Imagine um episódio da série televisiva Oz (aquela que se passa num presídio) com o gore quintiplicado. Só assim você terá uma idéia de como é "A História de Ricky" um divertido e sangrento filme chinês de 1991. O filme é baseado no quadrinho japonês "Ricki-Oh" de Masahiko Takajo e Tetsuya Saruwatari, o que chega a ser meio estranho pois por ser um produto japonês era mais conveniente que fosse feito um filme japonês, mas isso se explica pois o manga estava hiper-popular em Hong Kong naquele ano e por isso uma versão cinematográfica foi dirigida por Ngai Kai Lam.


O filme começa com um caminhão levando prisioneiros para uma prisão de segurança máxima, que segundo os créditos iniciais foi privatizada assim como os estacionamentos (!!!) do país. Isso tudo claro no futuro não tão distante de 2001 (se lembrem que o filme é de 1991). A música minimalista de Fei Lit Chan é ótima, lembrando bastante as dos filmes de John Carpenter, especialmente
Fuga de Nova York. Um dos prisioneiros é Saiga Riki-Oh (que teve o nome adaptado para Ricky Ho) um com cara de poucos amigos e trejeitos de Bruce Lee que foi pra cadeia por matar um traficante responsável pela morte de sua namorada Keiko (Gloria Yip, de
"Chefão por Acaso" com Jackie Chan). Ao passar pelos detectores de metais e estes apitarem, Ricky é levado para um aparelho muito moderno (hehe) onde a radiografia de seu peito é mostrada e vemos que cinco balas provenientes de seu confronto com o traficante estão alojadas. Ao ser perguntado porque não pediu para o médico tirá-las, Ricky diz:
"Queria guardar de lembrança". O cara é bom hein!


Claro que a vida na cadeia não é mole não! Lá dentro há diversos elementos perversos como o Capitão ou Wildcat (Cheng Chuen) que começa a pegar no pé de um velhinho logo quando este estava prestes a sair da cadeia. Após ferir gravemente o velho, o Capitão leva uma rasteira de alguém e cai de cara numa madeira cheia de pregos que estava no chão em um efeito meio tosco já que dá pra ver claramente que é um boneco de borracha caindo...hehe. Quem deu a rasteira é claro, foi Ricky que acaba se tornando o herói dos presos já que o Diretor Assistente e o Diretor são mais sádicos que os meliantes lá dentro.
É claro que o tal Capitão quer sua vingança e pra isso paga o gordão Siri Lang - que estava na solitária por comer um cavalo inteiro (!!!) - para matar Ricky. Num dia na hora do banho, Siri Lang dá um soco em Ricky que o faz voar longe e diz:
"Ricky, me pagaram 30 quilos de arroz para te matar!" hahahahaha... é aí que começa a selvageria! Ricky simplesmente dá um soco na barriga do gordo e seu punho entra, e quando ele o retira saiu uma cachoeira de sangue do buraco do ferimento! É claro que com todo esse
"talento", Ricky chama a atenção da máfia que existe dentro da cadeia comandada por Hai (Frankie Chin, o Bull do divertido
Operation Scorpio) que o quer de capanga. Quem também está interessado nas habilidades de Ricky é o Diretor Assistente (Mui Sang Fan, de
Projeto China II, do Jackie Chan), um cara bizarro que tem um olho de vidro onde guarda drops (!!!) e um gancho no lugar de uma das mãos. Só que ao rejeitar ambas as ofertas, Ricky acaba provocando a ira dos dois. O Diretor Assistente arma uma cilada par Ricky e manda Hai matá-lo em uma batalha homem a homem. Nessa cena de luta que é a melhor do filme, Hai corta com uma faca os tendões do braço direito de Ricky e este o que faz? Simplesmente amarra os tendões novamente e volta a lutar! Eu quero ser o Ricky, ele é o cara! Hehehe.


Mas a situação se complica quando aparece a
"Gangue do Quatro", que seria a gangue do pavilhão quatro composta por TaiZan ,um gigante que já chega estourando a cabeça de um prisioneiro com as mãos!; o andrógino Huang Chaun (na verdade a atriz japonesa Yukiari Ôshia que fez uma terrorista em
"Policial Acima de Tudo" com a Michelle Yeoh) e finalmente Shorty um baixinho mestre em atirar agulhas de crochê ou seja lá o que for aquilo que ele chama de arma. Mas se vocês pensavam que o Diretor Assistente era mau esperem pra ver o próprio Diretor (Ka-Kui Ho)! Pra se ter uma idéia da maldade do Diretor, ele enfia sua bengala no olho de um preso só porque ele não esticou um tapete direito que ocasionou a queda do seu filho mimado!
Mas a situação se complica mesmo quando Ricky descobre que em uma das células da prisão é plantada papoula para a produção de drogas. Possesso, ele queima a plantação e passa a sofrer com o ódio da
"Gangue do Quatro" e dos Diretores. O filme passa a ser a partir daí uma colagem de situações de torturas físicas atribuídas a Ricky por seus inimigos, com nosso herói sempre escapando de todas e se tornando assim um mártir para todos os presos.
A
História de Ricky é, portanto, divertidíssimo. Muito mais pelo gore que de tão exagerado acaba transformando o filme numa comédia involuntária. Como eu prefiro dizer, é o
"Fome Animal dos filmes de Kung Fu". Talvez a única coisa que falta no filme são lutas mais emocionantes, já que Louis Fan (o intérprete de Ricky) é um excelente artista marcial, mas faz parte daquela categoria de atores que por alguma trapaça do destino nunca fez o sucesso esperado. A falta de luta no filme é até justificada já que Ricky é tão forte (mas tão forte mesmo) que é só dar um golpe em algum desavisado para despachá-lo para os quintos do inferno. E essa força sobre-humana também é explicada através de flashbacks onde mostram Ricky treinando o Chi Kung - uma técnica chinesa de postura e respiração que visa estimular a energia Chi muito utilizada na medicina e artes marciais- com seu mestre interpretado pelo ator japonês Tetsuro Tamba que em certo momento solta a frase memorável:
"Seja o mensageiro do inferno Ricky..." 

Outro aspecto interessante do filme são as criativas cenas de morte e gore que não enjoam por serem cada vez mais criativas. Por exemplo, em certo momento durante uma luta ao ver que iria perder para Ricky, um personagem faz hara-kiri (o suicídio japonês que consiste em enfiar uma lâmina na barriga) e arranca seus próprios intestinos para enforcar Ricky com eles!!! E o que dizer de outra cena em que TaiZan, um dos membros da
Gangue do Quatro esmaga a cabeça de um prisioneiro com um tapa! Hehee.. ou ainda da cena em que Ricky dá um soco em um personagem que faz sua mão entrar pelo pescoço dele e sair pela boca??? Sem contar que o Diretor possui uma arma que faz as pessoas incharem e explodirem (!!!). São tantas as seqüências bizarras e sangrentas que é impossível listar! Tem ainda uma bem sacada homenagem a outro clássico da pancadaria hemorrágica
"The Street Fighter" com Sonny Chiba, onde Ricky em certo momento dá um soco na cabeça de um coitado e a esmaga e vemos isso como se fosse uma radiografia com o crânio sendo esmagado.
O clímax se dá na cozinha do presídio onde um personagem diz:
"Eu sou o melhor no Kung Fu" e do nada começa uma transformação estilo Hulk que culmina no tal personagem trasformado num ser gigantesco de borracha (hehe). Não quero estragar a surpresa mas adianto que tem um gigantesco moedor de carne nessa cena então vocês já imaginam o que vai acontecer...
Como já disse o ator Louis Fan (ou Siu-Wong Fan) é um daqueles excelentes artistas marciais que não tiveram o reconhecimento merecido. Ele fez um filme onde demonstra suas ótimas capacidades chamado Jogos Mortais (não, nada a ver com o Jigsaw) e recentemente apareceu ao lado de Gordon Liu na fantasia
Shaolin Vs Evil Dead.


A
História de Ricky foi lançado em VHS e DVD no Brasil pela China Vídeo, mas prefira o DVD importado já que o da distribuidora nacional vem totalmente
"pelado" e ainda por cima caro demais. Pra se ter uma idéia, a edição importada tem de extras além da faixa de comentários do dublê Jude Poyer e do crítico Miles Wood, uma entrevista de 25 minutos com Louis Fan sobre como ele entrou para o mundo do cinema, seu método de treinamento e as lembranças de como foi filmar
"A História de Ricky".
Cabe deixar registrado aqui a imensa salada feita com os nomes dos personagens quando o filme foi lançado nos EUA. A maioria teve seus nomes trocados: Riki-Oh virou Ricky Ho (pronunciando-se Rô), TaiZan virou Tarzan, o gordão Siri Lang virou Elephant e em outros lugares Zorro (!!!), Shorty virou Brandon (!!!) e Hai foi batizado de Oscar. Ou seja, uma verdadeira salada de nomes!
No mais,
"A História de Ricky" é um daqueles filmes que nunca canso de rever e a cada vez que revejo acabo gostando cada vez mais, mesmo ele sendo aparentemente pobre, e amador em alguns aspectos, e tendo vários furos de roteiro (o maior deles é a cena final que lhe deixará com a seguinte pergunta na cabeça:
"Por que ele não fez isso antes"?). A produção acaba sendo um exemplo de como se fazer filmes divertidos com pouca grana e muita criatividade. Afinal é diversão que se busca ao ver um filme não é mesmo? E isso
"A História de Ricky" tem de sobra.
Riki-Oh, o mangá
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O mangá -como se chamam as histórias em quadrinhos japonesas- que originou o filme sangrento, surgiu em 1988 na revista Busines Jump pelas mentes criativas de Masahiko Takajo (roteiro) e Tetsuya Saruwatari (arte). Extremamente violento, durou até 1990 e gerou até dois filmes em animação. A adaptação chinesa em carne e osso para as telonas é meio rasa e a história original aborda temas mais complexos e obscuros. Ao que parece Ricky (ou Riki, como queiram) junto com seu irmão Nachi fez parte de um experimento criado na Segunda Guerra Mundial onde explica de onde Ricky tira tanta força. Ainda há um plot envolvendo o Dia do Julgamento onde um ser criado através do corpo de Riki e da cabeça de Nachi será "O Escolhido". Um fato interessante do mangá é a grande (e bota grande nisso) semelhança entre um dos personagens Washisaki e o M. Bison (ou Vega) do jogo eletrônico Street Fighter 2 (vejam esse site onde há uma comparação entre os dois personagens). |
Considerando que Washisaki veio antes, não sei como a produtora do jogo Capcom não foi processada por plágio...hehe.
Riki-Oh só foi publicado no Japão e em Hong Kong, por isso se alguma editora nacional estiver lendo esse artigo favor dar uma chance à
Riki-Oh nas bancas do nosso Brasil!
Bruno C. Martino
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A HISTÓRIA DE RICKY (Lik Wong, Hong Kong/Japão, 1991). 91 minutos
Direção: Ngai Kai Lam
Roteiro: Ngai Kai Lam, baseado no manga Riki-Oh de Masahiko Takajo e Tetsuiya Saruwatari
Produção: Chan Dung Chow ; Chua Lam
Fotografia: Hoi Man Maak
Música: Fei Lit Chan
Figurino: Mei Shing Wang
Edição: Yiu Chung Cheng; Chuen Dak Geung
Elenco: Siu-Wong Fan (Riki-Oh Saiga); Mui Sang Fan (Diretor Assistente); Ka-Kui Ho (Diretor); Yukari Ôshima (Huang Chaun); Frankie Chin (Hai); Tetsuro Tamba (Mestre de Riki); Gloria Yip (Keiko); Phillip Kwok (Lin Hung); Cheng Chuen (Capitão)
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