RESSURREIÇÃO - RETALHOS DE UM CRIME

Texto escrito por André Bozzetto Junior



Cadáveres decompostos; mutilações; nudez; insanidade e sangue, muito sangue.

Ao contrario do que possa parecer em um primeiro momento, os elementos acima mencionados não se referem a nenhum exploitattion setentista, e tampouco a algum novo filme de George Romero, Sam Raimi ou algum daqueles saudosos diretores italianos que escandalizaram as décadas de 1970 e 1980 com filmes tão ousados quanto ofensivos. A obra em questão é “Ressurreição – Retalhos de Um Crime” (Resurrection, 1999), dirigido pelo australiano Russell Mulcahy (“Highlander” I e II, “O Sombra”) e protagonizado por Chistopher Lambert (“Greystoke: A Lenda de Tarzan”, “O Siciliano”, “Mortal Kombat”, “Highlander”).
Talvez a primeira coisa interessante a ser dita sobre esse filme é que ele faz parte daquela grande galeria das obras injustiçadas, ou seja, películas que apesar de possuírem inegável potencial, acabam sendo renegadas pela crítica e pelo grande público.
Neste caso, a maioria dos detratores deste filme acusam-no de ser uma mera imitação de “Seven – Os Sete Crimes Capitais”, obra-prima de David Fincher, lançada em 1995. Porém, eu discordo dessa posição, preferindo interpretar o filme como sendo uma obra “inspirada” por “Seven”, e não uma “cópia” desse, uma vez que “Ressurreição” possui um roteiro inteligente, muito bem elaborado e até surpreendente, possuindo assim brilho próprio, e não ficando restrito a repetição de idéias já desenvolvidas anteriormente. Contudo, existem, sim, uma série de semelhanças entre “Seven” e “Ressurreição”, que se por um lado não chega a descambar para a imitação, por outro, deixa clara a influência do primeiro sobre o segundo.
O enredo nos mostra dois policiais da Divisão de Homicídios de Chicago embrenhados na captura de um misterioso serial-killer, que mutila brutalmente suas vítimas, roubando-lhes os membros decepados. Os policiais são John Prudhomme, vivido por Lambert, e Andrew Hollinsworth, interpretado pelo experiente Leland Orser, que possui uma extensa filmografia dedicada ao cinema fantástico, incluindo obras como “Alien – Ressurreição”, “O Colecionador de Ossos”, “Piranha”, “Independence Day”, “Demolidor” e o próprio “Seven”, onde ele faz uma ponta no papel do homem que é obrigado a transar com uma prostituta usando uma prótese peniana no formato de serra.
E aqui começam as semelhanças entre o filme de Fincher e o de Mulcahy: em ambos os casos temos uma dupla de policiais ao mesmo tempo cínicos e amargurados. Tanto em um filme como no outro, chove o tempo inteiro. A fotografia das duas obras é escura e claustrofóbica, possuindo a visível intenção de causar desconforto no expectador, principalmente nos ambientes dos crimes. Os policiais sempre chegam depois das mortes já terem ocorrido, encontrando apenas os cadáveres mutilados e as pistas deixadas pelo serial-killer. Por fim, os assassinos dos dois filmes agem com motivações bíblicas.
Na verdade, a impressão que se tem ao assistir esse “Ressurreição”, é que os responsáveis pela obra (leia-se Cristopher Lambert, que além de atuar ainda acumula as funções de co-produtor e co-autor do roteiro) quiseram transgredir os elementos impactantes vistos em “Seven”, na expectativa de chocar ainda mais a platéia, pois o filme é muito mais violento, com cenas de feridas expelindo sangue, vômitos, closes em corpos putrefatos, cenas de nudez frontal, tanto masculina como feminina, e assim por diante. Além disso, a ação se passa muitas vezes em ambientes degradados, em meio a sujeira e pobreza, o que causa um significativo incômodo no espectador, devido a melancólica presença de pessoas decadentes e sem esperança. De um modo geral, o filme todo possui uma ambientação tétrica e deprimente, onde até mesmo o detetive Prudhomme se vê constantemente atormentado pela ausência do filho, morto em um atropelamento. Essa cena do acidente, em especial, é bem impactante, e mostra em câmera lenta o garoto indo parar de baixo das rodas do carro.
Outro elemento que contribui para o clima melancólico da obra é o ótimo trabalho de fotografia, propositadamente dotada de tons desbotados, que conferem às imagens uma idéia de desgaste e obscuridade.
Conforme já foi mencionado, o roteiro provavelmente seja o ponto alto do filme, desenvolvido sem maiores enrolações, e com várias reviravoltas, que não deixam o espectador seguro quanto ao desfecho da trama. Infelizmente, a sinopse do filme apresentada na caixinha do VHS e do DVD lançados aqui no Brasil pela “Flash Star” já entrega que o assassino acredita ser um descendente de Judas, e pretende reconstruir o corpo de Cristo com partes de cadáveres metodicamente escolhidos, para assim redimir a humanidade de seus pecados e conduzi-los à salvação. Porém, há outros elementos intrigantes a serem observados, como a própria identidade do assassino, um tanto quanto inusitada.
Existem muitas cenas de destaque que seriam interessantes de se mencionar, sendo uma delas logo no início, quando a policia está investigando o local do primeiro crime, e no instante em que um detetive abre as cortinas, surge na janela os dizeres “ele vem aí”, escritos com sangue. Essa imagem surte um grande impacto visual. Outro momento memorável é aquele onde os policiais adentram nos porões de um prédio abandonado, que serve de abrigo para mendigos, drogados e prostitutas de rua. Nesta parte seguem-se uma seqüência de imagens bizarras, entre corredores estreitos e imundos, habitados pelos indivíduos mais estranhos possíveis, gerando uma sensação de incômodo e claustrofobia, culminando no encontro com um cadáver decapitado. No final, quando surge “o corpo de Cristo”, também temos uma visão um tanto quanto nauseante do que o fanatismo religioso pode fazer na mente deformada de um louco.
A obra também acaba sendo valorizada pela presença do cultuado diretor David Cronenberg (“Calafrios”, “A Hora da Zona Morta”, “Scanners”, “Videodrome”, “A Mosca”, “Spider”) que aqui participa como ator, interpretando o Padre Rousell.
Provavelmente o único aspecto realmente negativo do filme seja o final, um tanto quanto “colorido” e “familiar”, o que destoa um pouco do restante da película. Além, é claro, da “demasiada” inspiração na já exaustivamente citada obra de David Fincher, o que lhe rendeu o rótulo de “cópia”, e contribuiu para a sua baixa popularidade.
Finalmente, fazendo-se uma análise imparcial desse trabalho, e visando-se prioritariamente o entretenimento, é possível se constatar que “Ressurreição – Retalhos de um Crime” é um dos grandes filmes do sub-gênero serial-killer da década de 1990, sendo por um lado, suficientemente violento e escatológico para agradar aos fãs do cinema gore, e por outro, inteligente e intrigante o bastante para satisfazer os admiradores de roteiros eficientes e estilizados.

RESSURREIÇÃO - RETALHOS DE UM CRIME (Resurrection , Estados Unidos, 1999). , 108 minutos
Direção: Russell Mulcahy Roteiro: Brad Mirman, baseado em história de Christopher Lambert e Brad Mirman
Elenco: Christopher Lambert (John Prudhomme); David Cronenberg (Padre Rousell); Jayne Eastwood (Dolores Koontz); Darren Enkin (John Ordway); David Ferry (Sr. Breslauer); Jan Filips (Stanley Galloway); Rick Fox (Detetive Scholfield)

Texto: André Bozzetto Junior
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