diferentes dos outros). E é só isso: felizmente, Jaume e Paco parecem mais interessados no horror da situação, e deixaram as aulas de sociologia para Romero.
Como não é assim tão fácil conseguir criar uma atmosfera de medo no set, e fazer com que os atores reajam como se estivessem realmente assustados (o que Romero não conseguiu em nenhum momento de DIÁRIO DOS MORTOS, por exemplo), REC foi filmado em ordem cronológica. Isso quer dizer que você vê as cenas na ordem em que elas foram gravadas. Ainda segundo o diretor Jaume, na mesma entrevista a um site, esta era a única forma de criar um clima realista: "Os atores nunca receberam o roteiro completo, apenas umas poucas páginas com a história geral e sem os diálogos. Era o que precisávamos para filmar cronologicamente: eles iam descobrindo os detalhes sobre a história enquanto estávamos filmando, reagindo com espontaneidade a todos os novos eventos, e o filme ia crescendo sozinho. Nós só precisamos controlá-lo!". Além disso, o prédio onde se passa a história não é um cenário, mas um verdadeiro edifício que estava abandonado.
E é justamente o elenco de caras praticamente desconhecidas (embora alguns deles já tenham trabalhado com os diretores Jaume e Paco antes) que consegue convencer o espectador de que são jornalistas, bombeiros, policiais e pessoas comuns, que realmente estão assustados, surpresos e apreensivos com toda a situação. Ver este desespero estampado no rosto dos atores anônimos ajuda a criar uma imersão total no clima do filme, dando ao público uma sensação de claustrofobia, como se ele estivesse preso no prédio junto com o grupo. Este efeito, nem precisa dizer, não foi repetido no remake QUARENTENA, onde o uso de atores conhecidos (como Jennifer Carpenter e Jay Hernandez) acaba com qualquer sensação de realismo: o espectador sabe desde o início que eles são atores, e não pessoas reais, e que tudo aquilo é "de mentirinha", tirando o impacto que tem o original espanhol.
REC não é daqueles filmes que precisa de barris de sangue falso para deixar o espectador apreensivo (mesmo que tenha algumas cenas escabrosas de feridas abertas e nacos de carne arrancados, em bons efeitos assinados por Enric Masip e David Ambit). Mas mesmo assim consegue criar um clima que às vezes chega perto do desespero, especialmente à medida em que a infecção se espalha pelo prédio e os poucos sobreviventes precisam fugir dos "zumbis velocistas" correndo para cima e para baixo pelas escadas. Os monstros às vezes chegam bem perto da câmera, e o espectador quase sente como se estivesse lá mesmo, correndo dos monstros e sentindo o bafo deles na nuca. Estas cenas são uma aula de como fazer o espectador roer as unhas, e por isso ver o filme num cinema dotado de um poderoso equipamento de som deve ser ainda mais divertido e assustador...
Destaque para a desconhecida gracinha Manuela Velasco, que consegue parecer realmente aterrorizada ao longo do filme, numa interpretação que pode ser comparada, sem injustiça, com o desespero de Marilyn Burns n'O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA de Tobe Hooper. A forma como ela grita, soluça e arregala os olhos nas cenas de horror quase levam a crer que ela está realmente a ponto de ter um ataque nervoso, e isso é uma coisa que as "scream queens" ianques modernas, tipo Jessica Biel e Jennifer Carpenter, ainda não aprenderam a fazer - elas que encaram horrores de todo tipo com a mesma carinha de "Ai, será que vou ao cabeleireiro quando acabar de filmar esta cena?".
Para completar, o roteiro dos espanhóis ainda surpreende o público com um dos finais mais macabros dos últimos tempos, que faz a conclusão de A BRUXA DE BLAIR parecer filme do Spielberg. O segredo para a origem da infecção, e a verdade sobre o tal vírus que transforma as vítimas em zumbis raivosos, está num quarto escuro e deserto na cobertura do prédio, onde imagens religiosas cobrem as paredes ao lado de misteriosos recortes de jornais (inclusive um jornal brasileiro, em português!). E é aí que muita gente vai ficar com o coração na mão, por mais que já imaginem como a história vai terminar. O eficiente uso da escuridão e da "visão noturna" da câmera, somados à ausência de trilha sonora (só ouvimos os soluços de choro de Angela e a respiração ofegante de Pablo), colaboram para tornar tudo ainda mais assustador. Um daqueles finais que assombram o espectador por dias depois de ver o filme, e que os americanos, claro, conseguiram sabe-se lá como estragar no remake!
Ah, e esteja preparado para a "Menina Medeiros", certamente uma das coisas mais assustadoras que o cinema de horror moderno mostrou, e que não deixa nenhuma saudade das já batidas fantasminhas cabeludas dos filmes de horror orientais.
Com o sucesso de REC, a produtora espanhola Filmax (que tem aqui seu primeiro clássico, após produzir bons filmes como O MAQUINISTA e REANIMATOR - FASE TERMINAL) já anunciou para breve uma inevitável seqüência, REC 2. Mas eu não consigo imaginar o que eles vão fazer para tornar a história interessante ou atrativa - até sinto escrever isso, mas o mais fácil é que caiam na mesma armadilha do fraquinho A BRUXA DE BLAIR 2. Talvez, também, eles tentem explicar melhor os acontecimentos do original, já que muita coisa fica no ar e o espectador conta apenas com algumas pistas para montar o quebra-cabeça no final (é incrível a quantidade de posts no Orkut pedindo explicações sobre a história!). Em todo caso, é esperar a seqüência sair para ver o que vem pela frente. E com os dedos cruzados.
reação do público assistindo [REC]
Só tenho uma certeza: poucos filmes recentes me marcaram tanto quanto REC. Em tempos que se fala tanto na volta do cinema 3-D e outras maravilhas tecnológicas, uma produção simples e barata vinda da Espanha, dirigida por cineastas desconhecidos e estrelada por atores sem qualquer destaque, conseguiu a façanha de colocar o espectador dentro do filme, para viver aquela situação junto com os personagens, sem a necessidade de grandes tecnologias ou óculos 3-D. E é isso que a indústria do entretenimento (não só nos EUA, mas também em outros países, inclusive o Brasil) precisa entender: na maioria das vezes, uma boa história bem executada faz a diferença. E muito.
Aí está REC para provar: um filme despretensioso, barato e dirigido por dois quase desconhecidos, mas que mesmo assim conseguiu ofuscar até o mestre George Romero e seu DIÁRIO DOS MORTOS. "O inferno ao vivo". E quem duvida, que vá encarar nos cinemas. Mas esteja preparado para os sustos e para os inevitáveis pulos da poltrona do cinema. Se você já viu, vá ao cinema mesmo assim, e divirta-se ficando de olho nas pessoas ao seu redor!
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por Gabriel Paixão
"Uma equipe de TV mostra o inferno zumbi durante a quarentena de um prédio neste fantástico filme espanhol"
Quando A BRUXA DE BLAIR, no longínquo ano de 1999, fez um sucesso descomunal - para mim um pouco mais do que merecia - uma pequena onda de filmes no formato "televisão realidade" apareceu, e com a explosão de CLOVERFIELD no ano passado, esta peculiar forma de se trabalhar um roteiro repentinamente virou moda de novo e a produção espanhola intitulada [REC], que permanece inédito no Brasil, procurou se aproveitar deste rebuliço para apresentar uma batida história de zumbis - não são mortos-vivos tecnicamente falando - mas volto neste assunto mais tarde.
Eu disse que é uma história batida, entretanto isto não significa que seja ruim.
Muito pelo contrário, é um exercício fantástico que dosa na medida certa ação, suspense e técnica resultando numa envolvente e divertidíssima prova para os nervos, contando com a excepcional condução dos diretores Jaume Balagueró (A SÉTIMA VITIMA) e Paco Plaza (ROMASANTA – A CASA DA BESTA), que também assinam o roteiro junto com Luis Berdejo.
E não sou apenas eu que alimento esta opinião, [REC], entre outros prêmios, conquistou o troféu máximo do importante festival português Fantasporto na edição de 2008, criando-se um heap instantâneo.
O barulho criado em torno dele foi tão grande que os nossos amigos produtores yankees com toda sua anti-cultura estrangeira já providenciaram sua própria versão para a produção chamada de QUARANTINE, que têm lançamento marcado para outubro. Todavia, para a ira do verdadeiro fã, nos Estados Unidos, o original ainda nem tem data de estréia.
Como adiantei acima, é uma história de zumbis que segue bem a cartilha, daquele tipo que passa pelos três segmentos básicos (origens, contaminação e sobrevivência). O filme, tal como se fosse “real”, abre sem créditos iniciais ou trilha sonora com a apresentadora Ángela Vidal (Manuela Velasco, de A LEI DO DESEJO) e seu cameraman Pablo (voz de Pep Sais, já que nunca vemos o rosto dele), que estão gravando mais um episódio do programa jornalístico para uma rede de televisão local chamado "Enquanto você dorme" - que basicamente conta a rotina noturna dos trabalhadores que suam a camisa enquanto você dorme (dããã...). Neste capítulo em questão eles passam a noite em um quartel de bombeiros.
Ao contrário do que pensa o inconsciente coletivo, a princípio o turno da noite dos bombeiros é uma das coisas mais monótonas que se pode imaginar, e Ángela visita todas as instalações do quartel neste momento de calmaria, o que frustra um pouco os anseios da apresentadora, pois é obvio, o programa ficaria muito mais interessante e daria mais audiência se cobrisse um incêndio ou uma catástrofe. Mas não tarda muito e ela vai desejar jamais ter pensado nisso.
Todavia não vamos colocar o carro na frente dos bois. A sirene do quartel toca e Ángela e Pablo acompanham os bombeiros Alex (David Vert) e Manu (Ferran Terraza, de A SEITA, também de Balagueró) para uma chamada em um pequeno edifício. Quando se aproximam do local notam que uma viatura da polícia chegou primeiro, causando um pequeno tumulto entre os moradores.
Aparentemente o que aconteceu foi que uma senhora idosa - uma personificação da velha louca dos gatos que nunca sai de casa - acordou os vizinhos aos gritos, motivo suficiente para constatar que algo estava errado com ela. Os bombeiros e a dupla de policiais, sempre acompanhados pela equipe da TV - o que provoca alguns conflitos durante o filme - entram no apartamento da mulher e a descobrem atordoada e banhada em sangue, porém enquanto um dos policiais conversa com a senhora ela o morde violentamente no pescoço deixando-o mortalmente ferido.
Uma ambulância chega para levar o policial, mas eles são impedidos de sair pelas autoridades sanitárias por algum motivo desconhecido neste momento. Aos poucos os moradores, os bombeiros, a equipe de TV e o policial que restou descobrem que estão sendo mantidos em quarentena por causa de uma misteriosa infecção manifestada em um cachorro do prédio que foi levado para um veterinário, entrou em coma, morreu e voltou em seguida com uma agressividade fora do comum. A má notícia, como podem adivinhar, é que a doença é transmissível aos seres humanos pela saliva, ou seja, são infectados nos moldes de EXTERMÍNIO, que na prática são os velhos conhecidos zumbis.
Então começa aquela boa e velha história de pânico, proteção dos inocentes ainda que infectados, sacrifício pelo coletivo e claustrofobia, sempre registrados pela câmera hábil de Pablo, enquanto Ángela cava um pouco mais para descobrir a verdade e esclarecer os acontecimentos para o público.
A história escrita a seis mãos, assim como em CLOVERFIELD, é uma experiência visual quase indescritível que deve ser ainda mais arrepiante ao se assistir na tela grande com um sistema de som Sourround (distribuidoras, atenção!) e, tal qual o filme do monstro gigante, acho que o resumo acima não faz justiça a qualidade do filme por melhor que eu possa descrever.
Em favor do realismo (ou talvez seja uma falha mesmo), os diálogos não são trabalhados, as situações beiram o clichê e não há aquela tétrica trilha sonora, porém o diferencial é a admirável técnica do diretor Jaume Balagueró, ajudado pela curta duração do filme.
Balagueró dosa com uma maestria quase perfeita os momentos de tensão com a qualidade da gravação e os "tombos" do cameraman Pablo junto com o comportamento da própria câmera, que é altamente influenciada pelos tiros e pancadas ficando muitas vezes fora de foco ou com o som entrecortado, o que valoriza ainda mais a experiência.
O início, porém, é chato, lento, arrastado e, juro, me deu vontade de dar uma chacoalhada na atriz Manuela Velasco em cada sorriso sem graça que ela dava, contudo a partir dos 40 minutos aproximadamente, [REC] faz tudo o que o superestimado A BRUXA DE BLAIR não conseguiu, quando o carrinho da montanha-russa começa a descer as coisas acontecem muito rápido - porém não chega a ser apressado - e prende o espectador na cadeira com tamanha intensidade.
É uma correria incessante que não te deixa respirar até os créditos finais, emoção que se torna literal, tanto pela velocidade quanto pelos "loopings" gráficos....medo genuíno mesmo apenas nos impressionantes cinco minutos finais, que são diretos, sem invenções ou explicações desnecessárias. Outro destaque fica por conta dos convincentes efeitos especiais repleto de feridas e mordidas mostradas sem pudor pela dupla Balagueró/Plaza.
O único problema que pode chegar a incomodar alguns é a relativa inexpressividade do elenco, porque todos eles dificilmente conseguem manter uma atuação regular, ou seja, na maior parte do tempo não dão conta de criar apenas por eles o clima de desespero necessário para que [REC] se torne memorável.
Portanto o filme, como podem notar, não é a última novidade, possui grandes erros quando se olha friamente para o que acabamos de assistir e de fato usa fórmulas bem exaustivas e recorrentes do cinema atual (os já citados EXTERMÍNIO, CLOVERFIELD, A BRUXA DE BLAIR). Contudo, para mim, os filmes assim como as músicas não têm que ser sempre revolucionários ou inéditos, se forem apenas bem realizados e com capacidade de entreter já serão o bastante, e [REC] tem um tremendo potencial neste ramo. Assistam sem medo e vamos torcer para que saia alguma coisa boa do remake estadunidense...
Para comentar o artigo e entrar em contato com Gabriel Paixão:
[REC] ([Rec], Espanha, 2007). Duração: 85 minutos
Direção: Jaume Balagueró; Paco Plaza
Roteiro: Jaume Balagueró; Luis Berdejo; Paco Plaza
Produção: Julio Fernández
Produção Executiva: Julio Fernández; Carlos Fernández
Fotografia: Pablo Rosso
Maquiagem: David Ambit; Lucía Salanueva
Direção de Arte: Gemma Fauria
Efeitos Especiais: Enric Masip
Efeitos Visuais: Álex Villagrasa
Edição: David Gallart
Elenco: Manuela Velasco (Ángela Vidal); Javier Botet (Niña Medeiros); Manuel Bronchud (Abuelo); Martha Carbonell (Sra. Izquierdo); Claudia Font (Jennifer); Pablo Rosso (Marcos); Pep Sais (Pablo); Jorge Serrano (Sergio); Ferran Terraza (Manu); David Vert (Alex); Carlos Vicente (Guillem)